# Abuso sexual: O longo caminho da superação

- Link: https://soropositivo.org/abuso-sexual-o-longo-caminho-da-superacao/
- Published: 2012-05-27T19:01:30-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

## ![omal](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/2012/05/omal.png)

### Aumentam as denúncias de violência contra crianças e adolescentes, mas ainda é preciso avançar no atendimento às vítimas e na punição dos culpados

Natália Martino

### Table Of Content

 * [Aumentam as denúncias de violência contra crianças e adolescentes, mas ainda é preciso avançar no atendimento às vítimas e na punição dos culpados](https://soropositivo.org/abuso-sexual-o-longo-caminho-da-superacao/#aumentam-as-denuncias-de-violencia-contra-criancas-e-adolescentes-mas-ainda-e-preciso-avancar-no-atendimento-as-vitimas-e-na-punicao-dos-culpados)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/abuso-sexual-o-longo-caminho-da-superacao/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/abuso-sexual-o-longo-caminho-da-superacao/#relacionado)

**“Eu sabia que era errado porque ele me pedia que não contasse aninguém e porque
nenhum outro adulto fazia aquilo comigo”L., que foi abusada pelo avô

Ao o romper o silêncio e contar, na tevê, ter sido vítima de abuso sexual na infância,
a apresentadora Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, jogou luz sobre um tema que somente
agora a sociedade começa a encarar de frente. O resultado mais imediato do depoimento
foi o aumento de ligações para o Disque Direitos Humanos, o Disque 100. Nos dois
dias seguintes ao seu desabafo, no domingo 20, o principal canal de denúncias de
violência contra crianças e adolescentes recebeu 285 mil ligações, 30% a mais do
que nos mesmos dias da semana anterior. Um pico como esse é raro, mas o histórico
do Disque 100 mostra um crescimento do número de ligações ano a ano (leia quadro),
reflexo do maior conhecimento das pessoas sobre o tema. O primeiro passo para resolver
o problema é saber suas proporções, mas o caminho até a superação do trauma por 
parte da vítima e a punição de seu algoz é longo. E nisso o Brasil está apenas engatinhando.

