# Sem eles não há avanço

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- Published: 2009-06-19T22:55:11-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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**13/FEVEREIRO/08**

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Experiências com animais seguem imprescindíveis, ao contrário do que dizem ativistas

Fabrício Marques
 Edição Impressa 144 – Fevereiro 2008  © Miguel Boyayan    Nove
em cada dez experiências usam roedores, baratos de manter e fáceis de manusear   
Entre os feriados do Natal e do Ano-Novo, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou
uma lei que, se for levada à prática, obstruirá uma parte significativa da pesquisa
científica realizada na cidade por instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),
as universidades federal e estadual do Rio de Janeiro e o Instituto Nacional do 
Câncer (Inca). De autoria do vereador e ator Cláudio Cavalcanti, a lei tornou ilegal
o uso de animais em experiências científicas na cidade. “Um ser humano que tortura
seres dominados e incapazes de se defender, seres que gritam e choram de  dor – 
seja esse ser um pesquisador ou um psicopata – representa o rebotalho da Criação”,
justificou Cavalcanti, um destacado militante na defesa dos direitos dos animais,
em favor de seu projeto.

A comunidade acadêmica reagiu. A estratégia foi definida na primeira semana de janeiro,
numa reunião entre o secretário de Ciência e Tecnologia do estado do Rio, Alexandre
Cardoso, e pesquisadores de várias instituições. A bancada de deputados federais
do estado será mobilizada para ajudar a aprovar um projeto de lei que tramita no
Congresso há 12 anos e estabelece normas para a utilização criteriosa de animais
em experimentação. A lei municipal perderia efeito se o projeto federal sair do 
papel. Paralelamente, os pesquisadores também decidiram partir para a desobediência
e ignorar a lei. “Continuaremos trabalhando com animais de laboratório, cujos protocolos
foram aprovados pelos comitês de ética, e com animais das instituições de pesquisa”,
diz Marcelo Morales, presidente da Sociedade Brasileira de Biofísica (SBBf) e professor
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos líderes da reação dos cientistas.

Acontece que a interrupção do uso de animais geraria prejuízos imediatos com repercussão
nacional, como a falta de vacinas, inclusive a de febre amarela. O controle de qualidade
dos lotes de vacinas fabricados no Rio pela Fiocruz é feito por meio de animais 
de laboratório. A inoculação em camundongos atesta a qualidade dos antígenos antes
que eles sejam aplicados nas pessoas. Sem poder usar roedores, a distribuição de
vacinas como a de hepatite B, raiva, meningite e BCG teria de ser interrompida, 
por falta de segurança. “Também é fundamental esclarecer à população que, se essas
experiências forem proibidas na nossa cidade, todos os nossos esforços recentes 
para descobrir vacinas para a dengue, a **Aids**, a malária, a leishmaniose seriam
jogados literalmente no lixo”, diz Renato Cordeiro, pesquisador do Departamento 
de Fisiologia e Farmacodinâmica da Fiocruz. Marcelo Morales enumera outros prejuízos.“
Pesquisas sobre células-tronco no campo da cardiologia, da neurologia e de moléstias
pulmonares e renais, lideradas por pesquisadores da UFRJ, e de terapias contra o
câncer realizadas pelo Inca teriam de ser interrompidas”, afirma.

O imbróglio do Rio de Janeiro preocupa pesquisadores de todo o país porque não é
um caso isolado. Em novembro, vereadores de Florianópolis também proibiram o uso
de animais em práticas de ensino e pesquisa no município. Em 2005, a Assembléia 
Legislativa paulista aprovou uma lei que, além de coibir os rodeios e cercear os
abatedouros, proíbe o uso de animais em pesquisa caso haja dor. A lei ainda carece
de regulamentação e sua constitucionalidade está sendo contestada no Supremo Tribunal
Federal (STF). “A pressão está aumentando e nós não estamos conseguindo mostrar 
à população o que está em jogo”, diz João Bosco Pesquero, professor de biofísica
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretor-geral do Centro de Desenvolvimento
de Modelos Experimentais para Medicina e Biologia (Cedeme), o biotério da universidade.“
As pessoas se posicionam contra o uso de animais em pesquisas sem perceber que isso
é fundamental para o desenvolvimento dos remédios que elas compram nas farmácias
e que permitiu avanços que aumentaram a expectativa de vida da humanidade”, destaca
Pesquero.

