# Peça *Duelo* faz defesa do sexo seguro

- Link: https://soropositivo.org/peca-duelo-faz-defesa-do-sexo-seguro/
- Published: 2009-06-19T22:44:15-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**06/JUNHO/07**

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Mas a ignorância, refletida em situações da peça, é a mesma que existe no mundo 
real, aqui fora. Ignorância, desinformação mas também insegurança, porque somos 
humanos.

 

Badger Vicari

 

A **Aids** é a doença do neoliberalismo. Desde os anos 80 até este século a epidemia—
assim como o sucesso do capitalismo financeiro e a desintegração do Estado — atingiu
o mundo, e governos e ONGs e a arte se colocaram em defesa da vida, iniciando então
uma mobilização pelo sexo seguro. A peça “Duelo”, da Cia Théspis de Teatro — escrita
por Vilmar Mazzetto e dirigida por Celomar Graeff — se encaixa nessa saga, aqui,
com a parceria da Secretaria da Saúde do Estado do Paraná, Secretaria Municipal 
de Saúde de Francisco Beltrão e 8º Regional de Saúde.

 

Apresentada sábado e domingo no Espaço da Arte, a peça trata da **Aids**, do isolamento
e da morte iminente, pontuando com falas dos atores onde se combate o preconceito,
explicando como se pode pegar **Aids** e como não se pega.

 

Muita coisa dita em peça foi compilada de testemunhos verdadeiros, conforme adiantou
Mazzetto no folder apresentador do teatro.

 

Quando o assunto envolve sexo

“Por que comigo?” pergunta um portador. E deve ser a pergunta feita por todos os
que se vêem numa situação-limite. É certo o que a peça defende, que as pessoas devem
se cuidar, que não se deve discriminar os portados do vírus.

 

Mas a ignorância, refletida em situações da peça, é a mesma que existe no mundo 
real, aqui fora. Ignorância, desinformação mas também insegurança, porque somos 
humanos.

 

Quando o assunto envolve sexo, ficamos todos preocupados e muitas vezes fragilizados.
Fiz há uns anos exame de **Aids**, e como quando saltei de pára-quedas, e pensava
nos dias que antecederam o salto, “e se o pára-quedas não abrir?” o mesmo pensei
nos dias que antecederam o resultado do exame: “e se…”. Nunca estive na zona de 
risco, por não usar drogas e nem ter uma vida promíscua. Estava evidentemente tranquilo.
Mas para quem já fez muita festa nesta vida, sempre tem aquela pontinha de “e se…”.

 

Pois essa insegurança me vem à mente agora, me imaginando se tivesse um amigo ou
amiga infectado. Não tenho, não conheço ninguém assim. Mas abro o coração: não sei
como reagiria. Poderia escrever que, claro, minha relação com o amigo ou amiga continuaria
a mesma. Mas será? Não sei. Uma coisa é teorizarmos, outra coisa é outra coisa.

 

Por isso também a peça é boa de assistir e de pensar sobre ela. Se nos coloca na
ponta da língua o discurso politicamente correto, pode igualmente nos forçar a aprofundar
nossa sensibilidade e tentar imaginar um dia-a-dia verdadeiro aquilo que a ficção
da Théspis relatou.

 

Eu digo que não tenho preconceito, e não tenho mesmo. Nem contra os preconceituosos
de carteirinha.  Mas já sou maduro o suficiente para admitir que, numa situação 
nova, não sei se agiria de forma como teorizo. Um exemplo absurdo e fora de contexto:
se amanhã, fico sabendo que ganhei R$ 27 milhões!

 

Reza a cartilha politicamente correta que mesmo trili

onário eu teria que continuar sendo o mesmo cara…

 

Estamos todos ligados

Os atores Evandro Teixeira, Fabiane de Cezaro, Adinan Fidelis e Edivan Arini estão
muito bem, misturando frases e dramaticidade, com dança e caras e bocas. Dramaticidade,
aliás, que abre o espetáculo, com eles presos a ferros que lembram alguma gaiola,
revelando que estamos todos — a humanidade — irremediavelmente ligados.

 

Foi Frei Betto quem escreveu uma vez que a **Aids** mobiliza tanto, e tanto dinheiro
é gasto na procura de sua cura, “porque ela atingiu a classe média e alta branca”.
E, cruel, completava: “se a fome atingisse a classe média e alta branca, teria sido
eliminada”.

 

Como confirma o autor: “a **Aids** passa a ser uma epidemia que não respeita status,
cor, raça ou religião. Todos estamos sujeitos.”

 

E isso é retratado na peça, quando a pessoa se descobre portadora. Perplexa. “Por
que comigo?” é a indagação que ecoa no palco e é como que um mantra eterno adivinhado
na intimidade de quem se acidenta e pega ou se vê infectado de surpresa. “Por que
comigo? Por que comigo? Por que comigo?” 

 

Praticamente não há humor nesta peça, mais densa. Há a música que diz  “ela só quer,
só pensa em namorar…”, permitindo uma mistura de humor e lascividade pré-adolescente
nos personagens jovens.

 

“Duelo” mostra mais uma vez que a equipe de atores da Théspis é de excelente qualidade.
Que há, entre eles, uma sintonia boa, que passa segurança.

 

Resultado, enfim, de talento, mas também de muito trabalho, ensaio, disciplina.

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