# Proteínas em glândulas salivares formam barreira de proteção a portadores de HIV

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- Published: 2009-06-05T22:09:19-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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# Proteínas em glândulas salivares formam barreira de proteção a portadores de **HIV**

Há apenas 10 anos que se descobriu uma família de proteínas denominadas Plunc, às
quais vêm sendo atribuídas as mesmas funções das proteínas do sistema imune inato–
que atua como primeira linha de defesa contra a entrada de agentes infecciosos no
organismo.

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Uma pesquisa de doutorado desenvolvida na Faculdade de Odontologia de Piracicaba(
FOP), da Unicamp, identificou as Pluncs em glândulas salivares de pacientes **HIV**
positivos que foram a óbito, sugerindo, por meio das autópsias, que elas funcionariam
como única barreira de proteção disponível aos imunossuprimidos. 

“A família Plunc abre a janela para um enorme leque de pesquisas visando entender
melhor como essas proteínas agem não apenas em relação à **AIDS**, mas a todo tipo
de lesão infecciosa”, afirma Andréia Aparecida da Silva, agora doutora em estomatopatologia(
diagnóstico de doenças da boca) e professora do Centro de Estudos Superiores de 
Maceió (Cesmac).

 

A autora da tese foi orientada pelo professor Pablo Agustín Vargas e estagiou diretamente
com os cientistas que identificaram as Pluncs em humanos, o casal Lynne e Collin
Bingle, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra.

Andréia Silva explica que a Plunc é a sigla em inglês para Palate, lung and nasal
epithelium clone (Palato, pulmão, nasal clone epitelial), descoberta em 1999 por
Wayde Weston, que observou a proteína expressa em epitélios do palato, pulmão e 
fossas nasais de camundongos.

 

“Seu objetivo era estudar os genes envolvidos com o fechamento do palato – o céu
da boca, formado a partir de dois ossos nas extremidades que depois se unem na região
central. Já em 2000, os professores Lynne e Collin Bingle identificaram Plunc na
saliva, no epitélio do pulmão e em glândulas salivares de humanos”.

Epitélio é o tecido que reveste a superfície externa do corpo, órgãos e cavidades
internas, funcionando como eficiente barreira contra a entrada de agentes invasores.

 

“Foi durante meu estágio que eles recorreram à imunoistoquímica (uma técnica de 
coloração para proteína) a fim de verificar a expressão de Plunc nas glândulas salivares
de pacientes com **AIDS**. Em estudos prévios, a coloração foi mais forte na cavidade
nasal, por onde entra a maioria das impurezas, levando os Bingle a relacionar a 
proteína com o sistema imunológico inato”.

De acordo com Andréia Silva, o casal de pesquisadores ingleses seguiu estudando 
epitélios da traquéia e brônquios de humanos, e também de outros animais como vaca
e porco, descrevendo vários tipos de Plunc. “Eles perceberam pequenas modificações
genéticas e chegaram a uma família constituída por dez proteínas – quatro de genes
curtos e seis de genes longos. De forma geral, todas protegem o organismo contra
agentes patogênicos”.

Grupo com **HIV**

A autora da tese conta que a proposta de analisar pacientes autopsiados com **HIV**
nasceu de uma conversa informal sobre Plunc entre o professor Pablo Vargas e os 
Bingle, em Sheffield. Tanto o pesquisador da FOP como os ingleses acharam interessante
averiguar como essas proteínas são expressas nas glândulas salivares maiores de 
pacientes que foram a óbito devido à **AIDS**.

De 1996 a 1999, o docente da Unicamp coletou as glândulas salivares maiores de pacientes**
HIV** positivos, que foram autopsiados no Departamento de Patologia da Faculdade
de Medicina da USP. “O objetivo do professor Pablo Vargas era verificar se essas
glândulas salivares – as maiores da cavidade oral – também estavam comprometidas
com algum tipo de infecção, a exemplo de outros órgãos dos pacientes. E ele comprovou
que sim”.

Coube a Andréia Silva, então, demonstrar a expressão das Pluncs em glândulas salivares
desses pacientes autopsiados, apresentando lesões infecciosas causadas por micobacteriose
e citomegalovirose (doenças oportunistas decorrentes da imunossupressão) – e comparar
esta expressão com a de pacientes que foram a óbito por outras doenças.

 

“Observamos que, quando há lesão infecciosa nas glândulas salivares maiores, é maior
a expressão da proteína, sugerindo que ela está agindo para conter a infecção, em
que pese a deficiência no sistema imunológico do portador de **AIDS**”.

A autora trabalhou com blocos de parafina correspondentes a 35 glândulas parótidas,
37 submandibulares e 27 sublinguais de autopsiados com **HIV**, e de 10 pacientes**
HIV** negativos (grupo controle). O estudo apontou a expressão de duas proteínas
curtas nas três glândulas maiores e de uma proteína longa nos ductos das glândulas
salivares.

