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As quatro noites

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Sun going down over Sao Paulo, Brazil.

Talvez isso entre em meu livro, talvez não, mas é uma prévia bem clara do que foi a minha “adolescência”

Woman wearing Santa Claus hat and sunglasses listening to musicEm mil e novecentos e setenta e seis, quando eu tinha doze anos e já saíra de casa para não morrer nas mãos de meu pai, o Inverno era, ainda, como não é mais, com a penosa exceção deste Inverno de dois mil e dezesseis, que é o mais frio desde há vinte e dois anos atrás, quando eu, curiosamente, descobri-me portador de HIV e fiquei, novamente, na rua… Não adiantemos fatos… O caso é que em 76 (permitam-me que eu me expresse numericamente, por favor) eu me lembro que estava bem frio e todo o agasalho que eu tinha era uma camiseta que, eu ousaria dizer, foi o protótipo das camisas de fitness da atualidade, com a diferença que as de hoje, embora inteiriças no que tange à tecelagem, elas também não aprisionam calor e “transpiram com facilidade”. A que eu vestia naquele Inverno não era bem assim; era uma “malha” fita de “fitas entrelaçadas, como se fora uma rede e a maior parte do tórax e das costas ficarem literalmente expostas ao frio e ao vento. Eu não me lembro que vestia como calça, mas estava descalço, não tinha sapato nem meias e eu, como a maioria dos moradores de rua, estava imundo. Isso… lembrar disso, da imundície e da maneira como as pessoas olhavam para mim cortavam mais do que o próprio vento gelado daquelas noites. O fato é que estava frio, e eu sabia qual era a temperatura porque ‘na minha ronda noturna”, onde eu tinha de obedecer um certo rito de territorialidade que determinava que eu não devia, saindo do Viaduto do Chá, me aventurar pela “Praça do Patriarca”.

Era minha obrigação fazer meia volta e retornar. E era aí que eu via a hora e a temperatura, muito bem expostas no alto do prédio que pertenceu ou pertence, eu não dou a mínima, a uma determinada “instituição bancária”. Eu já estava há quatro noites em dormir, pois eu sabia, mais por instinto do que por qualquer outro motivo, que eu morreria se dormisse. Hoje eu seria que teria morrido de hipotermia, um nome bonito para se dizer que alguém morreu em plena praça pública sob os olhares indiferentes dos que passam, indiferentes, sem ter a menor ideia de “como será o porvir”…

Eu voltei e era aproximadamente duas da manhã e a temperatura registrada pelo termômetro era de quatro graus centigrados… eu não sentia meus pés e nem minhas mãos (hoje sofro de neuropatia periférica por HIV e muito mas sinto minhas mãos; eu digito apenas com os indicadores, movidos por sobre o teclado pelas mãos, que eu mal sinto (…). Eu estava cansado, já era a quarta noite e o frio permanecia inclemente. Eu não tinha a noção básica de conseguir algumas caixas de papelão e me abrigar dentro delas, eu não sabia disso, ninguém me ensinou e eu não vi isso e, se vi, não liguei “lé com cré”. Eu não caminhava rápido, muito cansaço, dores nas pernas, no corpo, ou no que eu ainda podia sentir do meu corpo e, lentamente eu fui atravessando, de volta à região da Praça da República, “meu território. Ou parte dele. A região pela qual eu podia trafegar era parte da Avenida Ipiranga, Rua do Arouche, Largo do Arouche até a rua dos Gosmões até a avenida rio Branco. Jamais atravessar para o lado da “boca do lixo”, pois certamente eu não sobreviveria a selvageria que era aquele lugar; havia uma variante que me permitiria ir pela avenida São Luiz, mas ela era repleta de “Call Boys” e eu não gostava de ser confundido com eles…

Se Deus tivesse me avisado…

esta é a parte que ninguém jamais saberá…

Eu tinha pontos de parada; parada momentânea, de cinco a dez minutos, em lojas que nós conhecíamos como “fliperamas” que hoje são chamadas de “árcade”. Era o tempo do cara que cuidava do caixa percebesse que eu era o tal de sempre (menor de idade) e me expulsar.
Eu seguia pela avenida Rio Branco e tinha, sim, a opção de descer por ela até o largo do Paiçandu, mas optava, não sei o porquê, por virar à direita e ir pela Ipiranga até a 24 de Maio, onde eu entrava à esquerda e me dirigia, novamente, até o Viaduto do Chá, respeitava o limite implícito e voltava, vendo a hora e a temperatura.

Algumas vezes eu ouvia o sino do Mosteiro de São Bento e, confesso, eu gostava do som daqueles sinos… (sou um audiófilo e gosto de registrar sons… Há algumas músicas que eu posso reconhecer imediatamente pela primeira nota, mesmo que ela seja tocada de trás para frete, com é o caso de New York, New York com Frank Sinatra; aquele ruído do toque triplo nos pratos é inconfundível, mesmo que de “traz para à frente”)… os sinos, os sinos ajudavam a demarcar o tempo tb, eles tinha uma lógica de tocar um quarto de hora, dois quartos de hora, três quartos de hora com sinos de tom mais alto, e tocavam também, os “quatro quartos de hora” e, em seguida, um sino que eu imaginava imenso, badalava a hora em questão: Doooooooom, dooooooom, dooooooooooom….

