# Primeiro editorial de soropositivo.org em primeiro de dezembro de 2000. O Início de tudo…

- Link: https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/
- Published: 2014-12-19T00:01:29-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

## Primeiro de Dezembro

No ano dois mil, em agosto, eu criei este site, soropositivo.org e, para dar a impressão
que havia “um time trabalhando” eu terminei a saudação com “toda a equipe soropositivo.
org”.

### Table Of Content

 * [Primeiro de Dezembro](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/#primeiro-de-dezembro)
 * [Primeiro de Dezembro é para isso: A relação empregador/empregado_soropositivo/governo precisa mudar.](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/#primeiro-de-dezembro-e-para-isso-a-relacao-empregadorempregadosoropositivogoverno-precisa-mudar)
 * [Bem-vindo](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/#bemvindo)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/#relacionado)

O fato é que não havia, na época, e não houve, até hoje, uma “equipe”.

Aqui há uma parceria: Deus e eu… E, às vezes, eu e Deus…

Mas este foi o meu primeiro editorial, para _**primeiro de dezembro**_ de 2000

 

Bem vindo

 Dia _**primeiro de dezembro**_ de 2000 se “comemora” o dia mundial de luta contra
a AIDS. As emissoras de TV não falarão em outra coisa; idem as emissoras de rádio
e os jornais. Depois, o assunto cai, novamente, no esquecimento. Cantamos, neste
dia, muitas vitórias. Tvemos mesmo, com a participação ativa das comunidades e das
Organizações não Governamenais, muitas vitórias: Há mais remédios; os exames são
mais precisos; as pesquisas em torno de vacinas já progrediram muito. O portador
de HIV vive mais e com uma qualidade de vida maior…

 Sou obrigado a não concordar com a qualidade de vida maior. Qualidade de vida 
de vida não é só estar bem de saúde, a custa de remédios. Qualidade de vida é acordar
de manhã e enfrentar um ônibus, metro ou trem e chegar ao trabalho, executar uma
função, sair para o almoço com os amigos e voltar para mais umas cinco horas de 
luta e, com isso, planejar o futuro. Qualidade de vida é não precisar esconder a
doença por medo de ser discriminado, é não precisar se esconder como um criminoso
só porque porta um vírus. Qualidade de vida é poder sonhar com um futuro melhor,
com uma casa própria, com casamento, vida familiar. E a base de tudo isso esta no
direito ao trabalho, aliado ao direito à saúde e a igualdade. Nossa vida não pode
permanecer resumida a caixas de remédios e exames de laboratório. Nossa vida não
pode ser vivida em órbita da doença ou da condição soropositiva. O perfil do portador
de HIV mudou; e mudou para melhor. Já não morremos com tanta freqüência. Já não 
somos internados tantas vezes, já não desenvolvemos a doença e, em verdade, estamos
fortes e saudáveis, aptos ao trabalho e a vida social.

 Houve um erro no inicio da epidemia: Ela foi atribuída a um grupo específico de
pessoas, cuja conduta a sociedade tem por habito reprovar sem conhecer. 

 Criaram – se expressões como peste gay, câncer gay, grupos de risco. Todas erradas,
mentirosas, discriminadoras. Todas estigmatizadoras. E ninguém desfaz este erro.
Todos agem como se nada tivesse ocorrido.

 A AIDS não é privilégio de uns poucos. O HIV é bem pouco seletivo na hora de “
escolher” seu hospedeiro. Brancos, negros, índios, heterossexuais, mulheres, crianças,
homossexuais, bissexuais, qualquer um. Qualquer um pode contrair HIV e, se não se
tratar, desenvolver AIDS. Mas a grande maioria, quando descobre, entra em tratamento,
recupera a saúde e tem condições de conduzir uma vida normal, como a de qualquer
pessoa. Mas isso nos é negado. Se um empregador descobre que tem um portador de 
HIV em seu quadro de funcionários, demite – o, sob qualquer pretexto, para se livrar
de problemas futuros, que são apenas teóricos.

