# A tal hora de contar (In Memorian)

- Link: https://soropositivo.org/a-tal-hora-de-contar-2/
- Published: 2016-10-17T10:30:31-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Minha história é simples e cor­riqueira. Fui con­tam­in­ada pelo meu ex-mar­ido 
há oito anos. Sou assin­tomática e só descobri o vírus em 1999.

A sep­aração aconte­ceu em 1992.

Desde então, nunca mais o vi, mesmo porque não tive­mos fil­hos. Soube que ele andou
me rodeando nos idos de 1994, mas, creio eu, não teve cor­agem de se aprox­i­m­ar.
Acredito que foi quando descobriu sua sor­o­pos­it­ivid­ade.

Mais tarde, re­cebi um re­cad­inho in­direto, at­ravés de uma amiga que o en­con­trou
cas­u­al­mente na rua, para que eu fizesse um ex­ame anti-HIV.

Gostar­ia que ele tivesse me con­ta­do antes, porque as­sim, eu po­der­ia es­tar
me tratando há mais tempo.

Tra­balho na área de educação e, há uns três anos, resolvi es­cre­ver um liv­ro 
sobre pre­venção da AIDS, di­ri­gido a cri­anças em fase pré-escol­ar; lin­guagem
lúdica, simples e in­fant­il.

Pesqui­sei, li, estudei muito sobre o as­sunto e es­crevi a história sempre me colocando
na posição de porta­dora do HIV. Eu já era e não sabia…

Tomei os maiores e to­dos os cuid­a­dos quanto à redação para não deix­ar nen­hum
tipo de “má-in­ter­pretação”, idéia de pre­con­ceito ou dis­crim­inação, sempre 
val­or­iz­ando a solid­ar­iedade e a cid­adania. O liv­ro foi ped­ago­gica­mente
rev­isto e aprovado, e por essa épo­ca, fiz uma cirur­gia simples. Foi quando descobri­ram
a minha sor­o­lo­gia, por iro­nia do des­tino.

Parece que aquele meu tra­balho havia apare­cido na minha vida para me pre­parar
à minha própria real­id­ade.

De­pois da minha sep­aração, min­has relações sexuais fo­ram sempre se­gur­as.

Mas – puxa! – como é difícil! Con­heci, há pou­co tempo, um cara neg­at­ivo… e boooom!
Paixão ime­di­ata, uma loucura, uma vont­ade lou­ca de se ver, de es­tar junto, 
de se to­car, de se ouvir, aquelas coisas to­das. A relação foi es­quent­ando até
que chegou a “tal hora de con­tar”.

Meu mundo de­s­abou nova­mente como quando descobri o vírus. Foi a minha primeira
paixão pós-HIV.

Na hora, ele aceit­ou, disse que não havia prob­lema nen­hum, e aquela balela toda,
mas com o cor­rer dos di­as, a distância entre nós foi se tor­nando maior, até que
nem nos faláva­mos mais.

Droga de sen­ti­mento de re­jeição.

E es­tou aqui, viva, graças a Deus, um ano de­pois da descoberta, vivendo o mel­hor
possível. Assin­tomática, mantenho rig­orosamente meu trata­mento e tra­balho muito
p/ pôr em prática pro­je­tos que tenho ini­cia­dos, al­guns ped­agógi­cos, out­ros
de minha vida pess­oal.

Am­aryl­lis

## Leia também

 * [Sou Soropositiva! A Tal Hora De Contar Que Sou Portadora De HIV!](https://soropositivo.org/sou-soropositivo-a-tal-hora-de-contar/)
 * [Sou uma mulher vivendo com AIDS](https://soropositivo.org/nao-sou-uma-estatistica-sou-uma-mulher-vivendo-com-aids-2/)
 * [A História de Soropositivo-Org](https://soropositivo.org/a-historia-de-soropositivo-org/)

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