# Depois do sexo, a diferença de interesses

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- Published: 2009-06-19T22:54:35-03:00
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 * [O Estado de S. Paulo](https://soropositivo.org/depois-do-sexo-a-diferenca-de-interesses/#o-estado-de-s-paulo)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/depois-do-sexo-a-diferenca-de-interesses/#leia-tambem)
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## **O Estado de S. Paulo**** **

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**Vida &**

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**31/JANEIRO/08**

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Fernando Reinach*

Para a maioria dos machos, o ato sexual é o resultado de uma batalha exaustiva. 
Geralmente são muitos machos competindo pelos favores de cada fêmea. Machos de moscas
a elefantes brigam entre si pelas fêmeas enquanto machos de outras espécies competem
pela atenção das fêmeas exibindo suas plumas ou seus atributos físicos, como ocorrem
com os pavões e muitos mamíferos.

 

Ao vencedor cabe o privilégio de transmitir seus genes para a próxima geração. Mas
após o sexo propriamente dito ainda existe o risco de a fêmea copular com outros
machos diluindo o esperma e, com isso, o número de filhos resultantes daquele ato
sexual. Pelo lado das fêmeas, copular com diversos machos significa diversificar
o risco de comprometer sua prole com o material genético de um único macho.

 

NOVOS MECANISMOS

 

Dado este desalinhamento de interesses entre os sexos não é de se espantar que ao
longo da evolução uma série de mecanismos que garantam a fidelidade da fêmea tenha
sido selecionada. Muitos machos de aves, répteis e macacos permanecem próximos das
fêmeas recém-conquistadas para impedir a aproximação de outros machos.

 

Em outras espécies, mecanismos que independem de hábitos comportamentais foram desenvolvidos.
Em algumas vespas, o ferormônio do macho bloqueia o apetite sexual das fêmeas após
o sexo. Em roedores o cheiro do macho dominante faz com que as fêmeas desprezem 
machos inferiores após o sexo.

 

Mas, entre os mecanismos conhecidos, talvez o mais peculiar é o desenvolvido pelos
machos da Drosophila, aquelas moscas que sempre encontramos rondando cachos de banana
madura. Nesta espécie, o sêmen do macho contém uma pequena proteína que funciona
como um hormônio poderoso.

 

Esta proteína, que é produzida em uma glândula semelhante à próstata, é misturada
ao sêmen e "injetada" na fêmea junto com os espermatozóides durante o ato sexual.
O hormônio altera radicalmente o comportamento das fêmeas. Agora elas passam mais
tempo botando ovos e menos tempo flertando com outros machos.

 

RECEPTOR

 

Apesar de o hormônio ter sido descoberto faz alguns anos, somente agora um grupo
de cientistas conseguiu descobrir o receptor ao qual se liga este hormônio. O receptor
está presente tanto no aparelho reprodutivo da mosca como em algumas células do 
seu cérebro.

 

Moscas transgênicas em que o receptor foi removido deixaram de ter seu comportamento
alterado pelo sêmen do macho, continuando com sua vida promíscua mesmo após diversas
relações sexuais.

 

Esta descoberta, além de abrir a possibilidade de um mecanismo semelhante existir
em outras espécies (sêmen de mosca tem uma composição semelhante ao sêmen de vertebrados),
demonstra pela primeira vez a existência de um mecanismo hormonal completo por meio
do qual o macho é capaz de controlar o comportamento das fêmeas.

 

A descoberta deste receptor também abre a possibilidade de desenvolvermos novas 
moléculas para controlar a proliferação de insetos.

 

Imagine um "spray" contendo uma molécula que tenha o mesmo efeito do hormônio. As
fêmeas deixariam de se interessar por machos e reduziriam o número de ovos produzidos.

 

Finalmente, como lembrou Leslie Griffith, uma pesquisadora da Universidade de Brandeis,
a possibilidade de os machos controlarem o comportamento das fêmeas com seu esperma
é mais uma razão para as fêmeas insistirem no uso da **CAMISINHA**.

 

Mais informações em: A receptor that mediates the post-mating switch in Drosophila
reproductive behaviour. Nature, vol. 451, pág. 33 2008.

 

*Biólogo – fernando@reinach.com

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