# Como afastar os jovens dos mundos das drogas

- Link: https://soropositivo.org/como-afastar-os-jovens-dos-mundos-das-drogas/
- Published: 2010-08-17T09:59:50-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

Este blog está online há 26 anos, 3 meses e 5 dias.

[⌊Diga não às Drogas⌉⌊Diga não às Drogas⌉[

É preferível que você não use drogas.
Droga é o fim da picada…Ms, se você insistir
em usar drogas, não compartilhe agulhas, seringas e cachimbos…

 **De todas as drogas, o crack**, a droga mais perigosa da atualidade, invadiu a
classe média. Uma pesquisa inédita mostra que as famílias não sabem onde obter ajuda.
O que fazer para salvar os [dependentes](https://soropositivo.org/para-psiquiatra-do-rio-profissionais-tem-de-assumir-responsabilidade-com-dependentes-na-luta-contra-as-drogas/).

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> ### Foram quatro anos sob os efeitos de maconha, cocaína, ácido lisérgico, ecstasy, crack e até chá de fita cassete – uma “droga” a que os dependentes recorrem para suportar crises de abstinência. A triste viagem de Renan começou na casa da família, num bairro de classe média em São Paulo, e o levou ATÉ a favela Paraisópolis, a segunda maior da capital paulista.
> 

_**“Lá eu estava onde eu queria, com a galera, e me drogava direto”,**_ diz. Seus
pais, Alda e Eli, haviam tentado impor limites para afastá-lo da dependência. Primeiro,
conversaram. Depois, proibiram o filho de usar o carro, cortaram a mesada, estabeleceram
horário para que ele chegasse em casa. Eles não eram novatos no assunto. Antes de
Renan, o caçula da família Larizzatti, outros dois filhos do casal haviam passado
por problemas semelhantes. “Com três filhos usando drogas, vi que era o fundo do
poço”, diz Alda. O casal decidiu internar o mais novo, então com 22 anos. Antes 
de ser levado para uma clínica de desintoxicação, Renan fez uma ameaça aos pais:“
Quando sair, eu mato vocês”. Três anos e dois meses depois do último contato com
as drogas, Renan ajuda a família na casa lotérica que os sustenta. _**“Hoje, se 
eu matar meus pais, só se for de amor”**_, afirma.

Histórias como a dos Larizzattis ocorrem em muitas famílias. Às vezes, porém, o 
desfecho é trágico. Em 2009, a consultora aposentada Flávia Costa Hahn, de 60 anos,
moradora de um bairro nobre de Porto Alegre, matou seu único filho, Tobias Hahn,
de 24 anos. O rapaz consumia crack desde os 18 anos. Em abril do ano passado, depois
de passar três noites em claro fumando crack, Tobias voltou para casa para pedir
dinheiro. Flávia conta que discutiu com o filho, foi agredida e, para tentar se 
defender, pegou um revólver da coleção de armas do marido. A arma disparou e atingiu
Tobias no pescoço. Ele morreu na hora. Em outro caso dramático, o músico Bruno Kligierman,
de 26 anos, um jovem de classe média alta morador da Zona Sul do Rio de Janeiro,
sufocou até a morte a amiga Bárbara Calazans, de 16. Ele havia consumido crack a
noite toda. Seu pai, o poeta Luiz Fernando Prôa, o entregou à polícia.

Para dependentes de drogas, raramente há uma saída fácil. Internar o filho drogado,
como fizeram os pais de Renan, é um recurso extremo, que até pouco tempo atrás era
definido como exagerado. Para os Larizzattis, a decisão provou ser correta. Não 
só porque ele venceu a dependência. “Os pais de hoje têm medo de agir, estabelecer
regras ou proibir”, afirma Luiz Fernando Cauduro, vice-presidente da ONG Amor Exigente,
que ajuda famílias nessa situação. “Esse medo tem de ser rompido. Ele leva a família
a não tomar uma atitude – e isso pode tornar o caso crônico.” Medidas exageradas
podem levar o usuário de drogas a ficar mais tempo nesse universo

