# A ciência que tenta curar

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- Published: 2009-09-07T12:49:09-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**06/SETEMBRO/09**

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 Com verbas estrangeiras e especialistas moçambicanos, o tratamento avança no país

Roberta Jansen* Enviada especial

 

MAPUTO, Moçambique. Kátia Buene, de 20 anos, tem um enorme sorriso estampado no 
rosto.

 

 

Ela brinca com o filho, Wikison, de 1 ano, enquanto espera o atendimento de rotina
pediatria do Hospital Central de Maputo.

 

 

Kátia é SOROPOSITIVA, mas a maternidade foi planejada. Graças ao tratamento feito,
seu filho nasceu sem o vírus.

 

 

 * Pensar positivamente, é o remédio para todos os problemas – ensina ela. – Se 
   eu não pensasse assim, não estaria viva, nem teria tido o meu filho. Eu tomei
   todos os cuidados possíveis e sei que ele está bem. Venho aqui a cada três meses
   apenas para fazer o acompanhamento dele.

 

 

Referência no tratamento de **AIDS** no país, o Hospital Central é apoiado pelas
agências da ONU Unicef e Unitaid.

 

 

Praticamente todo o atendimento para a doença oferecido em Moçambique é feito por
agências internacionais e ONGs ou a partir de financiamento externo. Do teste diagnóstico
aos mais novos medicamentos, passando pelo tradicional coquetel e eventuais internações,
tudo é bancado por verba estrangeira.

 

 

 * As ONGs são as grandes implementadoras do programa de **AIDS** hoje em Moçambique–
   explica Luiz Gibier de Souza, coordenador de HIV e Saúde da Care, uma ONG americana.

 

 

 * O governo definiu as políticas, mas quem faz a implementação são as ONGs. São
   pelo menos umas 40 trabalhando aqui, uma grande indústria geradora de fundos,
   empregos e serviços.

 

País é um dos mais pobres

 

Não chega a ser uma surpresa já que se trata de um dos países mais pobres do mundo.

 

 

Das 177 nações listadas pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Moçambique 
se encontra na posição de número 172. A fome, a pobreza e a falta de saneamento 
estão entre os cinco maiores problemas do país segundo o próprio governo. Os demais
são **AIDS** e corrupção. De acordo com as agências internacionais, de 50% a 60%
de todo o orçamento da saúde do país é proveniente de doações.

 

 

Ainda assim, das 500 mil pessoas que precisariam hoje receber o coquetel, aproximadamente
150 mil estão em tratamento – entre elas Katia. O número é baixo, mas vem aumentando
consideravelmente desde 2004, quando apenas 6 mil pessoas recebiam os remédios.

 

 

 * Se não fosse o medicamento, eu já teria passado por este mundo há muito tempo–
   atesta Amina Abacar Mussawe, de 39 anos. – Desde que comecei a tomar o remédio,
   nunca mais tive nada, estou de pé e dando força a todos.

 

 

Atualmente Amina presta serviços para o Hospital Geral de Chamanculo, rastreando
pessoas que abandonaram o tratamento. O hospital, num bairro pobre da capital, é
apoiado por Médicos sem Fronteiras (MSF) e Unitaid. A agência da ONU banca o financiamento
de tratamentos de segunda linha (aqueles mais caros, indicados em caso de resistência)
e formulações pediátricas para **AIDS** e também para malária e tuberculose.

 

 

 * São áreas não cobertas por outras agências – explica o secretário-executivo do
   Unitaid, Jorge Bermudez. – Buscamos também estabilizar o mercado para esses produtos,
   criando demandas, fazendo os preços baixarem ou incentivando os genéricos.

 

 

São mais de dez mil crianças recebendo antiretrovirais em Moçambique, todas pela
Unitaid.

 

 

Entre elas, Michel, de 3 anos. Com um vestido de cetim branco cheio de laços de 
tule e tranças afro nos cabelos, ela é a grande sensação na fila de atendimento 
de Chamanculo.

 

 

 * É a minha pequenininha – conta Hermínia, a mãe, toda orgulhosa dos olhares de
   admiração dispensados à filha.

 

 

 * Agora ela está bem, come muito, vai à escola, então eu estou feliz. Mas quando
   soube, meu mundo acabou. Porque eu me testei duas vezes durante a gravidez e 
   deu negativo.

 

 

Então, eu não fiz o tratamento e ela nasceu com o vírus.

 

 

Me sinto culpada

 

Formação de mão de obra

 

O trabalho de todas as fundações e ONGs é coordenado pelo governo. E a maior parte
dos profissionais envolvidos no atendimento e no tratamento é moçambicana. E há 
ONGs que atuam justamente na formação dos profissionais locais, caso da Care. Além
de apoiar o tratamento em si e a prevenção da infecção de mãe para filho, a ONG 
reabilita unidades de saúde, fornece material e equipamento hospitalar e financia
o treinamento de médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório e farmácia.

 

 

 * Nós (as ONGs) suprimos as lacunas do sistema – resume Gibier. – O Estado é muito
   deficitário, a formação de mão-deobra é muito fraca. De maneira geral, acho que
   as ONGs cumprem razoavelmente as suas metas. Mas não adianta estarmos à frente
   do Estado. Não adianta, por exemplo, comprarmos um equipamento médico de última
   geração para um hospital onde falta luz.

 

(*) Roberta Jansen e Marizilda Cruppe viajaram a Moçambique a convite da Unitaid

 

 

Um passo adiante na prevenção da doença

 

A descoberta de partículas do sistema de defesa do organismo capazes de atacar o
vírus HIV abre caminho para o avanço no desenvolvimento de vacinas contra a **AIDS**.
O estudo foi publicado na última edição da “Science” por especialistas do Instituto
de Pesquisa Scripps, na Califórnia.

 

 

Os cientistas usaram uma nova tecnologia para rastrear amostras de sangue de 1.800
pessoas infectadas e identificar dois anticorpos capazes de neutralizar o vírus –
algo até então inédito. Eles identificaram também a parte do vírus que é atacada
por estes anticorpos, oferecendo um novo alvo para o desenvolvimento de uma potencial
vacina.

 

 

 * Podemos ter uma chance melhor de produzir uma vacina capaz de estimular a resposta
   desses anticorpos neutralizantes, o que consideramos fundamental para o desenvolvimento
   de um imunizante eficaz – afirmou Dennis Burton, coordenador do estudo.

 

 

Wayne Koff, da Iniciativa Internacional de Vacina contra a **AIDS**, também se mostrou
esperançoso com as novas descobertas: – Agora temos um novo, e potencialmente melhor,
alvo no qual concentrar nossos esforços de desenvolvimento de uma nova vacina.

 

 

Desde que a epidemia de **AIDS** teve início, nos anos 80, mais de 25 milhões de
pessoas já morreram em todo o mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima
que, atualmente, 33 milhões de pessoas sejam portadoras do HIV, 70% delas na África.

 

 

Não há cura para a doença, embora o coquetel de drogas tenha se mostrado eficaz 
em manter o vírus sob controle. Todos os esforços feitos até hoje para o desenvolvimento
de uma vacina fracassaram. Além de o vírus ser extremamente mutante (o que dificulta
o seu reconhecimento pelo sistema imunológico), ele ataca as próprias células de
defesa que deveriam proteger o organismo.

 

## Leia também

 * [AIDS:Crença que mata](https://soropositivo.org/aidscrenca-que-mata/)
 * [Grande passo na luta para curar a Aids](https://soropositivo.org/__trashed-103/)
 * [Sexo inseguro](https://soropositivo.org/sexo-inseguro/)

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