# A Primeira Noite na Noite (De Minhas Memórias)

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- Published: 2024-06-19T04:23:28-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

**A Primeira Noite Na Noite**

 

Depois de Fátima ter feitos todos os arranjos e comprar, em um brechó, duas calças,
três camisas e um sapato que era dois números menores que o meu pé, pois simplesmente,
não encontramos outro e aí sim começou “a minha parte”.

Era o início dos anos oitenta, tocava-se Pop Music as bandas do Rock Nacional tão
celebradas eram pequenos embriões, talvez antes mesmo do circo voador e o New Wavel
ainda não havia florescido, nem Michael Jackson lançara, por exemplo, Billie Jean.

Meu trabalho consistia em lavar pratos na cozinha da Boate Louvre, arrendada pelo
Severino (_in memoriam_). Um trabalho simples de ser feito e, se não tivesse havido
tantas mudanças no nome da moeda, especialmente aquela maldita “URV” eu poderia 
dizer com melhor exatidão quanto eu ganhava. Contudo, creio que seriam, hoje, uns
R$ 15,00 por noite (uma fortuna para mim, naquelas condições) e “uma janta”.

Outros arranjos se fizeram e eu vou explicando isso com o passar do tempo, enquanto
vou digitando só com os indicadores, pois a polineuropatia arruinou o restante.

Me recordo da primeira noite e, nesta noite, a primeira coisa que fiz foi jantar;
e, “inda lembro”, foi um “sarapatel”.

Trabalhava na cozinha e não via o que acontecia na boate, mas era sabido por todos
que havia “um menor de idade” na casa, eu, portanto, “todos os sistemas estavam 
em alerta”.

A noite que conheci era muito diferente da noite que me expulsou.

O fato de eu ser menor de idade, com pouco mais de dezessete anos, não era impeditivo
para eu trabalhar! Ao contrário, todos se cotizavam na vigilância para manter a 
todos e, principalmente a mim, em estado de sobreaviso, para, caso o juizado surgir.
Neste caso, seria que entrasse por um nicho em uma parede que me conduziria ao forro
da boate onde eu deveria permanecer imóvel e em silêncio até que o “perigo” acabasse.

E como foi útil este nicho em três ocasiões!…

Mas isso não é nada. Enquanto lavava os pratos, e não faltavam pratos para lavar,
eu pensava, ainda, na minha troopie das ruas. Aquela dúzia e meia de adolescentes
que se uniram, como uma matilha de lobos, protegendo-se mutuamente, debalde nossas
diferenças e rixas pessoais. Tudo sempre ia para segundo plano quando o assunto 
era se esconder da polícia, do juizado de menores e de outras pessoas bem mais sórdidas
dos que os supramencionados.

E pensava, com um certo ar de tristeza (aprendo que tristeza promove maior crescimento),
que não mais os veria. Isso me deixava nostálgico.

Algumas pessoas dizem que sou frio, porque esqueço com facilidade. Todavia, isso
só é verdade de uns tempos para cá, por conta da continuada e longa exposição a 
benzodiazepínicos. Eles, muita vez penso assim, ajudam (…) a criar uma espécie de
mecanismo defensivo que me permite esquecer as pessoas que, após passada a minha“
utilidade”, desaparecem sem dizer ao menos adeus…

Dane-se o mundo!

 

E pensava neles enquanto via aquela comida em abundância e lembrava das vezes que
nós, após termos descoberto o segredo, comêramos do lixo do Mac Donald ’s, devido
ao “padrão de qualidade” deles que rezava: passado determinado limite de tempo o
lanche era descartado.

Mitigava nossa fome até que os funcionários, comandados por um gerente maldito, 
passaram a só colocar o lanche para fora em mãos, em mãos de lixeiros e nós, com
fome, ficávamos.

A explicação era que se um lanche daquele “nos fizesse mal” eles teriam de suportar
consequências nefastas, “complicações”, lembro-me de ter ouvido.  Assim terminou,
em poucos dias, aquela tranquilidade relativa de termos, lá pelas vinte e duas, 
algo que pudéssemos comer. Tivemos de voltar a batalhar, moeda por moeda, muitas
vezes dadas com tal displicência que tínhamos de buscá-las no chão, até juntar o
suficiente para comprar pão e mortadela ou, simplesmente, pão.

No Louvre (dono de boate tem mania de grandeza, acostumem-se) eu lavava os pratos,
ainda preocupado com eles, os meus amigos, colegas de infortúnio, minha matilha.

No final da noite havia uma panela de comida industrial cheia pela metade de arroz
e duas panelas de pressão cheias de feijão, assim como outros recipientes com o 
que não fora vendido naquela noite e eu, em minha tola minha inocência, perguntei
onde se guardaria a comida.

Com a mesma displicência com que as moedas outrora me foram jogadas, Severino me
disse:

 

— “Guardar? Não serve para mais nada, disse ele, jogue isso no lixo, este é meu 
prejuízo de hoje”.

“Hoje…” — Pensei enquanto o sangue se congestionava em meu massacrado cérebro!

E numa fração quântica de segundo pensei em quanta comida era jogada fora cotidianamente
em tantas cozinhas daquelas boates. Pensei, também, à comida lançada às moscas das
cozinhas, dos botecos, de lanchonetes, dos luxuosos restaurantes na Pauliceia Desvairada,
deste País, aqui, neste imenso continente, por todas as avenidas, ruas e vielas 
deste apagado planeta durante aqueles quase cinco anos em que passei fome com minha
troopie!

E, com toda a sinceridade que me cabe aqui, se não voei em seu pescoço e não o espanquei
até a morte, de fato não foi por falta de vontade; foi por medo das consequências.

A minha primeira noite na Noite me ensinou muito a respeito da iniquidade dos homens…

E isso foi só o começo… havia muito a aprender…

 

Vocês hão de ver!

## Leia também

 * [Memórias de um Homem Da Noite. Pré Venda](https://soropositivo.org/memorias-de-um-homem-da-noite-pre-cadastro/)
 * [Memórias de um Homem da Noite – Pronto Mas Não Terminado](https://soropositivo.org/memorias-de-um-homem-da-noite/)
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