# Editorial  publicado em Agosto de 2000

- Link: https://soropositivo.org/editorial-publicado-em-agosto-de-2000/
- Published: 2009-06-09T08:01:34-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Bem vindo

Dia primeiro de dezembro de 2000 se “comemora” o dia mundial de luta contra a AIDS.

As emissoras de TV não falarão em outra coisa; idem as emissoras de rádio e os jornais.
Depois, o assunto cai, novamente, no esquecimento. Cantamos, neste dia, muitas vitórias.
Tvemos mesmo, com a participação ativa das comunidades e das Organizações não Governamenais,
muitas vitórias: Há mais remédios; os exames são mais precisos; as pesquisas em 
torno de vacinas já progrediram muito. O portador de HIV vive mais e com uma qualidade
de vida maior…

 Sou obrigado a não concordar com a qualidade de vida maior. Qualidade de vida 
de vida não é só estar bem de saúde, a custa de remédios. Qualidade de vida é acordar
de manhã e enfrentar um ônibus, metro ou trem e chegar ao trabalho, executar uma
função, sair para o almoço com os amigos e voltar para mais umas cinco horas de 
luta e, com isso, planejar o futuro. Qualidade de vida é não precisar esconder a
doença por medo de ser discriminado, é não precisar se esconder como um criminoso
só porque porta um vírus. Qualidade de vida é poder sonhar com um futuro melhor,
com uma casa própria, com casamento, vida familiar. E a base de tudo isso esta no
direito ao trabalho, aliado ao direito à saúde e a igualdade. Nossa vida não pode
permanecer resumida a caixas de remédios e exames de laboratório. Nossa vida não
pode ser vivida em órbita da doença ou da condição soropositiva. O perfil do portador
de HIV mudou; e mudou para melhor. Já não morremos com tanta freqüência. Já não 
somos internados tantas vezes, já não desenvolvemos a doença e, em verdade, estamos
fortes e saudáveis, aptos ao trabalho e a vida social.

 Houve um erro no inicio da epidemia: Ela foi atribuída a um grupo específico de
pessoas, cuja conduta a sociedade tem por habito reprovar sem conhecer. 

 Criaram – se expressões como peste gay, câncer gay, grupos de risco. Todas erradas,
mentirosas, discriminadoras. Todas estigmatizadoras. E ninguém desfaz este erro.
Todos agem como se nada tivesse ocorrido.

 A AIDS não é privilégio de uns poucos. O HIV é bem pouco seletivo na hora de “
escolher” seu hospedeiro. Brancos, negros, índios, heterossexuais, mulheres, crianças,
homossexuais, bissexuais, qualquer um. Qualquer um pode contrair HIV e, se não se
tratar, desenvolver AIDS. Mas a grande maioria, quando descobre, entra em tratamento,
recupera a saúde e tem condições de conduzir uma vida normal, como a de qualquer
pessoa. Mas isso nos é negado. Se um empregador descobre que tem um portador de 
HIV em seu quadro de funcionários, demite – o, sob qualquer pretexto, para se livrar
de problemas futuros, que são apenas teóricos.

 Isso porque o empregador não quer correr o risco de encarar sozinho todo o ônus
da eventual doença:
 Internações, licenças, ausências para controle, etc. Tudo isso
faz com que o portador de HIV seja considerado um funcionário, um trabalhador pouco
atraente. É preciso mudar isso, gerando estímulos fiscais a quem emprega o soropositivo.

 Desempregados, somos um ônus social. Ficamos dependendo do assistencialismo publico,
quase sempre precário, de nossas famílias, quase sempre de baixa renda, e nossa 
vida perde em qualidade e expectativa. Empregados, cuidamos melhor de nossa saúde,
consumimos mais, pagamos impostos e vivemos felizes, produtivos e independentes.

 A relação empregador/empregado_soropositivo/governo precisa mudar. Não adianta
criar um sem numero de leis que proíbam o empregador de demitir o soropositivo; 
ha leis e leis que proíbem um sem numero de coisas e elas continuam acontecendo,
mesmo proibidas. Ou uma lei que proíbe o trafico de drogas acabou com o trafico?
Ao contrário, ao invés de simplesmente “proteger” o portador de HIV, através de 
dispositivos legais, louváveis é claro, que punam a empresa e/ou pessoa que incorram
no crime de discriminação, é preciso estimular o empregador a manter, através de
beneficio fiscais, como ja disse, e pela criação de um banco de horas, o portador
de HIV saudável e apto ao trabalho em seu posto usual.