 

“Na verdade, estive na Inglaterra duas vezes: a primeira para submeter o material
à imunoistoquímica e, a segunda, para a hibridização in situ, técnica bem mais sensível
que apontou positividade em todos os casos do grupo controle”.

Pacientes vivos

Um passo seguinte, como adianta Andréia Silva, será descobrir quanto de proteína
Plunc está presente também na saliva, haja vista que na boca existem várias proteínas
que protegem contra infecção da **AIDS**. “A doença não é transmitida pela saliva,
quando se bebe no mesmo copo do paciente.

 

Se existe Plunc na glândula salivar, ela também existe na saliva, e é preciso saber
o quanto ela atua contra a infecção”.

A pesquisadora está na expectativa de iniciar já no próximo semestre o trabalho 
junto aos pacientes portadores de **HIV** vivos, coletando amostras de saliva em
centro montado no próprio Cesmac e enviando o material para análises na FOP e na
Universidade de Sheffield. “Acabei de receber mensagem da professora Lynne Bingle
anunciando sua vinda para Piracicaba em agosto, a fim de padronizar uma técnica 
para quantificação de Plunc na saliva”.

Andréia Silva lamenta que não possa participar diretamente das novas análises, uma
vez que está trabalhando em Maceió. “O importante é que a porta está aberta, inclusive
na Inglaterra. Em relação à família Plunc, os pesquisadores correm para descobri-
la em outros órgãos. Temos muita pesquisa pela frente”.

Mecanismos de defesa ficam comprometidos

Em sua tese de doutorado, Andréia Aparecida da Silva informa que a literatura relata
inúmeras lesões de origem infecciosa, cística, neoplásica e inflamatória nas glândulas
salivares de pacientes **HIV** positivos. Ela menciona alguns exemplos, como a turberculose,
histoplasmose, citomegalovirose e por Mycobacterium avium-intracellulare. Esta é
a primeira pesquisa investigando a participação das proteínas da família Plunc nas
glândulas salivares maiores de pacientes autopsiados com **AIDS** em fase avançada.

A autora da tese explica que os principais componentes do sistema imune inato são
as barreiras físicas e químicas, tais como os epitélios e as substâncias antimicrobianas
produzidas nas superfícies epiteliais. Seus mecanismos formam a primeira linha de
defesa do organismo e são capazes de promover rápidas respostas frente ao agente
agressor, mas nem sempre têm a capacidade de eliminar a infecção.

De qualquer forma, o sistema imune in
 at o é de fundamental importância nas fases
iniciais da infecção, funcionando como uma barreira e facilitando uma posterior 
resposta imune adaptativa mediada por células T. Em pacientes com **HIV**, este 
sistema imunológico vai sendo lenta e progressivamente deteriorado, deixando-os 
suscetíveis a uma série de doenças oportunistas que podem levar à morte.

As infecções oportunistas que acometem estes pacientes podem ser de origem bacteriana,
fúngica, viral ou de protozoários. Em decorrência das inúmeras alterações que ocorrem
no sistema imune, os portadores da doença também apresentam linfopenia, redução 
da função das células T com perda de células de memória, neoplasias e diminuição
da hipersenbilidade do tipo tardio, dentre outras deficiências nos mecanismos de
defesa.

Números da **AIDS**

Os primeiros casos de **AIDS** foram registrados nos EUA e em cerca de 20 anos a
doença se transformou em uma epidemia de grandes proporções. Até 2007, cerca de 
33,2 milhões de pessoas foram infectadas pelo **HIV**, sendo 30,88 milhões de adultos
e 2,55 milhões de crianças menores de 15 anos. Mais de 90% dos portadores vivem 
em países subdesenvolvidos, segundo estimativas do Programa Conjunto das Nações 
Unidas sobre **HIV**/**AIDS** (Un**AIDS**) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).
As taxas de infecção estão ainda em ascensão em muitos países da África Subsaárica,
sendo a principal causa de morte neste continente.

No Brasil, existem cerca de 660 mil indivíduos **HIV** positivos notificados pelo
Ministério da Saúde até o ano de 2007 e, destes, 474.273 já desenvolveram a doença.
São dados que equivalem a 1/3 da população que vive com **HIV** na América Latina.
Também até 2007, foram notificados aproximadamente 193 mil óbitos por **AIDS** no
país.

Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 80% dos casos em crianças com até 13 anos
de idade são decorrentes da transmissão vertical. Já a estimativa para mulheres 
grávidas infectadas pelo **HIV** é da ordem de 16.410, ou seja, 0,4% do total das
gestantes. Destas, apenas 40% recebem tratamento antirretroviral. O **HIV** é adquirido
através do sêmen, sangue e leite materno, podendo ser transmitido por relações heterossexuais,
homossexuais ou bissexuais masculinos, usuários de drogas ilícitas, receptores de
sangue e hemoderivados.

Autor: Luiz Sugimoto 
Fonte: Jornal da Unicamp 

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## JORNAL O NORTÃO ONLINE

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05/JUNHO/09

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