# Populações-Chave Afetadas

- Link: https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/
- Published: 2015-01-27T22:30:53-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

### Tópicos Tratados Nesta Página

 * [Sobre linhas orientadoras, metas e recursos: os documentos que definiram a Conferência Internacional sobre SIDA de 2014](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#sobre-linhas-orientadoras-metas-e-recursos-os-documentos-que-definiram-a-conferencia-internacional-sobre-sida-de-2014)
 * [As barreiras para atingir o fim da SIDA](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#as-barreiras-para-atingir-o-fim-da-sida)
 * [Linhas orientadoras que atendam às necessidades das comunidades](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#linhas-orientadoras-que-atendam-as-necessidades-das-comunidades)
 * [Populações chave, populações vulneráveis](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#populacoes-chave-populacoes-vulneraveis)
 * [Prevenir overdoses – kits de naloxona](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#prevenir-overdoses-kits-de-naloxona)
 * [Eliminar os factores incapacitantes](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#eliminar-os-factores-incapacitantes)
 * [Já podemos eliminar a epidemia através do tratamento? 90/90/90](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#ja-podemos-eliminar-a-epidemia-atraves-do-tratamento-909090)
 * [O que pode ser possível](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#o-que-pode-ser-possivel)
 * [Obstáculos a ultrapassar](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#obstaculos-a-ultrapassar)
 * [Os perigos da insistência](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#os-perigos-da-insistencia)
 * [Assumir responsabilidade: irão os governos financiar os seus próprios programas na área do VIH?](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#assumir-responsabilidade-irao-os-governos-financiar-os-seus-proprios-programas-na-area-do-vih)
 * [Referências](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#referencias)
 * [Tradução](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#traducao)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#leia-tambem)
 * [Curtir isso](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#curtir-isso)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/populacoes-chave-afetadas/#relacionado)

# Sobre linhas orientadoras, metas e recursos: os documentos que definiram a Conferência Internacional sobre SIDA de 2014

Gus Cairns

Se fosse possível definir a [20ª Conferência Internacional sobre SIDA (AIDS 2014)](http://www.aidsmap.com/aids2014/)
numa frase, uma que tivesse surgido em várias apresentações e documentos, seria “
populações-chave afetadas”.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou o novo [_Consolidated Guidelines on HIV prevention, diagnosis, treatment and care for key populations_](http://www.who.int/hiv/pub/guidelines/keypopulations/en/)
a 11 de julho, nove dias antes do início da conferência.

Chamou inicialmente a atenção com uma série de notícias incorretas no _The Age_ (
[corrigida desde então](http://www.theage.com.au/national/health/prevention-drugs-suggested-for-those-at-high-risk-of-hiv-20140717-zu7he.html))
e na [_Time_](http://time.com/2975573/who-hiv-aids-gay-men-homosexual-epidemic-rise/),
onde se dizia que a OMS afirmava que “Todos os homens que têm sexo com homens devem
tomar terapêutica antirretroviral”.

Na realidade, a OMS afirma algo muito mais prudente e preliminar, nomeadamente que
a evidência sugere fortemente que, para os homens que têm sexo com homens (HSH),“
a PrEP é recomendada como medida adicional de prevenção do VIH, dentro de um conjunto
abrangente de métodos de prevenção do VIH”. (Também não afirma que o “conjunto abrangente
de métodos de prevenção do VIH” deve incluir uma recomendação para tomar a PrEP 
sempre com preservativos, como também foi declarado).

As mudanças em relação às anteriores linhas orientadoras prendem-se com o facto 
de que estas sugeriam que a PrEP só deveria ser disponibilizada como parte de um
programa contínuo de investigação sobre este novo e pouco usado método de prevenção
do VIH. No entanto, atualmente a OMS sugere que as evidências existentes são suficientes
para que se considere uma forma de permitir aos homens que têm sexo com homens a
toma da PrEP. Indica também que a PrEP deve ser tida em consideração para pessoas
seronegativas para o VIH quando estas se encontram num relacionamento serodiscordante,
mas tal não é uma recomendação.

O brasileiro Fábio Mesquita, diretor de saúde na área do VIH e IST, foi responsável
pela reavaliação das evidências em relação à PrEP que se encontram nas novas linhas
orientadoras. Afirmou numa conferência de imprensa em Melbourne: “A questão já não
é se a PrEP resulta, mas se podemos disponibilizá-la.”

