Claudio Souza – O Editor do Site, Ex-DJ Parte 1

Cláudio Souza

Embora haja uma crença contrária, largamente difundida, eu aceito críticas. Educadas e bem formuladas.Me foi mostrado que este texto, que conta “uma determinada parte de minha vida, sem muitas minúcias, mas longo deveras (minha vida começou cedo e foi deveras intensa. Assim contraí HIV, comeando a vida cedo, sem outra possibilidade, “conduzido coercitivamente pelos fatos” e vivendo-as, a minha vida e, em especial a minha sexualidade com uma intensidade que, para muitos, parece inverossímel. Mas não é irreal. Bem, a crítica levou-me a reedição deste e de muitos textos, que terão mais capítulos, ao invés de 10.000 caracteres e este cabecário estara aqui, com uma espécie de índice”

  1. Depoimento de um soropositivo – Parte 1

Claudio Souza:

Rejeitado pela mãe e pelo padrasto e sem suportar os espancamentos do pai, fugido da casa paterna para não morrer sob espancamento, porque eram espancamentos seguidos de espancamentos, Cláudio Souza, que depois se tornou conhecido como Cláudio, DJ do Vagão Plaza fez, antes de tudo isso, das ruas seu novo lar.

Dizia-se de nós, os moradores que rua que nós “morávamos andando”

Entre o frio, a fome e o abandono, amadureceu rapidamente. Conheceu de perto o inferno e, depois, o céu. Foi pelas mãos de Fátima que ele saiu da lama. Ganhou algumas roupas, um par de sapatos, um teto e, o principal, um emprego. Enquanto crescia no trabalho, ia descontando o tempo perdido.

Para Cláudio Souza do Soropositivo.Org, a AIDS era um problema ‘dos outros’, jamais aconteceria com ele. E…. Se viesse a ocorrer, foda-se, eu pensava, assumindo, daqui em diante, a maneira como isso é contado

Dos 18 aos 30 anos, ‘corri atrás do prejuízo’; todo dia saía com uma garota. Quanto à AIDS, ‘se pegar, pegou’ (que se foda, eu pensava, até porque não tem cura e esta merda acaba), costumava pensar e dizer. Pegou…

Perdeu o emprego, a casa, os amigos…

Mas levantou a cabeça dentro de uma casa de apoio e, depois, de uma segunda. Preferi as e redescobriu a dignidade e o valor da vida, depois de se tornar soropositivo…”

A foto

Cláudio Souza

Este sou eu, com cinco anos de idade

A fo­to é de 1969, quan­do eu ti­nha cin­co anos. Não sei por quê, mas te­nho a im­pressão de que o olhar da­que­la cri­ança, que em verdade era eu, já podia, de al­gu­ma for­ma, en­xer­gar, no ho­ri­zon­te, a imen­sa tem­pes­ta­de que se ele­va­ria sobre­bre si, algum dia…


Mi­nha história é, pen­so eu, mui­to co­mum. O fa­to é que co­nheço al­gu­mas pes­so­as que pas­sa­ram pe­lo mes­mo ca­mi­nho e estão por aí, to­can­do a vi­da. Saí de ca­sa ain­da cri­ança, com do­ze anos, não su­por­tan­do a vi­olência de meu pai; fui pro­cu­rar mi­nha mãe, que fu­gi­ra de ca­sa dois anos an­tes, atrás de uma aven­tu­ra, algo menos sofrido do que a vida com o marido que ela foi levada a se casar para não ser devolvida a um orfanato.

Uma história sórdida que começa com um “homem” deixado à espera da noiva… no altar… (ela deve ter tido, pelo menos, uma premonição – ainda bem para ela)

Talvez uma Visão

Talvez a visão de um espírito que a amava e tomou a decisão certa evadindo-se do casamento, para alcançar, quem sabe, uma eventual possibilidade de felicidade numa época em que o casamento era realmente um contrato draconiano de adesão à uma vida em que seria sempre a figura inferior.

Indigna de atenção, merecimento e, o voto, era sempre igual ao do marido.

