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- Published: 2010-01-25T12:47:52-02:00
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O HOMOSSEXUAL extrovertido do BBB cria um novo espaço de tolerância às minorias 
na TV

Nelito Fernandes

 

 

Nasce uma “estguela”. De língua presa e franga solta, o drag queen Dicesar, que 
troca o “r” pelo “g”, trocou também o preconceito pela simpatia e está quebrando
tabus na TV brasileira. Nesta décima edição do Big Brother Brasil, 17,5% de seus
participantes são gays assumidos, em comparação a uma velha estimativa de 10% da
população em geral. O programa já teve todo tipo de gays: dos enrustidos aos de 
identidade masculina, como Jean, vencedor de uma das edições. Mas, desta vez, o 
armário está escancarado.

 

 

E de lá saíram dois homossexuais festivos, que se autodenominam “bibas”, e uma LÉSBICA,
Angélica. Reunidos no grupo de “coloridos”, trouxeram o mundo gay para um dos programas
de maior audiência da TV brasileira e, diante das câmeras, já trocaram até um selinho,
aquele mesmo que nunca foi ao ar na novela das 9. O big brother Biba é uma loucura!
Ou loucuga, como diria Dicesar.

 

 

Na edição de terça-feira, o BBB fez pela aceitação das minorias sexuais muito mais
do que milhares de artigos acadêmicos em defesa dos direitos dos homossexuais. Ao
comentar sem rodeios a participação dos gays, o apresentador Pedro Bial usou de 
forma simpática o termo “bichice” e perguntou por que a sigla GLS (Gays, Lésbicas
e Simpatizantes) mudou para GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros):“
E os simpatizantes?”. Elenita, professora de linguística que mantém uma comunidade
simpática a gays no Orkut, explicou: “Não tem mais simpatizante (na sigla) porque
todo mundo tem de ser simpatizante. Os gays têm de ter direitos iguais a todo mundo”.
Os big brothers aplaudiram. Em seguida, foi exibido um clipe com os homens sarados
da casa usando roupas gays, dançando como gays e imitando gays. “A televisão brasileira
tem uma dívida com a cidadania gay, que está sendo resgatada. Pela primeira vez,
estão sendo mostrados gays reais e felizes, sem aquela carga problemática e contida”,
disse Cláudio Nascimento, do grupo Arco Íris.

 

 

Na semana retrasada, Dicesar e Sérgio, outro gay assumido, deram um selinho durante
uma festa na casa. E assim, do nada também, foi-se um tabu. Dramaturgos, durante
anos, tentaram fazer personagens gays se beijar. A má repercussão conservadora acabava
adiando a cena. “E não é que o Boninho (diretor do programa) promoveu o primeiro
selinho gay? Aquele que eu não pude mostrar. Valeu, Boninho”, escreveu a autora 
Glória Perez em seu Twitter, referindo-se ao beijo entre os personagens de Bruno
Gagliasso e Erom Cordeiro que ficou de fora da novela América. “A presença de homossexuais
na TV brasileira não é novidade”, diz Bial. “Inovadora talvez seja a naturalidade
com que estamos lidando com o assunto, potencialmente explosivo, com extremistas
em todo canto.”

 

 

Paranaense de 44 anos, Dicesar Ferreira dos Santos mora em São Paulo desde os 22.
Durante o dia, ele é maquiador num salão de cabeleireiros; à noite, se apresenta
em boates como Dimmy Kier, alter ego de enorme peruca ruiva, longos cílios postiços,
sobrancelhas pintadas em formato “cara de má” e jeitão de cantora de banda punk.
O drag queen teve uma infância difícil. Seu pai, que era dono de um cartório em 
Sertanópolis, no interior do Paraná, faliu por causa de dívidas em jogos de azar.
Sem dinheiro e com credores em seu calcanhar, ele abandonou a mãe de Dicesar com
os três filhos. Ela não tinha como sustentar as crianças e acabou deixando Dicesar
num orfanato aos 8 meses de idade. O garoto virou a atração do lugar. Dançava para
as freiras, fazia imitação de cantoras e chamava a atenção dos interessados em adotar
crianças por sua alegria. “Um casal de estrangeiros quis levá-lo, mas eu não deixei.
Era pobre, mas sabia que ia conseguir um dia criar meus filhos”, disse a mãe. Ele
ficou lá até os 7 anos, com um irmão, até que sua mãe finalmente pudesse levá-lo
de volta para casa. Aos 13 anos, quando trabalhava como entregador de farmácia, 
Dicesar soube que seu pai fora assassinado.

 

 

O trabalho como transformista serve para complementar o trabalho com maquiagem que
começou por acaso. Maquiador de vários travestis de São Paulo, foi convidado em 
2001 a participar do programa de Jô Soares. Com o sucesso da entrevista, Dicesar
resolveu fazer shows “montado”, como diz. “Até aquela hora eu era a bichinha da 
família, depois de aparecer na TV virei artista.” Nas boates, além de fazer dublagem
de músicas famosas, Dimmy também canta seus “hits”. Em geral, são músicas dance 
em que ele fala algumas frases com a famosa língua presa. “Podegooosa”, grita ele,“
magavilhosa”, “toda fina, joga glitter e ilumina!”. Na noite, é considerado “top
drag”, cujo cachê pode chegar a R$ 500 por noite.

 

 

Quando soube que tinha sido escolhido para participar do BBB, Dicesar anunciou que,
se ganhar, comprará uma casa para a mãe e sairá da noite. “Tirando a peruca, sou
uma pessoa normal como todo mundo”, diz. Essa talvez seja sua maior conquista. Mostrar
aos espectadores que os diferentes são iguais e, assim, quebrar as resistências 
e o preconceito. “Você vai sair daqui 5% enveadado”, disse Dicesar a seu único desafeto
na casa, o lutador Dourado, que usa um samurai nazista tatuado no braço. Dourado,
que diz participar do “orgulho hétero”, duvidou. Mas, depois deste BBB, é certo 
que o Brasil sairá um pouco mais gay. Ou, no mínimo, menos antigay.

 

                                                                           

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 * [Ainda Homofibia – “Está TUDO bem”](https://soropositivo.org/)
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