# Aprender a viver com HIV: quando a escrita ajuda a reconstruir a vida

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- Published: 2026-07-21T10:00:39-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Diagnosticada aos 45 anos, mãe de três filhos encontrou no tratamento, na mudança
de hábitos e na escrita um caminho para compreender sua nova realidade

### Table Of Content

 * [**Por Cláudio Santos de Souza** *Matéria baseada no depoimento de Shannon Farabee publicado pela revista POZ.*](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#por-claudio-santos-de-souzamateria-baseada-no-depoimento-de-shannon-farabee-publicado-pela-revista-poz)
 * [## Abandonar o álcool também fez parte do tratamento](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#abandonar-o-alcool-tambem-fez-parte-do-tratamento)
 * [## Indetectável e sem transmitir o HIV por via sexual](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#indetectavel-e-sem-transmitir-o-hiv-por-via-sexual)
 * [## A importância da PrEP](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#a-importancia-da-prep)
 * [## Escrever para compreender o que aconteceu](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#escrever-para-compreender-o-que-aconteceu)
 * [## O HIV ainda não acabou](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#o-hiv-ainda-nao-acabou)
 * [## Pedir ajuda não é fraqueza](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#pedir-ajuda-nao-e-fraqueza)
 * [**Você é suficiente.**](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#voce-e-suficiente)
 * [O ato que fechou os cassinos](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#o-ato-que-fechou-os-cassinos)
 * [Onde entra Getúlio Vargas](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#onde-entra-getulio-vargas)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/aprender-a-viver-com-hiv-quando-a-escrita-ajuda-a-reconstruir-a-vida/#relacionado)

## **Por Cláudio Santos de Souza**⏎  *Matéria baseada no depoimento de Shannon Farabee publicado pela revista POZ.*

Shannon Farabee descobriu que vivia com HIV em 3 de fevereiro de 2021. Tinha 45 
anos, era mãe de três filhos em idade escolar, estava divorciada havia seis anos
e atravessava um dos melhores momentos de sua carreira profissional.

O diagnóstico, no entanto, foi acompanhado por um período de adoecimento intenso.
Durante o primeiro ano, Shannon enfrentou sintomas neurológicos, crises de vômito
e uma perda de aproximadamente 27 quilos em apenas três meses.

Trabalhar e dirigir tornaram-se tarefas difíceis. Seu corpo havia mudado, sua rotina
havia desmoronado e ela ainda precisava compreender o que estava acontecendo com
sua mente.

Mesmo tendo iniciado rapidamente o tratamento contra o HIV e alcançado uma carga
viral indetectável cerca de um mês depois, sua recuperação não foi imediata.

O tratamento controlou o vírus, mas ela ainda precisou reconstruir outros aspectos
da própria vida.

### ## Abandonar o álcool também fez parte do tratamento

Nos primeiros meses depois do diagnóstico, Shannon continuou consumindo bebidas 
alcoólicas. Segundo ela, isso agravava os sintomas e tornava ainda mais difícil 
enfrentar o mal-estar físico e emocional.

Com o apoio de amigos, conseguiu parar de beber e buscar formas mais saudáveis de
lidar com o estresse, a náusea e o desconforto.

A alimentação também passou a ocupar um papel importante. Ela começou a comer em
intervalos menores e a escolher melhor os alimentos. Aos poucos, recuperou parte
do peso perdido e as crises de vômito tornaram-se cada vez mais raras.

Sua experiência mostra algo que muitas vezes é esquecido: controlar o HIV é fundamental,
mas cuidar da saúde envolve também alimentação, apoio emocional, redução de danos
e condições concretas para seguir o tratamento.

#### ## Indetectável e sem transmitir o HIV por via sexual

Shannon permaneceu em tratamento e com a carga viral suprimida. Ela realiza exames
regularmente e afirma que, há cerca de cinco anos, continua indetectável.

Quando uma pessoa com HIV toma corretamente a medicação e mantém a carga viral indetectável,
ela não transmite o vírus por relações sexuais.

Esse princípio é conhecido como **I=I — Indetectável é igual a Intransmissível**.

Para Shannon, conhecer essa realidade também significou perceber o quanto a ciência
avançou graças ao trabalho de pesquisadores, profissionais de saúde, ativistas e
pessoas vivendo com HIV.

