# Entrevista Luisa Lina Villa

- Link: https://soropositivo.org/entrevista-luisa-lina-villa/
- Published: 2010-02-06T16:03:19-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

** **No comando de instituto criado para aprofundar pesquisas sobre o vírus, cientista
alerta para a alta incidência entre os brasileiros

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 * [CORREIO BRAZILIENSE-DF ](https://soropositivo.org/entrevista-luisa-lina-villa/#correio-braziliensedf%c2%a0)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/entrevista-luisa-lina-villa/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/entrevista-luisa-lina-villa/#relacionado)

 

O papilomavirus humano (HPV) é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns
em todo o mundo. No Brasil, o Ministério da Saúde registra cerca de 140 mil novos
casos de infecção a cada ano, o que coloca o país entre os líderes mundiais em incidência
do mal. Uma a cada cinco brasileiras é portadora de pelo menos um dos diversos tipos
de vírus da família Papilomaviridae. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS)
revelam que o HPV é responsável por 90% dos casos de câncer de colo de útero e responde
pela segunda maior causa de mortalidade feminina por tumores malígnos no planeta.
Para somar forças no enfrentamento ao problema, grupos de pesquisadores ligados 
a instituições que já desenvolviam estudos sobre o assunto se uniram para formar
o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do HPV (Inct-HPV), em São Paulo. O 
centro é coordenado por Luisa Lina Villa, cientista que há 25 anos se dedica a patologias
associadas ao vírus.

 

 

Em entrevista ao Correio, a pesquisadora explica que o instituto agrega equipes 
que se debruçam em pesquisas básica e clínica (com testes em pessoas) sobre o tema.
Um dos objetivos é capacitar recursos humanos nos mais diversos níveis. O Inct-HPV
também contribuirá para expandir a capacidade de implementação de protocolos e recomendações
para o diagnóstico e tratamento das patologias causadas pelo vírus.

 

 

Diretora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, Luisa Lina Villa atuou 
como coordenadora dos estudos clínicos envolvendo a vacina contra os tipos 6, 11,
16 e 18 do HPV, disponível no Brasil desde 2007. É também professora da Faculdade
de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. A sede do Inct-HPV será inaugurada
até o fim de 2010, mas uma rede de pesquisadores já está na ativa. O instituto será
financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e 
pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

 

Esforços contra o HPV

 

 

Qual a proposta do Inct-HPV e como ele está funcionando?

 

Fisicamente, o instituto funcionará em um prédio da Santa Casa de Misericórdia de
São Paulo que já está em reforma. Desde 2009, no entanto, pesquisadores envolvidos
nos estudos sobre o vírus em instituições da capital paulista, do interior de São
Paulo e de outras partes do país trocam conhecimento pelo meio virtual. Na verdade,
o instituto foi criado para reunir e multiplicar esse trabalho. Faço parte de uma
equipe que se dedica ao estudo do HPV há mais de 25 anos. Temos longa experiência
na biologia, epidemiologia e, mais recentemente, na colaboração para o desenvolvimento
de vacinas contra esse vírus. A meta é aprofundar as pesquisas básica e clínica,
trazer novidades e transferir o conhecimento para outros cientistas, profissionais
de saúde e sociedade em geral. Por isso, queremos, além de pesquisar, educar e formar
novos pesquisadores e profissionais da saúde.

 

 

O objetivo, então, é implantar um centro de referência?

 

Essa será uma consequência. Se atingirmos as metas de pesquisas, de transferência
de educação e tecnologia nos mais diferentes níveis e de divulgação desses estudos
nacional e internacionalmente, nos tornaremos referência sim. Nossa intenção é unir
esforços. Já temos uma base sólida de trabalho, que inclui estudos em epidemiologia
e biologia dos HPVs (capacidade de transformação celular e aspectos imunológicos
das infecções e doenças causadas pelo vírus) e que nos dá certeza de estarmos no
caminho certo. Isso permitirá a divulgação para a população e para os profissionais
da saúde.

 

 

E em relação ao diagnóstico?

