Meu 1º Depoimento como Soropositivo: Meu 1º Mestre: Waldir

Meu 1º Depoimento Soropositivo

Eu tenho, dentro dos servidores do Yahoo, uma espécie de Primeiro Baú, onde estão guardadas coisas que eu às vezes penso em deletar.

E, entre eles, este meu meu 1º Depoimento Soropositivo.

Um registro dos primeiros passos, neste que eu, aqui, chamarei de “mundo da AIDS”..

Mas a covardia entre as covardias, a abençoada covardia me faz com que eu não confirme a “deleção”.

Eu deleto. (wow!!!)

É incrível, o Word, da Microsoft, reconheceu este “verbo”.

Clik me

Isso da margem a “N” Ilações e eu as deixo para algum outro desocupado, talvez um amante da Língua Portuguesa.

Me ocorreu agora nunca ter experimentado uma destas e a certeza que esta lacuna não será preenchida.

Lá há demônios e algum outro depoimento Soropositivo

Enfim, eu nunca confirmo, e deveria, pois lá há demônios que, se conseguissem ganhar asas e saírem de lá…

Eles teriam o grande e temível poder de fazer de meu inferno particular um Inferno Público.

E nenhuma “delas, as odiosas” o logrará…

Bem, eu achei este texto e estou colando-o neste documento do Word com o nome original, Waldir.

E este foi o cara que me ensinou, sem uma palavra, a humildade necessária para entender que servir é um privilégio e que a palavra Samurai é algo que faz muito sentido.

Quando traduzida e eu ouso dizer que, sim, talvez o sepukko tivesse sido válido nos tempos em que eu desejei praticar o sepukko.

Depoimento Soropositivo: Hoje homens sem medo viajam ao futuro (Taiguara)

Hoje…. Hoje eu amo e sou amado e Mara, e sua existência sustam qualquer desespero ou destempero. Amar é mostrar vivendo, sim, professora, você estava certa e, eu sei, não serei injusto, eu vi… E importa isso neste depoimento soropositivo:

Restabelecer, também, alguns pontos obscurecidos pelo tempo que, com suas areias, a título de polimento, vai apagando coisas.

Inclusive o que tem de ser mantido a qualquer preço

Bem, eu vou colar o texto as is, como está, mas vou remendar os erros de digitação.

Pois eu tinha, naquela época, tanta pressa de postar, porque postar era viver.

E eu tinha, naquela época, uma fome devastadora pela vida e por viver que eu não revisava picas…

Depoimento Soropositivo: 

E, eu me lembro que uma pessoa que, num momento de auto-ilusão me iludiu, e num momento de crueldade benévola, se n tivesse sido feito como foi feito,  eu teria me matado em pouco tempo, e não teria encontrado a felicidade onde havia sido pré-determinado que eu a encontraria, e me desiludiu mas dissera, antes, noutro tempo e em outra circunstância, que ver a minha luta pela vida tornava impossível às pessoas não se apaixonarem por mim….

É, esta pessoa tinha razão. Mas em meio a tanta gente apaixonada por mim.

Que merda você me disse, “moça”… havia a minha loucura, era tanta a vontade de viver que eu enlouqueci e me perdi, novamente, no pileque de prazer físico ao qual quase me entreguei por completo e, se o tivesse feito, tudo teria sido perdido, inclusive o armistício.

Bem, eu sei que este texto, este trecho, deixará muita gente confusa e, então, vamos ao “objeto deste texto”:

um Grande Homem que eu conheci, e é tudo o que sei dele, como Waldir… de Quê… Eu não faço a mínima…

Depoimento Soropositivo: Meu 1º Mestre: Waldir

Quando a primeira borrasca passou, e o ponto demarcador disso na linha do tempo está na data em que eu resolvi procurar minha antiga gerente, Elisabete Castro, que quase me fez pagar a festa de aniversário dela na SKY/Perepepês, porque eu anunciei o aniversário dela e disse que, por sarro, haveria uma apresentação de “Francisco Petrônio e Grande Orquestra”, o que a deixou bem puta da vida comigo.

Francisco Petrônio, graças a Deus, não foi encontrado e eu escapei desta.