Feiras de artesanato, insisto, não resolvem nada. Nem todas as pessoas tem a habilidade
manual para isso ou se interessam por tal oficio. E toda pessoa tem o direito de
exercer a sua profissão, que aprendeu a desenvolver com méritos próprios e esforço,
muitas vezes, diuturno. A condição sorológica não desfaz estes méritos. A maneira
como o individuo “pegou” o vírus também não deve entrar na questão, pois não muda
para melhor ou pior a qualidade do profissional em questão. Deve, sempre, permanecer
a condição de ser humano, digno de respeito, não de dó, acima de qualquer coisa.

 Enquanto isso, a sociedade precisa ser conscientizada, pelos meios de comunicação,
sobre a segurança do convívio com o portador de HIV.

 A imprensa em geral deve isso à população, no seu mister de informar e esclarecer.
As campanhas de esclarecimento devem ser boladas por quem entenda do assunto, por
quem viva o assunto e por quem conheça a fundo o assunto.

 A visão social da AIDS é equivocada. NÃO morremos como moscas. E não transmitimos
a doença pelo ar, por aperto de mão ou contato social. A relação sexual precisa 
ser protegida; mas não é para evitar apenas AIDS. É para evitar sífilis, gonorréia,
hepatite, condiloma acuminado e uma miríade de DST´s que são tão ou mais perigosas
que a infecção por HIV. E mais, evita a gravidez indesejada ou, pior, a gravidez
adolescente.

> Um adendo feito a este editorial pelo próprio autor do editorial: Desde 2014/2015
> aproximadamente, sabe-se (científicamente provado e recomprovado exaustivas vezes)
> que a pessoa portadora de HIV ou doente de AIDS que esteja e tratamento antirretroviral
> há pelo menos seis meses com a carga viral indetectável não transmite o HIV. Além
> disso a profilaxia pós exposição e (PEP) e Profilaxia Pré Exposição (PrEP). E,
> embora ainda não tenha chegado com a devida intensidade há algo cujo acrônimo 
> no Inglês é TasP (Treatment as Prevention – Tratamento como Prevenção em tradução
> livre

 Esta visão social sobre a AIDs precisa ser acertada, corrigida. E só os meios 
de comunicação de massa, em parceria com as Organizações não Governamentais e o 
Governo tem condições de reparar este dano causado por eles mesmos e pela comunidade
científica, num momento em que muito pouca luz havia sobre o problema.

Você considera que a população esta devidamente esclarecida? [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/06/12/ger027.html).

Acha que eu estou exagerando? Que o preconceito não é tão grande assim? [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.zaz.com.br/istoe/vermelha/143902.htm)
e depois, [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/08/02/ger236.html)

Acredita que ninguém se arrisca mais? [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/10/08/ger710.html)

Sente – se segura porque vive uma “relação estável”?[ Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/09/01/ger986.html)
e chegará a conclusão que não está tão segura assim.

Depois procure na seção depoimentos pessoais as histórias de mulheres que contraíram
o vírus de seus maridos e que abrem seus corações aqui, no afã de que isso não se
repita…

A AIDS é um problema de todos, sem distinção possível de gênero ou “modo de vida”.
MAs já não é a sentença de morte ou a “vingança de de Deus”(…).

 E  é possível mudar estas coisas com conscientização e esclarecimento, informação
e boa vontade.

Temos uma excelente cobertura, no que tange a tratamentos, medicação e exames; pelo
menos por enquanto. Mas isso, por si só, não nos basta. Se podemos viver (e este
é um direito natural de cada pessoa) com saúde, podemos muito bem trabalhar para
o nosso próprio sustento e o de nossas famílias (somos pais e mães de família), 
sem que sejamos discriminados por nossa condição sorológica.

 De todos os sintomas da AIDS o pior deles ainda continua sendo, depois e 20 anos,
num mundo em que a maioria tem TV e acesso a Internet, o preconceito. Urge que isso
mude, e mude para melhor. [Cláudio](https://soropositivo.org/editorial-publicado-em-agosto-de-2000/cláudio@soropositivo.org),
e toda a [equipe da soropositivo](https://soropositivo.org/editorial-publicado-em-agosto-de-2000/soropositivo-owner@egroups.com)
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## Leia também

 * [1º de Dezembro Dia Mundial de Luta Contra a AIDS](https://soropositivo.org/1o-de-dezembro-dia-mundial-de-luta-contra-a-aids/)
 * [Primeiro editorial de soropositivo.org em primeiro de dezembro de 2000. O Início de tudo…](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/)
 * [Sobre o dia Primeiro de Dezembro](https://soropositivo.org/sobre-o-dia-primeiro-de-dezembro/)

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