Hoje, o diagnóstico não representa a sentença de morte que representou em outros
momentos da epidemia. Com tratamento adequado e acesso aos serviços de saúde, pessoas
com HIV podem ter uma vida longa, saudável, afetiva e sexualmente plena.

#### ## A importância da PrEP

Depois de receber o diagnóstico, Shannon também conheceu melhor a PrEP, a Profilaxia
Pré-Exposição ao HIV.

A PrEP é uma estratégia de prevenção indicada para pessoas que podem estar mais 
vulneráveis à exposição ao vírus. Quando utilizada corretamente e acompanhada por
profissionais de saúde, reduz significativamente o risco de adquirir o HIV.

Shannon passou a defender que mais pessoas conheçam essa possibilidade de prevenção.

Ela lamenta não ter se protegido anteriormente, mas seu relato não permanece preso
à culpa. Em vez disso, transforma o arrependimento em informação para outras pessoas.

Sua mensagem é direta: quem acredita estar vulnerável ao HIV pode procurar um serviço
de saúde e conversar sobre a PrEP.

#### ## Escrever para compreender o que aconteceu

Em 2023, Shannon começou a escrever o livro *Learning to Live with HIV*, que pode
ser traduzido como *Aprendendo a viver com HIV*.

A escrita tornou-se uma maneira de organizar os acontecimentos, compreender as mudanças
em seu corpo e refletir sobre o espaço que o diagnóstico ocuparia em sua vida.

Ela queria registrar a própria experiência para que outras pessoas pudessem entender
o que significa viver com HIV sem precisar atravessar o mesmo processo de adoecimento
e desorientação.

Mais do que contar uma história, escrever foi uma forma de recuperar o controle 
da narrativa.

O HIV havia entrado em sua vida, mas não precisaria comandá-la.

Shannon escolheu decidir quanto poder daria ao diagnóstico.

#### ## O HIV ainda não acabou

Apesar dos avanços no tratamento e na prevenção, Shannon lembra que o HIV continua
presente.

Ainda não existe uma vacina disponível nem uma cura que possa ser oferecida a todas
as pessoas. Além disso, milhões de pessoas no mundo enfrentam dificuldades para 
ter acesso contínuo a alimentação, moradia, exames e medicamentos.

Ela acredita que uma cura e uma vacina ainda poderão surgir durante sua vida. Até
lá, considera essencial ampliar a testagem, a prevenção, o tratamento e o acesso
à informação.

Entre as coisas que mais a preocupam está justamente a situação de pessoas que vivem
em regiões onde faltam alimentos, abrigo e medicamentos contra o HIV.

Seu sonho inclui a criação de moradias voltadas a pessoas vivendo com HIV, onde 
os moradores possam cultivar alimentos, trocar serviços e construir uma vida com
maior segurança.

#### ## Pedir ajuda não é fraqueza

Ao olhar para o primeiro ano depois do diagnóstico, Shannon reconhece que tentou
enfrentar tudo praticamente sozinha.

Ela gostaria de ter pedido mais ajuda, em vez de avançar à força, como se fosse 
possível derrubar todos os obstáculos apenas com determinação.

Talvez essa seja uma das partes mais humanas de seu relato.

Receber um diagnóstico de HIV não exige heroísmo. Ninguém precisa compreender tudo
imediatamente, manter-se forte o tempo inteiro ou atravessar sozinho o medo, os 
sintomas e as mudanças na própria vida.

Tratamento médico importa. Informação importa. Mas apoio também importa.

Entre os melhores conselhos que Shannon recebeu está uma frase pequena, mas poderosa:

#### **Você é suficiente.**

Caso precisasse sair imediatamente de casa e pudesse levar apenas uma coisa, ela
escolheria seus medicamentos.

Caso pudesse ser um animal, seria uma águia, para observar do alto todas as partes
deste planeta.

Determinada, curiosa e aventureira, Shannon transformou a escrita em uma forma de
sobrevivência, aprendizado e mobilização.

Sua história não afirma que viver com HIV é sempre simples.

Afirma algo mais verdadeiro: mesmo depois do diagnóstico, ainda é possível reconstruir
a vida, encontrar novos caminhos e continuar voando.

