# HIV: Mistério desvendado

- Link: https://soropositivo.org/hiv-misterio-desvendado/
- Published: 2015-01-30T09:10:58-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Há 30 anos milhares de cientistas ao redor do mundo se debruçam sobre os mistérios
do **HIV** na tentativa de entender como um microorganismo tão pequeno – menor que
a maioria dos outros vírus, bactérias e outros patógenos – consegue ser o responsável
por uma das maiores pandemias da história da sociedade moderna. Quase três décadas
depois de ter sua estrutura desvendada, o vírus da síndrome da imunodeficiência 
adquirida continua a surpreender os cientistas. Um [artigo publicado](https://soropositivo.org/misterio-do-hiv-decifrado/)
na edição de hoje do Journal of Neuroscience desvenda um dos mecanismos mais complexos
no qual o vírus está envolvido: a invasão da barreira hematoencefálica.

A descoberta pode, no futuro, resultar em medicamentos que controlem o elevado índice
de doenças neurológicas em soropositivos. A barreira hematoencefálica (BHE) é uma
espécie de membrana que protege o sistema nervoso central – formado pelo cérebro
e pela medula espinhal – das toxinas que circulam pela corrente sanguínea (veja 
arte). Ao contrário do que ocorre com a maioria das substâncias, vírus e bactérias,
o **HIV** consegue romper  essa barreira e atingir o cérebro por meio de um mecanismo
que ainda não era conhecido ou explicado pelos cientistas.

De acordo com a nova pesquisa conduzida por especialistas da Escola de Medicina 
Albert Einstein, de Nova York, para conseguir tal feito o vírus não ataca a própria
barreira, mas um conjunto de células chamadas astrócitos, que estão entre os responsáveis
por reforçar a BHE. Em geral, apenas 5% das células desse tipo são contaminadas 
pelo **HIV**.

Em laboratório, os pesquisadores americanos construíram um modelo de barreira hematoencefálica
com células humanas. A constatação foi que, embora apenas uma pequena parte delas
fosse infectada, quando isso ocorre, as células que estão em volta morrem – o que
provoca uma degradação da BHE. “Nossos resultados sugerem que a infecção pelo **
HIV** de astrócitos pode ser importante no aparecimento da disfunção cognitiva em
pessoas vivendo com a doença”, afirmou Eliseo Eugenin, principal autor do estudo,
em comunicado à imprensa.

Efeito cascata

Apesar de os astrócitos infectados serem os responsáveis pela morte de várias células
sadias, eles próprios permanecem vivos, propagando o efeito deletério por mais células.“
Esse estudo fornece uma explicação do porquê de poucos astrócitos infectados poderem
desencadear uma cascata de sinais que abrem o cérebro a várias substâncias tóxicas”,
completa o pesquisador, que também utilizou experimentos em chimpanzés contaminados
por **HIV**.

Enrique Argañaraz, do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade de Brasília(
UnB), explica que problemas como a demência são comuns em pacientes com **HIV** 
justamente pela invasão do sistema nervoso central. “A incidência de demência associada
à **AIDS** ocorre entre 40% e 60% dos pacientes infectados, mesmo que estejam sob
tratamento”, analisa o pesquisador.

> Para ele, embora ainda exista um longo caminho a ser percorrido antes que um tratamento
> eficaz seja desenvolvido, a pesquisa é um importante passo rumo a um medicamento
> que trate a demência em soropositivos. “Certamente que a elucidação destes mecanismos
> é muito importante no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas que visem
> minimizar os efeitos da infecção no sistema nervoso central”, completa o pesquisador
> norte-americano.

O diretor adjunto do **DEPARTAMENTO DE DST**/**AIDS** do Estado de São Paulo, Artur
Kalichman, afirma que esse tipo de pesquisa – além de ajudar a se conhecer melhor
o vírus – pode, no futuro, auxiliar no desenvolvimento de técnicas para tratamentos
de problemas neurológicos em pacientes com **HIV**. “Um dos problemas para o tratamento
de doenças do Sistema Nervoso Central em pacientes com **AIDS** é que a maioria 
dos m

edicamentos **RETROVIRAIS**, que deveriam combater o vírus, não conseguem penetrar
na barreira hematoencefálica e acabar com o vírus que está no sistema nervoso “,
afirma o médico.
 Para Kalichman, o achado vai reabrir a discussão sobre o retorno
do uso do AZT em massa. “Ao contrário das outras drogas, o AZT consegue penetrar
a barreira hematoencefálica e combater o vírus dentro do sistema nervoso. Talvez
ele possa voltar a ser utilizado na tentativa de barrar doenças neurológicas”, completa.
O azidotimidina, como também é chamado o medicamento, foi uma das primeiras gerações
de medicamentos antiaids a conseguir barrar o avanço da doença.

Utilizado amplamente a partir de 1990, ao longo dos anos a droga foi perdendo espaço
em função do desenvolvimento de outros medicamentos, mais eficazes e com menos efeitos
colaterais. Para ele, o trabalho alerta para um problema que ainda é pouco divulgado
e conhecido pela maioria das pessoas: as consequências neurológicas do **HIV**. “
Acredito que uma pesquisa como essa pode alertar sobre a necessidade de se ministrar
tratamentos contra demência e outros males neurológicos em pacientes com o problema”,
conta Kalichman. “Isso poderia minimizar os sintomas e melhorar a qualidade de vida
dos pacientes”, completa o médico.

**[CORREIO BRAZILIENSE](http://www.soropositivo.net.br/hiv-aids-hpv-hepatite/2009/06/a-nova-formulacao-nao-refrigerada-do-ritonavir-podera-ser-aprovada-no-proximo-ano/)–
DF | **

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 * [Tire as suas dúvidas sobre a Aids](https://soropositivo.org/tire-as-suas-duvidas-sobre-a-aids/)
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