# A ética da   adoção

- Link: https://soropositivo.org/a-etica-da-adocao/
- Published: 2009-06-03T11:22:38-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

São cerca de 30 mil crianças órfãs como decorrência da AIDS materna no país. Este
é o número acumulado, por estimativa, entre 1987 e 1999. Antecipando-se a essa[⌊A Ética da Adoção⌉](http://soropositivo.net.br/hiv-aids-hpv-hepatite/a-etica-da-adocao.html/como-e-feita-uma-adocao-52-9/)
avaliação, organizações civis, religiosas ou não, vêm dedicando sua atenção às crianças
nascidas no contexto da AIDS a partir da percepção dos atores sociais que já vinham
respondendo aos desafios emergentes impostos pela epidemia. Casas de Apoio, lares
substitutivos, apadrinhamento, assessoria jurídica, ações que garantissem a permanência
na escola, a defesa da adoção como um direito fundamental e a manutenção de irmãos
consangüíneos no mesmo núcleo familiar foram algumas das garantias que estas organizações
ofereceram às crianças que nasceram de pais atingidos pelo HIV.

Não era raro que desde aí houvesse um registro de crianças infectadas superior aos
dados oficiais, contribuindo, inclusive, para que se aprimorassem os instrumentos
de notificação de casos, se ampliássemos serviços especializados de assistência 
e de capacitação de pessoal, se concretizassem parcerias entre governo e sociedade
organizada.

A clínica pediátrica foi surpreendida por uma nova cena que exigiu de seus profissionais
profundas transformações subjetivas e modificações na estrutura de seu trabalho.
Diagnosticar uma criança infectada pelo HIV passou a ser uma tarefa de amplas repercussões
conjugais, familiares e sociais, onde freqüentemente a atenção à criança passava
a ocupar um lugar secundário numa cena dominada por crises, conflitos, exclusões.

A negação como resposta esteve significativamente presente entre profissionais e
clínicas universitárias. Os primeiros pediatras a sustentar crianças HIV+ em suas
clínicas o fizeram como um desafio a ser enfrentado com um grande investimento pessoal
e desgastes no local de trabalho. Foram mesmo heróis no sentido mítico da palavras,
situados entre Deus e os homens, e somente em finais da década de 90 tiveram ó devido
reconhecimento pela contribuição que simultaneamente deram para os avanços no conhecimento
da epidemia.

As pessoas que por militância se deram ao trabalho com a AIDS infantil, logo se 
depararam com momentos freqüentemente trágicos e somente uma sensibilidade e garra
especial lhes permitiu construir instituições de efetiva competência social. Uma
característica dominante no ativismo dessas pessoas foi a insistência em garantir
os direitos da criança equacionando toda a dramaticidade própria do cenário familiar,
social e cultural onde a AIDS chegou. Os relatos neste Boletim são uma forma de 
divulgar o saber que vem sendo produzido dinâmica e criativamente pelos atores sociais
da delicada cena infantil da epidemia. São pequenos relatos, mas seguramente refletem
a magnitude de ações que sustentam e dão sentido à existência da humanidade em tempos
de AIDS.

Tive a oportunidade de estar próximos a um dos casos relatados neste Boletim. A 
cena inesquecível se repete, impõe – se como o inapreensível do real: é da mãe em
recuperação de uma toxoplasmose cerebral e que escolhe os futuros pais de seus três
filhos. Quer mostrar plenitude de consciência em seu ato, recusa-se a recebê-los
no leito hospitalar e vai à sala de recepção. A condição primordial é manter os 
três juntos. Ao escolher ritualiza um emocionante encontro de intimidade e parentesco
inominável. Ritualiza uma resposta impossível. “O que são para mim esses seres desconhecidos
e agora pais de meus filhos?” A adoção adquire aqui o status de salvação de uma 
impotência absoluta e tem, portanto, uma dimensão ética para os pais que se ausentarão
do convívio com seus filhos.

Neste espírito, tem sido impossível aceitar a testagem compulsória para fins de 
adoção, prática comum e que tem a conivência de detentores de poder. A substituição
do sentimento maternal pelo indicador laboratorial não pode encontrar respaldo em
nenhuma área do conhecimento humano no instituto da adoção. É isto que aprendemos
com os colaboradores deste Boletim de Direitos Humanos: a adoção é solidariedade
em ato, é uma construção necessária da cultura a respeito do destino dos que nela
nascem. Ao estar comprometida com o destino, a adoção comporta as crianças e aqueles
que amorosamente dão conta dos riscos e imprevisibilidades constitutivos da vida.

Raldo Bonifácio
 Coordenador Adjunto, – CN DST/AIDS

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## Leia também

 * [Adoção e HIV](https://soropositivo.org/adocao-e-hiv/)
 * [O Instituto da adoção e a questão do HIV/AIDS](https://soropositivo.org/o-instituto-da-adocao-e-a-questao-do-hivaids/)
 * [Preconceito impede que crianças órfãs com HIV frequentem escola no Vietnã, publica Folha de S.Paulo](https://soropositivo.org/preconceito-impede-que-criancas-orfas-com-hiv-frequentem-escola-no-vietna-publica-folha-de-s-paulo/)

**Leia também**

 * [Prevenção à AIDS entre crianças (video)](https://soropositivo.org/prevencao-a-aids-entre-criancas-video/)
 * [Fundação de apoio a crianças afetadas pela Aids recebe o prêmio ‘solidariedade’ no Brasil ](https://soropositivo.org/fundacao-de-apoio-a-criancas-afetadas-pela-aids-recebe-o-premio-solidariedade-no-brasil/)
 * [Saúde defende adoção do programa de Aids pelo Mercosul](https://soropositivo.org/saude-defende-adocao-do-programa-de-aids-pelo-mercosul/)
 * [Sessenta mil crianças vagam pelas ruas de Adis-Abeba, na Etiópia](https://soropositivo.org/__trashed-17/)

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