# Filhos da AIDS

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- Published: 2009-06-19T22:51:00-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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 * [O Globo](https://soropositivo.org/en/filhos-da-aids/#o-globo)
 * [Sobrevivendo ao HIV](https://soropositivo.org/en/filhos-da-aids/#sobrevivendo-ao-hiv)
 * [Diogo, 17 anos](https://soropositivo.org/en/filhos-da-aids/#diogo-17-anos)
 * [Karina, 19 anos](https://soropositivo.org/en/filhos-da-aids/#karina-19-anos)
 * [Júlia, 15 anos](https://soropositivo.org/en/filhos-da-aids/#julia-15-anos)
 * [Felipe, 20 anos](https://soropositivo.org/en/filhos-da-aids/#felipe-20-anos)
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Dia / Mês/Ano:

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Capa/Megazine

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27/NOVEMBRO/07

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Geração que herdou HIV dos pais conta como convive com o vírus e faz planos para
o futuro

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"Sou vítima da doença como milhões de outras pessoas, inclusive meus pais biológicos.
Ninguém tem culpa"

Alessandro Soler » asoler@oglobo.com.br

A fase mais explosiva da epidemia de Aids, que assombrou o mundo entre o fim dos
anos 80 e a primeira metade da década seguinte, deixou herança. Uma geração de filhos
de portadores do HIV infectada naquela época, quando ainda eram desconhecidos medicamentos
e práticas capazes de evitar a transmissão de mãe para filho, hoje tenta levar uma
vida normal. Em meio a planos e sonhos de longo prazo — algo impensável antes do
surgimento das drogas anti-retrovirais, em 1995 —, eles enfrentam o preconceito 
da sociedade, os transtornos inerentes ao tratamento e, muitas vezes, a cíclica 
debilidade física.

Esses jovens portadores não viveram a barra pesada da luta do cantor e compositor
Cazuza pela vida, até sucumbir em julho de 1990. A exploração midiática sensacionalista
da doença do cantor, ícone entre tantas personalidades mortas em decorrência da 
Aids, deixou marcas no imaginário popular que ainda perduram.

Um dos episódios mais emblemáticos de então foi a publicação de uma foto dele extremamente
magro e abatido na capa de uma revista. Nos dizeres da publicação, o cantor agonizava“
em praça pública”.

Para quem não viveu ou não se lembra de nada daquilo, ocultar o rosto nesta reportagem
da Megazine, 17 anos depois, parece estranho. — Não sou criminosa, não faz sentido
eu me esconder.

Sou uma vítima dessa doença como milhões de outras pessoas, inclusive meus pais 
biológicos. Ninguém tem culpa. É preciso acabar com essa porcaria de discriminação—
aborreceu-se Júlia(*), 15 anos, ao não ter autorização da mãe adotiva para mostrar
o rosto.

A fim de evitar a exposição dos demais jovens portadores do HIV que aparecem na 
reportagem — dois deles menores, os outros três com idades entre 19 e 24 anos —,
a Megazine optou por não mostrar o rosto de ninguém. Para a psicóloga Leila Chagas
Francia, coordenadora de reuniões de adolescentes e jovens adultos no Grupo Pela
Vidda de Niterói, por mais que essa geração tenha coragem, o preconceito da sociedade
ainda é grande: — As pessoas não perdoam.

Já fragilizados diante de uma doença sem cura, os portadores são humilhados e discriminados.
As histórias que ouvimos nas reuniões são desanimadoras. A quatro dias do Dia Mundial
de Luta Contra a Aids, o Ministério da Saúde se prepara para lançar sua tradicional
campanha, tendo este ano como foco os jovens. Embora, desde o início da década, 
a faixa etária na qual se verificam mais casos de Aids seja a de 40 a 49 anos , 
é provavelmente na juventude que a maioria contrai o HIV.

— Há estimativas de que, em média, 50% das pessoas permanecerão assintomáticas por
pelo menos dez anos. Por isso, a geração jovem livre de Aids é alvo da atual campanha.

Livrando-os do vírus queremos evitar mais casos de Aids daqui a muitos anos — afirma
Mariângela Simão, coordenadora do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério 
da Saúde.

