# Júlio Lancellotti é agora acusado de pedofilia por ex-funcionária da Casa Vida

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- Published: 2009-06-19T22:48:55-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

, O padre e a moça Júlio Lancellotti é agora acusado de pedofilia por ex-funcionária
da Casa VidaMarcelo Carneiro Há pouco mais de um mês, ao denunciar à polícia que
era vítima de extorsão, o padre Júlio Lancellotti disse que sua intenção era dar
fim a uma história que se arrastava desde 2004. Até o momento, porém, a única certeza
é que ela ainda está longe de terminar. Depois de formalizar o pedido de ajuda policial,
o padre veio a público informar que, sob intimidação, havia dado 56.000 reais a 
Anderson Batista, jovem agora com 25 anos que conhecera como interno da Febem. O
dinheiro foi usado na compra de um jipe de luxo e de um terreno. De acordo com Lancellotti,
Anderson ameaçava denunciá-lo de ter abusado de uma criança de 8 anos – o que o 
padre jura ser mentira, apesar de ter pago, ao longo de três anos, uma bela quantia
ao sujeito. A polícia ainda não deteve o acusado de extorsão, que está foragido,
mas já está às voltas com outra questão relacionada ao padre. Lancellotti, que não
consegue explicar a contento a origem da dinheirama dada a Anderson e se contradiz
ao tentar explicar o tipo de amizade que mantinha com o rapaz, passou a enfrentar
uma acusação formal de pedofilia. Os policiais que investigam a denúncia de extorsão
tomaram o depoimento de uma mulher que trabalhou por quase um ano em uma das ONGs
criadas pelo padre. Ela disse ter visto Lancellotti aos beijos com um menino de 
15 anos. O testemunho motivou a abertura de um inquérito sobre corrupção de menores,
que tem Lancellotti como investigado. A testemunha diz que o episódio aconteceu 
em 1999 dentro da Casa Vida, que atende crianças infectadas pelo vírus da Aids, 
em São Paulo. Seu depoimento ocorreu sob a condição de anonimato. Antes, também 
protegida pelo sigilo, ela já havia concedido uma entrevista à Rede Record. VEJA
esteve com a denunciante. A testemunha tem duas décadas de experiência no trato 
com menores infratores. É formada em enfermagem, trabalhou na Febem e, durante meses,
foi cedida por essa instituição à Casa Vida, gerida por Lancellotti. O que ela diz:“
O menino tinha de 15 para 16 anos e apareceu do nada. O padre não disse de onde 
ele veio. Lá era uma casa só para crianças com HIV, mas esse menino não tinha HIV.
Sei porque eu preparava os coquetéis e ele não tomava coquetel. O padre disse que
o menino ia morar na casa porque precisava de uma atenção maior”. “Numa noite, ouvi
o padre e o menino conversando na sala de televisão, no andar de baixo. Quando desci
para pegar água, vi os dois se beijando na boca. Eles estavam de pé. O padre envolvia
o menino com um braço e lhe fazia carinho no rosto. Não parecia haver coação. Quando
vi a cena, subi correndo as escadas. Não sei se eles me viram, mas certamente escutaram
o barulho. Após uma semana, o padre nos comunicou que tinha encontrado droga nas
coisas do menino e o havia mandado embora. Duas semanas depois, ele me mandou de
volta para a Febem”. “O padre espancava as meninas. Socorri três que haviam sido
surradas por ele. As agressões aconteciam sempre de dia, dentro do escritório dele,
com a porta fechada. Como eu trabalhava à noite, chegava apenas a tempo de ver as
meninas com muitos hematomas. Eu passava pomadas e fazia massagens”. “Quando havia
um evento, as crianças iam antes na sala do padre. Ele dizia como elas deveriam 
agir na frente das pessoas e falava: “Não se esqueçam de me chamar de pai””. A testemunha
diz que só contou a uma pessoa – o marido – o que viu na Casa Vida. Ela atribui 
a três motivos o fato de ter levado oito anos para tornar pública a história do 
beijo que teria presenciado: “Eu era só uma funcionária e o padre Júlio, uma pessoa
influente. É claro que iriam acreditar nele, e não em mim. Também fiquei com medo
de morrer. Eu trabalhei nesse meio (a antiga Febem) e sei que poderia sofrer alguma