 Isso porque o empregador não quer correr o risco de encarar sozinho todo o ônus
da eventual doença:
 Internações, licenças, ausências para controle, etc. Tudo isso
faz com que o portador de HIV seja considerado um funcionário, um trabalhador pouco
atraente. É preciso mudar isso, gerando estímulos fiscais a quem emprega o soropositivo.

 Desempregados, somos um ônus social. Ficamos dependendo do assistencialismo publico,
quase sempre precário, de nossas famílias, quase sempre de baixa renda, e nossa 
vida perde em qualidade e expectativa. Empregados, cuidamos melhor de nossa saúde,
consumimos mais, pagamos impostos e vivemos felizes, produtivos e independentes.

### ⏎  Primeiro de Dezembro é para isso: A relação empregador/󠀁[empregado_soropositivo](http://soropositivo.org/empregador-deve-provar-nao-demitiu-por-preconceito.html)󠁿/governo precisa mudar.

Não adianta criar um sem numero de leis que proíbam o empregador de demitir o soropositivo;
ha leis e leis que proíbem um sem numero de coisas e elas continuam acontecendo,
mesmo proibidas. Ou uma lei que proíbe o trafico de drogas acabou com o trafico?

Ao contrário, ao invés de simplesmente “proteger” o portador de HIV, através de 
dispositivos legais, louváveis é claro, que punam a empresa e/ou pessoa que incorram
no crime de discriminação, é preciso estimular o empregador a manter, através de
beneficio fiscais, como ja disse, e pela criação de um banco de horas, o portador
de HIV saudável e apto ao trabalho em seu posto usual.

Feiras de artesanato, insisto, não resolvem nada. Nem todas as pessoas tem a habilidade
manual para isso ou se interessam por tal oficio. E toda pessoa tem o direito de
exercer a sua profissão, que aprendeu a desenvolver com méritos próprios e esforço,
muitas vezes, diuturno. A condição sorológica não desfaz estes méritos. A maneira
como o individuo “pegou” o vírus também não deve entrar na questão, pois não muda
para melhor ou pior a qualidade do profissional em questão. Deve, sempre, permanecer
a condição de ser humano, digno de respeito, não de dó, acima de qualquer coisa.

 Enquanto isso, a sociedade precisa ser conscientizada, pelos meios de comunicação,
sobre a segurança do convívio com o portador de HIV.

 A imprensa em geral deve isso à população, no seu mister de informar e esclarecer.
As campanhas de esclarecimento devem ser boladas por quem entenda do assunto, por
quem viva o assunto e por quem conheça a fundo o assunto.

 A visão social da AIDS é equivocada. NÃO morremos como moscas. E não transmitimos
a doença pelo ar, por aperto de mão ou contato social. A relação sexual precisa 
ser protegida; mas não é para evitar apenas AIDS. É para evitar sífilis, gonorréia,
hepatite, condiloma acuminado e uma miríade de DST´s que são tão ou mais perigosas
que a infecção por HIV. E mais, evita a gravidez indesejada ou, pior, a gravidez
adolescente.

 Esta visão social sobre a AIDs precisa ser acertada, corrigida. E só os meios 
de comunicação de massa, em parceria com as Organizações não Governamentais e o 
Governo tem condições de reparar este dano causado por eles mesmos e pela comunidade
científica, num momento em que muito pouca luz havia sobre o problema.

Você considera que a população esta devidamente esclarecida? [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/06/12/ger027.html).

Acha que eu estou exagerando? Que o preconceito não é tão grande assim? [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.zaz.com.br/istoe/vermelha/143902.htm)
e depois, [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/08/02/ger236.html)

Acredita que ninguém se arrisca mais? [Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/10/08/ger710.html)

Sente – se segura porque vive uma “relação estável”?[ Clique Aqui](http://web.archive.org/web/20010305194148/http://www.estado.com.br/editorias/2000/09/01/ger986.html)
e chegará a conclusão que não está tão segura assim.