Walter Colli, professor do Instituto de Química da USP, observou, em artigo assinado
em outubro de 2006 na revista Ciência Hoje em parceria com Maria Júlia Manso Alves,
que os cientistas precisam divulgar melhor a ciência e seus métodos, a fim de não
perder o apoio da opinião pública para uma atividade essencial para o progresso.“
Até há pouco tempo, o cientista era visto como um benfeitor da humanidade. No entanto,
no presente, ele é muitas vezes apontado como um profissional frio e calculista,
sem sentimentos. Grupos que pensam assim estão equivocados, já que nenhum cientista,
em sã consciência, teria prazer em maltratar animais”, escreveu
 A briga que esquenta
no Brasil é uma velha conhecida de países como os Estados Unidos e a Inglaterra,
onde grupos bastante articulados costumam promover protestos ruidosos em universidades
e já chegaram a atacar fisicamente pesquisadores envolvidos com experiências. Nesses
países, a garantia de que os animais são tratados de forma ética vem de legislações
restritivas que, em linhas gerais, proíbem o uso fútil desses modelos e exigem transparência
dos cientistas. A lei inglesa está em vigor desde 1876. É a experiência internacional
que inspira os pesquisadores brasileiros a defender a aprovação de um projeto de
lei apresentado em 1995 pelo então deputado e médico Sérgio Arouca (1941-2003). 
A chamada Lei Arouca estabelece, por exemplo, que só se deve utilizar animais de
laboratório caso não haja outro meio de testar a hipótese da pesquisa e que a utilização
dos modelos deve ser monitorada por comitês de ética específicos para essa finalidade
formados em cada instituição. Todo o sistema seria coordenado por um conselho nacional,
composto por cientistas e representantes de ministérios, encarregado de formular
normas relativas à utilização ética de animais e zelar pelo seu cumprimento.

A aprovação da lei, diga-
 se, pouco afet aria a rotina das principais universidades
do país, que nos últimos dez anos já se adaptaram aos ditames do projeto de Arouca.
Mas teria o dom de garantir a disseminação das normas em instituições de pesquisa
de regiões mais pobres, que nem sempre dispõem de condições financeiras de manter
biotérios adequadamente. Para Marcelo Morales, presidente da SBBf, a criação de 
um marco legal é essencial e sua ausência gera uma situação de incerteza, que causa
constrangimento a pesquisadores. “Mesmo fazendo experimentos com protocolos aprovados
na comissão de ética da UFRJ, Leopoldo de Meis, um dos mais respeitados cientistas
do Brasil, por exemplo, foi acusado de maus-tratos a animais e acabou intimado a
depor na delegacia”, contou. De Meis, que é professor do Instituto de Bioquímica
Médica da UFRJ, foi acusado em dezembro de 2006 de torturar animais, expondo-os 
a um frio de 4ºC, com base numa fotografia tirada em seu laboratório pelo telefone
celular de uma ativista. Na delegacia, o cientista explicou que a maior parte dos
coelhos do mundo vive naturalmente nessa temperatura e foi liberado.

Proibido fumar – As entidades antivivisseccionistas costumam esgrimir um conjunto
articulado de argumentos, que tem conquistado corações e mentes de políticos e eleitores.
O principal deles dá conta de que os bichos são vítimas de maus-tratos e de tortura.“
Afirmo que os animais de laboratório vivem em condições de alimentação, de manutenção
e de conforto melhores do que boa parte da população brasileira. E isso ocorre porque
é essencial ter animais em boas condições de saúde para as experiências científicas”,
diz Luiz Eugênio Mello, professor de fisiologia da Unifesp e presidente da Federação
das Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe). As regras seguidas pelo biotério
da Unifesp, que fornece a Luiz Eugênio animais para suas pesquisas sobre fisiologia
e o estudo da epilepsia, seguem minúcias como o tempo máximo (12 horas) que se pode
impor de jejum a um animal antes que ele seja operado e a adoção de regime de ventilação
que permita de 15 a 20 trocas totais de ar por hora no ambiente em que vivem os 
bichos. É terminantemente proibido fumar no biotério.