Eu tinha saído da SKY de uma maneira estrondosa, estava apaixonado por uma moça chamada Marina e, num sábado, esqueci de começar o baile e fiquei fazendo “música ambiente” para mim e para a Marina até que vieram à cabine de som para retira-la e eu, impetuoso como era, abandonei a casa no meio do Sábado, que vai de letra capital para agravar o “crime”…

Depoimento Soropositivo: O Grande Favor feito por meu irmão (… de sangue apenas …) Neste Depoimento Soropositivo

Pois bem, a união com Marina durou três anos e não valeu, sob a minha ótica, o abandono do cargo num lugar onde eu era amado e respeitado e, falando francamente, acho que fui um idiota (eu pensava assim já no ano 2000 e, hoje, de posse de todo o material informativo que tenho, talvez eu comesse uma feijoada para seis pessoas só para ir até ela e vomitar tudo, larga e vastamente, sobre esta pessoa que, anyway, que não mereceu o gesto.

Felizmente… Sim, Maurício. Mesmo sem saber você me fez um grande favor. O que eu queria é que se você tivesse aberto o jogo comigo eu o desaconselharia, mas abriria passagem! E aí você mostrou o Grande Patife que você é, e sempre foi (do you remember the cookie pack?). E, neste depoimento soropositivo eu registro isso, atesto, dou fé e, saiba, você nunca mais, em tempo algum, neste ou em qualquer outro sistema de coisas e fatos, conseguirá recuperar minha confiança. e eu te amava cara. Muito!…

Depoimento Soropositivo: Escolher?… Não, não havia melhor escolha, é verdade

Isso me deixou em dúvida sobre procura-la, a Bete, ou não…. mas eu não tinha mais escolha.

A escolha seria  permanecer na rua mais uma vez….. Inaceitável naquelas circunstâncias, pois eu convalescera, mal e porcamente, num hotel de alta rotativida que explorava a prostitução de travestis, mal sei como pude ser tolerado lá, mas na rua, eu morreria… 

Depoimento Soropositivo: Eu, que sabia que poderia entrar na casa, a despeito de tudo, pedi para que a chamassem à porta.

Ela veio e me conduziu para dentro. Ela olhou para mim e era evidente, depois de um tempo em coma e de ter perdido 40 Kg é notório que algo ocorrera e que eu não estava bem, e ela me ofereceu um lanche e enquanto o lanche era preparado eu tentava contar para ela o que tinha acontecido comigo.

E, mesmo sabendo que ela sempre fora mais que uma gerente e, sim, uma verdadeira amiga, eu sentia vergonha da minha condição de soropositivo e da triste condição em que eu estava.

As perguntas sem respostas

El DJ! O que fazia cantar centenas, milhares de pessoas, tombara, derrotado, nas redes de seus próprios erros e eu sabia lucida, clara e dolorosamente disso.

Era um bom tempo para perguntas:

  • ´Onde está o três vezes melhor de sampa?
  • Onde o DJ do Vagão Plaza?
  • Onde aquele que abandonou o Kanecão, de Mogi das Cruzes, no meio do baile porque era o tal?
  • Caberiam outras perguntas, muitas delas…
  • Onde as apaixonadas?
  • Onde as amantes?
  • Onde? Onde? Onde?…

Depoimento Soropositivo: O Maldito AIDÉTICO

E, em mim, eu temia que seria _sempre assim_ como descrito na codificação, o momento sombrio de um outro desvalido que, outrora, também caíra…

Isso me gerou tal paranoia que eu acreditava que qualquer pessoa que olhava para mim na rua podia perceber que eu “tinha AIDS” e que a qualquer momento alguém gritaria, apontando para mim:

ELE TEM AIDS! AFASTEM-SE DELE, A IRA DE DEUS CAIU SOBRE ELE!…

O MALDITO AIDÉTICO

O Terror era indescritível

Chorar onde eu chorei, qualquer um chorava. dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava

Enfim, depois de chorar um pouco eu me abri com ela, contei o que tinha (…) acontecido e que, como acontecia com todos, eu também fora, não só abandonado por “todos os meus amigos”.

Como também não tinha para onde ir e que não sabia o que fazer e que, novamente, como em tantas outras vezes na vida, começavam-me a faltar as forças morais (para que todos saibam, eu estava, mais uma vez, me aproximando gradativa, paulatina e inexoravelmente das raias da loucura e do suicídio…).

Depoimento Soropositivo: Um Telefonema.

Ela me pediu licença e deu um telefonema. Cinco, talvez dez minutos depois, eu quero frisar que após o diagnóstico, o tempo é compreendido por mim de uma forma diferente e o que, para vocês parece-se com onze horas se apresenta para mim como uma coisa arrastada, grudenta e dilatada de, talvez, décadas….

