# O medo e o estigma colocam em risco de transmissão da hepatite C (VHC) os homossexuais soropositivos para o HIV

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- Published: 2009-06-02T14:31:47-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

# O medo e o estigma colocam em risco de transmissão da** hepatite C** (VHC) os homossexuais **soropositivos **para o **HIV**

  |  **Michael Carter**, Thursday, October 09, 2008 |

Um pequeno estudo qualitativo, publicado na Revista _Culture, Health and Sexuality_,
conclui que o estigma está a contribuir para a transmissão por via sexual do vírus
da hepatite C entre os homossexuais seropositivos para o VIH. O estudo revelou que
o medo e o estigma em relação ao VHC significam, que os homossexuais se envolvem
em práticas sexuais com um elevado risco de transmissão do VHC e têm relutância 
em divulgar ou discutir o seu estatuto serológico para o VHC.

O investigador sugere que devem ser feitos esforços para combater o estigma relacionado
com a hepatite C entre os homossexuais masculinos, providenciando informações sobre
os riscos de transmissão sexual relacionados com comportamentos sexuais de risco
elevado.

Surtos de hepatite C transmitida por via sexual foram relatados entre homossexuais
seropositivos para o VIH no Reino Unido e em toda a Europa. Os comportamentos sexuais
associados à transmissão sexual do VHC nesta população são o _fisting_, o sexo em
grupo e o sexo anal desprotegido.

Um número significativo de homossexuais seropositivos para o VIH escolhe parceiros
sexuais também seropositivos, uma prática designada por “_serosorting_“. Embora 
este comportamento possa evitar o risco de infectar um parceiro com o VIH, pode 
envolver o risco de outras infecções sexualmente transmissíveis, incluindo a hepatite
C.

As doenças provocadas pelo VIH e pelo VHC são consideradas estigmatizantes, o que
decorre da natureza ameaçadora da próprias infecções e da sua associação a “estilos
de vida” que são, muitas vezes, considerados como “desviantes”.

Estudos anteriores sugerem que o estigma poderá influenciar a decisão, das pessoas
infectadas com VIH ou VHC, de divulgar ou não o seu estatuto serológico.

Tendo em conta este factor, o Dr. Gareth Owen desenhou um estudo piloto para determinar
as experiências emocionais associadas ao estigma entre homens seropositivos para
o VIH que eram co-infectados com VHC ou que tivessem recebido um tratamento bem 
sucedido para esta infecção.

Foram realizadas em Londres seis entrevistas estruturadas com homens de idades compreendidas
entre os 32 e os 43 anos. Todos os homens tinham comportamentos de risco para a 
transmissão sexual da hepatite C, o que incluía _fisting_, sexo anal desprotegido
e sexo em grupo. Muitas destas actividades sexuais ocorreram em contextos de festas
sexuais privadas onde eram consumidas drogas recreativas. O “_Serosorting_” foi 
relatado pelos seis indivíduos entrevistados.

Todos os homens atribuíram a infecção pelo VHC ao _fisting_, embora esta prática
tenha ocorrido dentro de um contexto de outras actividades que envolviam um elevado
risco de transmissão da hepatite C, incluindo sexo em grupo, bem como partilha de
lubrificante, brinquedos sexuais e tubos para “_snifar_” drogas recreativas.

O “sentimento” de serem estigmatizados devido ao estatuto serológico positivo para
o VHC era partilhado pelos seis homens. Um deles afirmou que este tipo de sentimento
era, muitas vezes, pior do que os efeitos físicos da infecção: “Eu acho que aquilo
que nos faz sentir é pior do que a própria doença em si… O medo da rejeição, o medo
do estigma e de tudo o que está associado é mais prejudicial do que a própria doença.”

Os participantes do estudo afirmaram que o factor mais importante que conduzia à
estigmatização do VHC era o medo. Medo devido à falta de conhecimento sobre a doença,
ao modo de transmissão da infecção, de que a infecção por VHC possa complicar a 
infecção pelo VIH, o medo do impacto da hepatite C no estilo de vida como por exemplo
no consumo de drogas e álcool, o medo do tratamento, o medo de rejeição (particularmente
a nível sexual) e o medo da morte.