 

Esse é outro passo importante. Vamos estudar novas estratégias para o rastreamento
do câncer de colo de útero, que afeta mais de 20 mil mulheres a cada ano no Brasil.
A metade delas morre porque são diagnosticadas tardiamente. Uma das propostas é 
modernizar, desenvolver tecnologias e métodos que, ao lado do papanicolau ou mesmo
em substituição a ele, rastrearão e identificarão melhor as mulheres nas quais a
intervenção médica deve ser feita com urgência. Esse é um projeto fundamental para
nosso grupo. Se ele for bem-sucedido, reduziremos as taxas de mortalidade resultantes
do câncer de colo de útero em alguns anos.

 

 

Como será feita a formação de novos profissionais?

 

Ofertaremos cursos em todos os níveis. Os de graduação já são oferecidos pelo programa
da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa a estudantes de medicina que escolheram
desenvolver trabalhos sobre o HPV. Para a pós-graduação, criamos uma linha que envolve
várias vertentes do HPV e das doenças causadas por esse vírus. Cursos de especialização
serão disponibilizados ainda em 2010. Já transmitimos conhecimento científico para
instituições paulistanas e de outros estados por meio da telemedicina.

 

 

O Brasil tem profissionais capacitados para desenvolver esse tipo de trabalho?

 

Sem dúvida nenhuma. Modéstia à parte, o Instituto Ludwig formou nos últimos anos
pelo menos 20 novos pesquisadores que atuam em instituições de São Paulo e do resto
do país. Existem cientistas formados em centros fora da capital paulista que se 
dedicam ao assunto também. São pessoas capacitadas e competentes para trabalhar 
nessa questão tão urgente. O Brasil contribui cientificamente de forma importante
para a literatura internacional nessa área. Já somos reconhecidos por isso, mas 
a nossa preocupação é ampliar a formação de recursos humanos de alto nível para 
alcançar e atender toda a população do país.

 

 

Qual é a situação do país em relação ao HPV?

 

Apesar do esforço desses profissionais, o Brasil revela uma frequência elevada de
infecções e, sobretudo, das doenças causadas pelo HPV. O câncer de colo de útero
é sempre um exemplo porque temos uma série de falhas em seu rastreamento. A maioria
das mulheres não faz o exame do papanicolau, método tradicional para identificar
prematuramente alguma alteração que poderá resultar em tumores malignos. Essa lacuna
promove índices altos desse câncer. Embora atualmente exista uma melhor condição
socioeconômica, a situação só não é mais preocupante do que a vivenciada nas nações
africanas e no Haiti. No Brasil, excluindo os tumores de pele, o câncer de colo 
do útero é o segundo em incidência entre as mulheres. Perde apenas para o de mama.
Em países desenvolvidos, ele fica em sexto ou sétimo lugar. É um problema de saúde
pública. A vacina ainda não é ofertada pelo sistema público de saúde. É um medicamento
caro e disponível apenas em laboratórios e hospitais particulares.

 

 

Como seria possível impedir a transmissão do HPV?

 

Já podemos evitar a transmissão primária, isto é, impedir a infecção que causa as
doenças. A vacina profilática é eficaz quando aplicada em jovens que estão no início
da atividade sexual. Para se ter uma ideia, a eficácia da vacina para prevenir os
quatro tipos principais HPV -aqueles que causam 70% do total de cânceres de colo
de útero e 90% da verrugas genitais – é de 99% a 100%. Estamos falando de uma proteção
elevadíssima para uma vacina tão nova. Estudos que sugerem uma durabilidade de sete
a nove anos de proteção. São resultados extremamente animadores. Mas não devemos
esquecer que os métodos de prevenção tradicionais, como o uso da **CAMISINHA** em
qualquer relação sexual, podem contribuir para a não propagação do HPV. Porém, com
restrições. Diferentemente do HIV, o HPV também se manifesta fora da região protegida
pelo PRESERVATIVO e o contágio pode acontecer mesmo com o PRESERVATIVO. Quanto maior
a quantidade de parceiros sexuais, maior o risco. Isso é fato.