Mas o que fazer quando mesmo uma atitude mais dura da família não basta? Em 2005,
a funcionária pública Sônia (nome fictício) descobriu que seu filho mais novo, então
com 13 anos, era usuário de drogas. Sônia, o marido e outros dois filhos viviam 
num condomínio de classe média alta no interior paulista. O caçula havia começado
a fumar maconha aos 11 anos, com amigos. Seu rendimento escolar despencou, ele trocou
de amizades e se distanciou dos irmãos. “Achei que era um problema da idade, da 
adolescência”, diz Sônia. “Só percebi que eram as drogas quando antigos amigos dele
me falaram que ele estava andando com uma turma barra-pesada.” Sônia procurou ajuda
onde pôde. “Pesquisei na internet, em serviços públicos, paguei psicólogos, terapias,
até a igreja eu procurei”, diz. A família decidiu tirar o filho da escola para distanciá-
lo das amizades e vigiá-lo de perto. Ficava sob os cuidados do pai, vendedor de 
joias, que o levava até nas viagens de negócios. Em 2007, Sônia internou o filho
em uma clínica para dependentes ligada a religiosos. O tratamento era baseado mais
em ações espirituais do que terapêuticas, e não teve resultado. “Foi um tiro no 
pé, havia gente mais velha, e ali ele aprendeu tudo sobre as drogas.” Sônia decidiu
então mudar de cidade. “Queria afastá-lo de tudo o que havia acontecido.” No começo,
a estratégia deu certo: o filho passou um ano sem se drogar, começou a trabalhar
em um pet shop e pensava em voltar a estudar. Mas houve uma recaída. Hoje, aos 17
anos, o caçula de Sônia está internado. Pela segunda vez, ele tenta largar o vício.

Os resultados distintos das experiências de Sônia e da família Larizzatti no combate
às drogas mostram que não existe um método infalível. A internação numa clínica 
só deve ser considerada quando outras abordagens falham. “Os pais devem saber conversar
com os filhos”, diz a psicóloga Lulli Milman, da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (Uerj), autora do livro Cresceram!!!: um guia para pais de adolescentes (
Editora Nova Fronteira). “Quando descobrem que o filho fumou maconha na festa de
sábado, alguns pais amplificam a questão e tratam o garoto como se fosse um traficante”,
diz. Para ela, uma medida exagerada pode levar o filho a ficar por muito mais tempo
no universo das drogas. Rejeitado em casa, ele pode buscar lugares onde seja mais
aceito – ainda que esses locais coloquem sua vida em risco. “Pais que adotam esse
discurso dogmático, sem muita relação com a realidade, tendem a se afastar dos filhos
e ficar desacreditados por eles”, diz Lulli.

_**“A maior parte das pessoas faz uso consciente de drogas ilícitas da mesma forma
que muitas pessoas usam álcool”**_, diz o antropólogo Edward MacRae, que também 
é pesquisador do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas da Universidade 
Federal da Bahia (UFBA). _**“Eu frequento lugares em que vão jovens. Vejo que usam
maconha, e isso não afeta seu desempenho de forma tão perceptível como ocorre com
o álcool.”**_ Nem todo usuário esporádico, porém, é capaz de abrir mão do consumo
quando bem entender. “O uso recreacional é como uma roleta-russa”, diz Ruben Baler,
pesquisador do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês),
dos Estados Unidos. Para ele, é impossível saber de antemão se alguém se tornará
dependente ou não. O uso de drogas como válvula de escape aumenta na proporção da
incapacidade dos jovens de aceitar a frustração. Mas muitos usuários não percebem
quanto a droga se tornou parte de sua rotina até que tenham se tornado dependentes.

A melhor estratégia para afastar os jovens das drogas envolve uma abordagem múltipla.
Primeiro, a intervenção da família, que não pode se acanhar ante o problema. Em 
seguida, vem o tratamento contra a dependência química, a busca de alternativas 
à droga – que pode ser pela fé ou por um novo propósito na vida – e o apoio comunitário(
da igreja, dos amigos, dos grupos especializados como o Narcóticos Anônimos) para
manter a pessoa longe do mundo das drogas.

