Sexta Set 10


Histórias

Mônica. Hoje decidi procurar algo na Internet...

E, encontrei esse site.

Li o depoimento de Cláudio e tive vontade de dar o meu.

Não sei como começar, mas vou tentar de algum jeito.

Era outubro de 1999, minha mãe recebeu o telefonema de um amigo do meu irmão informando que ele estava hospitalizado...

(Havia 10 meses que meu irmão tinha terminado a residência em ginecologia e obstetrícia, e foi morar em outro Estado, onde seguiria seu caminho.) ...

De imediato fomos ao encontro do meu irmão, ele estava magro "como uma plantinha que secou sem água", abatido, tinha dormência no queixo, uma anemia forte, um número muito baixo de plaquetas, um sangramento no estômago... e uma doença que nós da família não tínhamos conhecimento.

Procuramos os médicos, que nunca revelavam o que tinha meu irmão (ele era meu irmão mais velho).

Começamos a pressionar muito os médicos, para que tivéssemos um diagnóstico, e nada.

Eu ficava de um Estado para outro, dividida entre trabalho e meu irmão.

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Márcia

Logo depois do diagnóstico e da calamidade, quando eu já estava há uns dez ou quinze dias na casa de apoio, concluí que se não queria enlouquecer de uma vez por todas teria de encontrar um meio qualquer de ser útil a alguém, em alguma coisa.

Como era o período que eu mesmo chamo de o fim da primeira onda (a terapia tríplice - o dito coquetel- acabara de ser implantada e ainda tinha muita gente em uma situação de saúde ruim) não foi difícil encontrar o que fazer.

Passei a acompanhar um paciente ao hospital dia do CRTA na Rua Antonio Carlos, o Waldir, que morreu uns 65 dias depois vítima de algo que apareceu no atestado de obito como tuberculose miliar e me foi esclarecido ser tuberculose disseminada por todo o corpo (um dia eu me animo e conto esta outra história). Morreu de pobreza o Waldir.

Mas não é a historia do Waldir que venho contar aqui, nesta página, é a da Márcia, que tive o prazer de conhecer enquanto acompanhava o waldir.

Depois de "entregar" o Waldir para que recebesse seus cuidados, que eram inúmeros e tomavam o dia todo, eu ficava livre para voltar a casa e só vir busca - lo no final da tarde (buscar aqui é colocar na cadeira de rodas e levar ate a ambulância), que era da casa de apoio, conhecida como papa tudo (...); mas preferia ficar no hospital, circulando pelos corredores, entrando em cada quarto, conversando com a pessoas e tendo a chance de entregar um copo com água a uma pessoa esquecida ou, algumas vezes, de alimentar o espirito de alguém com alguma esperança que eu mesmo não tinha e, como se pode ver, estava enganado. Acho que tanto dei esperança que acabei me convencendo.

Assim conheci a Lia, a Edna, o Pedro, a Angela (19 anos hemofílica), uns outros tantos (como aquela moça que teve toxo e com as complicações vive consciente e em posição fetal, dependente de todos para tudo o tempo todo); dentre estes outros tantos, Márcia, que me traz lágrimas, mesmo agora.

Márcia contraiu HIV do marido e foi colhida de surpresa por um diagnostico positivo de HIV em virtude de um sem numero de infecçoes oportunistas que atacaram e mataram seu marido em um periodo de 5 meses.

Ela tb não estava legal (eu me pergunto sempre como uma pessoa começa a ficar doente disso ou daquilo e ninguém se incomoda em fazer um exame mais aprofundado; me pergunto também como a pessoa não percebe que algo esta errado e deixa ir ate o fim. Deve ser o medo de saber.

Mas quando a conheci, estava melhor, já tinha voltado a andar, como uma patinha choca (eu sempre dizia isso para ela, que sorria...), e estava repleta de esperanças.

Mas tinha de estar lá todo dia e receber medicação endovenosoa; as picadas a torturavam, não havia mais veia que pudesse ser achada sem uma busca de 30, 50 minutos... e ela chorava so de ver a agulha (acho que isso piorava ainda mais a situação de suas veias) e eu sempre passava por ali as 8 e meia da manhã para tentar ajudar (abraçava ela e ficava falando besteiras no ouvido dela, passava cantadas cabeludas na menina de trinta e sete anos e ela ria como uma criança. Ao menos se distraia.

Isso durou uns 2 meses e ela teve alta.
Meses depois, eu ja fora da casa de apoio, entrei no CRTA para cuidar de mim mesmo e vim descendo os 8 andares pelas escadas, passando por cada um dos quartos e acabei reencontrando a Márcia, que dormitava, olhos abertos, bastante abatida. Tão abatida que me assustei. Ela também se assustou com a chegada repentina de uma pessoa e acordou.

Conversamos.

Não havia muito a dizer. Eu não acreditava em mais nada... e ela me disse assim:

Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , estou cansada, não quero mais viver.

Mesmo sem esperança, ralhei com ela e disse que vivesse, que lutasse, que não cedesse agora que estava tao perto (do que?!), que seguisse adiante só mais um dia.

Fiquei com ela o quanto pude, mas tinha de ir embora, era uma sexta feira e a vida me chamava lá fora, me cobrando obrigações e compromissos...

Quando eu saia ela me abarçou e disse:

Obrigado por tudo Cláudio.

Chorei (como choro agora) e não tive palavra... Foi a última vez que a vi em vida, na Terra... faleceu em casa, junto aos seus, que se sentiram imensamente aliviados (...)

É uma história normal, comum a qualquer hospital deste mundo. Só um detalhe nesta história me faz conta - la:

Na segunda feira, logo de manhã, corri ao hospital, ainda não sabia do destino dela, e quis informações.

Foi então que a Dona Teresa, enfermeira chefe do hospital dia, uma senhora de 55 anos, cabelos grisalhos, olhos felizes (a imagem da vovó) me disse que ela havia falecido.

Ante o meu espanto e a minha tristeza ela disse:

Por que esta assim? Você sabe, vocês, portadores de HIV e pessoas que vivem com AIDS, acabam sempre assim...

Estive, por um segundo, a ponto de joga - la do quarto andar, mas a entreguei a si mesma...

Nunca mais falei com ela. Me parece até hoje completamente absurdo que uma profissional de saúde possa ser tão insensível...


Any time, anywhere...

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