# Além do HIV…

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- Published: 2009-06-04T00:40:26-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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# Além do HIV…

 

…os portadores do vírus da aids têm de enfrentar

o colesterol alto, o diabetes e a osteoporose

Adriana Dias Lopes

 

Silvia Almeida, de 43 anos, convive com o HIV desde os 20, quando foi contaminada
pelo marido. Em 1997, começou a ser medicada com o coquetel antiaids. Ela jamais
manifestou algum sintoma da doença, até que, recentemente, durante uma consulta 
médica de rotina, descobriu que estava com excesso de gordura na corrente sanguínea,
um importante fator de risco para os males cardiovasculares. Em menos de um ano,
a concentração de triglicérides saltou de 100 miligramas por decilitro de sangue
para 190. A de LDL, o colesterol ruim, de 150 para 250. O caso de Silvia é exemplar
de um novo capítulo da história do tratamento da síndrome: o aumento da vulnerabilidade
dos portadores do HIV, em tratamento com o coquetel antiaids, às doenças bólicas.
Entre esses pacientes, a incidência de hipercolesterolemia, por exemplo, chega a
60% – o dobro da registrada na população em geral.

Na história da medicina, são raros os registros de uma doença que tenha mudado tanto
de características quanto a aids. No início da epidemia, na década de 80, a presença
do HIV no organismo representava uma sentença de morte quase que imediata. Entre
o diagnóstico e a fase terminal, transcorriam, em média, cinco meses. Com a chegada
ao mercado do primeiro remédio anti-HIV, o AZT, lançado em 1986, os pacientes passaram
a viver cerca de um ano com a doença. Só em meados da década passada, com a criação
do coquetel antiaids, foi possível recuperar a capacidade do sistema imunológico
dos infectados pelo vírus. Composto de dezessete medicamentos, de quatro classes
distintas, o coquetel permitiu prolongar a vida dos portadores do HIV por tempo 
indeterminado. No Brasil, dos 600 000 soropositivos, 180 000 são beneficiados com
o tratamento.

A contrapartida desse sucesso são as doenças bólicas. Muitas delas se enquadram 
no grupo das reações adversas do coquetel. Outras são deflagradas por causa do longo
tempo de exposição do organismo ao HIV (Veja quadro no final). Como esse é um campo
de investigação médica ainda muito incipiente, não foram desvendados todos os mecanismos
que deflagram o surgimento dos males bólicos. Já se sabe, contudo, que alguns dos
remédios do coquetel, especialmente os inibidores de protease, dificultam a absorção
das moléculas de gordura pelas células. “Como tais medicamentos têm uma estrutura
molecular muito parecida com a das enzimas que quebram a gordura, o organismo se
confunde e essas enzimas perdem a função. Com isso, sobra gordura na corrente sanguínea”,
diz o cardiologista Bruno Caramelli, diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia
e do Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. Esse é o primeiro passo para o 
entupimento das artérias. Outros remédios do coquetel podem também dificultar a 
ação da insulina no organismo, facilitando o aparecimento de diabetes. Há, ainda,
o comprometimento da produção de vitamina D, essencial para a construção de um esqueleto
forte.

Os estudos mais recentes indicam que, depois de muito tempo no organismo, o HIV 
danifica a parede dos vasos sanguíneos, deixando-os mais suscetíveis ao acúmulo 
de placas de gordura. Uma das primeiras – e mais conclusivas – pesquisas sobre o
assunto foi publicada em 2004 na revista especializada Circulation, da Associação
Americana do Coração. Os pesquisadores mostraram que, em apenas um ano, a espessura
das artérias carótidas dos soropositivos aumentou 0,074 milímetro. Pode parecer 
pouco, mas não é, quando se leva em conta que a densidade esperada para uma carótida
é de no máximo 1 milímetro. Principal canal de irrigação sanguínea do cérebro, uma
carótida mais espessa torna-se mais rija e vulnerável a entupimentos. Se o suprimento
cerebral de sangue é interrompido, a ameaça é de derrame.

Assim como ocorre com a população em geral, em portadores de HIV as doenças bólicas
podem ser revertidas com mudanças no estilo de vida. Silvia Almeida, por exemplo,
não precisou recorrer a medicamentos para baixar os níveis de gordura no sangue.
Bastou que ela aderisse a uma dieta saudável e à prática regular de exercícios físicos.
Um dos poucos trabalhos sobre o impacto dessas mudanças nas taxas de triglicérides
e de LDL, entre os infectados pelo vírus, foi realizado por médicos do Incor, em
parceria com a Casa da Aids, do Hospital das Clínicas. Ter uma dieta balanceada,
praticar caminhada de quarenta minutos quatro vezes por semana e abandonar o cigarro
compõe uma rotina capaz de, em dois meses, normalizar as taxas de gordura no sangue
de 20% dos soropositivos em tratamento com o coquetel. Depois desse período, aos
que não conseguiram aderir a um estilo de vida saudável ou não conseguiram atingir
a normalidade, foram dados remédios específicos para o controle de doenças bólicas.
Em cinco meses, todos eles estavam com taxas normais de colesterol e triglicérides.

Extraído da Revista Veja

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