# As pessoas vão viver cada vez mais tempo com câncer!

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- Published: 2011-07-11T13:03:10-03:00
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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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[⌊As pessoas vão viver cada vez ⌉⌊As pessoas vão viver cada vez ⌉[O ci­rur­gião 
Mur­ray Bren­nan é re­ferência mun­di­al no tra­ta­men­to de sar­co­mas dos te­ci­dos
mo­les. Au­tor de mais de 1.000 ar­ti­gos ci­entífi­cos, ele acre­di­ta que no fu­tu­ro
o câncer será uma do­ença crôni­ca, as­sim co­mo a hi­per­tensão!

Se­gun­do ele, as pes­so­as vão vi­ver ca­da vez mais tem­po com câncer, e mor­rer
me­nos por ca­sa de­le!

Na­ta­lia Cu­mi­na­le, de No­va York

Mur­ray Bren­nan, médi­co do Me­mo­ri­al Slo­an-Ket­te­ring Can­cer Cen­ter, No­va
York (Me­mo­ri­al Slo­an-Ket­te­ring Can­cer Cen­ter/Di­vul­gação)

Pen­sar em con­vi­ver com o câncer pa­ra o res­to da vi­da não pa­re­ce ser a so­lução
ide­al pa­ra quem está do­en­te. Ain­da mui­to as­so­ci­a­da à mor­te, a do­ença
en­vol­ve tra­ta­men­tos lon­gos, com sin­to­mas des­gas­tan­tes, além do fre­quen­te
me­do de uma re­ci­di­va. Se a cu­ra ain­da pa­re­ce dis­tan­te, é fa­to que com
a evo­lução dos me­di­ca­men­tos e da tec­no­lo­gia, o câncer está se tor­nan­do
uma do­ença ca­da vez mais tratável. Den­tro de al­guns anos, já será possível pen­sar
ne­le co­mo uma do­ença crôni­ca, uma espécie de hi­per­tensão. É is­so que pen­sa
Mur­ray Bren­nan, vi­ce-pre­si­den­te de pro­gra­mas in­ter­na­ci­o­nais do Me­mo­ri­al
Slo­an-Ket­te­ring Can­cer Cen­ter, um dos mai­o­res cen­tros on­cológi­cos dos 
Es­ta­dos Uni­dos, lo­ca­li­za­do em No­va York. “Não há uma ba­la mági­ca que se
dá aos pa­ci­en­tes pa­ra cu­rar to­dos os ti­pos de câncer. Mas te­mos vári­as 
ba­las efi­ca­zes”, com­ple­ta. Oti­mis­ta, o ci­rur­gião de­di­cou sua vi­da a 
es­tu­dar o câncer des­de a déca­da de 70. Ho­je, é re­ferência mun­di­al no tra­ta­men­to
de sar­co­mas dos te­ci­dos mo­les e as­si­nou mais de 1.000 ar­ti­gos ci­entífi­cos
du­ran­te a sua car­rei­ra.

Bren­nan tem uma re­lação es­pe­ci­al com o Bra­sil. Em 2007, veio ao país pa­ra
re­ti­rar o tu­mor ab­do­mi­nal do ex-vi­ce-pre­si­den­te José Alen­car, mor­to 
em março des­te ano. “Ele foi um ho­mem mui­to for­te e te­ve a sor­te de ter aces­so
à me­lhor as­sistência – no Bra­sil e du­as ve­zes aqui. O su­ces­so de­le está 
li­ga­do a dis­po­sição em ten­tar coi­sas”, diz Bren­nan, que atu­al­men­te co­or­de­na
par­ce­ri­as com vári­os hos­pi­tais em São Pau­lo. “O Bra­sil não per­ce­be a qua­li­da­de
dos seus médi­cos”. Leia a se­guir tre­chos da en­tre­vis­ta:

O se­nhor ope­rou o ex-vi­ce-pre­si­den­te José Alen­car, en­quan­to ele lu­ta­va
con­tra o câncer. Ain­da é co­mum re­ce­ber pes­so­as de ou­tros países? Nós re­ce­be­mos,
mas não são tan­tos co­mo an­ti­ga­men­te. Ago­ra, é mui­to co­mum con­ver­sar com
os médi­cos e eles di­zem: “Es­ta­mos fa­zen­do es­se tra­ta­men­to. O que você 
acha?”. Dez anos atrás, eu di­ria: “Eu fa­ria uma ci­rur­gia ou al­gu­ma coi­sa 
di­fe­ren­te”. Ago­ra, di­go: “É por es­se ca­mi­nho. Está cer­to”. Não há ne­ces­si­da­de
do pa­ci­en­te vir. Vocês têm uma as­sistência ex­ce­len­te no Bra­sil.