Depois procure na seção depoimentos pessoais as[ histórias de mulheres](http://soropositivo.org/2009/05/31/a-tal-hora-de-contar/)
que contraíram o vírus de seus maridos e que abrem seus corações aqui, no afã de
que isso não se repita…

A AIDS é um problema de todos, sem distinção possível de gênero ou “modo de vida”.
Mas já não é a sentença de morte ou a “vingança de de Deus”(…).

 E  é possível mudar estas coisas com conscientização e esclarecimento, informação
e boa vontade.

Temos uma excelente cobertura, no que tange a tratamentos, medicação e exames; pelo
menos por enquanto. Mas isso, por si só, não nos basta. Se podemos viver (e este
é um direito natural de cada pessoa) com saúde, podemos muito bem trabalhar para
o nosso próprio sustento e o de nossas famílias (somos pais e mães de família), 
sem que sejamos discriminados por nossa condição sorológica.

 De todos os sintomas da AIDS o pior deles ainda continua sendo, depois e 20 anos,
num mundo em que a maioria tem TV e acesso a Internet, o preconceito. Urge que isso
mude, e mude para melhor. [Cláudio](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/cl%C3%A1udio@soropositivo.org),
e toda a [equipe da soropositivo](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000/soropositivo-owner@egroups.com)
home page

## Bem-vindo

Dia 1º de dezembro de 2000 se “comemora” o Dia Mundial de Luta Contra a AIDS.
As
emissoras de TV não falarão de outra coisa. O mesmo vale para rádios e jornais. 
Depois, como sempre, o assunto cai novamente no esquecimento.

Cantamos, nesse dia, muitas vitórias. E tivemos mesmo, com a participação ativa 
das comunidades e das organizações não governamentais, muitas conquistas:
Há mais
remédios. Os exames são mais precisos. As pesquisas em torno de vacinas avançaram
bastante.O portador de HIV vive mais — e, supostamente, com melhor qualidade de 
vida…

Sou obrigado a discordar.
Qualidade de vida não é só estar “bem de saúde” à base
de remédios.Qualidade de vida é acordar cedo, enfrentar ônibus, metrô ou trem, chegar
ao trabalho, almoçar com os colegas, voltar para mais cinco horas de serviço — e,
no fim, poder sonhar com o futuro.

Qualidade de vida é não precisar esconder a doença por medo de ser discriminado.
É não viver como se portar um vírus fosse um crime.
É poder sonhar com uma casa 
própria, casamento, vida familiar — sonhos simples, humanos.E tudo isso se apoia
em um tripé: **direito ao trabalho, direito à saúde e igualdade de oportunidades**.

Nossa vida não pode ser vivida apenas em torno da doença ou da condição soropositiva.

O perfil da pessoa com HIV mudou. E mudou para melhor.Já não morremos com tanta 
frequência. Já não somos internados tantas vezes. Muitos sequer desenvolvem a doença.
Estamos fortes, saudáveis, aptos ao trabalho e à vida social.

Houve um erro, logo no começo da epidemia:
Ela foi atribuída a um grupo específico
de pessoas, cuja conduta a sociedade tradicionalmente condena — sem sequer compreender.

Surgiram expressões como _peste gay_, _câncer gay_, _grupos de risco_.
Todas erradas.
Todas discriminatórias. Todas estigmatizantes. E ninguém desfaz esse erro. Todos
agem como se nada tivesse acontecido.

A AIDS não é privilégio de uns poucos.
O HIV não é seletivo: brancos, negros, indígenas,
heterossexuais, mulheres, crianças, gays, bissexuais — **qualquer pessoa**.Qualquer
pessoa pode contrair o vírus. E, se não se tratar, desenvolver AIDS.Mas quem se 
trata, na maioria das vezes, recupera a saúde e pode ter uma vida normal — como 
qualquer outra.

