# Mulheres do Crack

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- Published: 2010-11-22T06:53:07-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

Este blog está online há 26 anos, 2 meses e 12 dias.

ELIANE TRINDADE

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DE SÃO PAULO

A vida de Carolina, 19, cabe na mochila. “É minha casa, meu quintal e minha penteadeira”,
afirma ela. A bolsa de náilon é escudo em seu vai e vem pela cracolândia.

Há quatro anos, sua rotina só mudou quando deu a luz. Gerou duas órfãs do crack,
a segunda em 29 de setembro.

“Só fiquei uma noite com ela”, conta, enquanto esvazia a mochila de objetos (Bíblia,
caderno e rádio), roupas (dois tops, uma legging e um jeans) e produtos de higiene(
xampu e óleo corporal).

Carolina retrata a entrada das mulheres no cenário do crack, em 2002. É quando as
primeiras usuárias aparecem em programas de reabilitação na cidade de São Paulo.

ESCUDO

“Antes elas eram invisíveis”, diz Solange Nappo, pesquisadora do Cebrid (Centro 
Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Universidade Federal de
São Paulo. “Para o negócio, a presença feminina foi interessante. A mulher pode 
se prostituir e prover o crack para si e parceiros.”

Coordenadora da pesquisa “Comportamento de Risco de Usuárias de Crack em relação
às **DST**/**AIDS**“, Solange constata que as mulheres acabam protegendo os homens.

“Antes, os usuários do sexo masculino não duravam um ano, envolviam-se com a marginalidade
e acabavam mortos. Com a mulher em cena, ela vira provedora.”

Ao financiar o vício com o corpo, elas se expõem a doenças e à gravidez indesejada.
Carolina descobriu ter **SÍFILIS**, ao fazer o pré-natal.

O posto público onde fez as consultas fica próximo das ruas por onde perambula em
busca da droga consumida na gravidez. “Vomitava muito, mas não ficava sem.”

A droga a levou para fora do hospital 12 horas depois do parto. Fugiu da maternidade,
deixando a recém-nascida. Fez o mesmo quando nasceu a primeiro filha, há um ano 
e meio. Dos seios de Carolina ainda jorram leite.

“Amamentei minha filha uma noite. Disseram que não ia sair com ela porque sou drogada.
Então dei no pé.”

Entre as 80 mulheres ouvidas na pesquisa qualitativa do Cebrid, os relatos são de
múltiplas gestações. Uma delas estava na nona gravidez. “Os filhos indesejados do
crack são uma complicação a mais para o Estado”, diz Solange. “São abandonados por
mães que não desenvolvem afeto por bebês gerados em situação de exploração.”

Fugir de parceiros violentos é outra rotina. Carolina anda se escondendo do suposto
pai da filha. Ele tem 39 anos e é viciado como ela. “Ele me encheu de porrada para
eu ir me virar na rua.”

O motivo da briga é um dos principais dados da pesquisa do Cebrid: 62% das usuárias
de crack se prostituem todos os dias para bancar o vício.

INEXPERIÊNCIA

Na mochila de Carolina há espaço para **CAMISINHA** dentro de um estojo de óculos.
Mas quem dita o uso é o cliente. “O fato de não serem prostitutas antes, complica
a vida das usuárias de crack”, afirma Solange. “Elas não sabem lidar com clientes
nem com os perigos da rua, ainda mais na fissura pela droga.”

A quantidade de programas depende da necessidade. “Hoje, só fiz um”, diz Carolina,
no meio da tarde. Os R$ 16 vão virar “pedra” até o anoitecer, combina com uma amiga.“
Do que adianta ficar falando dessa vida?”, indaga a mulher que aparenta uns 40 anos.
Nega-se a dar entrevista ou mesmo o nome. “Se tô aqui é porque preciso.”

A psicóloga Gisele Borsotte finaliza outro estudo, também do Cebrid, sobre a motivação
de um grupo de 43 usuários de crack para cessar o consumo. “Eles vão somando perdas
em uma trajetória crescente de deterioração”, diz. “Mas só têm motivação para tentar
parar quando se veem diante da morte.”

A cicatriz acima da sobrancelha é só um detalhe no rosto anguloso enfeitado por 
olhos amendoados. Maiara, 32, não lembra como se machucou. “Devo ter caído”, afirma
ela. Rara imprecisão sobre o seu mergulho no crack, ao longo de cinco dos seus 17
anos de adição.

