# Desinformação e falhas no SUS mantêm endemias no Estado

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- Published: 2009-06-07T22:15:39-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

### Desinformação e falhas no SUS mantêm endemias no Estado

 

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 * [Desinformação e falhas no SUS mantêm endemias no Estado](https://soropositivo.org/desinformacao-e-falhas-no-sus-mantem-endemias-no-estado-2/#desinformacao-e-falhas-no-sus-mantem-endemias-no-estado)
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Ellen Rodrigues – Repórter

O caminhoneiro Francisco de Assis Lobato, 67, internou-se pela segunda vez no Hospital
Giselda Trigueiro, com suspeita de leishmaniose tegumentar, doença conhecida como
ferida brava e comum no Norte do país. “Voltei do Pará em dezembro e, no início,
pensei ser um calo”, diz mostrando a úlcera causada possivelmente por um protozoário,
transmitido por picada de mosquito. “Lá eles tratam por si, põem óleo quente em 
cima”.

Na enfermaria ao lado estava um adolescente de 15 anos com suspeita de dengue, morador
de Lagoa Seca. A epidemia da doença no ano passado foi tema recorrente dos veículos
de comunicação, cujas notificações à Secretaria de Saúde Pública do Estado (Sesap)
somaram 42.523 casos.

Surtos da gripe aviária, da dengue e da gripe suína que atravessam fronteiras e 
não param de fazer vítimas, levantam a questão: por que os avanços da ciência e 
da tecnologia não foram capazes de banir doenças antigas, seculares?  As razões 
para as endemias continuarem entre os homens têm caráter social e econômico na opinião
do infectologista Kleber Luz.

Para ele, as endemias integram um grupo de doenças negligenciadas, sem  interesse
comercial ou “padrinhos” para financiar sua pesquisa. Isso significa que não recebem
investimento para que se encontre a cura ou vacina. “A AIDS e a hipertensão geram
lucros à indústria de remédios e independem da classe social para existir, enquanto
que para a dengue, típica de países pobres, não se encontra remédio à venda”.

Primeiro é importante diferenciar os conceitos de endemia e epidemia. De forma simplificada,
a endemia é uma doença habitual em uma população, com  nível de incidência dentro
dos limites convencionados.

A epidemia é mais pontual e se caracteriza pelo aumento anormal da doença entre 
um povo. A dengue, por exemplo, é uma endemia no Rio Grande do Norte, e no ano passado
ocorreu de forma epidêmica, porque acometeu mais pessoas do que o normal.

As endemias são comuns a populações pobres dos trópicos, mais acometidas pela dengue,
malária, leishmanioses, doença de Chagas e helmintoses. Por outro lado, Kléber destaca
que independente do investimento em pesquisas algumas doenças dificilmente serão
eliminadas. “O dengue e os parasitas são muito complexos, escapam das vacinas”.

No RN a Subcoordenadoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de 
Saúde Pública (Sesap) monitora quatro tipos de endemias, que tem casos notificados
compulsoriamente, antes da confirmação: dengue, doença de Chagas, leishmaniose visceral
e esquistossomose (calazar).

Esta última há quatro anos tem crescente presença no Estado – em 2009 já foram notificados
11 casos à Sesap – considerada surto em Mossoró. No Rio Grande do Norte a leishmaniose
mais comum é a visceral, transmitida pela picada do mosquito palha. Em 2008 a Secretaria
de Saúde Pública do Estado (Sesap) foi notificada de 46 casos, mas nem todos foram
confirmados.

Dengue tipo 3 é o mais preocupante

Há vários anos sem registro no Estado, a dengue tipo 3 é a que mais preocupa hoje
a Secretaria Municipal de Saúde de Natal. “No surto de 2008 constatamos só os tipos
1 e 2 nos infectados. Este último não aparecia há alguns anos”, diz a coordenadora
de Vigilância Sanitária da SMS, Cristiana Souto.

O tipo 3, segundo ela, deixou de aparecer nos exames laboratoriais desde o início
da década de 90. “Quem nasceu desse período em diante ainda não foi exposto à doença.
É difícil fazer previsões se ele vai aparecer ou não, porque só confirmamos os tipos
nos sangues colhidos até 72 horas depois dos sintomas, e as pessoas geralmente só
procuram o hospital depois desse período”.

 O bairro das Quintas é o que mais sofreu com a presença do mosquito Aedes aegypti
este ano, com 99 notificações de janeiro a abril, o que não significa que todos 
foram comprovados. Em seguida aparecem o Alecrim (53) e, empatados com 49 casos,
os bairros de Igapó e Lagoa Nova.

Até agora a situação, porém, não se mostra alarmante, uma vez que os números de 
2009 estão bem menores do que os registrados no mesmo período de 2008. De janeiro
a abril do ano passado a SMS registrou 6.616 casos da dengue clássica e 698 do tipo
hemorrágico, além de 07 mortes ocasionadas pela doença. Em 2009 foram 635 casos 
clássicos, 8 hemorrágicos e 5 mortes. “Houve redução de 98,% da dengue hemorrágica
e 90% do tipo clássico”, calcula Cristiana.