Um dos participantes afirmou que “a hepatite C é o novo grande elefante branco na
sala (a verdade que se quer ignorar), “Eu acho que homossexuais masculinos têm medo
da hepatite C e julgo que isso se deve ao facto de não saberem grande coisa sobre
a doença exceptuando o facto de que pode ser mortal.”

Um homem contou que foi rejeitado sexualmente devido à infecção pelo VHC: “o homem
que me rejeitou tinha ouvido falar sobre as implicações da co-infecção. É uma péssima
notícia, porque temos parar de consumir álcool e drogas “.

Para além do estigma, o diagnóstico da infecção pelo VHC também foi associado à 
vergonha e à culpa. Um dos homens disse ao investigador que: “Senti-me um bicho,
sujo, isolado. Senti-me sozinho… é uma vergonha: a vergonha, o segredo, o estigma
e tudo mais que envolve a doença.”

Um diagnóstico de hepatite C foi entendido entre os homens como factor de exclusão
da “camaradagem de serem apenas seropositivos para o VIH.” Este factor foi ilustrado
através de um dos participantes do estudo: “A hepatite C ainda não é “pertença” 
da comunidade homossexual como o VIH, e se não o é, então está fora e mais estigmatizada…
Mesmo dentro da comunidade homossexual e na comunidade de pessoas que vivem com 
o VIH, esta doença criou uma situação de separação entre “eles” e “nós” ”

O estigma significava que os homens não discutiam o seu estatuto serológico positivo
para o VHC com os seus parceiros sexuais ou que não divulgavam sua infecção. Um 
dos homens afirmou que o VIH não era considerado como “algo importante” nos homens
seropositivos para o VIH que procuravam comportamentos de “_serosorting_”. No entanto,“
a hepatite C constituía um tópico importante. As pessoas têm medo desta doença, 
mas ninguém fala sobre isso. ”

Outro homem disse que “por enquanto ainda não tive nenhuma situação em que o meu
parceiro sexual tenha revelado a sua seropositividade para o VHC”.

Observou-se também alguma confusão em relação à hepatite C, com alguns homens a 
afirmar que, dentro da sua esfera sexual, alguns confundiam a hepatite C com a hepatite
B.

Muitos dos homens disseram que o estigma silenciava a discussão sobre a hepatite
C entre os homens que vivem com VIH que têm um elevado risco de exposição sexual
ao vírus. Um deles afirmou que “o estigma silencia e permite que mais estigma cresça
em torno do silêncio”, “mas pode-se compreender o silêncio em relação a esta infecção,
pois o estigma está sempre presente.”

Embora o investigador reconheça que a pequena dimensão da sua amostra seja uma limitação
do estudo, acredita que “acrescenta consistência” às evidências que demonstram que
os homossexuais que vivem com VIH precisam de informação sobre a hepatite C.

Com base neste estudo, o investigador propõe um modelo onde o medo da hepatite C
faz com que esta infecção seja estigmatizada dentro da comunidade homossexual que
vive com o VIH. Este medo conduz à rejeição sexual se a hepatite C for divulgada,
o que cria um sentimento de vergonha e de mais medo que, por sua vez, conduz ao 
silêncio e à não divulgação do estatuto serológico. “Isto faz com que o risco de
transmissão da infecção em ambientes de “_serosorting_” seja elevado e conduza a
práticas sexuais desprotegidas”

O Dr. Owen conclui que é preciso fazer mais para contrariar o estigma em torno da
infecção VHC entre os homossexuais e que os homens que vivem com VIH devem ser informados
sobre os riscos de transmissão da infecção VHC orientada para os seus comportamentos
sexuais, ou seja, _fisting_ e outras práticas sexuais que podem caus
 ar sangramento
da mucosa.

**Referência** 
G. Owen. _An ‘elephant in the room’? Stigma and hepatitis transmission
among HIV-positive ‘serosorting’ gay men_. Culture, Health and Sexuality 10: 601–
610, 2008.

**Tradução** 
[GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA](http://soropositivo.org/wp-content/uploads/2009/06/www.gatportugal3.org)

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 * [O risco de transmissão do VIH durante o sexo anal é 18 superior ao do sexo vaginal](https://soropositivo.org/o-risco-de-transmissao-do-vih-durante-o-sexo-anal-e-18-superior-ao-do-sexo-vaginal/)
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