Mas, voltado, após o telefonema ela veio até a mim e perguntou se eu conseguiria chegar em até 5 minutos até a rua Major Diogo. Era quase um quilômetro e eu disse que poderia tentar!

Um Outro Lugar para Morar

Ela me disse que tinha conseguido um lugar para eu morar, este lugar é a Casa de Apoio que, segundo me disseram, acabou fechando, eu creio, há pouco mais de um ano.

Era um lugar onde a “compaixão” imperava, por conta da administração da casa que tinha, dentre todos, um olhar mais profundo das coisas.

Isso a fazia muito especial e sensível e foi ela que, usando de seus recursos intelectuais e sua ginga como assistente social, quem conseguiu que o dono de uma ótica aviasse um par de óculos, pois minha visão deteriorara-se.

Lembra daquela propaganda das “Geladeiras Cônsul? Tranquilidade para toda a vida!

A casa de apoio oferecia seis refeições por dia, roupa lavada, televisão a cabo!…

Era um lugar excelente para quem estivesse determinado a ficar, como muito bem definiu Raul Seixas ali, sentado, com a boca aberta, escancarara, cheia de dentes, esperando a morte chegar!

 “A Sombra Sonora”

Mas não para mim, embora não houvesse tratamento e sequer esperança, eu não queria ficar entre pessoas ensandecidas!

Tendo que dormir como um cão, com um ouvido sempre atento.

Pense em mim, na cama, e minha orelha erquendo-se, periodicamente, como um periscópio, escrutinando o ambiente.

Sim, é risível e é para ser assim ou eu vos mataria de tédio e tristeza!

Um pouco de mel não faz mal a ninguém…

O texto é longo e é preciso adoça-lo.

Mas eu tinha de agir desta forma com minhas orelas, pois havia sempre um risco de “algo acontecer”.

E eu aprendi isso no segundo ou terceiro dia em que estava lá e se esqueceram de levar o almoço de uma pessoa que já não podia andar.

E eu fui, nem sei porque eu fui, pois, até o diagnóstico, eu não era capaz de nenhuma gentileza, exceto quando se tratava e “conquistar uma moça”, para esquece-la um dia depois da “Minha Vitória! ” .

Isso já era efeito do HIV, que me mostrava el todas as pessoas o tal do “Efeito Orloff”: 

“Eu sou você amanhã”!

Sem hipocrisias, eu procurava recuperar alguma simpatia para mim, pela parte de Deus

Cínico?!

Não!… realista!

Não caguetarás! Ou certamente morrerás. Um mandamento extra…

Neste dia eu vi algo. Quando a travesti que era a cozinheira da casa, uma transexual negra, com as marcas do tempo e da AIDS me entregou o prato e outra travesti me perguntou para quem seria o prato. Eu devia ter dito que era para mim, mas malditamente eu disse o nome da pessoa que ia ingerir aquela comida e eu vi a travesti, portadora de Tuberculose Ativa escarrar catarro na comida da pessoa, e me disse:

 Se caguetar te mato dormindo! Eu levei o prato e o servi… (que Deus tenha piedade de mim…)

Eu, Cláudio Souza e meu 1° Depoimento Soropositivo

Eu sou um caso perdido… 🙂

Um Clássico Exemplo…

Ela era um clássico exemplo do que ocorria naquela Casa de Apoio e, para o bem da verdade, as pessoas da administração nada sabiam.

Eu quero estabelecer algo aqui, minha opinião pessoal sobre casas de apoio, em geral é exercida de mim para mim, que ansiava por vida e esta ânsia só se tornou possível pois eu fui bem tratado e bem alimentado e, com as refeições desta casa eu consegui recuperar meu peso (Deus, Deus! Obrigado pelo corpo que me destes!) à razão impressionante de quase 1KG por dia!

E, também, porque depois de eu ter percebido, de alguma forma que não era bem assim, que, diferente do que contrariamente ao que me fora dito, eu não morreria em seis meses, eu quis, desesperada, insana, angustiada, tresloucada, desesperada, irrefreável, inenarrável  e compulsivamente recuperar minha vida.

Outros Caminhos

Eu já sabia que não seria como DJ e, creio, imaginar isso acabou com a carreira do DJ (self pitty), e eu saí em busca de outros caminhos!