Co­mo os hos­pi­tais bra­si­lei­ros po­dem apren­der com o Me­mo­ri­al Slo­an-Ket­te­ring?
O Me­mo­ri­al está ati­va­men­te en­vol­vi­do em re­lações com o Hos­pi­tal Sírio-
Li­banês, Hos­pi­tal das Clíni­cas e o Ins­ti­tu­to do Câncer de São Pau­lo. Nes­se
in­tercâmbio, te­mos pes­so­as que vêm es­tu­dar co­nos­co e também man­da­mos pes­so­as
pa­ra tra­ba­lhar no Bra­sil. Vocês têm médi­cos ex­ce­len­tes e ma­ra­vi­lho­sos
pes­qui­sa­do­res. O fa­to é que o Bra­sil tem o mes­mo pro­ble­ma que nós te­mos
nos Es­ta­dos Uni­dos. Ape­sar de te­rem óti­mos médi­cos, eles ten­dem a fi­car
nas ci­da­des gran­des e não cos­tu­mam es­tar dis­poníveis em to­do o país. Vocês
têm es­tru­tu­ra em São Pau­lo, mas não no Pan­ta­nal – um fa­to que também ocor­re
nos EUA. Acho que o Bra­sil não per­ce­be a qua­li­da­de dos seus médi­cos. Mas 
é pre­ci­so deixá-los aju­dar o res­to do país.

O câncer ago­ra está no fo­co das políti­cas de saúde públi­ca e mui­tas pes­qui­sas
estão sen­do fei­tas pa­ra aju­dar na lu­ta con­tra ele. Sa­be­mos ain­da que o 
câncer dei­xou de ser uma do­ença de países ri­cos e que ago­ra está se tor­nan­do
mais fre­quen­te nas nações em de­sen­vol­vi­men­to. Co­mo li­dar com es­se pro­ble­ma
e quan­do será possível que a os países mais po­bres des­fru­tem das no­vas tec­no­lo­gi­as?
A Or­ga­ni­zação Mun­di­al da Saúde (OMS) está re­co­nhe­cen­do o câncer co­mo um
pro­ble­ma cres­cen­te em países em de­sen­vol­vi­men­to. Por um la­do, é as­sus­ta­dor.
Por ou­tro, nós te­mos a opor­tu­ni­da­de de en­vol­ver os países que estão com 
a eco­no­mia em as­censão pa­ra co­meçar a in­ves­tir em pre­venção. Então, te­mos
a opor­tu­ni­da­de de não só tra­tar, mas também de co­meçar a co­lo­car es­tratégi­as
pre­ven­ti­vas – as­sim co­mo foi fei­to com as do­enças in­fec­ci­o­sas. Em se­gun­do
lu­gar, está cla­ro que os países em de­sen­vol­vi­men­to não serão ca­pa­zes de
pro­por­ci­o­nar os me­di­ca­men­tos de al­ta tec­no­lo­gia que uti­li­za­mos nos
Es­ta­dos Uni­dos. Por is­so, pre­ci­sa­mos iden­ti­fi­car o que po­de ser fei­to
em um nível práti­co, em vez de que­rer que eles ten­tem che­gar aos níveis do que
te­mos na ci­da­de de No­va York, por ex­em­plo. É pre­ci­so ha­ver uma tran­sição.
To­do país po­de ter um equi­pa­men­to so­fis­ti­ca­do de ra­di­o­te­ra­pia. Então,
te­mos que pen­sar for­mas me­nos com­pli­ca­das de tra­tar o câncer que po­derão
ser apli­ca­das em países em de­sen­vol­vi­men­to.

Pa­rar de fu­mar, con­tro­lar o con­su­mo de be­bi­da al­coóli­ca, boa nu­trição
e a práti­ca de ati­vi­da­de físi­cas são as fórmu­las mais co­muns su­ge­ri­das
pa­ra evi­tar a do­ença. A mu­dança de hábi­tos é a úni­ca for­ma de pre­ve­nir 
o câncer? Nós sa­be­mos que pa­rar de fu­mar é a me­lhor for­ma. Con­tro­lar be­bi­das
e ter boa nu­trição são ati­tu­des im­por­tan­tes. A mo­de­ração na mai­o­ria dos
hábi­tos de vi­da é o ide­al. As pes­so­as que de­gus­tam bo­as co­mi­das ou que
to­mam uma taça de vi­nho ou uma cai­pi­ri­nha, oca­si­o­nal­men­te, não terão pro­ble­mas.
O pro­ble­ma é exa­ge­rar. A pa­la­vra é mo­de­ração.