Segundo Mariângela, a análise de pesquisas qualitativas conduzidas ao longo de duas
décadas revela uma postura contraditória dos jovens. Se, com o surgimento da classe
de medicamentos anti-retrovirais, muitos relaxaram no cuidado, na suposição de que
a epidemia está controlada, por outro lado, o grupo de 13 a 24 anos é o que mais
usa camisinha.

— Em 1986, 9% dos jovens usavam preservativo na primeira relação. Em 2006, 68% usavam.
Isso exemplifica a adoção do preservativo em relações eventuais, o que, muitas vezes,
o adulto não faz. Agora, quem parou de se cuidar deve se lembrar de que não há cura.
O tratamento é cheio de efeitos colaterais — disse Mariângela. — Sou mãe de adolescentes,
posso dar a eles muitos conselhos. Mas a decisão sobre usar camisinha é só deles.

 

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Aos 5 anos, ele foi submetido ao teste de detecção do vírus da Aids. A internação
por pneumonia da irmã mais velha, Karina, então com 8, deu o sinal aos médicos. 
Diogo só viria a saber por que tinha de tomar tantos remédios diariamente dois anos
depois, “quando já tinha idade para entender”.

— Nunca me revoltei. Acho que o fato de ter crescido com o vírus foi importante 
para eu entender melhor a doença — pondera o rapaz, que está no segundo ano do ensino
médio e quer cursar engenharia da computação.

Depois de perder os pais muito menino, viveu por anos na Sociedade Viva Cazuza, 
dirigida por Lucinha Araújo, mãe do cantor. Desde que saiu de lá, há três anos, 
esteve sob a tutela de duas tias. Ainda sem experiências sexuais, Diogo, como qualquer
adolescente, costuma ficar com meninas com regularidade. Nunca teve nada sério, 
por isso considera-se desobrigado de contar a elas sobre a presença do vírus em 
seu sangue: — É algo íntimo, não tenho que dizer. Sei que não expus as meninas com
quem fiquei. Quando tiver uma namorada, não sei o que farei.

Ao contrário da irmã, ele não experimentou tantas combinações de medicamentos e 
tem se adaptado razoavelmente bem ao tratamento. Mas se vê privado de coisas a que
jovens saudáveis não costumam prestar muita atenção: — O álcool deprime o sistema
imunológico, não é recomendável. Tenho que ter uma vida regrada, tomar medicação
no horário certo. Já me esqueci algumas poucas vezes. Hoje existe mais perspectiva,
mas eu sou consciente de que não há cura. Acho que vou viver por muitos anos, ter
família, carreira. Mas tudo é incerto.

### 

 

Ela nasceu sem o vírus, mas, nos meses seguintes, o contraiu ao ser amamentada pela
mãe recém-contaminada. Aos 3 anos, teve uma parada cardiorrespiratória que a levou
ao hospital, onde foi constatada a doença. Irmã de Diogo, enfrentou ao lado dele
e das tias a perda dos pais — primeiro a mãe, em 1995; e o pai, três anos depois.

Como o irmão, passou anos na Sociedade Viva Cazuza antes de ir morar com uma tia
que a “tratava de um modo estranho”. — Ela brigava comigo e me jogava na cara que
eu tenho o vírus. Na escola, fui vítima de preconceito várias vezes. Até os psicólogos
achavam que eu não ia viver muito. Houve um colégio que não quis me aceitar ao ver
que o cheque do pagamento era da Viva Cazuza. Mas eu não me abati, continuei estudando
e, hoje, estou no segundo ano. Quero ser chef de cozinha.

Karina sofre ao se lembrar dos xingamentos que já ouviu de vizinhos e colegas de
colégio. A enfermeira de um hospital público de Niterói, onde ela já foi internada,
uma vez lhe perguntou, à queima-roupa: “por que você se trata? Todo aidético vai
acabar morrendo mesmo.” — Já fiquei com alguns meninos, mas até agora não tive nada
sério. Tenho medo de me entregar, muitas coisas passam pela minha cabeça. Não quero
sofrer. Acho que a rejeição é a coisa mais triste que poderia me acontecer.

El
 a já optou por diferentes esquemas de medicação. O vírus tem criado resistência
a cada um. Periodicamente, Karina tem baixas na imunidade, o que a faz ser internada
com freqüência. Recentemente, foi obrigada a trocar os medicamentos mais uma vez.
O novo esquema permitiu que seu sistema imunológico, então debilitado, reagisse 
a uma doença pulmonar não detectada.

