| No rastro dos traumas de um aborto |
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| Sociedade - Mulher | ||||||||||
| Escrito por WebMaster Soropositivo.Org | ||||||||||
| Dom, 07 de Fevereiro de 2010 09:30 | ||||||||||
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Tese defendida na Fiocruz se baseia nos relatos de 16 mulheres que interromperam 22 gestações
Hoje em dia, a maioria das adolescentes que engravida sem querer recorre ao aborto com o apoio das próprias mães, elas também já marcadas pelo procedimento em alguma fase da vida. Esta é uma das conclusões da tese defendida recentemente na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pela enfermeira Simone Mendes Carvalho. Ela investigou um grupo de 16 mulheres que engravidaram 44 vezes e fizeram 22 abortos clandestinos. No trabalho, ela mostra que a prática geralmente ocorre na adolescência, e é incentivada por familiares.
A pesquisadora relata que o procedimento, comum a todas as classes sociais, é mais nocivo às mulheres pobres. Sem recursos, elas recorrem a ervas e preparados caseiros, remédios proibidos e até mesmo a clínicas "de fundo de quintal", onde os processos são conduzidos sem condições adequadas de higiene e até mesmo sem acompanhamento profissional.
As entrevistadas estão no programa Saúde da Família em Cabro Frio.
O aborto é a quarta maior causa de morte materna no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Como esse problema se manifesta na rede pública? - O problema maior, que é a morte de mulheres, os números revelam por si - embora a subnotificação dos casos faça com que se conheça menos a realidade. Mas há as consequências do aborto clandestino na saúde dessas mulheres, principalmente as mais pobres. Sem dinheiro e, normalmente, companheiro fixo, elas recorrem às mais diferentes e arriscadas técnicas.
Essa questão é agravada por um outro drama: o preconceito dos profissionais de saúde. Claro que todos fazem o juramento para salvar vidas, mas, como o aborto é proibido no Brasil, elas acabam enfrentando julgamento subjetivos. Encontrei casos em que algumas relataram ter passado por horas de espera e dor depois de admitirem a prática.
Quantitativamente, o que mostrou a pesquisa? - Foram entrevistadas 16 mulheres que engravidaram 44 vezes, mas metade das gestações foi interrompida, geralmente a primeira. Também levantamos casos em que as mulheres já tinham filhos e decidiram interromper a gestação por falta de dinheiro.
Elas tomaram a decisão sozinhas? - Não. Apenas uma entrevistada não compartilhou o problema.
Um grande fator que contribui para a mulher decidir pelo aborto clandestino é a instabilidade da relação. Ou o parceiro não é fixo, ou a gravidez resultou de uma única noite, o chamado "ficar".
Nesses casos, todas contaram com o apoio de familiares, principalmente as mães - boa parte delas também já tinha feito o procedimento. Esse fator, aliado à pouca idade da gestante e às condições sociais da família, leva à opção pelo aborto.
Mas há mulheres casadas e com filhos que interromperam a gravidez por causa da situação financeira. Nesses casos, os maridos e demais familiares também apoiaram.
O estudo sustenta que os problemas de saúde decorrentes do aborto têm maior incidência nas mulheres pobres. Por quê? - O aborto não é seguro para todas, apenas para quem pode pagar. Isso custa entre R$ 2 e R$ 3 mil. As mulheres pobres não têm esse dinheiro, principalmente as adolescentes.
Na maioria das vezes, não têm nem o parceiro para dividir a conta. Um dos métodos mais comuns aos quais elas recorrem é o consumo de um chá conhecido como buchinhado-norte (uma erva natural geralmente usada para para inalação em casos de sinusite). Até provoca aborto, mas causa intoxicação e cólicas fortíssimas.
Outro método é o que chamam de PÍLULA do aborto. No Brasil, a mais conhecida é o Cytotec - o mais utilizado pelas mulheres que entrevistei.
São vários os riscos . Em casos de anemia severa, pode causar complicações devido à forte hemorragia após o aborto.
E as chamadas clínicas "de fundo de quintal"? - São relativamente caras. Em média, um aborto nesses lugares custa entre R$ 300 e R$ 600. Um Cytotec, por exemplo, pode ser comprado por R$ 250. Essas "clínicas" não são seguras, não contam nem com profissionais, apenas curiosos com alguma noção de anatomia que recorrem à práticas variadas e absurdas.
Por exemplo...
- Colocam sondas intrauterinas, talo de mamona ou até uma gaze, pode provocar uma perigosa infecção.
Essas mulheres se sentem culpadas após os procedimentos? - Algumas sim, outras, não.
Não percebi uma regra no estudo.
As mais velhas, que fizeram aborto quando eram jovens, não se arrependeram. As mais novas, também não. O sentimento descrito foi o de alívio. Mas houve quem declarasse não querer passar pelo problema novamente e sentir culpa também.
A experiência serviu para que elas passassem a adotar métodos CONTRACEPTIVOS? - Não. Geralmente, quando o aborto resulta em complicações e elas precisam de atendimento na rede pública, o próprio sistema de saúde as encaminha para consultas onde poderão iniciar um programa de planejamento familiar. Acontece que o atendimento é deficiente. Por exemplo, a mulher começa a fazer uso de uma PÍLULA anticoncepcional, mas o organismo dela reage negativamente ao hormônio.
Ela precisa trocar o CONTRACEPTIVO, mas não há vaga para uma consulta no momento do problema. Aí, ela para de tomar a PÍLULA.
É grande a resistência ao uso de PRESERVATIVO? - Sim, bastante. Muitas dizem não gostar da sensação que o PRESERVATIVO provoca. Embora admitam conhecer os riscos das doenças sexualmente transmissíveis (DST), elas não usam. Pode até ser na primeira ou segunda relação, mas, se o relacionamento ficar firme, o casal desiste.
O aborto não é seguro para todas, apenas para quem pode pagar. Isso custa entre R$ 2 e R$ 3 mil. As mulheres pobres não têm esse dinheiro
Um dos métodos mais comuns aos quais elas recorrem é o consumo de um chá conhecido como buchinha-do-nor te, que causa intoxicação e cólicas
Per fil Simone Carvalho É formada em Enfermagem pela Universidade do Rio de Janeiro UniRio. Em dezembro, defendeu a tese Mulheres Jovens e o processo do aborto clandestino: uma abordagem sociológica, no doutorado em Saúde Pública na Fiocruz. É professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFRS).
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