Quanto à idéia da tortura, Luiz Eugênio lembra que os comitês de ética de pesquisa
instalados desde os anos 1990 em todas as universidades e instituições de pesquisa
já realizam um monitoramento ético das experiências com animais, com exigências 
em relação ao uso de anestésicos e de analgésicos e da eutanásia sem dor depois 
da sua utilização. Agências como a FAPESP e o CNPq também fazem exigências sobre
o uso de animais para fomentar projetos. “Evidentemente, se eu estou testando um
medicamento para dor ou para ansiedade, não conseguirei avaliar a eficácia sem submeter
o animal à dor ou a uma situação de ansiedade. Mas esse tipo de desconforto a que
o animal é submetido é sempre controlado e quan-tificado, caso contrário não é possível
mensurar o resultado da experiência”, afirma Luiz Eugênio.

Outro argumento corrente dos defensores dos direitos dos bichos é que o uso de animais
se tornou obsoleto com o surgimento de alternativas para as experiências. “De fato,
existem alternativas, mas nem todas são válidas e podem ser utilizadas. À medida
que as alternativas forem desenvolvidas e validadas, os pesquisadores serão os primeiros
a utilizá-las. O importante para o pesquisador é a validade do seu resultado, sendo
ele produzido com animais ou com técnicas alternativas”, diz Marcel Frajblat, professor
da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Itajaí (SC), e presidente do Colégio
Brasileiro de Experimentação Animal (Cobea). “No caso dos medicamentos, eles têm
de passar por pelo menos três espécies animais antes de serem comercializados. Não
existem alternativas, fora do uso de animais, para testar um medicamento antes de
ele ser encaminhado para testes pré-clínicos em seres humanos”, diz Frajblat. Milton
de Arruda Martins, professor titular da clínica médica da FMUSP, dá exemplos: “Medicamentos
contra a **Aids** e contra o câncer têm de ser bastante potentes e a experimentação
animal vem sendo fundamental para avaliar tanto os efeitos benéficos como os colaterais”.
Da mesma forma, diz Martins, o desenvolvimento de vacinas exige, a certa altura,
que o antígeno seja aplicado num organismo vivo para averiguar sua capacidade de
produzir anticorpos. “Temos duas opções: testá-los em animais ou aplicá-los diretamente
em seres humanos. Não há uma terceira opção e a sociedade precisa saber disso”, 
afirma.

É certo que o argumento da obsolescência de aplicações dos modelos animais baseia-
se em premissas que fazem sentido. De fato, certos usos caíram em desuso, alguns
por razões éticas, e, sim, surgiram opções capazes de aposentar o uso de animais
em vários tipos de experiência. Mas os avanços científicos, com as novas perguntas
e desafios que impõem aos pesquisadores, fazem brotar novas aplicações de modelos
animais a cada dia – e não há razões para acreditar que isso vá mudar.

Nocaute genético – Regina P. Markus, professora do Departamento de Fisiologia do
Instituto de Biociências da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Farmacologia
e Terapêutica Experimental (SBFTE), dá um exemplo de uso obsoleto. Ela lembra que,
na década de 1930, foi desenvolvida uma técnica para diagnosticar gravidez: aplicava-
se urina de uma mulher em ratas e avaliava-se se seu útero se dilatava, efeito da
tempestade hormonal feminina que se segue à fecundação. “É evidente que hoje não
faria nenhum sentido fazer um teste de gravidez dessa forma, mas foi utilizando 
essa técnica que se descobriu o modo atual de fazer o diagnóstico.” Durante as décadas
de 1980 e 1990, a experimentação em animais cedeu à biologia molecular parte do 
espaço que ocupava. “O estudo de genes e proteínas valendo-se de modelos celulares
foi tão disseminado que os estudos fisiológicos envolvendo animais de experimentação
perderam força”, escreveu Antonio Bianco, professor associado de medicina da Universidade
Harvard, em sua coluna no site de Pesquisa FAPESP.