### As barreiras para atingir o fim da SIDA

À medida que a conferência avançou e as novas linhas orientadoras foram sendo mencionadas
em várias apresentações e debates, tornou-se claro que o seu radicalismo cobria 
muito mais que a⌊Sangue com glóvulos vermelhor e glóbulos brancos⌉ PrEP. A OMS tinha
publicado o seu [_Consolidated guidelines on the use of antirretroviral drugs for treating and preventing HIV infection_](http://www.who.int/hiv/pub/guidelines/arv2013/download/en/)
no ano anterior e estava estruturada de uma forma que se tornou familiar nos últimos
anos: à volta da “cascata dos cuidados”, a sequência de metas que têm de ser atingidas–
proporção de pessoas testadas, proporção de pessoas sob cuidados, proporção de pessoas
em tratamento, proporção de supressões virológicas – de modo a que um número suficiente
de pessoas a viver com VIH se tornem não infeciosas para inverter o rumo da epidemia.

Estas diretrizes apresentaram novas recomendações – afirmando que o rastreio ao 
VIH em contexto comunitário ou domiciliário é tão bom quanto o disponibilizado em
locais de saúde, por exemplo – e aumentaram o limite de CD4 no início do tratamento
para 500 células/mm^(3). Mas ainda foram escritas como sendo essencialmente uma 
abordagem “de cima para baixo” para pôr fim à epidemia: se acertarmos nos programas,
testarmos pessoas suficientes, financiarmos suficientes tratamentos, pormos o maior
número possível de pessoas sob tratamento, iremos então pôr fim à epidemia.

Durante o ano, vários eventos e algumas evidências indicaram que tal pode não ser
assim tão simples. A legislação anti-gay foi posta em prática ou intensificada no
Uganda, Rússia e Nigéria, pelo menos uma clínica na área do VIH foi invadida e na
reunião do Global Forum for MSM and HIV (MSMGF), antes da conferência em Melbourne,
[foram apresentados dados](http://www.aidsmap.com/Globally-1-in-12-MSM-have-been-arrested-for-same-sex-behaviour/page/2893590/)
que indicam que isto já estava a conduzir a um afastamento por parte dos HSH dos
locais de saúde.

Também na reunião sobre tratamento como prevenção, em Vancouver, foram apresentados
dados que indicam que a [detenção forçada de pessoas que usam drogas injetáveis](http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23860470)(
PUDI) no sudoeste da Ásia também estava a ter um efeito negativo na prevenção do
VIH naquela região.

Foram apresentadas ainda mais evidências na Conferência Internacional sobre SIDA
sobre o aumento da epidemia entre HSH em várias partes do mundo – incluindo um estudo
de Bangkok que demonstrou que [45% dos jovens gay que usam preservativo de forma inconsistente iriam contrair a infeção pelo VIH nos cinco anos após o início da sua atividade sexual, acontecendo o mesmo a 20% daqueles que tentam usar preservativo consistentemente](http://www.aidsmap.com/Nearly-half-of-young-gay-men-in-Bangkok-not-using-condoms-consistently-acquire-HIV-within-five-years-of-starting-sex/page/2895400/).

Também fora apresentados dados fascinantes sobre o estigma associado ao VIH e as
barreiras à divulgação do estatuto serológico que, em algumas comunidades, são de
tal forma elevadas que o simples ato de disponibilizar a terapêutica antirretroviral
sem aconselhamento que apoie essa revelação no âmbito de um relacionamento [pode conduzir a taxas de adesão e de supressão vírica muito baixas](http://www.aidsmap.com/Treatment-as-prevention-may-not-work-in-Africa-without-couples-counselling/page/2893836/).
Estes são dados de casais heterossexuais mas podem aplicar-se igualmente, se não
de modo ainda mais forte, a populações mais estigmatizadas e entre as quais conversas
sobre o estatuto serológico para o VIH pode gerar problemas, como a criminalização.

### Linhas orientadoras que atendam às necessidades das comunidades

Esse facto e as evidências levaram a que a OMS se preocupasse com a possibilidade
de que “sem abordar as necessidades das populações-chave, não será atingida uma 
resposta sustentável ao VIH”.

Acrescentam: “contudo, até ao momento, na maioria dos países com uma epidemia de
VIH generalizada, a resposta focou-se quase que exclusivamente na população em geral.
Mesmo os países que reconhecem que as suas epidemias estão concentradas em populações-
chave estão muitas vezes relutantes em implementar intervenções adequadas, que cheguem
até aqueles que delas mais necessitam”.