Mas…

Pa­re­ceu-me na­tu­ral buscá-la, seu refúgio, seu co­lo, seu ca­ri­nho, seu am­pa­ro…

Mas me lem­bro bem de o meu possível pa­dras­to (car­ras­co) ter di­to a ela (eu acordei) que não acei­ta­ria, na ca­sa de­le….O fi­lho de fi­lho da puta ne­nhum… Mi­nha mãe (subentende-se que seria ela a puta (…) ).

E ela,sem­pre fragel dada a formação distorcida da formação de seu caráter, acei­tou is­so com a sub­missão que sem­pre lhe foi própria, quan­do al­go lhe era con­ve­ni­en­te. Poiss foi com base nisso, “são ordens” do seu pai – fui cativo de minha casa, podendo sair dela dez minutos antes de entrar na escola, e tiha de chegar dez minutos depois de sair da escola. Isso só era possivel correndo. Assim eu, Cláudio souza, que, no futuro, agora presente, tivera sido prisioneito da “Torre” por mais de um ano. e só Ad´lson, ia lá, brincar comigo; desta forma, o homem que foi, durante anos, meu carcereiro, me lançou às ruas, sem eira nem beira, tendo, assim, me en­ca­mi­nhado pa­ra as ru­as, on­de vi­vi cin­co anos, en­tre o frio, a fo­me, a cri­mi­na­li­da­de, a dis­cri­mi­nação, o abu­so de to­da or­dem.

Pensem nisso por menos de cinco minutos

Surreal

Até um ponto simplesmente surreal e que ninguém conseguiria acabar de crer…

“É pre­ci­so amar as pes­so­as co­mo se não hou­ves­se ama­nhã.”
Re­na­to Rus­so

AMOR… O QUE É?…

Não vou nar­rar ca­da in­ver­no, ca­da dia e ca­da ho­ra; ca­da um ima­gi­ne por si só o que é a vi­da nas ru­as.

Mas, as­se­gu­ro-lhes que nin­guém sai de­las sem a aju­da de ou­tro al­guém.

Nin­guém es­ca­pa do in­fer­no so­zi­nho, sem aju­da.

Você po­de até so­bre­vi­ver in­de­fi­ni­da­men­te no in­fer­no, so­zi­nho, mas, pa­ra sair de lá, pre­ci­sará, sem dúvi­da, de aju­da.

É um círcu­lo vi­ci­o­so em que você não con­se­gue as coi­sas que pre­ci­sa por­que não as têm. Não tem ca­sa por­que não tem tra­ba­lho; não tem tra­ba­lho por­que não to­ma ba­nho; não to­ma ba­nho por­que não tem ca­sa e as­sim vai, co­mo num mo­to-perpétuo.

Mas pa­ra mim hou­ve es­te al­guém. O meu al­guém, o meu an­jo, foi uma mu­lher.

Des­tas que a ausência de sa­be­do­ria po­pu­lar cha­ma de “mu­lher da vi­da” ou “mu­lher de vi­da fácil” (vá lá vi­ver es­ta vi­da e você sa­berá o quan­to ela é fácil).

A PUTA

Cláudio Souza, Depois Cláudio DJ do Vagão plaza, foi salvo por uma "puta".

Eu ameii tantas “mulheres como essa” O God!

Não foi uma frei­ra nem uma “benemérita” da­ma da so­ci­e­da­de be­ne­fi­cen­te, nem mesmo uma se­nho­ra da respeitável li­ga espíri­ta desta cidade ou es­po­sa valorosa de um pas­tor evangéli­co.

Foi uma pu­ta.

Es­se rótu­lo dei­xo por con­ta de vocês que lêem e dis­cri­mi­nam. Eu mes­mo a cha­mo de an­jo.

Deu-me um lu­gar pa­ra dor­mir, pa­ra to­mar ba­nho, du­as calças, três ca­mi­sas e um par de sa­pa­tos aper­ta­dos (nun­ca es­que­ce­rei o aper­to da­que­les sa­pa­tos e da ale­gria com que eu os calçava) que com­prou em uma lo­ja de usa­dos.

E o prin­ci­pal: ar­ran­jou-me um em­pre­go de la­va­dor de pra­tos em uma bo­a­te em São Pau­lo — o Lou­vre — que já fe­chou há, pe­lo me­nos, dez anos.