Dois dias depois de conversar com a Megazine, ela foi levada para o Hospital dos
Servidores do Estado, no Centro do Rio, com água pleural. O quadro poderia evoluir
para pneumonia.

— Eu tenho o hábito de repetir para mim mesma que sou normal, tenho uma vida normal.
Mas, imagine, a saúde é uma preocupação constante, excessiva. É difícil viver assim—
conclui.

 

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A pobreza da família de Júlia foi um complicador extra na aurora da vida desta adolescente
esperta e decidida. Já doente, a mãe foi embora sem deixar pistas pouco tempo depois
de parir. O pai morreu quando ela tinha 1 ano.

— Antes de sumir, minha mãe me trancou no quartinho onde ela vivia, sem comida nem
água. Provavelmente queria que eu morresse, talvez não acreditasse que um bebê com
HIV pudesse durar tanto. Mas eu estou aqui — diz, em tom desafiador.

Ela vive desde então com um casal que, sensibilizado com sua história dramática,
sempre procurou lhe dar conforto e amor.

Durante uma briga entre uma vizinha e a mãe adotiva, a rua toda onde mora, em Niterói,
ficou sabendo da sua condição: — A vizinha gritou que eu era “aidética”, essa palavra
horrível que machuca.

Alguns vizinhos fizeram comentários maldosos, mas eu me imponho. Sou brigona, não
levo desaforo para casa. Na escola, também todos sempre souberam. Já até dei palestra
sobre o tema numa aula. Uma menina, dias atrás, me chamou de doente. Não me contive
e bati nela.

Ela diz não sentir vergonha de admitir para qualquer um que tem o HIV.

Mas é rápida em atribuir a coragem ao fato de ter nascido com o vírus. Para quem
o contrai sexualmente, pondera, o estigma é mais forte: — Fiquei realmente triste
por minha mãe não ter me deixado aparecer na foto.

Acho que é hora de todo mundo mostrar a cara, se unir para atacar melhor essa doença.
Se todos se escondem, dá a impressão de que não há pessoas contaminadas, o problema
parece menor

### 

 

— Os meninos que têm HIV são taxados de gays. As meninas, de prostitutas. Eu não
tenho vergonha de ser o que sou, mas fico sempre com medo antes de contar para alguém.
A reação negativa das pessoas machuca — desabafa Felipe, jovem morador de Niterói,
cuja contaminação foi descoberta aos 11 anos e revelada a ele aos 13.

Antes do diagnóstico, teve muitas infecções. Desde então, é obrigado a tomar medicação
anti-HIV duas vezes por dia, como a maioria dos portadores em tratamento. Já sentiu
enjôos, falta de apetite e outros efeitos colaterais, como depressão e agitação.

Mas agradece a Deus por não ter desenvolvido o mais cruel de todos, a lipodistrofia,
redistribuição da gordura corporal capaz de fazer braços e pernas afinarem. A gordura,
muitas vezes, acaba se acumulando no abdome ou na nuca.

— Se o destino quis que eu tivesse uma doença, acho que poderia até ser pior. Câncer
na minha idade ou mesmo diabetes podem ser tão mortais quanto a Aids ou até mais.

Felipe lembra que, quando criança, seu sonho era ser piloto. A consciência das eventuais
debilidades físicas — e dos exames a que os candidatos são submetidos — o fez desistir.
Hoje no primeiro ano do ensino médio, planeja fazer engenharia mecânica.

E se imagina pai e dono da própria casa em dez anos: — Não penso que vou morrer 
a qualquer momento. Também sei que, em média, pessoas com HIV vivem menos.

Vou levando sem pensar tanto nisso. Só tomo o máximo de cuidado para não contaminar
alguém e uso sempre camisinha. Para mim, seria a morte.

## Leia também

 * [Filme aborda conversa sobre sexo e Aids com filhos](https://soropositivo.org/)
 * [Jovens em risco](https://soropositivo.org/jovens-em-risco/)
 * [União civil é a principal bandeira dos gays](https://soropositivo.org/uniao-civil-e-a-principal-bandeira-dos-gays/)

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