Além disso: “em muitos locais a incidência do VIH entre a população em geral estabilizou
ou decresceu. Contudo, a nível global, as populações-chave continuam a sentir o 
peso da infeção” – e ainda assim “os dados sobre saúde, incluindo os dados sobre
a prevalência do VIH, não são tão fortes para as populações-chave… devido a complexidades
na amostragem… preocupações legais e questões relacionadas com estigma e discriminação.
As leis que criminalizam os comportamentos das populações-chave dificultam o recolher
de dados representativos”.

Por outras palavras, não só as populações chaves sofrem com um fardo desproporcional
relacionado com o VIH, mas não sabemos sequer que fardo é esse pois ele afeta pessoas
que receiam ser identificadas.

Assim, embora tenha lançado no passado orientações específicas para os homens que
têm sexo com homens, pessoas que injetam drogas, reclusos, trabalhadores do sexo
e pessoas transgénero, a OMS decidiu que as necessidades das populações-chave seriam
o principal foco do documento de 2014.

### Populações chave, populações vulneráveis

⌊overdose⌉⌊overdose⌉A OMS faz uma distinção clara entre _populações-chave_ e _populações-
vulneráveis_ – uma distinção que faltou em algumas reações ao documento, que perguntaram
por que motivo não estavam incluídos os adolescentes e as mulheres.

A OMS define as populações-chave como sendo pessoas que “devido a comportamentos
específicos de elevado risco, estão numa situação de maior vulnerabilidade ao VIH,
_independentemente do tipo de epidemia ou do contexto local_” [enfase da OMS]. Por
outras palavras, estão numa situação mais vulnerável ao VIH simplesmente por serem
quem são e fazerem o que fazem.

As populações-vulneráveis são compostas por pessoas que “são particularmente vulneráveis
à infeção pelo VIH _em determinados contextos ou situações_ [enfase da OMS], tais
como adolescentes (sobretudo as raparigas adolescentes da África subsaariana), órfãos,
crianças sem-abrigo, pessoas com deficiências e migrantes e trabalhadores em situação
de mobilidade. Estas populações não são afetadas pelo VIH de forma uniforme em todos
os países e epidemias”. Contudo, acrescentam que muitas das recomendações também
se lhes aplicam.

A OMS acrescenta que isto não é suficiente para atender às necessidades das populações-
chave: “estas são também parceiros essenciais numa resposta eficaz à epidemia”.

Assim, Gottfried Hirschall, diretor da OMS na área do VIH, declarou na conferência
que, em termos de alterações específicas às recomendações, não existiam muitas nas
mais recentes linhas orientadoras. A diferença é que pela primeira vez as orientações
tinham sido partilhadas por um vasto e abrangente exercício de consulta que tivera
em conta “os valores e preferências das comunidades”.

### Prevenir overdoses – kits de naloxona

> Na verdade, só existe uma outra recomendação específica nestas novas linhas orientadoras(
> além da acima referida recomendação da PrEP para HSH). A OMS recomenda, tal como
> fizera anteriormente, o acesso a programas de troca de seringas e a terapêutica
> de substituição opiácea, mas acrescenta a recomendação de que as pessoas que usam
> drogas injetáveis devem ter acesso a _kits_ de emergência de naloxona, antidoto
> da heroína, para serem usadas por amigos ou pelos próprios consumidores em caso
> de _overdose_ acidental.
> Philip Read, da OMS, disse à conferência que **atualmente morrem mais consumidores
> de drogas injetáveis por _overdose_ que por SIDA e que 60% das _overdoses_ ocorrem
> à frente de outra pessoa**. Quase todas as pessoas que injetam drogas que foram
> entrevistadas no âmbito de uma investigação da OMS, tinham em algum momento presenciado
> uma _overdose_, e no primeiro ano do ensaio de _kits_ de naloxona, 20% destes 
> foram usados. Este fornecimento de uma “PrEP para_overdoses_” poderá conduzir 
> a uma redução substancial das mortes, afirmou.

### Eliminar os factores incapacitantes

Escusado será dizer que estas recomendações não bastam para salvar vidas se as estruturas
que oprimem as populações-chave não forem igualmente desmanteladas. O primeiro conjunto
de⌊broche símbolo da luta contra aAIDS⌉ “fatores críticos” necessário às populações
chave afetadas é que “as leis, políticas e práticas sejam avaliadas e, quando necessário,
revistas por políticos e líderes governamentais, com um envolvimento significativo
de _stakeholders _dos grupos-chave, para que permitam e apoiem a implementação e
aumento dos serviços de saúde dirigidos às populações-chave”. Os outros pontos abordam
a violência, discriminação e outras barreiras aos cuidados de saúde.