O se­nhor pes­qui­sa e tra­ba­lha com câncer des­de a déca­da de 70. De­pois de 
to­do es­se tem­po, quais fo­ram os avanços mais re­le­van­tes até ago­ra? Po­deríamos
pas­sar ho­ras fa­lan­do so­bre is­so. Mas um dos prin­ci­pais avanços é o fa­to
de a ci­rur­gia ter se tor­na­do mui­to mais se­gu­ra. Saímos das ci­rur­gi­as ra­di­cais
que, em ge­ral, eram mui­to ex­ten­sas por­que não ha­via ou­tra opção de tra­ta­men­to
e pas­sa­mos a fa­zer ope­rações mais con­ser­va­do­ras, fo­ca­das na pre­ser­vação
da função e que evi­ta­vam a am­pu­tação. Es­sa tec­no­lo­gia ga­ran­tiu re­sul­ta­dos
me­lho­res, com me­nos mor­bi­da­de e me­nos efei­tos co­la­te­rais pa­ra o pa­ci­en­te.
O mes­mo ocor­reu com a ra­di­o­te­ra­pia e com os me­di­ca­men­tos on­cológi­cos.
An­tes, tínha­mos dro­gas que ma­ta­vam to­das as célu­las, in­clu­si­ve as saudáveis.
Ho­je, te­mos dro­gas que estão des­ti­na­das di­re­ta­men­te a uma célu­la es­pecífi­ca
de câncer. Ou se­ja, tu­do o que nós fi­ze­mos até ago­ra tor­nou o tra­ta­men­to
de câncer mais efi­caz, mais pre­ci­so, mui­to mais se­gu­ro e com me­nos efei­tos
co­la­te­rais.

O se­nhor acre­di­ta que é possível di­zer que a cu­ra do câncer será en­con­tra­da?
Sim. Mas a pri­mei­ra coi­sa que as pes­so­as pre­ci­sam en­ten­der é que o câncer
não é ape­nas uma do­ença – e sim vári­as do­enças. A se­gun­da é que a cu­ra não
é uma ba­la mági­ca que se dá aos pa­ci­en­tes pa­ra cu­rar to­dos os ti­pos de 
câncer. A cu­ra co­meça des­de ações pre­ven­ti­vas, co­mo pa­rar de fu­mar, até
tra­ta­men­tos di­fe­ren­tes pa­ra ti­pos de câncer es­pecífi­cos. Por­que nós apren­de­mos
que ca­da câncer é úni­co. O câncer é uma do­ença com vári­as for­mas e não há uma
ba­la mági­ca, mas exis­tem vári­as ba­las efi­ca­zes.

Mas hou­ve avanço no tra­ta­men­to de al­gum ti­po de câncer? Nós ti­ve­mos um pro­gres­so
in­crível em al­guns dos ti­pos ra­ros de câncer. Quan­do eu co­me­cei co­mo re­si­den­te,
to­da cri­ança com leu­ce­mia mor­ria. Ago­ra, 80% de­las so­bre­vi­vem. Então, 
nós pro­gre­di­mos. In­fe­liz­men­te, is­so ocor­reu mui­to mais nos ti­pos ra­ros
de câncer do que nos co­muns. Ti­ve­mos também um bom pro­gres­so com as do­enças
co­mo câncer de pulmão.

É co­mum en­con­trar pes­qui­sas ci­entífi­cas que mos­tram re­sul­ta­dos po­si­ti­vos
em va­ci­nas con­tra câncer em ra­tos. O se­nhor acre­di­ta que as va­ci­nas serão
pro­mis­so­ras no fu­tu­ro? Ve­jo que ago­ra, de­pois de tan­tos anos que es­ti­ve­mos
ten­tan­do de­sen­vol­ver va­ci­nas, apren­de­mos que al­gu­mas de­las fun­ci­o­nam
em um gru­po mui­to es­pecífi­co de tu­mo­res. Elas fun­ci­o­nam a par­tir das própri­as
célu­las dos pa­ci­en­tes, fa­zen­do com que elas fi­quem mais ati­vas, mais ca­pa­zes
de re­co­nhe­cer o câncer – as­sim co­mo quan­do o cor­po re­co­nhe­ce uma bactéria.
Acho que es­se ti­po de va­ci­na é mais provável dar cer­to.