 

 

Além do câncer de colo de útero e de pênis, quais as outras doenças provocadas pelo
HPV?

 

Várias. Os HPVs de alto risco oncogênico causam tumores no pênis, na vulva, na vagina
e no ânus, tanto nas mucosas como na pele. O câncer anal masculino e feminino em
80% dos casos está associado ao HPV desse tipo. Tumores orais, de amídala também
são causados pelos vírus HPV. Existem relatos também em esôfago e outras localizações.
Embora raro, verrugas que atingem a região da laringe e das cordas vocais (papilomatose
laríngea) acometem alguns jovens. O tratamento é extremamente penoso, a remoção 
é feita com inúmeras cirurgias. No Brasil, há a ocorrência de tumores de laringe
com características diferentes dos estudados em outras partes do mundo. Temos interesse
em explorar essas diferenças para entender qual é o papel dos HPVs nesse tipo de
doença e quais são os principais fatores de risco.

 

 

O alto custo é o único fator que impede a aquisição da vacina

 

pelo governo federal?

 

Não. Ele é um empecilho forte, sem dúvida. Mas existem algumas questões, que inclusive
já estão sendo avaliadas, que dizem respeito à melhor forma de recomendar e implementar
essa vacina no país. O governo brasileiro já reconheceu a importância da vacina 
e isso é um passo importante.

 

 

Quais os principais desafios dos pesquisadores ligados ao estudo do HPV aqui no 
Brasil?

 

Precisamos auxiliar no diagnóstico adequado dessas infecções e das doenças envolvidas
com o HPV, disseminar o conhecimento para os profissionais da saúde que fazem o 
atendimento à população. Infelizmente, ainda existem crenças e informações sem nenhuma
comprovação científica que provocam estragos horrorosos. Ao suspeitarem de infecções
provocadas pelo HPV, alguns médicos optam por cirurgias ampliadas em mulheres e 
homens jovens que ainda não têm o câncer. Por não compreenderem adequadamente, substâncias
cáusticas são utilizadas. Entre a população, ainda há uma grande confusão também.
As pessoas não sabem o que é HPV, muitos o confundem com o HIV e uma série de informações
equivocadas são disseminadas. Desejamos dar acesso à informação precisa. Isso não
é fácil.

 

 

O instituto também vai trabalhar os aspectos imunológicos?

 

Na imunologia, temos grande interesse em ampliar os estudos para buscar uma classificação
adequada das respostas ao HPV. Mais especificamente, queremos saber quais são as
falhas que podemos identificar no sistema imune e que promovem a persistência das
infecções e o aparecimento de doenças. Em paralelo, estamos acumulando uma série
de dados que permitirão definir marcadores tumorais, a fim de localizar as mulheres
que, uma vez infectadas, terão êxito em se livrar da doença. Alguns marcadores são
usados com sucesso em clínicas privadas de diagnóstico. O Inct-HPV quer promover
isso para usuárias do sistema público de saúde.

 

 

O Inct-HPV promoverá intercâmbio com pesquisadores de outros países?

 

Definitivamente. Nós já temos um time de consultores estrangeiros que atuam em outras
nações e contribuem com a gente. Essa troca de conhecimentos é importante para os
estudos, para o avanço das pesquisas. Novas linhas de colaboração serão abertas 
quando a sede estiver pronta.

 

 

 

 

 

No Brasil, excluindo os tumores de pele, o câncer de colo do útero é o segundo em
incidência entre as mulheres. Perde apenas para o de mama. Em países desenvolvidos,
ele fica em sexto ou sétimo lugar”

 

 

 

 

Diferentemente do HIV, o HPV também se manifesta fora da região protegida pelo PRESERVATIVO
e o contágio pode acontecer mesmo com o PRESERVATIVO”

 

 

Ouça trecho da entrevista

 

 

leia perfil de Luisa Lina Villa e confira outras informações sobre HPV

 

 

 

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**06/FEVEREIRO/2010**

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