E o silêncio voltava. Três da manhã, mais uma ronda cumprida. Eu estava mais do que exausto, estava no limiar de minhas forças e estava tão frio que as ruas estavam completamente vazias quando eu vi um banco, no calçadão (que nem existe mais) da Rua Barão de Itapetininga e eu comprei a ideia que sentar-me ali por alguns minutos, não me faria mal…

Depois, sentado, o alívio sobre as pernas me sugeriu que eu poderia esticar o corpo e me deitar ali sem dormir, mesmo que fosse por cinco minutos.

E, sem pensar, abatido de todas as formas, eu me deitei e, menos de dez segundos depois, adormeci.

Começou a garoar e eu sentia como se milhões de alfinetes em brasa estivessem me queimando, eu sabia o que era, era a morte se aproximando e eu tentei acordar! Lembro-me claramente que eu, em espírito, lutava desesperadamente por recobrar o controle sobre o corpo para levantar e voltar a andar, mas eu não conseguia e, de repente, um tranco…

um segundo e um terceiro tranco, este, brutal! E eu acordei. Havia uma viatura da polícia civil parada, uma das “temidas caravans”, com a parte traseira (o camburão) já aberta e o policial me mandou entrar ali. Não era a primeira vez que eu estava sendo detido para averiguações (isso acontecia sempre e só Deus sabe o porquê de eu, Graças a Deus, não ter sido encaminhado para a FEBEM. “A Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor”. Melhor comer merda com cascalho do que cair na FEBEM, me disseram…

Só que eu não tinha sido detido para averiguação e ainda não sabia disso. O que eu notei foi que depois que eu fui trancado ali atrás o “tira” em questão conduziu o carro com uma velocidade que não era normal e em menos de 5 minutos, creio eu, ele estava no terceiro distrito. Ele não me levou à carceragem, ele não me mostrou para ninguém e me colocou na sala do chá…

Chá de banco, que era usada para deter bêbados encrenqueiros até que se recobrassem do pileque. O “tira” me disse para não sair dali (eu não sairia nem se me mandassem) e em pouco tempo ele chegou com uma jarra, creio que de um litro e meio, cheia de café com leite e um saco com muitos pães com manteiga na chapa, ainda quentinhos e disse para eu comer.

Eu teria comido mesmo que ele dissesse não coma, porque já havia dois ou três dias que eu não punha nada no estômago. Ele saiu mais uma vez e, quando voltou trouxe-me uma camiseta, uma jaqueta, um par de tênis e uma calça. Mandou que eu me trocasse e procurasse dormir. E assim o fiz! Quando deu a hora da mudança de plantão ele me acordou e disse que eu fosse embora. Curiosamente o dia estava ensolarado… Eu ainda me lembro dele e de suas feições.

Era um homem grisalho, talvez com 50 anos, não sei, com uma barba que não cobria todo o rosto, talvez a palavra barba não seja a correta e, sim, costeletas, também grisalhas, um bigode grisalho e os olhos claros, acho que acinzentados…

Aqui, neste momento, eu posso olhar para o vazio e projetar a imagem de seu rosto. Nunca mais o vi, não sei seu nome…

Mas, se algum dia, nesta vida ou na próxima, ele precisar de uma única alma que de testemunho de sua bondade eu juro, por tudo aquilo que há de mais sagrado e por tudo aquilo que há de mais profano (sim, sim! Eu sou dado a extremos) eu estarei lá, pois, não fora por ele, e eu já não estaria mais aqui.

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1 comentário em As quatro noites

  1. Amigo. Inicialmente eu quero colocar que este é um trabalho voluntário e, às vezes, recebemos uma doação, que ajuda anos custos operacionais disso, Entretanto, eu não vi sua pergunta (e da forma como você está me tratando, como se eu tivesse a obrigação de responder, eu perco toda a vontade de responder). Ocorre que minha sogra est´há dois meses numa UTI, depois de uma parada cardio respiratória. Geralmente eu sempre respondo, mas, infelizmente eu não a vi. Então, eu sugiro que o senhor ligue para o Disque AIDS em 0800 16 25 50 e eles o atenderão prontamente). De minha parte, tenho respondido como e quando posso! E sua forma imperativa de exigir a resposta faz com que eu perca muito da minha vontade de escrever. SE quiser, recoloque a postagem aqui e, admitamos, sua pergunta pode ter isso para a caixa de SPAM, desta forma, terá sido impossível lhe responder, haja vistas para o fato que eu não olho o spam pelas razões óbvias;

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