Todas se “auto-santificavam diante deles, isso mudava apenas no acontecimento mensal que eu batizei de “Dia de Zoo”, quando a Casa era visitada por “benfeitores”e, não sei se vive esta maldita,ou se não vive,mas se há algo que desejo a ela muito e ansiosamente é que esteja no Inferno, num departamento construído só para ela, à moda da crença Hindu, onde os caídos vivem sob o guante dos martírios do fogo e da asfixia, dos botes de serpentes e aves famélicas, de venenos e martelos, lâminas e prisões…

A Tuberculose e a quimioprofilaxia

Segundo o primeiro infectologista que me atendeu, a Casa de Apoio era um “foco” de tuberculose” e, por isso, ele entrou com o tratamento da tuberculose e isso me angustiou ainda mais. Sobre este dia de Zoo eu passei por isso duas vezes e tudo o que eu queria era um forcado…

E foi por este mesmo motivo, o foco de tuberculose e não o forcado, que me foi prescrito, a título de quimioprofilaxia, por ele que me prescreveu o tratamento da tuberculose e, também, como era, já não sei mais, que ele me prescreveu um antibiótico, na minha época era Bactrim® 500mg por dia, numa rotina medicamentosa chamada quimioprofilaxia. E a medicação completa para tratar a tuberculose, se tê-la (não é legal?) para não tê-la!

Hostilidade química? E não química…

Isso, a tal profilaxia, consiste em tomar, para criar, digamos, no organismo, um ambiente “quimicamente hostil” e impedir que determinadas infecções ou afecções (um distúrbio das funções de um órgão, da psique ou do organismo como um todo que está associado a sinais e sintomas específicos).

O AZT eu me recusei a tomar (Ah Dra Cippollari, não deu né? E você ainda me foi dormir no volante…), pois, em tese ele daria mais dois anos de sobrevivência, numa dose desesperadora de seis comprimidos a cada quatro horas, isso implicava em duas interrupções do sono toda noite e seis sessões de vômitos diárias…

A oportunidade de ouro (…)

Aí apareceu a oportunidade de ouro (relendo isso agora, em 2018 eu me assusto com esta expressão! Eu ainda estava ensandecido quando escrevi isso e nem percebia. E por isso tanta coisa, agora eu vejo, deu no que deu…).

Um novo paciente chegara à casa de apoio, extremamente debilitado ele precisava ser levado ao hospital todos os dias, e precisava ser acompanhado. Vieram a mim e disseram….

(foi a assistente social, Rosa Maria (In Memorian)

Você que eu vejo claramente não estar feliz aqui, pode aproveitar esta oportunidade… e me explicou o que tinha de ser feito.

E eu disse que sim.

Afinal, era uma oportunidade de ser útil e uma possibilidade a mais de sair, ver o mundo, pessoas, clarear meus pensamentos.

No CRT-A, da Rua Antônio Carlos

Era uma rotina relativamente simples: de manhã, eu lhe dava um banho, limpava suas escaras tive de aprender muito sobre a fragilidade humana.

E acabei reconhecer que poderia ser eu no lugar dele, algum dia… E mais, por a mão no pênis de um homem não me fazia menos homem!

Fazia os curativos conforme me ensinara a enfermeira.

E o encaminhava, passo após passo, até a ambulância.

Chegando ao hospital, colocava-o numa cadeira de rodas e levava-o ao terceiro andar, onde era colocado num leito e recebia medicação endovenosa.

Medicação endo… O dia inteiro…

Ficava lá, assim, o dia inteiro. 

Eu não sabia o que ele tinha, mas era algo terrível, pois ele mal se sustentava sobre suas pernas.

Precisa de apoio para ir ao banheiro, para comer, para tudo…. Até um copo com água ele não era capaz de segurar. Mesmo assim encontrei tempo para conhecer os outros pacientes daquele andar e fui, na medida do possível, fazendo amizades, conhecendo aquelas pessoas, suas histórias, fazendo delas, minha família.Ganhei até mesmo a confiança dos médicos e dos enfermeiros que passaram a ver em mim um ajudante, alguém a mais para colaborar. Eu não sei, aqui em 2018, como eles puderam se arriscar tanto com um leigo, tão louco….

Depoimento Soropositivo: Tentando Ajudar. E aprendendo a viver

Buscava cadeira de rodas, empurrava macas, fazia tudo aquilo que poderia para ajudar.

Trazia água para um paciente, alertava enfermeiras sobre o soro que acabara, a veia que se perdera, aprendi muito sobre a rotina de um hospital e devo isso a cada uma das pessoas que tive o privilégio de servir.

Neste meio tempo, o Waldir foi piorando a cada dia. Mas não me lembro de ter visto ou ouvido uma única reclamação, uma única lágrima de dor, nada. Uma dignidade inominável, uma coragem, para mim, completamente desconhecida. Depois de tanto trabalho com o Waldir, ganhei um fim de semana como presente, um maldito presente…

Amar? É, Russo, você está certo… é preciso amar como se não houvesse amanhã”

(Renato Russo!)