—

> ### Sobre a fonte
> Esta matéria foi elaborada com base no depoimento pessoal de Shannon Farabee publicado
> pela revista **POZ**, em 20 de julho de 2026, sob o título *[Learning to Live With HIV](https://www.poz.com/article/learning-live-with-hiv)*.
> Este texto é uma adaptação jornalística e comentada, não uma tradução integral
> da publicação original.

 

Eu, Cláudio, também aprendi a encontrar na escrita um meio de catarse.

Meu grande problema é que fui descendo pela vida como uma bola de pinball, passando
por _lanes_ e _bumpers_. Quando a bola chegava a um dos _flippers_, eu, que sempre
fui um jogador tranquilo, deixava que ela batesse, passasse para o outro lado, parava
a bola e olhava com calma para decidir o que faria.

Algumas máquinas eram mais difíceis, e justamente por isso eram as mais divertidas.

A _Jungle Lord_, por exemplo, era uma máquina _multiball_ que chegava a colocar 
três bolas em campo e ainda tinha dois andares. Eu mandava duas bolas para cima 
e ignorava a terceira.

Quando dava certo — e quase sempre dava — eu prendia uma bola na caçapa e segurava
a outra junto ao _flipper_. A bola fazia algumas firulas, mas a caçapa não tinha
força suficiente para tirar as duas dali. Uma voltava a circular até eu conseguir
prender a outra no mesmo _flipper_. Então eu repetia o processo.

Era uma máquina da Williams, e eu gostava muito dela porque acumulava até cinquenta
créditos.

Depois, eu trocava os créditos por fichas, e as fichas por dinheiro. Era com esse
dinheiro que eu comprava comida.

Era um menino se virando. No jogo, é verdade, mas se virando para comer.

Convém dizer, especialmente nesta época das bets, que jogo não é investimento. Jogo
depende de sorte.

Certa vez, entrei numa loja de apostas em corrida de cavalos. Corrida de cavalos
não me parecia exatamente um cassino.

Vi um sujeito comprar cem reais em créditos, apostar tudo de uma vez — o louco —
e ganhar.

Ele ganhou mil e oitocentos reais.

Naquela época, eu trabalhava na SKY Perepepês, e segunda-feira era dia de _dolce
far niente_. Fiquei olhando para o homem e pensei:

“Bom, agora ele perde duzentos reais para a máquina, vai ao caixa, retira os mil
e seiscentos restantes, pega um táxi — jamais um daqueles parados no ponto — e vai
para casa com o golpe de sorte que teve.”

Porque a máquina é programada para arrecadar. De tempos em tempos, depois de juntar
uma bolada, ela solta uma bola. Esperto é quem pega essa bola, atravessa o campo
inteiro e faz o _touchdown_ em casa.

Não foi o que ele fez.

Ele começou, e juro que não entendo, a perder de dez em dez reais. O saldo foi baixando.

Chega um momento — e isso é psicológico — em que o sujeito acha que perdeu oitocentos
reais. Mas, na verdade, ele ainda está ganhando mil. Era a hora de parar.

Já dava para perceber que aquele demônio composto de madeira, fios e um tubo estava
decidido a recuperar tudo o que havia pago. Era o programa da máquina.

Havia um monte de gente em volta. Eu não sabia quem era quem. Tive vontade de dizer:

— Vai para casa, Zé. Vai para casa.

Mas pensei no estilete habilmente introduzido entre duas de minhas costelas e fiquei
quieto.

Já eram quase cinco horas da tarde quando ele ainda tinha uns duzentos reais na 
máquina. Pensei:

“Vim até aqui. Comecei a assistir. Agora vou até o fim.”

Para atalhar a leitura, chegou o momento em que ele estava nervoso. Nervoso de verdade.

Afinal, era ele o homem que, algumas horas antes, tinha mil e oitocentos reais e
que agora estava comprando mais duzentos reais em créditos para continuar jogando.

Bufava:

— Ninguém senta aí! Ninguém senta aí!

Ninguém sentaria.

Aquela máquina levaria semanas para juntar dinheiro suficiente para pagar outro 
prêmio de mil e oitocentos reais. Dali em diante, aquilo já era Sessão da Tarde:
filme que todo mundo conhecia e sabia como terminava.