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Uma máxima da medicina preconiza que quanto mais precoce o diagnóstico, mais fácil
a cura. O princípio vale também para a dependência química. “Os pais devem se relacionar
com os filhos, saber o que pensam, como se divertem”, diz Cláudia de Oliveira Soares,
psicóloga e diretora do Grupo Viva, uma rede de clínicas especializadas em tratamento
de dependentes de drogas. Para ela, a falta de diálogo é uma constante nas famílias
que procuram tratamento. A falha na comunicação pode impedir que os pais percebam
o problema nas fases iniciais. Além da incapacidade de fazer um diagnóstico cedo,
ela leva a outras dificuldades para agir. Por falta de informação, preconceito ou
incapacidade de enxergar a dureza da realidade que está ali, muitas famílias não
sabem a quem recorrer. Ou não admitem a ideia de que a dependência seja uma doença
crônica. “Eles demoram a procurar tratamento, costumam responsabilizar as companhias
dos filhos ou tratar o problema como uma questão moral, de sem-vergonhice ou falta
de autoestima do dependente”, diz a psiquiatra Maria de Fátima Rato Padin, especialista
em dependência química e diretora clínica da assistência ambulatorial da Unifesp.
Maria de Fátima comandou uma pesquisa inédita, feita com 500 famílias em que havia
pelo menos um dependente químico, para avaliar o impacto das drogas na vida familiar.
Concluiu que, em média, pais e mães buscam ajuda em quatro lugares ao mesmo tempo
ao descobrir um familiar usuário. Os auxílios vão desde internação e assistência
psicológica até apoio de padres. “A pesquisa mostra que a busca por ajuda especializada
fica no mesmo nível da busca de ajuda na religião”, diz Maria de Fátima. “É como
se você tivesse diabetes e procurasse um padre para se tratar.” Para piorar o quadro
de desnorteamento, a pesquisa mostra que 61,6% delas nunca ouviram falar nos Centros
de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps), o serviço público destinado ao
tratamento de usuários de drogas. “São famílias que lutam há pelo menos cinco anos
contra a dependência química e desconhecem o principal serviço público de tratamento.”

Isso não quer dizer que os grupos religiosos não ajudem. Eles oferecem apoio às 
famílias e aos usuários. Usam a fé como alternativa às drogas e insistem na ideia
de persistência para superar o problema. “O Narcóticos Anônimos ou os grupos religiosos
passam semanas tentando persuadir o dependente a se tratar. Isso não ocorre no sistema
público de saúde”, diz Ronaldo Laranjeira, psiquiatra, especialista em dependência
e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina
da Universidade Federal do Estado de São Paulo.

Para o dependente de drogas, os grupos de autoajuda podem significar, no mínimo,
esperança. “Naqueles momentos de maior vontade de usar a droga, de depressão, o 
apoio do Narcóticos Anônimos, de pessoas que tinham passado por situações como a
que eu vivia, foi fundamental para evitar uma recaída mais grave”, diz Maria Eugênia
Lara Silva, ex-dependente que frequenta semanalmente as reuniões do NA. Antes de
encontrar no grupo uma saída para o vício, Maria Eugênia fazia parte de uma estatística
que tem crescido em níveis alarmantes no país – e preocupa não só as famílias, mas
também as autoridades. Por 12 anos, ela foi viciada em crack, um subproduto mais
barato da cocaína cujo efeito destruidor é bem maior. “Foi amor à primeira baforada.
Eu fumava e queria mais”, diz. Há pouco mais de um ano, ela acendeu seu último cachimbo.
Até conseguir se livrar da droga, viu sua juventude evaporar de trago em trago. 
Ela largou a escola, brigou com os pais e foi morar com o namorado que a apresentou
ao crack. “Fumávamos todo o nosso dinheiro, tudo o que tínhamos.” Nos anos de consumo
irrefreado, Maria Eugênia engravidou três vezes. Morando com os filhos pequenos,
consumia crack dentro de casa. Saía de madrugada, às vezes com os filhos, para comprar
a droga e matar a vontade de fumar – um efeito incontrolável conhecido na linguagem
dos usuários como “fissura”. O drama de Maria Eugênia não é isolado. Ilustra a vertiginosa
ascensão do crack na pirâmide social brasileira. Maria Eugênia ainda sente falta
do “barato” que a droga proporciona. “Estou de luto, e vou morrer de luto porque
não posso fumar crack”, afirma. “Adoro o efeito do crack, mas hoje adoro mais a 
minha vida.”