Era po­bre — a vi­da foi cru­el com ela — a mi­nha Fáti­ma. Al­guém, por uma razão qual­quer, quei­mou seu ros­to com áci­do. Di­zem que por vin­gança.

Não sei que ti­po de áci­do, nun­ca me im­por­tei em sa­ber qual o mo­ti­vo.

Sei que o es­tra­go foi gran­de, e uma pes­soa que vi­ve de ven­der seus fa­vo­res pre­ci­sa ser be­la, tem que ser atra­en­te.

Uma man­cha ne­gra, co­brin­do 50% de seu ros­to e par­te de um dos sei­os não aju­da­va mui­to e tu­do era mui­to difícil pa­ra ela. Fáti­ma en­fren­ta­va di­fi­cul­da­des, até mes­mo uma epi­lep­sia que, se­gun­do ela, era con­seqüência do ata­que que so­freu.

E en­fren­ta­va mui­tas hu­mi­lhações, de cli­en­tes e de co­le­gas de ser­viço.

Is­so tu­do não ser­viu de obstácu­lo a ela. Fez o que pôde e, cer­ta­men­te, o que não pôde pa­ra me re­er­guer ao pa­ta­mar míni­mo de dig­ni­da­de hu­ma­na.

Es­se an­jo en­trou e saiu de mi­nha vi­da co­mo um raio. Três ou qua­tro me­ses. Su­miu sem di­zer adeus e sem me dar a opor­tu­ni­da­de de lhe agra­de­cer.

Dei­xou a no­ta da la­van­de­ria pa­ga e um mês de diári­as pa­gas num de­ter­mi­na­do ho­te­le­co na bo­ca do li­xo.

Agra­deço-lhe aqui e fi­co na es­pe­rança de que me leia, de que se lem­bre e sai­ba que lhe sou gra­to, que nun­ca a es­que­ci e que nun­ca a es­que­ce­rei, nem po­de­ria.

Nem mes­mo sei se seu no­me era Fáti­ma re­al­men­te ou se era um no­me fictício.

Is­so sem­pre tor­nou mi­nhas bus­cas por ela,.

Mui­to difíceis e sem re­sul­ta­dos tangíveis.

Nun­ca mais a vi.

A Eterna Pergunta

To be or not to be

Des­de então me per­gun­to quem ti­nha si­do re­al­men­te mi­nha mãe: aque­la em cu­jo úte­ro ha­bi­tei e cu­jo lei­te to­mei ou aque­la ou­tra (…) que a so­ci­e­da­de re­ne­gou e ro­tu­lou co­mo quis, de­pois de usar co­mo bem en­ten­deu…

Nun­ca pu­de che­gar a uma con­clusão de­fi­ni­ti­va so­bre is­so.

Mas não im­por­ta. In­te­res­sa o que ela fez.

O fa­to é que, de­pois de ter re­cu­pe­ra­do a dig­ni­da­de, re­cu­pe­rei também a cons­ciência.

E is­so me fez pen­sar.

Pen­san­do, odi­ei mi­nha mãe com to­das as forças de meu ser.

Às al­mas mais sensíveis que se cho­quem com es­sa de­cla­ração, eu ofe­reço meus cin­co anos de es­cu­ridão, me­do, frio e fo­me co­mo parâme­tro de ra­ci­ocínio. Tal­vez de­va bas­tar.

Se não for su­fi­ci­en­te, ofe­reço os so­cos e pon­tapés que tro­quei, mui­tas ve­zes, pa­ra ga­ran­tir um san­duíche.

Fim da Parte 1 – A Parte 2 será publicada no dia 23, por volta das 19:00

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Muita gente diz: EU TENHO SINTOMAS.

E descarregam uma lista de enormidade inimaginável de sintomas que, alinhados, todos, lado a lado.

Ou uns sobre os outros, ou, ainda, de par em par.

E em tantas outras formas combinação de dados poderia ser estimada como os sintomas de uma gripe (sim! Sim! SIM).

Ou uma infecção com o maldito “rotavírus”… (…) … Ou qualquer coisa (sic).

Bem como Q.U.A.L.Q.U.E.R.V.I.R.O.S.E!!!!!!!

E eu sugiro a vocês que leia está matéria. Pode clicar no link e abrir, e eu permanecerei aqui, nesta aba. 😉