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Cotidiano

 

24/JANEIRO/08

 

Prefeitura de Recife vai distribuir "pílula do dia seguinte"

FÁBIO GUIBU

DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE

 

A Prefeitura de Recife (PE) irá distribuir gratuitamente durante o Carnaval deste ano o anticoncepcional de emergência conhecido como "pílula do dia seguinte".

O projeto prevê a entrega gratuita da pílula em dois postos de saúde móveis que funcionarão apenas durante as noites e as madrugadas da festa.

Para ter acesso ao medicamento, as mulheres terão que declarar apenas ao médico de plantão que mantiveram relação sexual sem proteção, que os métodos tradicionais de prevenção falharam ou que foram vítimas de violência sexual.

Após avaliação médica, a "pílula do dia seguinte" será entregue em um kit, que contará ainda com um preservativo masculino, um feminino e um folheto com informações sobre o uso do produto e um alerta de que o método não previne doenças sexualmente transmissíveis, como a AIDS.

A pílula, usada para evitar a gravidez, tem de ser administrada até 72 horas após a relação. O índice de falha aumenta com o tempo decorrido.

"O que faremos é garantir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres também no período carnavalesco", diz a gerente de Atenção à Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde de Recife, Benita Spinelli.

Segundo ela, desde 2003 o contraceptivo de emergência está disponível na rede pública.

Spinelli diz que não há estimativa de quantos kits deverão ser distribuídos durante a folia. "Para nós, não importa a quantidade. Não queremos fazer fila para a entrega."

A Secretaria da Saúde complementará o projeto com um programa que prevê a distribuição nas ruas de 1,04 milhão de preservativos masculinos a partir da segunda, durante os eventos pré-carnavalescos. Em Paulista (a 50 km de Recife), a prefeitura também distribuirá a "pílula do dia seguinte".

 

"Desserviço"

Para a Igreja Católica, a medida é um "desserviço". A Arquidiocese de Olinda e Recife diz que pode entrar na Justiça, caso a prefeitura não recue.

"A posição da Igreja é clara: ela é contra, porque trata-se de um método abortivo", afirma o coordenador da pastoral da saúde da arquidiocese, Vandson Holanda. "Além disso, a distribuição do medicamento estimula a cultura desenfreada do sexo e da violência."

O CRM (Conselho Regional de Medicina) de Pernambuco diz que solicitará mais dados sobre o projeto e que acompanhará a distribuição do medicamento durante o Carnaval.

"Trata-se de um assunto que gera polêmica, mas não adianta fechar os olhos", diz a dirigente da instituição, Nair Cristina Nogueira de Almeida. "O que não pode é haver distribuição maciça, sem um rígido controle de saúde. A ação não pode ser arbitrária nem aleatória."

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