Anúncio de preservativo – prevenção ao HIV ou promoção da infidelidade?

27 de janeiro de 2015 Autor Lucy Maroncha País Kenya  Arquivado em  Prevenção e tratamento do HIV

Ensinando-a-usar-preservativo-femininoA controvérsia em torno de um anúncio de preservativos usados para prevenir o HIV entre pessoas casadas liderados por um cruzamento de seções de líderes religiosos do Kenya deixou muitos ativistas pelo HIV chocados com a ‘negação da realidade’.

Como uma jornalista e ativista pelo HIV, eu fiquei chocada com a retirada do anúncio depois que membros da Igreja Anglicana e o Conselho de Imans e Pastores do Kenya alegaram que o anúncio estava promovendo a promiscuidade e infidelidade ao invés de prevenir o HIV.

O anúncio de TV, dublado “weka condom mpangoni” (“inclua um preservativo em seu planejamento”) patrocinado pelo Ministério da Saúde Pública e a USAID foi feito sob medida para educar milhões de pessoas casadas ou que vivem juntas sobre a importância de usar preservativos para evitar infectar-se ou infectar seu parceiro sexual caso eles viessem a ter um caso extraconjugal.

(nota do editor de soropositivo web site= O Vídeo esta no idioma Kenyano)

Descarrilando a campanha de saúde

Este anúncio feito para ser transmitido pela TV tinha o potencial para atingir milhares de pessoas por todo o país com uma mensagem importante. Entretanto, ele foi completamente mal interpretado pelos líderes religiosos que entenderam que casos extraconjugais eram permitidos com o uso de preservativos.

A ignorância deles do real assunto em jogo resultou no aspecto da saúde tornando o mesmo altamente obscuro conforme eles abraçavam a moralidade sexual como um tópico, descarrilando completamente a campanha de saúde. Isto é muito triste vindo de muitos líderes religiosos que deveriam estar, outrossim, usando suas massas de congregação como plataformas para educar as pessoas sobre a prevenção do HIV! Com este tipo de resistência à educação, não é de se assustar que o Kenya ficou em quarto lugar de prevalecência do HIV em 2014.

Enquanto a mídia social do Kenya ficou ressentida no que diz respeito ao anúncio dizendo que ele foi ao ar no começo da noite quando a maioria das famílias estava assistindo TV com seus filhos, e que o anúncio era inapropriado para crianças menores de 10 anos de idade, eu acredito que a intenção do ministério era dar às famílias a oportunidade de discutir a importância da prevenção em nível doméstico. É vital que isto comece a acontecer especialmente quando relatórios indicam que pessoas casadas contam como a maior porcentagem da prevalência do HIV no Kenya.

Uso do preservativo no Kenya

Conforme eu ouvia aos argumentos e a condenação do anúncio educativo eu não pude deixar de notar que a mensagem significativa do anúncio do HIV estava sendo esmagada em detrimento da moralidade sexual que as seitas religiosas estavam pregando em suas respectivas plataformas.

O objetivo do Ministério da Saúde Pública era lidar com os assuntos relacionados à prevenção do HIV no Kenya e o clérigo não deveria ter ligado isto com assuntos morais porque em última instância eles distorceram a mensagem sobre saúde. Se o clérigo não tivesse interferido no assunto, a mensagem teria chegado a milhões de Kenyanos e teria beneficiado até mesmo os jovens e pessoas vivendo com o HIV.

Se você é casado ou não, usar preservativos no Kenya é um desafio para a maioria das pessoas porque ele carrega o peso do estigma e muitas pessoas tímidas deixam de comprar nas lojas. Gladys (o nome foi alterado) uma mulher casada que admite ter tido um caso extraconjugal me contou que às vezes ela e o amante optam por fazer sexo sem proteção pelo medo do estigma na comunidade de alguém vê-los comprar preservativos. “Com ou sem o anúncio, milhares de pessoas casadas tem casos extraconjugais e o clérigo não deveria enterrar sua cabeça na areia. Eles deveriam unir-se ao governo para promover a campanha de prevenção,” ela afirma.

Procurando soluções para a educação sobre o HIV

Um estudo conduzido no condado de Kisumu na porção ocidental do Kenya revelou que a infidelidade está entre os maiores fatores que poderiam reverter os ganhos feitos com a prevenção e o gerenciamento do HIV. Com tais descobertas ela iria derrotar o entendimento de qualquer pessoa sobre o porquê qualquer líder, seja religioso ou de qualquer outro tipo, iria opor-se à educação que pode salvar o Kenya de estar entre os países que lideram a prevalência do HIV no mundo todo. Com muitos lares possuindo uma TV ou um rádio, a mensagem da prevenção teria sido espalhada de maneira eficaz através do país. Mesmo que o mundo foque na agenda de desenvolvimento pós-2015 onde assegurar vidas saudáveis e reduzir doenças tais como o HIV é uma prioridade, há um risco que tal nível de negação e resistência à educação cívica diminuirá senão reverterão os ganhos obtidos até agora em lidar com o HIV.

Peter Cherutich, diretor do Programa de Controle Nacional da AIDS e DST´s disse em uma entrevista mais cedo com membros da imprensa que ele estava chocado com a rígida oposição ao anúncio em um tempo em que o Kenya estava esperando reduzir novas infecções por HIV. “O público está exagerando e eu apelo por apoio e compreensão dos líderes religiosos”, ele disse.

Mas por agora, com a retirada do anúncio, eu sou deixada a me perguntar se há quaisquer métodos melhores que não irão enfrentar oposição. Nós precisamos encontrar maneiras eficazes de educar e persuadir as pessoas através de nosso país sobre a importância de prevenir o HIV. Se alguém tiver alguma ideia brilhante, sou todo ouvidos!

Leia sobre o empurrão final ao HIV na agenda de desenvolvimento global

Lucy-MaronchaPostado por Lucy Marroncha

Sou uma jornalista online e em mídia impressa localizada em Nairóbi, Kenya. Sou uma escritora apaixonada por escrever sobre saúde e venho escrevendo há 15 anos. Minhas melhores estórias são em saúde reprodutiva e sexual e em HIV.

Tradução: Rodrigo S. Pelegrini do original: Condom advert – HIV prevention or infidelity promotion?

Apresentação de Slides por 

Edição: Cláudio Souza

Nota do Editor de Soropositivo Web Site.

Qualquer semelhança com o cenário brasileiro não é mera coincidência. São sempre os religiosos conduzindo populações inteiras em direção às epidemias em nome de uma moral que eles pregam e não praticam