Como ela, milhares de jovens nascidos em famílias bem estruturadas, de classe média
alta, buscam uma saída para o inferno em que se meteram com o crack. “Antes, prevalecia
o consumo de maconha, de drogas sintéticas e de cocaína, mas o crack se infiltrou
entre esses jovens”, afirma o psiquiatra Laranjeira. “Há uma epidemia de crack no
Brasil, uma epidemia sem barreiras socioeconômicas.” _**Nem todos os usuários de
crack são pobres. Mas o crack empobrece a todos”.**_

**Como chegamos a esse ponto? E o que fazer a partir daqui? **A dependência química
é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Não tem cura e não há
remédios que evitem recaídas. Por isso os dependentes precisam de acompanhamento
constante de psiquiatras, psicólogos e, principalmente, da ajuda das famílias (leia
o quadro na próxima página). Com o crack parece não haver meio-termo. Até quem sempre
se mostrou liberal em relação à descriminalização de outras drogas é contrário à
tolerância com o consumo desse derivado da cocaína. O cantor Caetano Veloso afirmou
que “deixou os pensamentos sobre legalização para mais tarde”, por acreditar na 
prioridade do combate ao crack. O deputado Fernando Gabeira, candidato ao governo
do Rio de Janeiro e defensor da liberação das drogas, defende uma campanha de combate
ao crack. Com razão: a droga já responde pela maioria das internações de dependentes
no Brasil. “Há três anos havia mais usuários de cocaína, álcool ou maconha. Hoje,
quase 100% são viciados em crack”, diz Cláudia de Oliveira Soares, diretora da Clínica
Terapêutica Viva, de Piedade, uma das maiores do interior paulista.

No primeiro simpósio sul-americano sobre o combate às drogas, ocorrido no começo
de maio, em Belo Horizonte, secretários de Saúde, políticos e especialistas se reuniram
para debater os efeitos do crack nas grandes cidades. A maioria defende a prioridade
no combate ao crack. “Ele é diferente de todas as drogas que conhecemos”, diz o 
sociólogo Flavio Sapori, coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Segurança
Pública da PUC de Minas Gerais. _**“Profissionais da área de saúde e funcionários
de clínicas estão atônitos.”**_

_**EX-VICIADO **_

  |   |  
 |  **O agente literário Bill Clegg, que superou o vício em crack e escreveu um livro.** |

A rapidez com que os usuários adotaram a droga ganhou impulso com a estratégia adotada
pelos traficantes no fim dos anos 90: a venda casada. Muitos só vendiam maconha 
se o usuário comprasse junto pedras da nova droga. Essa fórmula conquistou o jovem
acostumado apenas à maconha. Por causa da combinação de efeitos nocivos, a expectativa
de vida de um usuário de crack não ultrapassava um ano. O fato de a droga matar 
com rapidez pode parecer um mau negócio para o traficante – mas o que eles perdem
em duração da clientela ganham em margem de lucro. _**“A venda de crack dá mais 
lucro que a venda de cocaína”,**_ diz Reinaldo Correa, delegado do Departamento 
de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) da Polícia Civil de São Paulo. Segundo
ele, o grama de cocaína custa até R$ 15, dependendo da pureza. Com essa quantidade,
ele pode fazer várias pedras de crack, cada uma vendida por algo entre R$ 3 e R$
5. Além disso, o crack tem muito maior poder de viciar.

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_**“O aumento do uso de crack reflete o sucesso de uma política mundial de repressão
ao tráfico de cocaína”**_, diz o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando
Corrêa. Esse sucesso tem um preço: “Surgiu um subproduto tão maléfico, tão doloroso,
e as quadrilhas se adequaram a esse mercado”. O aumento pode ser constatado nos 
números de apreensões feitas pela Polícia Federal de pasta base de cocaína. Em 2009,
a PF apreendeu 250% a mais da pasta do que em 2008: 1,4 tonelada em comparação aos
412 quilos. A apreensão de crack pronto aumentou 37% em 2009, enquanto o confisco
de cocaína caiu 7%. O maior acesso ao crack facilitou sua escalada na pirâmide social.
Nos últimos dois anos, entre os dependentes tratados na rede estadual de saúde de
São Paulo, o número de pessoas que ganham acima de 20 salários mínimos cresceu 155%.
No Rio de Janeiro, estima-se que quase 40% dos usuários sejam de classe média.