O problema é que isso **nos é negado**.
Se um empregador descobre que tem uma pessoa
vivendo com HIV entre seus funcionários, ele demite. Sob qualquer pretexto. Porque
não quer correr o risco de enfrentar sozinho o custo de uma eventual doença:Internações,
licenças, ausências para controle…

Isso faz com que a pessoa com HIV seja vista como um funcionário de “alto risco”.
Um fardo.
É preciso **mudar isso**, com estímulos fiscais para quem emprega.Sem 
emprego, nos tornamos ônus social.Dependemos de assistencialismo precário, de nossas
famílias — quase sempre de baixa renda — e a vida perde em qualidade e esperança.

**Com emprego**, cuidamos melhor da saúde, pagamos impostos, movimentamos a economia,
vivemos com dignidade, autonomia, alegria.

**1º de Dezembro é para isso.**
A relação empregador–empregado soropositivo–governo**
precisa mudar**.

Não basta criar leis que proíbam a demissão. As leis existem. E continuam sendo 
ignoradas.
A simples existência de uma norma nunca impediu o preconceito. Ou você
acha que uma lei contra o tráfico de drogas acabou com o tráfico?

Ao invés de apenas punir a empresa ou pessoa que comete discriminação, precisamos**
estimular** o empregador a manter quem vive com HIV em seu posto — com saúde, com
dignidade, com segurança jurídica.
Seja com incentivos fiscais, seja com banco de
horas, seja com proteção real.

Feiras de artesanato não resolvem nada.
Nem todas as pessoas têm habilidade manual
ou interesse nesse tipo de ofício.Toda pessoa tem o direito de exercer sua profissão—
aquela que aprendeu com esforço, estudo e mérito.A condição sorológica não anula
esse mérito.E a forma como alguém contraiu o vírus também **não importa**.O que 
importa é que **continua sendo um ser humano digno de respeito. Não de pena.**

Enquanto isso, a sociedade **precisa ser esclarecida** sobre a segurança do convívio
com pessoas vivendo com HIV.

A imprensa **tem o dever** de informar.
As campanhas devem ser construídas por quem**
vive** esse assunto, por quem **entende** do que fala, por quem tem o HIV na pele,
no corpo e na alma.

A visão social da AIDS ainda é equivocada.
**NÃO morremos como moscas.**E **NÃO 
transmitimos o vírus pelo ar, pelo toque, por um abraço.**

A relação sexual precisa, sim, ser protegida — mas não apenas por causa da AIDS.

É também para evitar sífilis, hepatite, HPV, clamídia, gonorreia, e uma série de
outras ISTs.Sem falar em gravidez não planejada. E, pior, gravidez adolescente.

O retrato social da AIDS **precisa ser corrigido**.
E só os meios de comunicação
de massa, aliados às ONGs e ao governo, podem consertar esse erro — erro que foi
deles também, lá no começo.

Temos, hoje, boa cobertura de tratamento, medicamentos e exames.
Mas isso, por si
só, **não basta**.

Se podemos viver — e viver é um direito básico —, então podemos e devemos **trabalhar**,
cuidar das nossas famílias e viver como qualquer pessoa que enfrenta uma condição
crônica, como tantas outras por aí.

Porque,  depois de todos esses anos, **de todos os sintomas da AIDS, o pior ainda
é o preconceito.**
E isso precisa mudar. Para ontem

Nota do Editor: Clique [aqui](http://web.archive.org/web/20000821182929/http://www.soropositivo.org/),
para ver o texto em seu [ambiente original](http://web.archive.org/web/20000821182929/http://www.soropositivo.org/)

 

## Leia também

 * [Primeiro editorial de soropositivo.org](https://soropositivo.org/primeiro-editorial-de-soropositivo-org-em-primeiro-de-dezembro-de-2000-2/)
 * [Editorial publicado em Agosto de 2000](https://soropositivo.org/editorial-publicado-em-agosto-de-2000/)
 * [1º de Dezembro Dia Mundial de Luta Contra a AIDS](https://soropositivo.org/1o-de-dezembro-dia-mundial-de-luta-contra-a-aids/)

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### _Relacionado_