Pude rever algumas pessoas a quem eu ainda amo – isso foi dito e escrito por volta de 1997/1998 – Não posso amar que se envergonha de mim e nem a quem, num belo dia, discursou sobre a gratidão por eu (que nem tinha percebido que tivera feito isso) protegera a vida dela com o risco da perda de minha própria vida (eu não narrarei o que houve e o que fiz, naquele momento eu adotei instintivamente a posição que tomaria, hoje, em relação a qualquer pessoa que estivesse proxima a mim e que pudesse estar em risco. O antigo soldado romano ainda habita em mim…(hoje, em 2081, eu não sei mais se os amo…), assumindo o compromisso de voltar na segunda-feira.

Confesso que foi um alívio. Estava cansado de ver dor, sofrimento, angústia e me sentir impotente. Foi um fim de semana em que eu deveria ter relaxado.

Será

Mas não consegui. Pensava no Waldir a todo momento. Será que o estão alimentando?

Será que deram banho nele?

Será que ele está bem cuidado?

Será que ele julga que eu o abandonei?

Será?

Será?

Será?…

 

Era um mar de perguntas e, na segunda-feira, desabei na casa de apoio, procurando por ele. Um sorriso cínico proveniente de outro paciente e a notificação:

 

Sônia louca

 “Waldir está nas últimas. Nós até já repartimos as coisas deles. Aqui é assim…”.

Sabe aquela maldita do escarro? Sônia louca, eu lembrei seu nome!

Pois é… Ela veio até a mim, com aquilo que teria sido, naqueles dias, a melhor roupa do Waldir e disse:

Reconhece isso? Ele deu para mim… E não para você…

Se ela pudesse vir a saber o quão próxima ela esteve, de ter sua cabeça não apenas esmagada, mas transformada em bagaço…

Pavor e, eu creio que ela teve, sim, esta impressão, pois eu dirigi a ela um olhar…

Ela recuou uns três ou quatro passos…

Avia-te e foge

As pessoas que me conhecem bem sabem, depois daquele olhar, o silêncio… Avia-te, é pouco o tempo de escapar…

O Quarto Andar, a porta de saída…

Disparei para o hospital, quarto andar, entrei praticamente à força. Queria vê-lo, dizer algumas palavras, dar-lhe um abraço, pedir perdão por algum erro que tivesse cometido… um aperto de mão, qualquer coisa que pudesse selar nossa amizade no momento de sua partida…O quadro que vi era aterrador e compreendi imediatamente o porquê de tentarem me impedir de vê-lo.

 

Waldir já não reconhecia nada, não me via.

Olhava em volta de si vendo outras pessoas, outras coisas….

Dentro do novo contexto que se aproximava dele, eu nada significava… Eu ficara para trás, eu senti e me condenei em rito sumaríssimo pelo abandono:

Culpado! (outra, mais uma indelével culpa).

Em Silêncio… O que se dizer então?…

Saí do quarto em silêncio, olhos úmidos, coração endurecido, magoado comigo mesmo e com a vida. Eu ambicionava elevá-lo a um patamar melhor (Vaidade entre as vaidades, é tudo vaidade), no qual pudesse desfrutar mais e melhor o dom da vida.

Considerava que a minha “folga” o matara. Tinha certeza disso ali, naquele tétrico momento….

Sentei-me na sala de espera e aguardei a notificação. Passaram-se mais de 19 horas antes que aquilo acabasse e ele pudesse, finalmente, repousar. 

Liguei para a administração da casa de apoio que me pediu que cuidasse (…) do funeral de um indigente.

Tuberculose Miliar

Nunca tinha eu lidado com a morte tão de perto. Papéis, documentos, atestados, autópsias.

Tuberculose miliar (disseminada por todo o corpo), segundo me explicaram. Isso matou o Waldir.

Depois de três dias, o corpo dele foi liberado, num caixão de papelão, pintado de preto, frágil como a própria vida.

Daqueles bem baratos, e fomos nós, o motorista, o Waldir e eu, em direção à Vila Formosa.

Onde seus restos mortais seriam deixado. 

Lembro-me de que a expressão do rosto dele era de serenidade, pois o vi bem, antes de fechar o caixão…

As Dentadas do Mundo 

(Gilberto Gil – Pessoa Nefasta)

Não havia quem me ajudasse a carregar o caixão até o túmulo.