O principal atrativo do crack é a relação custo-benefício: paga-se pouco para ter
uma sensação de euforia muito mais potente. Há também o problema do consumo precoce,
diz o psiquiatra Sergio Seibel, da Faculdade de Medicina da Universidade de São 
Paulo: “Como os jovens estão usando drogas cada vez mais cedo, chegam ao crack antes
dos 20 anos, porque não se satisfazem mais com as outras drogas”.

Solange Nappo, pesquisadora que há 20 anos estuda como o crack se espalhou entre
a população, afirma que os usuários de classe média evitam comprar a droga diretamente
do traficante. Usam serviços de “mula” ou “aviõezinhos”: garotos pobres que compram
as pedras em troca de dinheiro para financiar o próprio vício. Também se tornou 
cada vez mais popular o serviço do disque droga, entregue até por motoboys. “A classe
média se autoprotege e se expõe menos que a classe pobre”, diz Solange. A redoma
protetora, porém, se quebra conforme o consumo aumenta. “O crack afeta a região 
frontal do cérebro, responsável pelo pensamento, pelo planejamento, controle dos
impulsos”, afirma Ronaldo Laranjeira. “Por isso os usuários ficam violentos e impulsivos.”
Em pouco tempo, os viciados passam a viver em função do crack. O dependente se isola
e usa todos os seus recursos no consumo. Quando o dinheiro acaba, começam as dívidas
e os roubos. A impressão de que os usuários têm origem social pobre é falsa. O crack
é que empobrece os usuários. “Rapidamente eles se marginalizam”, diz Solange.

Reinaldo M. caiu nessa armadilha. Aos 38 anos, está na terceira internação. Fuma
crack há quase 20 anos. Começou nas drogas aos 14, quando morava com a mãe e dois
irmãos numa casa de classe média alta no Butantã, Zona Oeste de São Paulo. Passou
para a cocaína aos 17 e descobriu o crack logo que ele despontou no mercado, em 
1990. “Eu e meus amigos fabricávamos o crack em casa para fumar”, diz Reinaldo. 
Técnico em fotografia, ele conciliava o trabalho e o uso progressivo da droga. “
Durante um ou dois anos enganei bem, mas daí comecei a faltar dois, três dias no
trabalho para fumar.” Desempregado, não quis largar o vício. “Mesmo sem trabalhar
você quer fumar, e aí começa a roubar coisas de casa.” Em pouco tempo, Reinaldo 
se enfiou no ponto de venda. “Virei amigo dos traficantes, vendia e fumava com eles.”
Participou de assaltos e quase foi preso. Depois de uma troca de tiros com policiais,
se internou pela primeira vez, há dez anos. Antes da última, há pouco mais de dois
meses, teve uma crise psicótica. “Tentei cortar os pulsos na banheira, mas fui socorrido
a tempo”, diz.

Tanto Reinaldo quanto Maria Eugênia se trataram na única clínica pública de reabilitação
de São Paulo equipada para internar dependentes, o Hospital Lacan, em São Bernardo
do Campo. Ele tem capacidade para atender apenas 30 pessoas e a fila de espera dura
um mês. Tratamentos em clínicas particulares saem por R$ 15 mil por mês. “A classe
média gasta todos os recursos que possui, vende os bens, mas uma hora o dinheiro
acaba”, diz Alessandra Diehl, psiquiatra especialista em tratamento de dependência
química e coordenadora da clínica em São Bernardo do Campo. “Atendi muitos casos
de médicos, advogados, profissionais liberais que gastaram seu patrimônio em pedras
de crack.”

Os planos de saúde limitam a hospitalização do paciente para 15 a 30 dias por ano.
Passado esse limite, restam os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). No caso dos
dependentes de álcool e drogas há um atendimento específico, o Caps-AD, que soma
223 unidades no país. Nelas, o paciente recebe medicação e acompanhamento semanal,
mas não pode ser internado. “Muitas vezes a internação é fundamental para manter
o dependente longe das drogas e facilitar a desintoxicação”, diz Alessandra.