A dengue teve o primeiro caso presente em Natal no ano de 1996, quando foram notificados
1.339 doentes, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Desde então, a doença vem
apresentando um comportamento de surtos epidêmicos em anos alternados, com maior
incidência nos primeiros meses do ano. Na trajetória epidêmica, o ano de 2001 tem
um recorde de casos, com 19.221 notificados.

Indagado sobre os perigos da dengue este ano, Kléber esclarece que um novo surto
não deverá ocorrer. “Em 2008 esgotou a possibilidade de pessoas que poderiam ser
acometidas pela doença. O surto voltará a acontecer mas depende de um ciclo para
que a população adoeça de novo. Muita gente teve dengue e não sabe”.

Ameba acomete até 20% dos idosos

Além da malária e doença de Chagas, a amebíase é um dos protozoários que ocupam 
posição de destaque entre as principais endemias brasileiras. De 15% a 20% dos idosos
da capital potiguar possuem ameba, segundo mostra uma pesquisa realizada pelo infectologista
Kléber Luz, este ano. “É uma prevalência altíssima, e se deve possivelmente à falta
de higiene, serviço de água inadequada e manuseio indevido dos alimentos”.

Quando questionado sobre a falta de condições sanitárias adequadas e acesso à água
tratada pela população como fatores favoráveis à permanência das endemias, ele é
taxativo, e afirma que a mudança do comportamento de cada um é essencial para combate-
las.

“O problema não é a falta de educação, hoje todos têm acesso a informação, um pobre
tem celular e televisão em casa. O que falta é o esforço de cada um para  mudar 
as atitudes, independente da classe social em que se encontram”. Ele exemplifica
a frequente falta de costume de lavar as mãos antes das refeições ou mesmo de usar
o preservativo para evitar o contágio de doenças.

“As pessoas usam menos Camisinha do que a real necessidade. O poder público é a 
própria comunidade”, diz, e acrescenta que “O rico quando é acometido por uma endemia
vai à rede privada e se trata pelo plano de saúde, enquanto o pobre, que é maioria,
morre com maior frequência ou fica com sequelas, porque a assistência básica é precária”.

O infectologista faz  uma analogia das endemias com um bairro de periferia, que 
sofre com a violência diária, e um shopping center, onde só eventualmente ocorre
um assalto. “O problema do shopping tem mais repercussão do que as mortes no bairro
pobre. Por isso a demanda de solucioná-lo é maior pelo governo”.

Sesap monitora vetores mais frequentes no Estado

Em 2008 foram notificados à Sesap, 23 casos  da doença de Chagas, 73 de esquistossomose
e 144 de leishimaniose. “Além dessas endemias, também vigiamos 20 municípios onde
no passado houve casos de peste bubônica, transmitida pelo rato, entre outras doenças
que há anos não se constatam”, explica a subcoordenadora da Suvam, Aline Rocha.

Ela explica que a cada exame realizado nos ratos da área onde houve a peste, as 
pulgas que são os vetores da doença ainda são encontradas, daí o cuidado permanente.
Entre as cidades que a vigilância monitora estão Currais Novos, Martins e Maxaranguape.

Em relação à doença de Chagas, a vigilância observa as áreas endêmicas (casos registrados
com frequência) e com histórico do vetor em anos anteriores, bem como a esquistossomose.
Por fim, pela leishmaniose que segundo a Sesap é mais comum em áreas onde houve 
desmatamento.“Não podemos dizimar os seres vivos, o ideal é monitorar esses vetores
de forma que eles convivam no habitat natural sem interferir na vida humana”, acrescenta
a coordenadora do programa de Leishmaniose, Iraci Duarte.

PSF é importante para prevenir endemias

Sobre a implantação do Programa Saúde da Família (PSF) como medida para trabalhar
a prevenção de doenças entre as populações mais carentes, o infectologista Kléber
Luz diz que o modelo é uma boa alternativa para ajudar a combater as endemias. “
Porém, há municípios em que funciona, e em outros não”.

Na opinião do médico, no geral, a rede de atendimento em saúde hoje se encontra 
com estrutura deficiente no país. “Contamos com ótimos especialistas, mas faltam
insumos e uma boa gestão da saúde no país”.

Ele dá como exemplo a cólera, doença que foi surto no início dos anos 90 mas que
há anos nenhum caso foi confirmado. “Ela pode voltar e, se isso acontecer, a rede
não estará preparada para um surto da doença”, critica. “A Polícia Federal e os 
bombeiros, por exemplo, estão prontos permanentemente para combater uma problema
em sua área, mas a Saúde não”.

Ele acrescenta que além de faltar medicamentos, também falta espaço para a demanda
da população nos hospitais públicos. “O saneamento básico ajudaria muito, mas o 
que precisa com urgência é uma organização do sistema, monitoração de seus programas.
Hoje quem participa do programa da tratamento da AIDS recebe o remédio mas se toma
ou não, ninguém sabe”.

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## Tribuna do Norte

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NATAL

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10/MAIO/09

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 * [Desinformação e falhas no SUS mantêm endemias no Estado](https://soropositivo.org/desinformacao-e-falhas-no-sus-mantem-endemias-no-estado/)
 * [O mosquito anarquista](https://soropositivo.org/o-mosquito-anarquista/)
 * [País ainda tem falhas nos serviços anti-AIDS](https://soropositivo.org/pais-ainda-tem-falhas-nos-servicos-anti-aids/)

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