# Projeto tenta resgatar “vida” dos órfãos da Aids

- Link: https://soropositivo.org/projeto-tenta-resgatar-vida-dos-orfaos-da-aids/
- Published: 2009-06-19T22:50:06-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**A Gazeta de Limeira**

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**18/NOVEMBRO/07**

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‘Juliana’ é uma das sete crianças que, constantemente, comparece ao Serviço Especializado
em Moléstias Infectocontagiosas (Semil). Ainda no útero materno, ela foi contaminada
pelo vírus **HIV**. Aliás, todas as crianças em tratamento no local, contraíram 
a **Aids** através da transmissão vertical. 
 O projeto “Viver é uma arte”, coordenado
pela psicóloga infantil Silvia Torralbo, teve início no ano passado, e desde então,
os pequenos pacientes encontraram “mais alegria na vida”. “É justamente esse o objetivo.
Eles não podem crescer achando que só estão vivendo para tomar remédios todos os
dias e colher sangue. Assim como todas as pessoas, essas crianças precisam de felicidade
e, acima de tudo, qualidade de vida”, disse a psicóloga. Após duas décadas do primeiro
registro da doença na cidade, o Semil revela a realidade dos pequenos inocentes 
em tratamento. De acordo com Raquel Cristina Miguel Grassi, coordenadora administrativa
do local, sabe-se que existem outras crianças e adolescentes com o vírus, mas não
têm o acompanhamento do serviço municipal. “Tenho certeza de pelo menos três crianças
que vão para a Unicamp”. Alguns já morreram sem passar pelo Semil. Neste ano, um
paciente de dois anos não resistiu.

MUDANÇA DE PERFIL

Das que estão em tratamento constante, todas já perderam o pai ou a mãe para a doença.
Apenas Juliana tem os dois. Os pais dela também têm a doença, mas aderem ao tratamento.
Esse é um dos lados mais cruéis da mudança de perfil da síndrome. 
 No início da
epidemia, a doença estava restrita a homossexuais e usuários de drogas injetáveis
que compartilhavam seringas infectadas. No Brasil, em 1988, quase metade dos portadores
de **Aids** era gay e um em cinco era usuário de drogas.  Como a Gazeta já mostrou
em matérias anteriores, nos últimos anos, as relações heterossexuais passaram a 
ser a principal forma de transmissão da doença. O resultado é que aumentou dramaticamente
o número de mulheres atingidas. Tanto que, no fim do mês passado, foi revelado que
pela primeira vez, igualou a proporção homens e mulheres com **Aids** em Limeira.
É nesse contexto que as crianças se transformam em vítimas potenciais da **Aids**.

O MEDO

Embora o projeto “Viver é uma arte” tenha conseguido resultados significativos, 
a psicóloga afirmou que as crianças que sabem da doença, vivem sob a ameaça de morte
da mãe ou do pai. “Elas nunca disseram que culpam os pais por terem a doença. Pelo
contrário. O único sentimento é o medo da morte”. Ela ainda disse que, por mais 
que se explique que a **Aids** não está mais associada à morte, esse receio é inevitável.

Silvia contou que se trata de crianças com idade insuficiente para entender o **
HIV**. De acordo com ela, antes da entrada da adolescência, é o momento ideal para
uma conversa mais franca e aberta. Duas já passaram por essa fase. “Precisam ter
ciência da necessidade de prevenção, não só para com os outros, mas com elas mesmas,
afinal, as doenças oportunistas estão em todo canto”. Com isso, o projeto trabalha
o futuro: “a adesão ao tratamento. Elas sabem que hoje em dia é possível viver mais
e melhor, mesmo com o vírus. Porém, o tratamento é para o resto da vida”.  Tanto
Raquel quanto Silvia sentem por uma adolescente que deixou de freqüentar o Semil
por achar que os remédios é que fazem mal. “Isso é muito triste”. (RR)

Transmissão vertical pode ser evitada

Toda gestante tem o direito de realizar os exames necessários para iniciar o pré-
natal. Contudo, é fundamental que procurem um médico logo que descobrem a gravidez.
Dentro das inúmeras solicitações do ginecologista está o teste de **HIV**, independente
se a mulher teve ou não comportamento de risco. “Muitas descobrem a doença por causa
desse exame”, disse Raquel, coordenadora administrativa do Semil. Diante do diagnóstico
e do pré-natal seguido regularmente, é possível impedir que o vírus chegue ao feto.
É que existem medidas como o uso de drogas anti-retrovirais, o parto cesariano programado,
a suspensão do aleitamento materno, substituindo-o por leite artificial (fórmula
infantil), entre outros, que podem poupar a criança da doença. “Mas, para isso, 
é preciso que as mães se conscientizem da necessidade do pré-natal. Também não adianta
achar que estão imunes ao vírus. O tratamento é gratuito e está disponível no SUS”,
destacou Raquel. (RR)

“O preconceito covarde”

Se todas as mulheres se conscientizarem da necessidade de realizar o pré-natal logo
quando descobrem a gravidez, podem evitar que seus filhos ouçam palavras ofensivas,
como a menina Juliana ouviu e contou com detalhes à reportagem: “E o **HIV** está
bem?”, “Minha mãe falou que eu não posso brincar com você”. Juliana contou que já
ouviu essas frases de outras crianças e revelou que é esse preconceito que a deixa
mais triste. “Eu sou uma criança feliz. Sei que tenho o vírus, mas o que mais me
dói, não são as agulhas, mas as palavras das pessoas”. Tanto a menina quanto os 
outros pequenos pacientes em tratamento, são orientados, através do projeto “Viver
é uma arte”, a se posicionarem frente a situações como essas. Tanto que Juliana 
também contou que a resposta foi: “Então fala para a sua mãe provar e, se ela não
conseguir, ela vai ter que pagar um ano de cesta básica pra mim”. Conforme a psicóloga
do Semil, percebe-se que os pequenos pacientes também têm noção dos seus direitos,“
mas não há o que apague da memória o preconceito covarde”. A menina concluiu fazendo
outra revelação, quando a pergunta foi: “Qual é o seu principal medo?”. E, a resposta:“
De andar em carroça”. (RR)

Integrantes do projeto vão para o Hopi Hari

Entre os objetivos do projeto “Viver é uma arte” estão proporcionar atividades manuais,
corporais, de literatura, vídeos, brincadeiras, cidadania, que possibilitem a expressão
das capacidades individuais, desenvolvimento da auto-estima, noções de ética e cidadania,
convivência em grupo dentro de um enfoque biopsicossocial, além de ‘passeio’. No
último dia 7, as crianças portadoras do vírus **HIV**, integrantes do projeto, foram
ao parque de diversões Hopi Hari. O dia foi aberto apenas para as instituições. 
A carroça citada por Juliana, foi encontrada lá. Embora ela tenha ficado com medo,
disse ter sido um dos dias mais felizes e divertidos da sua vida. (RR)

## Leia também

 * [Projeto aumenta adesões ao tratamento da Aids](https://soropositivo.org/projeto-aumenta-adesoes-ao-tratamento-da-aids/)
 * [Dia das Crianças: Prevenção à transmissão vertical do HIV ainda é um desafio no país](https://soropositivo.org/dia-das-criancas-prevencao-a-transmissao-vertical-do-hiv-ainda-e-um-desafio-no-pais/)
 * [Incidência de HIV expõe vulnerabilidade dos jovens](https://soropositivo.org/incidencia-de-hiv-expoe-vulnerabilidade-dos-jovens/)

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