Nos últimos anos, contudo, aconteceu uma notável reviravolta. A possibilidade de
criar linhagens de animais com inativação ou indução de um ou mais genes deu um 
novo impulso à pesquisa com animais, como destacou Bianco. Os geneticistas norte-
americanos Mario Capecchi e Oliver Smithies e o inglês Martin J. Evans ganharam 
o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2007 pela criação de uma tecnologia, 
conhecida como nocaute genético, que permite inativar certos genes e monitorar os
efeitos dessa ação, o que leva à construção do quadro do desenvolvimento da doença.
Até o momento, mais de 10 mil genes de

ratos foram “nocauteados”, e muitos outros devem passar pelo mesmo processo em um
futuro próximo. O resultado são mais de 500 modelos de doenças humanas, incluindo
problemas cardiovasculares e neurodegenerativos, diabetes e câncer. “A evolução 
do conhecimento na genômica fez explodir o uso de camundongos como ferramenta de
pesquisa”, diz José Eduardo Krieger, professor associado do Departamento de Clínica
Médica da FMUSP e pesquisador do Instituto do Coração, de São Paulo.

Alma racional – Os primeiros relatos conhecidos de uso de animais em experimentações
remontam há mais de 2 mil anos, quando Hipócrates (450 a.C.) realizou estudos que
relacionavam órgãos humanos doentes com os de animais para fins didáticos. As investigações
com modelos animais ganharam fôlego a partir do século XVI. Em 1638, William Harvey
publicou um livro em que expôs estudos experimentais sobre a fisiologia da circulação
sangüínea feitos em 80 espécies diferentes. Atribui-se ao filósofo francês René 
Descartes (1596-1650) um aval às experiências, ao alegar que os homens eram dotados
de uma alma racional e os animais, não. Já o inglês Jeremy Bentham (1748-1832) foi
um dos primeiros a apresentar um contraponto à visão cartesiana, ao formular questionamentos
éticos acerca do sofrimento imposto aos animais. “Provavelmente, a partir das idéias
de Bentham aparecem as primeiras ações com relação à proteção aos animais no século
XIX”, escreveram Marcia Raymundo e José Roberto Goldim, pesquisadores do Hospital
de Clínicas de Porto Alegre, autores do artigo “Ética da pesquisa em modelos animais”.

O advento das primeiras sociedades de proteção aos animais no século XIX já mobilizou
cientistas. Em 1865, o médico Claude Bernard justifica a utilização dos animais 
de forma veemente em seu livro Uma introdução do estudo da medicina experimental.“
Nós temos o direito de fazer experimentos animais e vivissecção? Eu penso que temos
este direito, total e absolutamente. Seria estranho se reconhecêssemos o direito
de usar animais para serviços caseiros, para comida, e proibir o seu uso para a 
instrução em uma das ciências mais úteis para a humanidade. A ciência da vida pode
ser estabelecida somente através de experimentos e nós podemos salvar seres vivos
da morte somente após sacrificar outros”, escreveu Bernard.

Na avaliação de Luiz Eugênio Mello, da Fesbe, a defesa do direito dos animais ganhou
articulação no século XVIII com o advento do conceito do “bom selvagem”, cunhado
por Jean-Jacques Rousseau em alusão às qualidades superiores que, a seu ver, tinham
os indivíduos que viviam no estado da natureza. “O sentimento de que o homem é um
corruptor da natureza surgiu na Revolução Industrial e não deixou de existir”, diz.“
Ele frutificou na defesa dos direitos dos animais, no discurso dos ecologistas e,
mais recentemente, na oposição aos transgênicos. Como utopia é bonito e, sem dúvida,
rende belos roteiros aos estúdios Walt Disney. Mas o mundo real é bem diferente.
Muitas pessoas gostam de comer carne. E a pesquisa científica, que aumentou a expectativa
de vida da humanidade e viabilizou remédios e tratamentos, foi totalmente calcada
em experimentos com modelos animais”, diz. “É uma utopia ignorar que dependemos 
de nos alimentar de vegetais e de outros animais para sobreviver. Para você existir,
alguma outra coisa tem que deixar de existir. Esse é um fato da natureza”, afirma
Luiz Eugênio. Marcel Frajblat, presidente do Cobea, aponta uma questão de fundo:
a sociedade, incluindo os vereadores do Rio e de Florianópolis, tem uma percepção
errada de como a ciência é produzida, associando o uso de animais em pesquisa a 
maus-tratos e não percebendo o benefício deste uso no seu dia-a-dia. “E muitos dos
que militam contra o uso de animais pensam mais em si e nos animais do que nas pessoas
que precisam de medicamentos e terapias desenvolvidos com a ajuda de modelos animais”,
afirma Frajblat.