Fui para casa.

Eu morava ali perto, na Rua Avanhandava. Entrei com a satisfação de quem não perdeu
aquilo que não ganhou.

Liguei a televisão, mas estava cansado e adormeci diante dela.

Acordei às duas da manhã. Estava passando _Drácula_, com Christopher Lee.

Passaram — e isso foi muita sacanagem — dois filmes seguidos dele. De repente, a
casa começou a parecer um pouco estranha.

Preferi enfrentar o vampiro de igual para igual: na rua, onde eu tinha uma chance
melhor.

A moral desta pequena historieta, contada dentro da história de Shannon, é simples:
bet não é investimento.

E quem gosta de viver não dá palpite.

Palpite é coisa de candinha.

E o estilete está sempre por perto.

Foi por essas e outras que o general Eurico Gaspar Dutra, e não Getúlio Vargas, 
determinou o fechamento dos cassinos em todo o Brasil.

## O ato que fechou os cassinos

**Decreto-Lei nº 9.215, de 30 de abril de 1946**
 **Presidente:** Eurico Gaspar 
Dutra **Publicação:** Diário Oficial da União de 30 de abril de 1946, página 6.439**
Entrada em vigor:** no próprio dia da publicação.

A parte mais importante está no artigo 1º:

> “Fica restaurada em todo o território nacional a vigência do artigo 50 e seus 
> parágrafos da Lei das Contravenções Penais.”

O decreto também:

 * revogou as normas que permitiam exceções para os cassinos;
 * declarou nulas todas as licenças, concessões e autorizações já concedidas;
 * proibiu a prática e a exploração de jogos de azar em todo o território nacional.

O artigo 3º foi, na prática, o golpe de guilhotina: anulou todas as autorizações
federais, estaduais e municipais que permitiam o funcionamento dos cassinos.

Foi isso que fez as casas fecharem praticamente de uma hora para outra.

## Onde entra Getúlio Vargas

A confusão acontece porque foi durante o governo de Getúlio Vargas que surgiu o 
Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941, conhecido como Lei das Contravenções
Penais.

O artigo 50 tratava como contravenção:

> “Estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou acessível ao público,
> mediante o pagamento de entrada ou sem ele.”

A pena original era prisão simples de três meses a um ano, multa e perda dos móveis
e objetos do estabelecimento.

A lei definia jogo de azar como aquele em que o ganho e a perda dependem exclusiva
ou principalmente da sorte.

Mas havia exceções e licenças, especialmente para cassinos localizados em estâncias
balneárias, hidroterápicas ou climáticas.

Aliás, o próprio Vargas havia assinado o Decreto-Lei nº 241, de 4 de fevereiro de
1938, que regulamentava e cobrava imposto de licença dos chamados cassinos-balneários
no então Distrito Federal.

Ou seja: o governo Vargas não apenas tolerava determinados cassinos como regulamentava
e tributava seu funcionamento.

Embora a Lei das Contravenções Penais, criada durante o governo de Getúlio Vargas
em 1941, já tratasse a exploração dos jogos de azar como contravenção, os cassinos
licenciados continuaram funcionando com base em exceções legais.

O fechamento definitivo ocorreu em 30 de abril de 1946, quando o presidente Eurico
Gaspar Dutra assinou o Decreto-Lei nº 9.215, anulando todas as licenças e proibindo
os jogos de azar em todo o território nacional.

Um detalhe de rato de arquivo: o Decreto-Lei nº 9.215 menciona, em seu artigo 1º,
o Decreto-Lei nº 3.688 como sendo de 2 de outubro de 1941.

O cadastro e a publicação oficial da Lei das Contravenções Penais registram corretamente
a data de 3 de outubro de 1941.

## Leia também

 * [Viver bem com o HIV! Dez Segredos Simples De Aprender](https://soropositivo.org/viver-bem-com-o-hiv-dez-segredos/)
 * [Viver com HIV? Como é… como seria isso?Viver com HIV é viver!!!](https://soropositivo.org/viver-com-hiv-como-e-isso-para-mim-e-simples/)
 * [Três dias de festa e cebração no CEU](https://soropositivo.org/tres-dias-de-festa-e-cebracao-no-ceu/)

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