O Ministério da Saúde estima que 600 mil pessoas sejam dependentes de crack. Mas
alguns estudiosos calculam que o número de viciados seja o dobro. A última pesquisa
de abrangência nacional sobre o consumo de drogas no Brasil foi feita em 2005, pelo
Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), da Unifesp.
Há cinco anos – quando o crack ainda não havia se alastrado – 0,7% da população 
entre 12 anos e 65 anos dizia ter provado a droga. Para efeito de comparação, segundo
critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil tem uma “epidemia concentrada”
de aids. O índice de infecção pelo HIV na população de 15 a 49 anos é de 0,6%.

A recente série de casos violentos relacionados ao crack levou o presidente Lula
a anunciar o Plano Integrado de [Enfrentamento ao Crack](https://soropositivo.org/soropositivoorg-soropositivoorg-rn-prepara-plano-de-enfrentamento-ao-crack-e-outras-drogas/),
com investimento de R$ 410 milhões. Trata-se de um incremento ao plano anunciado–
e não cumprido – em junho de 2009 pelo Ministério da Saúde. A ideia é dobrar o número
de leitos para [dependentes químicos](https://soropositivo.org/na-africa-dependentes-quimicos-se-injetam-com-sangue-de-outros-viciados-em-heroina/)
em hospitais do SUS para 5 mil. Estão previstos também novos Centros de Atenção 
Psicossocial e a transformação dos 110 Centros atuais em unidades abertas 24 horas
por dia.

Os Estados Unidos viveram uma situação similar à brasileira entre 1984 e 1990. Lá,
o crack se disseminou com rapidez. Apenas em Nova York, havia 12 mil pontos de venda
no fim dos anos 1980. O consumo elevou o índice de homicídios para 2.200 por ano,
quatro vezes o atual. “A situação só começou a melhorar quando as autoridades admitiram
que se tratava de uma epidemia”, afirma Robert Bonner, que comandou a Drug Enforcement
Administration (DEA), agência antidrogas americana, de 1990 a 1994. “Coibimos com
força o tráfico e reforçamos nossas leis antidrogas.” Para ele, além de tratamento
para os viciados, é preciso reforçar o número de policiais e ter penas mais rigorosas
para os traficantes. “É imperioso evitar a ampliação de usuários. Demoramos demais
para atuar, e os danos sociais foram imensos.” O surto da droga dos anos 1980 diminuiu,
mas estudos do começo da década avaliam que os americanos consomem cerca de 70% 
do crack que consumiam há 20 anos. O que aconteceu? A relação do crack com crimes
violentos diminuiu e escondeu o consumo. Aos poucos ela escalou a pirâmide social
e chegou à classe média.

Uma das provas desse fenômeno é o agente literário americano Bill Clegg, de 39 anos.
No começo dos anos 2000, Clegg era responsável pela carreira de grandes nomes da
literatura, como a escritora Nicole Krauss, a poeta canadense Anne Carson e o jornalista
David Remnick. Em 2005, ele desligou o celular e se trancafiou em um elegante hotel
de Nova York por três semanas. Torrou US$ 70 mil em crack, bebidas e garotos de 
programa. Em 21 dias perdeu os clientes para agentes rivais, sua sócia dissolveu
a empresa, os amigos sumiram e o namorado de oito anos rompeu com ele. Só voltou
a si no hospital, depois de uma tentativa de suicídio. “Não tinha mais vontade de
viver”, disse Clegg a ÉPOCA. “Eu achava que não teria forças para vencer a droga.”
Na semana passada, Clegg completou cinco anos limpo. Além de agente, virou escritor:
suas memórias dos dias de vício acabam de ser lançadas em livro nos Estados Unidos,
Portrait of an addict as a young man (Retrato de um viciado quando jovem).

No livro, que deverá sair no Brasil em 2011, Clegg se concentra nos espasmódicos
dias de consumo de crack no hotel. Mas seu vício começou quase dez anos antes. Foi
apresentado à droga por um amigo de Connecticut, sua terra natal, “um homem respeitável,
de quase 60 anos, rico empresário, casado e com dois filhos”. Antes do crack, Clegg
fumava maconha quase diariamente. Entornava algumas doses de vodca ao dia e tomava
pílulas para dormir. _**“Mas o crack foi único. Foi como um reencontro com um amor
que nunca conheci.”**_

O número de dependentes de crack com renda acima de 20 salários mínimos cresceu 
155%