Beneficiários – O antivivisseccionismo recebeu uma injeção de ânimo a partir dos
anos 1970, com o livro Libertação animal, do australiano Peter Singer, professor
da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, que, entre outras denúncias, chocou
ao mostrar os testes de toxicidade de cosméticos feitos em olhos de coelhos. Singer
é um dos formuladores do termo “especismo”, discriminação que pressupõe que os interesses
de um indivíduo são de menor importância pelo mero fato de se pertencer a uma determinada
espécie. Neste aspecto, curiosamente, há espaço para convergência. A idéia de que
remédios, tratamentos e técnicas cirúrgicas devem ser testados primeiro em animais
para só depois serem experimentados em seres humanos baseia-se, sem dúvida, na concepção
da primazia humana. Mas os cientistas rejeitam a idéia de que há vencedores e vencidos.“
A experimentação com modelos animais ajudou a desenvolver tratamentos, medicamentos
e procedimentos para a veterinária e hoje os animais também são beneficiários diretos
disso”, diz Luiz Francisco Poli de Figueiredo, professor titular de técnica cirúrgica
da Faculdade de Medicina da USP.

Não se imagine que o sacrifício de animais de laboratório é assunto bem resolvido
entre os pesquisadores. A geneticista Mayana Zatz, pró-reitora de Pesquisa da USP,
é uma defensora do uso dos animais em experiências científicas. “Sem eles, toda 
a pesquisa que está sendo feita com células-tronco se tornaria inviável. Não dá 
para aplicar em humanos sem primeiro testar exaustivamente em modelos animais”, 
ela afirma. Mayana, contudo, prefere delegar a seus assistentes e orientandos a 
tarefa de sacrificar animais. “Eu olho de longe. Não gosto de matar bicho, da mesma
forma que não como carne. Mas não é porque eu tenho dificuldade de trabalhar com
modelo animal que vou esquecer que eles são absolutamente necessários para a pesquisa”,
afirma. A professora Regina P. Markus, do Instituto de Biociências da USP, já se
acostumou a administrar esse tipo de problema. “Nunca vi nenhuma dificuldade no 
uso de animais por alunos de medicina. Eles sabem claramente que isso tem uma justificativa,
que é o avanço de terapias ou cirurgias. Isso já não ocorre com vários estudantes
de biologia. É comum haver, entre eles, jovens que querem seguir carreira com viés
conservacionista e têm dificuldade em trabalhar com animais. Já vivi situações no
laboratório em que eu própria tive de sacrificar animais, porque nenhum estudante
se habilitou para a tarefa”, con- ta. Regina diz que o importante, em situações 
como essa, é não fazer julgamentos. “Trata-se de uma questão de foro íntimo, que
precisa ser respeitada. O importante é manter o consenso de que o uso dos animais
é fundamental para a pesquisa&

rdquo;, destaca a professora.

