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Exéquias Pelo Souza! O Velho Souza! Que Agora Sou Eu



Se eu não dissesse isso aqui, eu faltaria com a verdade. E a verdade é que eu nunca pude terinar de saber os porquês da separação de meus pais. Eu não tenho como apurar isso pois as testemunhas vivas estão muito, mais muito longe da imparcialidade. Mas de uma coisa eu tenho certeza. Esta senhora, nesta foto, com este sorriso, AMOU A MEU PAI com todo o entendimento e todo o coração dela. Eu escrevi o texto e não nego nada do que está nele. Mas, saibam, meu pai era muito legal com qualquer pessoa até que esta pessoa o contrariasse. E ele não era, mesmo, um homem de meias palavras. Dona Josefa esteve lá, ao lado dele por pouco mais ou pouco menos de 40 anos e isso é uma vida inteira para muitos. E o brilho nos olhos dele diz tudo!

Seis Horas Atrás o Réquiem Agora, as exéquias

Há pouco mais de seis horas eu segurei em uma das seis alças de um esquife. Um esquife simples, posto que os recursos dele, meu pai, eram simples.Sim. Eu segurei com a mão direita, a que geralmente me auxilia quando perco o equilíbrio (triste ironia), depois de tê-la passado, a bengala, para a mão esquerda, que de pouco ou nada serve.

Bem, as pessoas que me conhecem mais profundamente sabem que minha relação com meu pai não era boa. A bem da verdade, durante décadas foi uma sucessão interminável de armistícios substituídos por batalhas cada vez mais duras, duras em termos de palavras.

A Primeira Reaproximação após a Fuga

A primeira vez que eu busquei reconciliação tinha pouco menos de 20 anos e, em meu colo, eu lhe levava uma neta. Vivian.

Minha primogênita para a qual tracei tantos sonhos…. Hoje, ela me nega até mesmo o direito à defesa!

Ele não estava apto e, pensei: Talvez no futuro….

O Tempo contado me parece ser de 40 anos

E assim eu busquei-o mais quatro vezes na vida, cada uma destas vezes, em média, a cada oito, nove anos e, eu não estou com vocação para a mentira. Geralmente é minha franqueza e forma mais rude de me expressar que me traz amigos, admiradores e, no outro prato da balança, inimigos e pessoas sem a capacidade de procurar ver, entender os quês e porquês de, vez por outra eu não só não amá-lo mas, também, detesta-lo.

Algum tempo atrás ele sofreu um acidente, um tombo.

Uma queda depois dos oitenta anos é um gravíssimo acidente e ele não pode, não mais, ser independente. E antes do tombo ele mencionou “brancos” e vazios de cabeça, como aquela DLL do windows que não tem a instrução seguinte e o processador para.

Eu pensei em Alzheimer.

Eu não sou médico, mas vivi tanto tempo dentro de hospitais que acabei, de certa forma, aprendendo a detectar com muita exatidão alguns sinais que eu transmiti, por exemplo, para uma enfermeira no Hospital São Camilo. Eu tinha ouvido algumas falas do companheiro de quarto e vi uma embolia pulmonar em andamento. Eu já tive duas, devo saber como é… 😉

Por via das dúvidas ela chamou o especialista e menos de 20 minutos depois o moço foi transferido para a UTI. O que aconteceu depois, creio que jamais saberei.

Eu Vi E Senti Pressa, mas nem tanto

Mas eu vi o Alzheimer e senti que o tempo estava se escoando e, se eu não o detestava,, também não era capaz de perdoá-lo, e se você perguntar perdoar do que, eu lhe direi que esta é uma ótima pergunta, pois sim, ele deu curso a vivências e experiências que me torcem a mente em meus pesadelos, que eu creio, não desaparecerão desta vida.

Mas, eu havia adotado, com base em uma cena de um  filme que “tudo é como Deus deseja”.

E eu disse isso a tantas pessoas que passei a temer o dia em que isso viesse para mim e, se chegando, eu seria capaz de prescrever para mim a receita estoica que eu dava a tantos como bálsamo eterno e, mais ou menos um ano atrás eu perdi 85% dos movimentos de minhas mãos e, se, eu consegui aplicar a mim a mesma receita o estoicismo sem murmurações.

Vede, desabafar não é murmurar, e se eu não posso falar de minhas dores a meus amigos e amigas, e se não posso revelá-los às pessoas que eu tento ajudar, melhor seria deixar de existir.

O Pedido: Minha Supressão Total

Sabem! Eu cheguei a pedir isso a Deus.

A supressão de minha existência.

Não destes últimos 50 anos. Eu falo de tudo, desde aquele primeiro sopro, naquela inquietante atitude repleta de inquietante atitude repleta de amor

Eu disse isso ao lado de uma amiga muito importante que, não entendo bem os porquês, nunca mais falou comigo, nos últimos dezessete anos! E ela me disse que meu pedido era recheado de egoísmo, pois, segundo ela, eu era importante demais, sempre segundo ela, para o Universo, e eu reforço que é sempre segundo ela, que ele, o Universo (esta minha amiga deve ser louca) não poderia, não mais, prescindir de mim.

