# Sessenta mil crianças vagam pelas ruas de Adis-Abeba, na Etiópia

- Link: https://soropositivo.org/__trashed-17/
- Published: 2009-06-19T22:45:49-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**[Fonte: Coordenação nacional DST/AIDS](http://www.aids.goc.br/)**

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**22/JUNHO/07**

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21/06 – 10:16 – EFE

 

Pedro González Lasuén Adis-Abeba, 21 jun (EFE).- Yodete é um adolescente etíope 
que, junto de milhares de outros jovens, tem de vagar pelas ruas de Adis-Abeba, 
na Etiópia, pedindo dinheiro sob a vigilância dos traficantes de crianças que os
transformam em mendigos.

O jovem é manco. A lesão, com o tempo, é a única fonte de sustento do adolescente.“
Em um bom dia posso ganhar até dez birrs (€ 1), e eu fico com trinta centavos”, 
afirma Yodete à agência Efe.

O caso deste adolescente atinge 60 mil menores que mendigam nas ruas de Adis-Abeba,
segundo fontes oficiais, apesar de outros cálculos indicarem que este número pode
chegar a 100 mil.

A quantidade de crianças de rua dobrou nos últimos dez anos na cidade. A maioria
é órfã, procede de áreas rurais e veio a Adis-Abeba na busca de uma vida melhor,
muitos deles pensando que esta cidade seria sinônimo de trabalho e prosperidade.

Outros, no entanto, foram vendidos por famílias incapazes de manter seus filhos,
além de milhares terem sido seqüestrados por uma máfia organizada que obriga crianças
a mendigarem e a repartir o dinheiro obtido.

Yodete, por exemplo, é um adolescente sem-teto que vive há nove anos em Adis-Abeba.
Os mafiosos quebraram sua perna para atrair turistas e ganhar mais dinheiro.

“Me bateram várias vezes com um pau. Desde então manco porque não me deixam ir ao
médico”, afirma.

O jovem não revela os nomes de torturadores por razões óbvias.

“Poderiam me matar”, acrescenta.

O problema dos sem-teto se agrava a cada dia. Trata-se de um mundo subterrâneo que
possui regras próprias e onde apenas os mais fortes ou afortunados sobrevivem.

A violência da rua, os seqüestros, as surras, a prostituição e a droga são moedas
de troca diárias e exibem a faceta mais obscura da capital da Etiópia, visível para
os turistas, mas aparentemente invisível para as autoridades.

A ONG Fórum pelos Meninos de Rua (FSCE), criada em 1989, é a única que ajuda os 
jovens desamparados.

O elevado número de crianças de rua e a escassez de fundos obrigaram os membros 
do FSCE a refletir, até que encontraram uma fórmula para alimentar as crianças e
afastá-los da droga.

“Decidimos vender aos turistas bônus que dão acesso a uma comida quente gratuita.
Desta maneira e por apenas dez birrs, o turista sabe que seu dinheiro não será investido
em droga”, disse Solomon Sima, funcionário da ONG.

A droga é a válvula de escape das crianças de sua miserável existência. Mastigar“
khat” (um entorpecente muito popular na Etiópia) após doze horas de mendicância 
tornou-se um fato corriqueiro.

Com o vale-refeição o turista ajuda diretamente a luta contra o consumo de um entorpecente
legal na Etiópia e contribui para oferecer comida com a garantia de que seu dinheiro
será empregado corretamente.

No entanto, a ausência de soluções por parte do Governo obriga esta ONG a lutar 
contra uma epidemia de proporções gigantescas, sem solução a curto prazo.

Com o tempo, os adolescentes se transformam em adultos e precisam encontrar trabalho
para se afastarem da marginalidade.

Quatro rapazes com idades entre 17 e 21 anos tentaram fugir da situação hostil, 
mas pagam um preço altíssimo: vivem em um esgoto da cidade.

O buraco que serve de moradia mede apenas dois metros quadrados.

Às cinco da manhã saem do esgoto, trabalham recolhendo lixo das ruas e só voltam
no final da tarde. Uma rotina pela qual recebem € 5 por mês.

Ao final da jornada de trabalho, os quatro compram “khat” e mastigam durante toda
a noite.

Temesgel tem 18 anos e é o único deles que conhece algumas palavras em inglês: “
Sinto vergonha de viver assim. As pessoas cospem em mim, urinam no lugar onde durmo
e me insultam. Não posso retornar para a meu povoado porque seria um desonra. Não
sei o que fazer”.

O jovem é órfão. Seus pais morreram, vítimas da **aids**, e o restante de sua família
está convencido de que viajou para o exterior e voltará algum dia com dinheiro suficiente
para manter todo o povoado.

O discurso de seu colega Ibrahim não é muito diferente: “Também sou órfão. Ia à 
escola na cidade de Harar. Um professor me disse que devia abandonar meus estudos
e me converter em pastor. Segui seu conselho e me vim para aqui com a esperança 
de trabalhar. Não estou satisfeito, mas pelo menos tenho trabalho”.

Os quatro sofrem diariamente o desprezo da elite etíope e a violência dos mendigos
que dormem nas calçadas e não têm emprego.

A Polícia também se contagia pelo estigma. “Cada vez que um roubo acontece, a Polícia
vem nos ver. Mais de uma vez dormimos na delegacia. Pelo menos não passamos frio”,
ironiza Temesgel.

Na hora de escolher entre comida e droga, não há dúvida. “A comida é boa, um ou 
dois dias por semana. Mas a droga nos permite fugir de nossa realidade e sonhar 
com uma vida melhor, uma vida de branco”, conclui Ibrahim, antes de fechar o pára-
brisa que usam como porta de entrada de seu esgoto.

 

## Leia também

 * [Prefeitura intensifica prevenção contra DST/Aids](https://soropositivo.org/__trashed-15/)
 * [Por que humanos são vulneráveis ao HIV?](https://soropositivo.org/por-que-humanos-sao-vulneraveis-ao-hiv/)
 * [Saúde nos Bairros chega ao Taboão](https://soropositivo.org/__trashed-16/)

**Leia também**

 * [Remédio contra a Aids voltado para crianças será testado no Brasil](https://soropositivo.org/remedio-contra-a-aids-voltado-para-criancas-sera-testado-no-brasil/)
 * [Prevenção à AIDS entre crianças (video)](https://soropositivo.org/prevencao-a-aids-entre-criancas-video/)
 * [Preconceito impede que crianças órfãs com HIV frequentem escola no Vietnã, publica Folha de S.Paulo](https://soropositivo.org/preconceito-impede-que-criancas-orfas-com-hiv-frequentem-escola-no-vietna-publica-folha-de-s-paulo/)
 * [Fundação de apoio a crianças afetadas pela Aids recebe o prêmio ‘solidariedade’ no Brasil ](https://soropositivo.org/fundacao-de-apoio-a-criancas-afetadas-pela-aids-recebe-o-premio-solidariedade-no-brasil/)

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