A favor dos defensores dos direitos dos animais, deve-se dizer que sua mobilização
teve um papel na construção do conjunto de procedimentos éticos em experimentação.
Um episódio ocorrido em 1988 ilustra essa influência. Na ocasião, o então prefeito
de São Paulo, Jânio Quadros, proibiu o Centro de Zoonoses do município de fornecer
cães recolhidos das ruas para experiências em universidades e institutos de pesquisa.
Jânio cedeu aos apelos de sua mulher, Eloá, que adorava cachorrinhos e considerava
cruel o destino que os animais de rua tinham nas mãos dos pesquisadores. A reação
dos pesquisadores foi forte e a prefeitura acabou cedendo. O tempo passou e o que
era tido como imprescindível nos anos 1980 tornou-se condenável segundo os critérios
éticos atuais. Boa parte daqueles cães de rua era usada em experiências de sala 
de aula, nas quais se treinava, por exemplo, a habilidade de futuros médicos em 
usar o bisturi ou fazer suturas. “Atualmente a utilização de animais para demonstração
em aulas está bastante reduzida e foi sendo substituída por outras técnicas. A pressão
das entidades dos direitos dos animais e de muitos alunos mudou esse costume”, diz
Mirian Ghiraldini Franco, professora da Unifesp e coordenadora do Cedeme. Também
ajudou a erradicar o uso de cães de rua nas instituições paulistanas o fato de os
animais terem saúde precária, podendo contaminar pesquisadores e alunos. “Hoje só
se faz pesquisa com animais que apresentem condições ideais de saúde. Revistas internacionais
não publicam artigos envolvendo experiências com animais criados precariamente”,
afirma Mirian.
 Ralos à prova de fugas – A necessidade de criar animais de qualidade
para pesquisa provocou uma transformação nos biotérios. O novo Centro de Bioterismo
da FMUSP foi inaugurado em 2002 com investimento de R$ 5 milhões. O edifício teve
de ser adaptado para que se encaixasse nos padrões da International Council for 
Laboratory Animal Science (Iclas) e da Association for Assessment and Accreditation
of Laboratory Animal Care International (Aaalac), duas entidades que regulam esse
tipo de centro no mundo. Foram desenvolvidos em parceria com indústrias de material
de construção ralos à prova de fugas, tinta resistente aos produtos de limpeza, 
portas de aço com fechamento pneumático, sistemas de ar condicionado, entre outros.“
Para se produzirem animais mais adequados para pesquisas, com variabilidade genética
menor e criados em condições ambientais e sanitárias controladas, foi necessário
investir em grandes biotérios, que são estruturas caras de se manter”, afirma Roger
Chammas, professor associado e diretor do Centro de Bioterismo da FMUSP.

A racionalização do uso de animais segue o modelo proposto em 1959 pelo zoologista
William Russell e pelo microbiologista Rex Burch, que estabeleceram os três erres
da pesquisa em animais: Replace, Reduce e Refine, na qual a utilização é permitida,
mas deve ser reduzida ao mínimo e substituída sempre que possível por outras técnicas.
No ano passado, o biotério da Unifesp, que fornece 2 mil ratos e 5 mil camundongos
por mês, deu um passo importante rumo à racionalização. Passou a cobrar pelos animais
de laboratório – os valores variam de R$ 5 a R$ 50 (camundongos transgênicos são
os mais caros). A medida fez com que a demanda caísse 50%, numa evidência de que
o uso, até então, era exagerado. Na Faculdade de Medicina da USP, os cães foram 
abolidos dos experimentos e o treinamento de estudantes em técnicas cirúrgicas, 
por exemplo, é realizado em animais que foram utilizados em pesquisas relevantes
e seriam descartados, sempre com uso de anestesia e analgesia. O aprendizado de 
técnicas de sutura e de implante de enxertos, que antes usava cães vivos, hoje é
feito em segmentos de animais já sacrificados – e até em línguas de boi compradas
no açougue. Colaborou para a redução do uso de animais na FMUSP a criação de novas
técnicas para treinamento de estudantes, como um simulador de cirurgias por laparoscopia,
aquelas feitas por meio de uma tela de computador, que submete o estudante a situações
reais, além de ratos de plástico e de manequins nos quais é possível reproduzir 
algumas situações reais. “São recursos que su

## Leia também

 * [O desafio de US$ 1 bilhão](https://soropositivo.org/o-desafio-de-us-1-bilhao/)
 * [Aids: não há grupos de risco](https://soropositivo.org/aids-nao-ha-grupos-de-risco/)
 * [Pesquisa faz monitoramento da epidemiologia molecular do HIV-1](https://soropositivo.org/pesquisa-faz-monitoramento-da-epidemiologia-molecular-do-hiv-1/)

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