A Água Daquele Prédio

 

Eu sempre considerei ambígua a qualidade da água daquele prédio.

Pedido feito, serviço serviço negado

 

Um homem nascido na década de 30, no interior remoto de São Paulo, um pouco à frente de Franca, Pedregulho, não poderia compreender corretamente o fato de eu ter contraído HIV.

Mas, naquele momento, eu precisava tentar.

Eu tinha de tentar e, para isso eu me decidi pelo “território neutro”.

Assim, ao invés de entrar à esquerda eu segui dois quarteirões a mais e, virando à direita,fui à casa de minha irmã.

Sandra.

Eu sou péssimo nessa coisa de dar notícias e menos de cinco minutos de ter adentrado à casa dela, enquanto ela colocava água para fazer o café eu entreguei o meu cartão médico que, naqueles dias malditos, pois isso também me custou um emprego no futuro deste pretérito, em narração esta escrito assim!

 

CRT-AIDS

Centro de Referência e Treinamento – AIDS

Cláudio Santos de Souza

Por que, afinal, com os seiscentos mil diabos tinha de estar escrito assim. Esta coisa, apresentada assim, me fez perder um emprego”

Se eu tivesse feito como Thanos e jogasse uma Lua Inteira sobre ela, o efeito ainda não seria tão devastador!

Ela riu.

E eu disse: Você riu!

-Não é que…. e desabou a chorar.

 

Bem, não era aquela a primeira vez que eu tinha de dar a outra pessoa esperanças que eu não tinha e fazer promessas que eu não sabia se poderia cumprir

 

Eu estou bem Sandra, eu vou ficar bem, EU NÃO VOU MORRER.

Mas preciso falar com o Velho e lá na casa dele, isso não vai dar certo. Eu preciso que você faça com ele o que eu fiz contigo! Por favor, vá até lá e mostre o cartão para ele. Diga a ele que estou aqui.

 

Tomamos o café e ela saiu. Eu deixei ela avançar um quarteirão e sai atrás dela.

Parei na metade do caminho.

O território neutro não servia. Tinha de ser ali.

Na rua.

Eu me sentei em uma espécie de escada que devia servir para as pessoas donas da casa onde aquela escada estava construída usavam para entrar e sair de casa e fiz, daquele ponto a linha que eu defenderia e ponto.

Sun Tzu diz: Se você não quer combater, trace uma linha e defenda-a. Que seu adversário não possa cruza-la.

E ali o esperei. Menos de três minutos, eu creio que ele não veio para as ruas de pijama porque Dona Josefa o alertou!

O conteúdo da conversa em si foi praticamente um paroxismo, e se revelou algo, é que ele me confessou que quando ia “na zona”, lá na Rua José Paulino (sim, sabei disso), aquelas lojas ali na José Paulino eram, até  decisão do Excelentíssimo Governador Eleito Laudo Natel refletir que, não caia bem ao estado que o Palácio do Governo, então na Avenida Rio Branco, ficasse a menos de quinze minutos a pé da “rua da lama” a “zona boêmia da cidade”.

Esta parte da cidade de Sampa eu pretendo contar em alguns vídeos, coisa que vi, descobri, aprendi e sei que não poderei contar na íntegra e, em determinados casos, manter o silêncio, pois o silêncio é uma prece!

Oremos, então.

São Paulo das Antigas né Beto?

Mas das coisas que ele me disse estava a sensacional explicação que, depois de se ir á zona se “lava o p**”.

Eu não tentei explicar e, se filho de peixe, peixinho é, Dona Josefa chegou no momento oportuno, pois o caos estava a caminho.

A conversa não andou, porque, a bem da verdade eu fui até lá ciente de que não haveria muito a ser feito e, para colocar o arremate da conversa ele disse:

-”Você saiu de casa porque quis”!

-”Saí para não morrer nas suas mãos, de tanta porrada”!

-”Meu pai me bateu com o cabo da enxada e eu não morri”!

-(silêncio sepulcral).

Eu entendi em um atmo que ele simplesmente estava passando adiante a bola que ele recebeu.

 

Eu disse para ele, com poucas palavras.

 

Velho Souza (o velho Souza agora sou eu) eu não tenho para onde ir. Não tenho emprego ou dinheiro.

-”E é isso o que você quer, dinheiro”.

Eu olhei para o chão e maldições por milênios quem criou esta coisa imunda chamada dinheiro, pois não era isso….

Dona Josefa interviu:

-”Ele quer que fique em família Seu Souza”.

 

Eu não me lembro como esta conversa terminou, mas sei que terminou mal, pois eu simplesmente abandonei a defesa da linha e, como ele não disse nada, eu voltei até a estação de Suzano, tomei o trem e muitos anos se passaram antes de eu buscar a ajuda dele novamente.

Perdido por um, perdido por mil.

Nove anos atrás soube que ele tinha pedido a meus primos para me encontrar. Eu sei o nome da espoleta que disparou este projétil e a mantenho no anonimato por questões de respeito da ordem familiar.