Rachel Baggaley, que esteve responsável por recolher as evidências que levaram à
recomendação da PrEP, afirmou que as atitudes dos profissionais de saúde eram também
um desincentivo importante às populações-chave afetadas na procura de cuidados de
saúde. Isto conduz a situações de desperdício, nas quais existem sistemas de saúde
paralelos em vários países, sendo um do governo e o outro gerido por organizações
de base comunitária com financiamento não-governamental e consultadas por representantes
dos órgãos responsáveis pela estratégia nacional para o VIH. Isto, embora necessário
para que fossem disponibilizados serviços, resultava num desconhecimento dos governos
a respeito das populações-chave afetadas e contribuía para a negação da sua existência
e das suas necessidades.

Assim, a OMS lançou este ano orientações que se basearam num processo de consulta
através do qual as necessidades e opiniões da comunidade indicaram o que deveria
ser feito pelos programas nacionais para o VIH. Contudo, foram questionados numa
conferência de imprensa sobre as novas linhas orientadoras se isto significava que
a OMS tinha abandonado por completo a ideia de um “teste e tratamento universais”
e se alguma vez iriam recomendar a disponibilização do tratamento para o VIH no 
momento do diagnóstico.

### Já podemos eliminar a epidemia através do tratamento? 90/90/90

Foi lançado outro documento na conferência que se espera ter uma abordagem complementar
à resolução da epidemia do VIH. A ONUSIDA lançou em consulta pública – o que significa
que ainda não está na sua versão final – o documento [_Ambitious treatment targets: writing the final chapter of the AIDS epidemic_](http://www.unaids.org/en/media/unaids/contentassets/documents/unaidspublication/2014/JC2670_UNAIDS_Treatment_Targets_en.pdf),
no qual é proposta a próxima meta a atingir a nível mundial. Trata-se da meta**90/
90/90**, na qual em 2020 90% das pessoas infetadas conhecerão o seu estatuto serológico,
90% destas estarão em tratamento e 90% destas atingirão a supressão vírica. Isto
significaria que 72,9% da população mundial a viver com a infeção pelo VIH teria
carga viral indetetável no ano de 2020. A ser realidade, os modelos preveem o fim
do VIH como doença epidemiológica no ano 2030.

À primeira vista parece muito ambicioso. Atualmente, apenas 37% da população mundial
a viver com VIH está sob terapêutica antirretroviral, sendo o número ainda inferior
em áreas como a Europa de Leste (21%). E, tal como explica a ONUSIDA, as metas anteriores,
como a ’15 por ’15 (15 milhões de pessoas em TAR em 2015) não englobam a cascata
de conquistas que têm de acontecer para que tal número seja atingido.

E, ainda assim, parece ser possível atingir a meta ‘15 por ‘15. “As metas promovem
a prestação de contas”, afirmou a ONUSIDA. E Badara Samb, chefe de iniciativas especiais
da organização, afirma que “este é o tipo de documento que irá parar à mesa dos 
ministros da saúde. Os políticos recordam-se das metas”.

Além disso, afirma a ONUSIDA, as metas “demonstram que a SIDA é uma luta que pode
ser ganha”. Por outras palavras: podemos vencer a SIDA se acreditarmos nisso.

### O que pode ser possível

A UNOSIDA crê que as evidências sugerem que é possível pôr fim à SIDA. Por exemplo,
existem alguns países africanos – como a Etiópia e o Malawi, por exemplo – nos quais
mais de dois terços dos adultos fizeram o teste para o VIH pelo menos uma vez e 
outro, o Ruanda, no qual este valor atinge os 80%. Na América Latina uma média de
70% das pessoas a viver com o VIH conhece o seu estatuto serológico – embora os 
valores variem bastante, de 43% na Colômbia a 80% no Brasil (e 90% em Cuba).

Uma das formas importantes de o fazer passa por [incorporar o VIH nas campanhas de saúde](http://www.aidsmap.com/Multi-disease-prevention-campaigns-part-2-case-studies-from-Kenya-and-Uganda/page/2805503/),
afirma a ONUSIDA. Este tipo de campanha fez com que 86% das pessoas no Quénia conheçam
o seu estatuto serológico.