retaliação. Agora, com a história do Anderson, eu me senti mais segura para falar.
Espero que outros sintam coragem para fazer o mesmo”. VEJA apresentou esse relato
a um policial que teve acesso ao depoimento da testemunha. Ele disse que as informações
prestadas na delegacia são as mesmas. Pode ser invenção? Pode. Pode ser verdade?
Também pode. Afinal de contas, a testemunha foi à polícia denunciar Lancellotti.
Se não for louca, deve saber das conseqüências penais de um falso testemunho. Diante
da gravidade da acusação, é preciso que as investigações sejam aprofundadas. Só 
assim o padre poderá recuperar – ou perder de vez – a sua reputação. Zonas de sombra,
nesse caso, são inadmissíveis. O próprio episódio da extorsão ainda está envolto
em muitas brumas. E, em vez de iluminá-lo, Lancellotti tem contribuído para tornar
ainda mais confuso o enredo. Uma das questões que necessitam ser esclarecidas é 
quanto, efetivamente, ele entregou a Anderson. Em seu primeiro depoimento, Lancellotti
diz ter dado 56 000 reais. Boa parte dos recursos, de acordo com o padre, foi usada
para pagar prestações da compra de uma Mitsubishi Pajero avaliada em 65 000 reais.
Na semana passada, quando já tinha sido informado de que a polícia havia pedido 
cópia dos documentos da compra do carro à concessionária, Lancellotti voltou à delegacia
para dizer que havia se esquecido de um detalhe: também dera outros 30 000 reais
a Anderson, a título de entrada para a aquisição do veículo. É difícil acreditar
que uma pessoa com poucas posses – o padre declarou ter rendimentos mensais de pouco
mais de 3.000 reais – não tenha se lembrado logo de um gasto tão vultoso. Outro 
dado a esclarecer, repita-se, é a fonte do dinheiro. Em entrevistas, o padre disse
que conseguiu parte dos recursos por meio de “empréstimos com amigos”. Em seu segundo
depoimento à polícia, deu uma nova versão. Tudo teria origem em “recursos próprios,
provindos de suas economias durante 35 anos”. Uma vez que as ONGs na esfera de influência
do padre recebem recursos públicos – só com a prefeitura de São Paulo, os convênios
chegam a quase 11 milhões de reais anuais -, é fundamental esclarecer se parte desse
montante foi usada nos pagamentos a Anderson. Uma coisa é certa: o amigo do padre,
agora denunciado por extorsão, ganhava o dinheiro em espécie. VEJA entrevistou o
faxineiro Everson Guimarães, preso em flagrante quando ia receber 2.000 reais das
mãos de Lancellotti. Ele é, até o momento, o único detido, sob a acusação de ter
sido cúmplice na chantagem. Caberia a Guimarães recolher com o padre o dinheiro 
exigido por Anderson. O preso, que é defendido pelo mesmo advogado de Anderson, 
conta outra história: “Ele nunca ameaçou o padre. Pedia e recebia. Os dois eram 
amigos, o padre vivia procurando o Anderson”. Guimarães disse que por cinco vezes
foi ao encontro do padre. Em todas, recebeu envelopes recheados de cédulas de 50
reais. As quantias variavam entre 15.000 e 30.000 reais. VEJA também entrevistou
o técnico em refrigeração José Carlos Ferreira, que tem uma loja na mesma rua em
que Anderson é dono de uma pensão. “Além da Pajero, o Anderson também teve um Audi.
Foi o padre quem deu”, conta Ferreira. Em 2006, Anderson realmente adquiriu um Audi
A3. VEJA ainda conversou com o vendedor que participou da compra da Pajero, em uma
concessionária. O funcionário, que pediu para não ser identificado, disse que, no
dia da compra, Anderson e sua mulher, Conceição Eletério, estavam acompanhados por
Lancellotti: “Em momento nenhum o padre pareceu nervoso. Foi uma venda normal”.

## Leia também

 * [Polícia investiga padre Júlio por suposta corrupção de menores](https://soropositivo.org/policia-investiga-padre-julio-por-suposta-corrupcao-de-menores/)
 * [Revista veja destaca caso de extorsão sofrido pelo padre Júlio Lancelotti](https://soropositivo.org/revista-veja-destaca-caso-de-extorsao-sofrido-pelo-padre-julio-lancelotti/)
 * [O padre e o moço](https://soropositivo.org/o-padre-e-o-moco/)

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