O motorista se recusou. Idem, idem os coveiros… Acho que até a puta que os pariram teriam feito diferente!

Depois de muito implorar, consegui que três pessoas, que participavam de outro funeral, me auxiliassem nisso:

O que era meu último serviço prestado ao Waldir (…).

Não pude, porque não tinha um tostão, plantar uma flor naquele túmulo, que nem sei onde fica… O Cemitério da Vila formosa é o maior da não sabia como anotar, como registrar, como nada. Até ali eu era virgem para a Era virgem pela parte da morte,

Hoje eu sei, eles removeriam para revender o vaso tão logo eu sumisse do olhar….

Cães…

Uma Vez Decidido

Cemitério da Vila Formosa, informações em Soropositivo.Org

Clique na imagem, avre em outra janela e saiba mais sobre a miséria humana. Sim, sim! Eu o/a convido!

Eu me recordo de ainda ter ficado uns dias na casa de apoio. Aí me decidi por algo:

Fui a um hospital no Glicério para falar com a assistente social de lá.

E a assistente social de lá me disse que não podia arruar um lugar para eu ficar.

Isso porque eu já tinha onde ficar.

Eu agradeci. E era uma sexta feira. Estava decidido e sabia o que ia fazer. Naquela sexta feira eu sai da casa de apoio.

Eu ainda tentei uma coisa, um movimento tácito de pedido de socorro, pedindo a pessoas amadas que guradassem minhas coisas com eles.

 

Ipso Facto, eles as guardaram…

 

 

Na segunda feira ela, a assistente social do hospital no Glicério me encontrou dormindo sobre papelões (nesta fase da vida eu tinha, sim, ligado lé com cré) e me perguntou o que tinha acontecido. 

Eu disse: “Do que importa? Agora eu não tenho onde ficar!

E você não só pode, com tem o dever de me conseguir uma vaga em outra casa de apoio”.

A casa de apoio da Igreja Católica e o Calvário… A Benemerência… o que foi feito de ti Suely?

Na outra casa de apoio, que é assunto para outro capítulo eu me lembro de ter sonhado com algo.

Eu, acredito, estava num campo, mata rateira a se perder de vista e um Grande Silêncio.

No sonho, eu não tinha medo, estava pacificado, de forma rigorosamente inexplicável para meu temperamento daqueles dias….Era dia claro, o sol me aquecia e eu vi um homem negro (Waldir era negro), e eu olhava para ele, sabia que aquela feição me era conhecida e eu fiquei muito tempo olhando para ele sem reconhece-lo, me perguntando quem seria aquela pessoa tão estranha e tão familiar (relendo isso antes de republica-lo, aqui, na antiga Chácara do Encosto, num dia de Fevereiro, no final da década de 20 do século XXI eu ainda consigo, não sei se na tela da memória ou se na tela da retina, vê-lo!!!!

 Um Sorriso

Até que ele sorriu e disse:

-Cláudio, sou eu, o Waldir! Nós o trouxemos até aqui para que você saiba que não foi sua culpa a minha passagem. ************************************************************************************************************************************************************************(

(oculto por mim) um branco, completamente desconhecido (eu não sei se sou branco) que me ajudou nas horas e dias mais difíceis. Saiba que eu estou bem e, creia, *************************************************************************************************************************************************************************************.

Dito isso, ele sorriu, fez um sinal de até mais, virou-se e saiu, correndo, numa velocidade imensa. E eu senti aquilo que eu acho que muita gente sentiu pelo menos uma vez na vida:

“Estar sendo trazido de volta à uma velocidade até mesmo assustadora e acordei, chorando…

como choro agora, ao escrever isso…

E CHORO NOVAMENTE AQUI, no Século XXI…, na década de XX

Sempre que adoeço, penso nele e me pergunto se já teria chegado a minha vez.

E, embora eu sempre conclua que sim E vem Deus… e Diz que não.

Até quando?…

Enfim, eu fui para outra Casa de Apoio – Controlada pela Igreja Católica –

E aí sim, eu conheci um muito eloquente Sucursal do Inferno na Terra!

Pacientes? Semi-Escravidão? -Escravidão?…

Pacientes foram forçados a construir seu próprio abrigo e isso deve bastar…

E, sim, eu tive o instrutivo prazer de ser julgado naquilo que era o delineio muito precário do antes temido

Uma pequena expedição punitiva de um Tribunal Eclesiástico –

Tudo o que você diz, é usado contra você!…

Oh pretty damn Hell