Manter as pessoas no tratamento provou ser um desafio em algumas regiões, mas na
América Latina e nas Caraíbas estima-se que, entre aqueles que iniciaram o tratamento,
uma média de 80% mantêm-se passados dois anos (existem algumas exceções notórias,
como os pequenos países das Bahamas e Belize, nos quais metade das pessoas que iniciam
o tratamento o abandonam passado um ano: estas exceções são usadas como forma de
se perceber como melhorar o trabalho feito).

No que à terceira meta diz respeito, a supressão vírica, existem também diferentes
resultados em diferentes países. Os 83% de pessoas com supressão vírica no Ruanda
demonstram que tal é possível; os [menos de 45%](http://www.aidsmap.com/Treatment-as-prevention-may-not-work-in-Africa-without-couples-counselling/page/2893836/),
mencionados por um investigador da Zâmbia, demonstram o que pode acontecer sem o
acompanhamento adequado. De igual modo, embora as taxas de supressão vírica sejam
de 80% no Brasil e no México, em países como Venezuela e Cuba, com elevadas taxas
de adesão ao tratamento, rondam os 50%. Estes exemplos mostram como a abordagem 
da “cascata do tratamento” pode expor fraquezas num sistema com pontos fortes noutras
áreas.

### Obstáculos a ultrapassar

Atingir os 90/90/90 será um grande desafio. Na África subsaariana, por exemplo, 
apenas 29% das pessoas a viver com VIH têm atualmente supressão vírica. Um dos problemas
é o facto de a própria medida da supressão vírica constituir em si mesma um desafio:
existem estudos que demonstram que alterar o tratamento com base nas contagens CD4
ou sintomas clínicos pode resultar em mudanças precoces (desperdiçando medicamentos
eficazes) ou tardia (mantendo pessoas sob tratamentos que não estão a surtir efeito,
criando doenças e resistência medicamentosa). Mas a tecnologia de carga viral continua
demasiado cara para países de baixos rendimentos e a ONUSIDA admite que em 2020 
não existirão suficientes testes de carga viral.

As crianças são outro desafio: entre as pessoas que necessitam de TAR, as crianças
recebem menos que os adultos e apenas 10 dos atuais 29 medicamentos disponíveis 
para o VIH estão aprovados para uso pediátrico.

Existem várias realidades ignoradas no que diz respeito ao documento da ONUSIDA:
faltam dados sobre a Rússia e Ásia Central, o Médio Orientes e mesmo alguns países
de rendimentos elevados não estão a tratar as suas populações-chave, nomeadamente
os Estados Unidos da América. E algumas pessoas acreditam que existirão problemas
estruturais que impedirão a ONUSIDA de se aproximar dessa meta.

Uma última questão: existe uma contradição inerente entre as “metas prologadas” 
e as “recomendações baseadas na evidência” e algumas pessoas da OMS indicaram ao
aidsmap.com que as metas da ONUSIDA podem estar muito longe do último ponto. As 
linhas orientadoras baseadas na evidência afirmam que “Vamos fazer o que sabemos
resultar e apenas isso” e o ponto anterior usa o que conhecemos como ponto de partida
para aquilo que _pode_ resultar. É bom ter ambições mas é importante adaptá-las 
se a evidência sugerir que estas devem ser diferentes.

### Os perigos da insistência

Grupos de ativistas, como o _International Treatment Preparedness Coalition_ (ITPC),
por exemplo, fizeram os seus próprios relatórios sobre os progressos em direção 
às linhas orientadoras de 2013 da OMS, encontrando avanços irregulares em diferentes
áreas e, em particular, nas ruturas de _stock_de medicamentos e nas regulamentações
que impedem algumas pessoas de acederem ao tratamento em pequena escala.

Mas Christine Stegling, diretora regional da ITPC, não se preocupa tanto com o que
tem acontecido, mas sim com o que pode vir a acontecer.

“Alguma da retórica sobre a SIDA simplesmente não corresponde à realidade de quem
está no terreno. Não só as pessoas não estão a receber aquilo a que têm direito,
como não conhecem aquilo a que têm direito, tão baixa é a literacia para o tratamento.
Existe pouco conhecimento, a nível local, nas linhas orientadoras para o tratamento
da OMS e, claro, são poucos os serviços adequados às necessidades das populações-
chave e livres de discriminação.”

“Todos gostamos de “metas alargadas”, mas têm de ser postas em contexto. Ironicamente,
uma das maiores ameaças é o progresso económico de alguns países: em 2020, 70% dos
países prioritários visados por entidades como o Fundo Global e o PEPFAR estarão
na faixa dos países de médios rendimentos, algo que, de acordo com os atuais acordos,
os priva do acesso a medicamentos genéricos. Um dos grandes problemas é que a comunidade
de ativistas na área do VIH tem pouco conhecimento acerca dos direitos de propriedade
intelectual e sobre a forma como podemos gerir de forma vantajosa acordos de comércio
como o TRIPS.”