Ele atribui sua ligação com as drogas às inseguranças ao chegar a Nova York. “Tinha
medo daquele universo, das possibilidades, era uma ansiedade infindável, e me refugiei
nas drogas.” Clegg conseguiu se destacar na profissão rapidamente. Em seis anos,
aos 31, abriu sua própria agência literária com a colega Sarah Burnes. “Conheci 
algumas pessoas que usavam crack, mas eu tinha vergonha de admitir que também fumava”,
diz. “Encomendava com meu traficante e fumava sozinho ou com algum desconhecido 
em quartos de hotel.” No processo de reabilitação, Clegg percebeu como o crack estava
espalhado pelos Estados Unidos. “Encontrei advogados, médicos, empresários que tentavam
se livrar do vício.”

A história de Clegg, assim com a de outros ex-viciados, mostra que, se há uma saída
para a areia movediça que prende os jovens na dependência, ela envolve não apenas
desintoxicação e autoajuda. Deve incluir um projeto de vida – algo que falta a quem
escolhe viver drogado.

_**REVISTA ÉPOCA – 11 de Junho de 2010**_

_**Rodrigo Turrer e Humberto Maia Junior**_

## Leia também

 * [Crack – A droga da moda. A Droga da Morte | Texto e Video](https://soropositivo.org/crack-a-droga-da-moda-a-droga-da-morte-texto-e-video/)
 * [Drogas em troca de sexo](https://soropositivo.org/drogas-em-troca-de-sexo/)
 * [O direito de não usar drogas](https://soropositivo.org/o-direito-de-nao-usar-drogas/)

**Leia também**

### Table Of Content

 * [Foram quatro anos sob os efeitos de maconha, cocaína, ácido lisérgico, ecstasy, crack e até chá de fita cassete – uma “droga” a que os dependentes recorrem para suportar crises de abstinência. A triste viagem de Renan começou na casa da família, num bairro de classe média em São Paulo, e o levou ATÉ a favela Paraisópolis, a segunda maior da capital paulista.](https://soropositivo.org/como-afastar-os-jovens-dos-mundos-das-drogas/#foram-quatro-anos-sob-os-efeitos-de-maconha-cocaina-acido-lisergico-ecstasy-crack-e-ate-cha-de-fita-cassete-uma-droga-a-que-os-dependentes-recorrem-para-suportar-crises-de-abstinencia-a-triste-viagem)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/como-afastar-os-jovens-dos-mundos-das-drogas/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/como-afastar-os-jovens-dos-mundos-das-drogas/#relacionado)

 * [É preciso haver uma mobilização contra as drogas](https://soropositivo.org/e-preciso-haver-uma-mobilizacao-contra-as-drogas/)
 * [Drogas: Reprimir ou reabilitar](https://soropositivo.org/drogas-reprimir-ou-reabilitar/)
 * [Panfleto sobre “uso seguro” de heroína gera polêmica em NY](https://soropositivo.org/panfleto-sobre-uso-seguro-de-heroina-gera-polemica-em-ny/)
 * [Instituição volta a receber bebês com HIV após sete anos sem novos casos](https://soropositivo.org/instituicao-volta-a-receber-bebes-com-hiv-apos-sete-anos-sem-novos-casos/)
 * [O avanço dos direitos gays ](https://soropositivo.org/o-avanco-dos-direitos-gays/)

**Leia também**

 * [#soropositivoorg : Reforma penal, despenalización del uso de drogas y aumento de las campañas de defensa, temas clave para mejorar la salud de las personas privadas de libertad](https://soropositivo.org/soropositivoorg-reforma-penal-despenalizacion-del-uso-de-drogas-y-aumento-de-las-campanas-de-defensa-temas-clave-para-mejorar-la-salud-de-las-personas-privadas-de-libertad/)
 * [Curso mostra como lidar com o consumo de drogas](https://soropositivo.org/curso-mostra-como-lidar-com-o-consumo-de-drogas/)
 * [Prevenção e Redução de Danos com o Apoio da Associação AIDES](https://soropositivo.org/prevencao-e-reducao-de-danos-com-o-apoio-da-associacao-aides/)
 * [O que está por trás do abuso de analgésicos, as drogas lícitas?](https://soropositivo.org/o-que-esta-por-tras-do-abuso-de-analgesicos-as-drogas-licitas/)

### _Relacionado_