Mas não ha­verá uma va­ci­na pa­ra pre­ve­nir o câncer? Du­ran­te 30 anos, as va­ci­nas
fo­ram mui­to de­cep­ci­o­nan­tes. Acre­di­to que as chan­ces de elas se­rem uti­li­za­das
co­mo uma úni­ca res­pos­ta con­tra o câncer são mui­to pe­que­nas. Em al­gu­mas
si­tuações es­pecífi­cas, está cla­ro que as va­ci­nas adi­ci­o­nam a ou­tros tra­ta­men­tos.
Elas po­dem ser úteis por fa­zer com que o sis­te­ma imu­nológi­co dos pa­ci­en­tes
fi­que mais ati­vo ao mes­mo tem­po em que eles são tra­ta­dos com ou­tras dro­gas.
Acho que es­sa é uma abor­da­gem possível.

As últi­mas pes­qui­sas estão le­van­do a um tra­ta­men­to mais in­di­vi­du­a­li­za­do.
Ou se­ja, al­guns ti­pos de dro­ga fun­ci­o­nam pa­ra um gru­po es­pecífi­co de 
pa­ci­en­tes. O se­nhor acre­di­ta que es­te é o ca­mi­nho cer­to? Fre­quen­te­men­te,
al­gu­mas dro­gas são apro­va­das quan­do os be­nefíci­os são mui­to pe­que­nos.
Te­nho es­pe­ranças que va­mos en­con­trar uma for­ma de fu­gir dis­so. Pre­ci­sa­mos
pa­rar de bus­car uma dro­ga pa­ra ser uti­li­za­da con­tra vári­os ti­pos de câncer,
com um pe­que­no be­ne­fi­cio, pa­ra en­con­trar dro­gas in­di­vi­du­ais, mas que
te­nham um gran­de be­nefício. Ob­vi­a­men­te, a indústria far­macêuti­ca gos­ta­ria
de uma dro­ga que fun­ci­o­nas­se pa­ra to­dos. No en­tan­to, não é as­sim que acon­te­ce
e não é o jei­to cer­to de fa­zer as coi­sas. In­fe­liz­men­te, o que se vê é que
nem sem­pre usam as me­lho­res dro­gas pa­ra os tra­ta­men­tos. É o ca­so do Avas­tin,
que fi­nal­men­te foi con­train­di­ca­do pa­ra o tra­ta­men­to de câncer de ma­ma
pe­la (agência re­gu­la­do­ra ame­ri­ca­na) FDA. Mui­tas pes­so­as re­ce­be­ram 
es­se me­di­ca­men­to e não ti­ve­ram ne­nhum be­nefício. Nós pre­ci­sa­mos es­ca­par
dis­so.

Quais são os prin­ci­pais de­sa­fi­os na pes­qui­sa do câncer? O de­sa­fio, de uma
ma­nei­ra ge­ral, é que nós va­mos ver mais pa­ci­en­tes com câncer. As pes­so­as
não estão mor­ren­do por do­enças in­fec­ci­o­sas ou do­enças cardíacas, elas estão
mor­ren­do de ve­lhi­ce. Nes­se sen­ti­do, a in­cidência de câncer au­men­ta jun­to
com o mai­or núme­ro de pes­so­as en­ve­lhe­cen­do. Então, a pri­mei­ra coi­sa que
pre­ci­sa­mos re­co­nhe­cer é que va­mos co­meçar a ver mais ido­sos com câncer.
Pro­va­vel­men­te, va­mos cu­rar mais pes­so­as que cu­ra­mos atu­al­men­te, mas
te­re­mos mais pes­so­as vi­ven­do com o câncer. A se­gun­da coi­sa é que es­ta­mos
co­meçan­do a pen­sar di­fe­ren­te. Pen­sar no câncer co­mo uma do­ença crôni­ca,
em vez de pen­sar ne­le co­mo uma do­ença fa­tal. An­tes de cu­rar­mos o câncer,
va­mos con­se­guir con­trolá-lo. As­sim co­mo fa­ze­mos com a **AIDS**, hi­per­tensão
ou qual­quer do­ença crôni­ca. As pes­so­as vão vi­ver ca­da vez mais tem­po com
o câncer. E vão mor­rer ca­da vez me­nos por cau­sa de­le.

**VE­JA ON­LI­NE | **

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