Internada no Instituto Intervir, nos arredores de São Paulo, há pouco mais de um
mês, ela destoa pelo perfil socioeconômico. “Tive berço e ótima formação escolar.
Sou de uma família normal de classe média paulistana.”

Filha única, foi educada em um colégio tradicional. “Estudava em escola de rico.
Meus pais podiam pagar, mas não tudo o que as outras crianças tinham. Batia a cabeça
quando não tinha dinheiro, roubava meus avós.”

PRIMEIRO CONTATO

Foi num retiro promovido pela escola que experimentou maconha, aos 15 anos. O uso
seria recreativo até se apaixonar por um viciado em crack. “Fiz de tudo para tirá-
lo daquela vida e acabei doente de codependência.”

Parou de estudar, fugia de casa. Drogava-se. “Competia com a droga pela atenção 
do namorado. Tinha mais ciúme do crack do que de mulher.” Fez da cocaína antídoto
contra insegurança, inclusive na gravidez -seu filho tem hoje 8 anos. “Usava dez
papelotes por dia. Passei a usar um por semana. Administrava a droga como um remédio.”

Não escondeu a prática de risco do médico do convênio que fez o pré-natal. O bebê
nasceu prematuro. Justifica-se: “Se parasse, a angústia, os medos e a raiva de ter
pedido tudo iam voltar. Prejudicaria mais o bebê”.

SEM MORAL

Dois anos depois, Maiara perderia a guarda do garoto loirinho das fotos na cômoda.
Ficou três sem vê-lo. Hoje, faz visitas quinzenais. “Meu filho é saudável e faz 
terapia”, afirma. “Não tenho moral. Ele bate no meu bumbum e me xinga de drogada.”

O crack seria a próxima etapa. “Foi devastador. Fumava 14 pedras por dia.” Parou
na rua. “Eu me vestia bonitinha e pedia grana dizendo ter perdido a carteira. Arrumava
fácil R$ 100. Ter boa aparência ajudava.” O golpe funcionou até o crack deixar marcas.“
Fiquei feia, com olheiras enormes.”

Sem-teto e distante de todos, começou a cair a ficha. “Vou ficar morando em albergue,
sem nada, com infeção intestinal?” A moça fina vira prostituta. “Não me prostituía
pela droga, mas para me livrar dela.” Um ano depois, seria expulsa da boate por 
causa do álcool.

“A prostituição serviu para retomar a autoestima. Eu me arrumava para atrair clientes,
mas não nasci para isso. Não deixei me machucarem mais.” Veio a exaustão. “Não suportava
mais acordar e dormir mal, a humilhação para conseguir droga.”

Foi difícil abrir mão da adrenalina. “Os riscos são a melhor parte. Preenchem o 
que a droga tira. Camuflam a burrice de tá se acabando.”

E ainda tem que lidar com crises de abstinência. “Tem aquelas agudas, que dói a 
cabeça. A do crack é pior. É psicológica. Fecha a mente.”

FUTURO

Maiara quer esquecer as alucinações. “Uma vez, ajoelhada caçando pedrinhas de crack,
ouvi uma respiração forte e uma voz: “Você não se ajoelha nem para Deus vai se ajoelhar
pra mim?””.

Longe da loucura, diz ter jogado fora a máscara de vítima. “A droga não tem mais
o que fazer de mim. Não tenho mais o que saber dela.”

As drogas foram sua faculdade. “Vou transformar essa experiência em profissão para
ajudar na recuperação minha e de outros. Só assim vou me perdoar.” (ELIANE TRINDADE)

**[FOLHA DE S. PAULO – SP](http://www.soropositivo.net.br/hiv-aids-hpv-hepatite/2009/05/comportamento-sexual-e-uso-do-preservativo/)
| COTIDIANO **

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 * [A encrenca do crack](https://soropositivo.org/a-encrenca-do-crack/)
 * [Mortalidade de Mulheres Com HIV que Usam Crack É Três Vezes Maior](https://soropositivo.org/mulheres-com-hiv-e-que-usam-crack/)
 * [Usuários de Crack: Das calçadas para a cadeia](https://soropositivo.org/usuarios-de-crack-das-calcadas-para-a-cadeia/)

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