“Os genéricos não estarão necessariamente disponíveis de forma barata: muitas empresas
de genéricos foram compradas por grandes empresas farmacêuticas cujo lema parece
ser “se não os podes vencer, compra-os”.

“Congratulamo-nos com o objetivo geral das metas da ONUSIDA, mas temos de garantir
que estas não são insensíveis e “insistentes”: aquilo que é possível a uma mulher
grávida no Uganda pode não ser possível a um homem gay no mesmo país e, mesmo entre
a população em geral, estamos a encontrar uma má adesão e resistência medicamentosa
em alguns programas”.

### Assumir responsabilidade: irão os governos financiar os seus próprios programas na área do VIH?

Uma das soluções para o problema dos países de “médios rendimentos” passa, claro,
por pedir aos governos desses países que assumam a responsabilidade e que paguem
pelos tratamentos para o VIH. Embora alguns países com rendimentos, como a Nigéria,
estejam a falhar este financiamento e a perseguir as suas populações-chave, a ONUSIDA
apresenta no seu documento um gráfico que traça o PIB _per capita_ dos países asiáticos
com a proporção dos seus gastos domésticos na área da SIDA.

No principal a correlação é muito forte. Assim, nos países asiáticos mais pobres
como o Nepal (o PIB per capita é de US$690 anuais) e o Bangladesh ($752 por ano)
a proporção dos contributos dos governos nacionais para o financiamento na área 
da SIDA é de 1% e 8% respetivamente. Em contraste, na Malásia, país com rendimentos
superiores (PIB per capita de $10 432 por ano), 97% do financiamento para a área
da SIDA é de origem governamental. Nos países com gastos inadequados na área da 
SIDA, a tendência vai para financiamentos excessivos e não para subfinanciamento:
na Tailândia (PIB per capita de $5480 por ano), 85% dos gastos com a SIDA são domésticos,
dados muito semelhantes aos da China. A India (PIB per capita de $1503, proporção
de gastos domésticos com a SIDA de 10%) encontra-se ligeiramente abaixo da linha,
mas trata-se de um país que, em termos numéricos, tem o maior fardo com o VIH na
sua região e também vários programas nesta área com um bom financiamento que estão
em processo de transição para um financiamento governamental.

Por outras palavras, em termos gerais, e com muitas exceções, o mundo parece estar
a atingir o desafio financeiro que a SIDA representa. A questão é se irá atingir
também os desafios políticos e culturais.

### Referências

Organização Mundial de Saúde: _Consolidated guidelines on HIV prevention, diagnosis,
treatment and care for key populations_ – ver [www.who.int/hiv/pub/guidelines/keypopulations/en/](http://www.who.int/hiv/pub/guidelines/keypopulations/en/)

ONUSIDA: _Ambitious Treatment Targets: writing the final chapter of the AIDS epidemic_–
ver[www.unaids.org/en/media/unaids/contentassets/documents/unaidspublication/2014/JC2670_UNAIDS_Treatment_Targets_en.pdf](http://www.unaids.org/en/media/unaids/contentassets/documents/unaidspublication/2014/JC2670_UNAIDS_Treatment_Targets_en.pdf)

International Treatment Preparedness Coalition: _Global Policy, Local Disconnects:
a look into the implementation of the 2013 HIV treatment guidelines_ – ver [www.itpcglobal.org/atomic-documents/11057/20005/WHO%20Report_web.pdf](http://www.itpcglobal.org/atomic-documents/11057/20005/WHO%20Report_web.pdf)

### Tradução

[**_GAT – Grupo Português de Activista sobre Tratamentos VIH/SIDA_**](http://www.gatportugal.org/)

## Leia também

 * [Mulheres muito afetadas pela AIDS](https://soropositivo.org/mulheres-muito-afetadas-pela-aids/)
 * [Mulheres, HIV, outras DST’s e AIDS](https://soropositivo.org/mulheres-hiv-outras-dsts-e-aids/)
 * [A OMS afirma – tratar todas as crianças portadoras de VIH com menos de dois anos imediatamente](https://soropositivo.org/a-oms-afirma-tratar-todas-as-criancas-portadoras-de-vih-com-menos-de-dois-anos-imediatamente/)

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