# Os níveis de tuberculose e VIH nas prisões disparam: uma ameaça à saúde pública Texto e Video

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- Published: 2010-08-27T10:51:52-03:00
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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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[⌊Presídios Lotados⌉⌊Presídios Lotados⌉[

Tratados como Gado Humano, vivem em condições de insalubridade equivalentes a da
Idade Média. Diz-se, por aí, que conhecemos o grau de civilização de um povo por
suas prisões! Eu digo que conhecemos uma pessoa pela forma como ela trata alguém
que não precisa tratar bem!

O ex­ces­so de po­pu­lação, os bai­xos níveis de aces­so a cui­da­dos de saúde, 
a fal­ta de von­ta­de políti­ca e a existência de po­pu­lações de ele­va­do ris­co
nas prisões cri­am as con­dições ide­ais pa­ra a “tem­pes­ta­de per­fei­ta” no que
se re­fe­re à tu­ber­cu­lo­se (TB) e VIH nas prisões um pou­co por to­do o mun­do,
re­fe­riu um gru­po de in­ves­ti­ga­do­res na 40a Uni­on World Con­fe­ren­ce on 
Lung He­alth (Con­ferência da União Mun­di­al so­bre Saúde Pul­mo­nar), no princípio
do mês de De­zem­bro últi­mo, em Can­cun, no Méxi­co.

Tan­to a Dra. Fa­bi­en­ne Ha­ri­ga, da UNODC (UN Of­fi­ce on Drugs and Cri­me) co­mo
o Dr. Alas­dair Reid, da UNAIDS/ONU­SI­DA, re­fe­ri­ram vári­as es­tatísti­cas de­sa­ni­ma­do­ras
pa­ra os que vi­vem atrás das gra­des. De acor­do com Ha­ri­ga, até 65% de al­gu­mas
po­pu­lações pri­si­o­nais estão in­fec­ta­das pe­lo VIH.

A jun­tar a es­tes va­lo­res, vêm os núme­ros da TB: de acor­do com Reid, as ta­xas
de TB nas prisões che­gam a ser até 50 ve­zes mais ele­va­das do que as ob­ser­va­das
na po­pu­lação em ge­ral. Es­tas ta­xas au­men­ta­das são so­bre­tu­do ob­ser­va­das
em re­clu­sos de­ti­dos há mais tem­po, ve­ri­fi­can­do-se uma re­lação en­tre a
aqui­sição de TB e o tem­po pas­sa­do na prisão. Além dis­so, os re­clu­sos apre­sen­tam
uma mai­or pro­ba­bi­li­da­de de mor­rer de TB ou de di­fi­cul­da­des re­la­ci­o­na­das
com o tra­ta­men­to do que as po­pu­lações não de­ti­das.

A Dra. Ha­ri­ga fez no­tar que es­tes da­dos de­sa­ni­ma­do­res cons­ti­tu­em uma
ameaça não ape­nas pa­ra a saúde dos re­clu­sos, mas também pa­ra a saúde da po­pu­lação
em ge­ral, uma vez que, após a li­ber­tação e o re­gres­so à so­ci­e­da­de, a TB
e o VIH dos re­clu­sos fa­cil­men­te se es­pa­lham pe­la co­mu­ni­da­de.

Os tra­ba­lha­do­res dos es­ta­be­le­ci­men­tos pri­si­o­nais também são afec­ta­dos
por es­tes núme­ros. A Dra. Sa­lo­me Cha­ra­lam­bous, da Áfri­ca do Sul, fa­lan­do
so­bre os pro­jec­tos so­bre VIH/TB em prisões, pa­tro­ci­na­dos pe­lo De­part­ment
of Cor­rec­ti­ons e pe­lo Au­rum Ins­ti­tu­te, am­bos da­que­le país, re­fe­riu 
que gran­de par­te dos tra­ba­lha­do­res pri­si­o­nais, mo­vi­dos pe­la pre­o­cu­pação
acer­ca da sua própria saúde, se mos­tra­va a fa­vor dum au­men­to da re­a­li­zação
dos tes­tes, do tra­ta­men­to e con­tro­lo da in­fecção.

“As prisões não estão iso­la­das da co­mu­ni­da­de”, re­fe­riu Ha­ri­ga. “Há pes­so­as
que tra­ba­lham nas prisões e há pes­so­as que en­tram e sa­em to­dos os di­as”.

Con­tu­do, e ape­sar des­tas es­tatísti­cas de­sa­ni­ma­do­ras, as re­for­mas pe­nais
efi­ca­zes que in­clu­am as ade­qua­das con­dições de saúde aos re­clu­sos estão
lon­ge de se tor­na­rem re­a­li­da­de. Na opi­nião da Dra. Ha­ri­ga, há “uma fal­ta
de in­te­res­se” por par­te de to­dos os que de­fi­nem as políti­cas e me­di­das
a im­ple­men­tar, o que re­sul­ta nu­ma carência dos mei­os ne­cessári­os ao efec­ti­vo
com­ba­te aos pro­ble­mas de saúde dos pri­si­o­nei­ros. “Em mui­tas re­giões do
mun­do não exis­te se­quer um pro­gra­ma do ti­po saúde na prisão”, con­clui a in­ves­ti­ga­do­ra.