E ele me encontrou e estava F.A.N.T.A.S.T.I.C.O.

E eu me lembro que isso durou mais de dois meses até que Mara o contrariasse e o bolo desandou de vez, pois ele atacou Mara e minha sogra! Que trocara meia dúzia de palavras com ele e educada, polida, uma dama, voltou para seus aposentos!

E, finalmente, eu desisti da reconciliação, havia quase 40 anos de tentativas frustradas e, Drª Valéria, até a minha resiliência um dia se cansa e, Maira, preciso desesperadamente falar com você.

Bem, isso tem de ir se acabando aqui, pois, bem sei, estou matando vocês de tédio.

Quando eu assisti o filme A Cabana, há um momento em que “A Sabedoria” confronta aquele homem e, amigos e amigas, que belo confronto.

Com aquilo, eu finalmente entendi o significado maior desta receita de heroísmo ou estoicismo que eu preceituo e receito a todos.

TUDO É COMO DEUS DESEJA

Sabendo que ele não estava bem, e que a areia na parte de cima da ampulheta estava cada vez mais rarefeita e que a roda só gira em uma direção, eu me apressei em vê-lo.

Aquele homem forte e musculoso que eu conheci, amei, adorei, temi e tive dissensões se tornara uma sombra de si e eu não fiz um registro fotográfico dele, seria uma grande crueldade minha o fazer.

Eu conversei com Dona Josefa, falei de algumas preocupações que eu tenho com uma outra pessoa e fui ter com ele.

Deus sabe MESMO o que faz, pois quando eu falei:

Pai, e aí?

(este E aí? é marca registrada minha, mesmo nos tempos de DJ: E aí moçada? Vamos arrepiar???)

Ele me respondeu lucidamente e falou de seu quadro de saúde com a precisão e quem realmente sabe o que está vivendo, vivenciando e aprendendo.

Eu me sentei perto dele e Dona Josefa, bondosamente, se afastou.

Gente, eu não conseguirei ser literal, mesmo porque eu não escrevi antes de ir lá, como não pensei antes de escrever aqui.

Muitas vezes, quando eu começo um texto, tudo o que eu sei, dele, o texto, é a última frase e à medida que as palavras avançam eu vou sendo levado por elas, que me dizem por onde ir até que, como um disjuntor religado a frase aparece, Aquela, que me levou a escrever, mesmo sem saber bem os porquês de desejar escrevê-la.

 

Olha velho, seguinte:

Nós tivemos, pela vida afora um monte, uma pá de desentendimentos e por conta disso eu atravessei um caminho de ferrar. Mas eu olhei para trás outro dia e vi que, sim, estas coisas, algumas tão horríveis, eram as coisas pelas quais eu tinha de passar. E não você.

Seu papel, nisso tudo, foi me trazer para cá, para a Terra, mais uma vez, para eu passar por tudo isso e veja pai, eu ainda não entendi a mensagem, pois sim, tudo é como Ele deseja e, até agora, Ele não me explicou porque eu tive de perder tantas pessoas para a morte ou para a vida.

 

E aqui entre nós, eu e você, leitor(a), eu não sei o ‘que seria pior nessa coisa de perder para a vida ou para a morte. 😉

 

Então pai, eu sei que você pode até estar preocupado e meio encafifado com a forma como eu olho para tudo isso e eu te digo que é com gratidão.

Bem ou mal, feliz e infeliz, com muito e pouco dinheiro, e vi  e vivi muitas coisas.

E se é verdade que eu chorei, também é verdade que eu sorri e, portanto, fique em paz, pois eu lhe agradeço pela gentileza de ter me trazido para este mundo e, entre nós, não há pendências. Pode ficar sossegado que não é nem um caso de perdão.

É um caso de gratidão. Muito obrigado por me franquear a passagem.

Se foi exatamente assim, eu já não lembro, mas o espírito era este.

O nome dele?

Sebastião Afonso de Souza.

Se você, por alguma razão maluca se vê em débito comigo ou tem vontade de ajudá-lo, faça, pelo menos esta noite uma prece por ele, uma prece pedindo em meu nome, Cláudio Souza, diante de Deus, por leniência (misericórdia).

Não lhe fará mal.

E nunca se sabe o dia de amanhã.

 

Bem, eu sei que este texto ainda irá para revisão, pois já passou pelo endosso de minha irmã.

Sabe Velho, eu quero que você saiba, sim, que estamos quites, e que não há, pelo menos até onde posso ver, nenhuma pendência entre nós, exceto uma:

Eu queria, queria muto poder ouvir esta música, que se segue abaixo, e não sentir-me um mentiroso, um ladrão!

Sabe, a verdade é que o Velho Souza agora, sou eu! E sem querer eu estou deixando de mim, para suas netas, um legado parecido, apesar de as escolhas não terem sido feitas por mim.

Sim,  sua saudade já está batendo em mim. exatamente como no bandolin.

In Extemix

 

Mas houve um detalhe imperdoável 🙂 Ele foi sepultado com a camiseta do Corithians e isso eu não posso endossar.

 

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