As denúncias chegam, em geral, por conhecidos das vítimas, raramente pelas pessoas
abusadas. “Por um misto de medo e culpa, muitas delas passam décadas sem compartilhar
a dor com ninguém”, explica a psicóloga Elizabeth Vieira Gomes, do Comitê Nacional
de Enfrentamento de Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. Xuxa levou 
mais de 30 anos para assumir publicamente os abusos. O silêncio de L. durou 12 anos.“
Eu tinha medo de ninguém acreditar em mim, ele era uma pessoa em quem todos confiavam”,
conta. Ela não tinha mais de 4 anos quando o avô lhe disse “olha o que eu tenho 
aqui, é diferente do que você tem”, e lhe mostrou seu órgão sexual. A carioca de
31 anos não se lembra de detalhes desse dia, mas tem recordações claras das carícias
sexuais que ele lhe fez aos dez anos. “Eu sabia que era errado porque ele me pedia
que não contasse a ninguém e porque nenhum outro adulto fazia aquilo comigo”, diz.
Só aos 16 anos ela confessou o ocorrido à mãe. “Passei esse tempo nutrindo ódio 
pelo meu avô sem nunca revelar a razão”, diz ela.As reações de descrença em Xuxa
manifestadas nas redes sociais também acontecem com anônimos. Muitas vezes, por 
parte de quem deveria ajudar a vítima. “É comum os médicos e os policiais dizerem
que tudo não passou de ‘sem-vergonhice’ da pessoa que sofreu o abuso”, afirma Waldemar
Oliveira, do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Yves de Roussan da Bahia(
Cedeca). Em alguns hospitais do País, porém, a situação é diferente. No Hospital
das Clínicas de São Paulo, por exemplo, funciona há dez anos o Núcleo de Assistência
à Vítima de Violência Sexual (Navis). Trata-se de um grupo formado por enfermeiros,
assistentes sociais e médicos de várias especialidades que se empenham em prestar
atendimento rápido e eficiente a quem precisa. “Os casos de violência sexual exigem
muita sensibilidade”, diz a médica Ivete Boulos, coordenadora do Núcleo. As vítimas,
e, às vezes, alguns familiares, também recebem acompanhamento psicológico por, no
mínimo, seis meses. “O médico precisa estar preparado para fazer o primeiro acolhimento,
pois os remédios que podem prevenir Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) só
são eficientes nas 72 horas posteriores à agressão”, diz Ivete. Segundo ela, há 
pessoas que chegam anos depois de terem sofrido a violência e são diagnosticadas
com doenças como sífilis e vários problemas psicológicos. Em outros casos, pais 
levam os filhos para tratar problemas de saúde e os médicos detectam a existência
de DSTs. Serviços desse tipo também existem em cidades como Ribeirão Preto, Campinas,
Belo Horizonte, Curitiba e Goiânia, mas ainda não estão presentes na maior parte
do País.Nas esferas legislativa e jurídica também são necessárias adaptações. O 
avanço mais recente foi a sanção da lei que define que o tempo de prescrição do 
crime de abuso sexual conta a partir dos 18 anos da vítima. No campo jurídico, as
mudanças começaram na década de 1990 com a criação de varas especializadas em infância
e juventude. “Nas varas comuns, o objetivo é prender o suspeito, nas especializadas
a prioridade é acolher as vítimas”, explica Lélio Ferraz de Siqueira Neto, promotor
de Justiça da Infância e Juventude do Ministério Público de São Paulo. Para isso,
os membros recebem treinamentos especiais e até alguns dos processos são revistos.
Em São Paulo, a criança presta depoimento uma única vez e não precisa repetir a 
história para o delegado, depois para o promotor e assim por diante.Essas varas 
especializadas agilizam o julgamento dos casos. De acordo com levantamento realizado
pelo Cedeca da Bahia, antes da criação da primeira vara especial do Estado, em 1997,
a maioria dos processos de abusos sexuais demorava tanto tempo para ser julgada 
que prescrevia. Com as varas especializadas, o problema praticamente acabou e o 
tempo de tramitação, que antes variava entre seis e dez anos, passou a ser, no máximo,
de dois anos. No entanto, ainda existem pouquíssimas dessas varas no País. A média
é de um juiz especializado para atender quase 400 mil pessoas. Essa deficiência,
aliada à dificuldade em se conseguir provas de uma agressão que acontece, na maioria
das vezes, dentro da casa das vítimas, resulta em um enorme número de casos sem 
solução. É preciso mudar essa realidade.

![VIOLENCIA-1](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/2012/05/violencia-1.jpg?
w=620)

[https://vimeo.com/114158878](https://vimeo.com/114158878)

Fonte: Revista [Isto É](http://www.istoe.com.br/capa)

## Leia também

 * [Abuso Sexual: O sofrimento das vítimas](https://soropositivo.org/abuso-sexual-o-sofrimento-das-vitimas/)
 * [Abuso sexual de crianças e adolescentes: Pessoas acima de qualquer suspeita](https://soropositivo.org/abuso-sexual-de-criancas-e-adolescentes-pessoas-acima-de-qualquer-suspeita/)
 * [Abuso sexual: 14 crianças vitimadas por dia](https://soropositivo.org/abuso-sexual-14-criancas-vitimadas-por-dia/)

**Este blog existe há 25 anos.**
Se você gosta deste trabalho, se ele te ajudou 
de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo
que demore um pouco.E se quiser, mande um Pix de **R$ 0,25** pelos 25 anos de trabalho:**
Chave Pix:** solidariedade@soropositivo.org_Você também pode me escrever para: claudio@
soropositivo.org_

### _Relacionado_