A na­tu­re­za difícil de al­guns as­pec­tos re­la­ci­o­na­dos com as po­pu­lações
pri­si­o­nais também con­tri­bui pa­ra o re­du­zi­do núme­ro de pro­gra­mas. A Dra.
Cha­ra­lam­bous men­ci­o­nou a existência de di­fi­cul­da­des logísti­cas que pre­ju­di­ca­ram
a tes­ta­gem e o tra­ta­men­to dos re­clu­sos no es­tu­do sul-afri­ca­no, re­clu­sos
es­ses que eram fre­quen­te­men­te mo­vi­dos de prisão em prisão ou li­ber­ta­dos,
in­ter­rom­pen­do o tra­ta­men­to ou vi­gilância do VIH ou da TB.

Em gran­de me­di­da de­vi­do a es­ta mo­bi­li­da­de, aca­bou por se per­der o ras­to
de 21% das pes­so­as que ha­vi­am ini­ci­a­do tra­ta­men­to ARV (an­ti-re­tro­vi­ral)
num dos pro­gra­mas do es­tu­do. Nou­tra prisão, 7 dos 22 re­clu­sos cha­ma­dos 
pa­ra fol­low up (con­sul­tas de re­visão, ou se­gui­men­to) ha­vi­am si­do trans­fe­ri­dos.

De for­ma a com­ba­ter es­ta bai­xa ta­xa de re­tenção dos do­en­tes nos pro­gra­mas,
o es­tu­do a de­cor­rer ago­ra ape­nas in­clui re­clu­sos com uma sen­tença igual
ou su­pe­ri­or a 4 me­ses. Os in­ves­ti­ga­do­res também “eti­que­tam” os pro­ces­sos
dos re­clu­sos en­vol­vi­dos no pro­gra­ma, aler­tan­do as au­to­ri­da­des pri­si­o­nais
pa­ra a ne­ces­si­da­de da não trans­ferência dos do­en­tes por mo­ti­vos que não
os re­la­ci­o­na­dos com os ob­jec­ti­vos do es­tu­do.

Um ou­tro fac­tor que não vem con­tri­buir pa­ra me­lho­rar es­te cenário está re­la­ci­o­na­do
com a di­fi­cul­da­de que exis­te no seio das po­pu­lações pri­si­o­nais em di­ag­nos­ti­car
a TB, com ba­se em sin­to­ma­to­lo­gia. Cha­ra­lam­bous re­fe­re: “o ras­treio fei­to
com ba­se nos sin­to­mas po­de não ser tão efi­caz nes­te am­bi­en­te”.

Ape­sar des­tes de­sa­fi­os, a Dra. Cha­ram­bo­lous tem es­pe­rança num au­men­to
da re­a­li­zação dos tes­tes e tra­ta­men­to do VIH e da TB. O seu tra­ba­lho su­ge­re
que os re­clu­sos po­dem res­pon­der a al­guns pro­gra­mas des­te ti­po: num dos
lo­cais do es­tu­do, efec­ti­va­men­te, 98% dos re­clu­sos acei­ta­ram par­ti­ci­par.
O Dr. Reid con­cor­da, afir­man­do que as prisões cons­ti­tu­em opor­tu­ni­da­des
úni­cas pa­ra o tra­ta­men­to de po­pu­lações mar­gi­na­li­za­das.

De mo­do a es­ti­mu­lar o apa­re­ci­men­to de mais pro­gra­mas de saúde em prisões,
Reid ape­la à re­a­li­zação de mais in­ves­ti­gação, in­ves­ti­gação que ava­lie
a ta­xa de in­fecção pe­lo VIH e TB atrás das gra­des: de fac­to, se é ver­da­de
que exis­tem mui­tos da­dos de­mons­tra­ti­vos das ele­va­das ta­xas de am­bas as
in­fecções nas po­pu­lações pri­si­o­nais, também é ver­da­de que são mui­to es­cas­sos
os da­dos que mos­trem as prisões co­mo lo­cais e cen­tros de dis­se­mi­nação des­tas
in­fecções.

De for­ma a es­ti­mu­lar a von­ta­de e de­ter­mi­nação políti­cas, Reid ad­mi­te
a cha­ma­da de atenção pa­ra os países que con­tri­bu­em pa­ra os pi­o­res in­di­ca­do­res
nes­ta área, no­me­a­da­men­te pa­ra a so­bre­po­pu­lação pri­si­o­nal, a ausência
de pro­gra­mas de com­ba­te à TB e VIH em con­tex­to pri­si­o­nal e as vi­o­lações
dos di­rei­tos hu­ma­nos. “A am­pla di­vul­gação des­tas si­tuações é es­sen­ci­al
pa­ra que os países le­vem es­ta questão a sério”, re­fe­re o in­ves­ti­ga­dor.

Re­ferênci­as

Cha­ra­lam­bous S TB-HIV in pri­sons and the com­mu­nity res­pon­se: the ca­se of
South Afri­ca. Pre­sen­ted at the 40th Uni­on World Con­fe­ren­ce on Lung He­alth,
2009.

Ha­ri­ga F Ac­cess to HIV and TB ser­vi­ces in pri­son set­ting, in­jec­ting drug
users in pri­sons: myths and re­a­li­ti­es. Pre­sen­ted at the 40th Uni­on World
Con­fe­ren­ce on Lung He­alth, 2009.

Reid A Gui­de­li­nes and ad­vo­cacy: HIV/TB, pri­sons, IDU and po­verty. Pre­sen­ted
at the 40th Uni­on World Con­fe­ren­ce on Lung He­alth, 2009.

Ma­ra Kar­das-Nel­son

Tra­dução

GAT – Gru­po Por­tu­guês de Ac­ti­vis­ta so­bre Tra­ta­men­tos VIH/SI­DA

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