# Sexualidade: O azul no fundo é cor quentíssima

- Link: https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/
- Published: 2014-02-11T15:57:48-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

![Logotipo do Soropositivo.Org](https://soropositivo.org/wp-content/plugins/machina-
analytica-integrada/assets/logo-soropositivo.webp)

**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

Este blog está online há 26 anos, 2 meses e 13 dias.

### Tópicos Tratados Nesta Página

 * [Sexualidade: O azul no fundo é cor quentíssima *](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/#sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/#leia-tambem)
 * [Like this](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/#like-this)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/#relacionado)

## Sexualidade: O azul no fundo é cor quentíssima *

[[

O título brasileiro é o mesmo da graphic novel que inspirou o filme. O Azul é a 
Cor mais Quente, de Abdellatif Kechiche, baseia-se, com total liberdade, na história
em quadrinhos de Julie Maroh.Na França, chamou-se **A História de Adèle**. O centro
da história é a paixão entre duas garotas.

Na versão de Kechiche temos um drama em dois atos. No primeiro, acompanhamos a educação
sentimental de uma adolescente, Adèle. No segundo, as intermitências da paixão entre
Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Duas informações externas, que
não se podem desdenhar. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e, imediatamente,
envolveu-se em mil polêmicas.

Tudo a propósito, parece, das cenas de sexo explícitas entre Adèle e Emma, uma delas
de cerca de sete minutos de sexo lésbico à flor da pele, explodindo em mil facetas
diferentes. Alguns jornais acusaram Kechiche de voyeurismo, uma forma de expressar
sexualidade. A autora da história em quadrinhos afirmou que Kechiche filmava o amor
lésbico do ponto de vista de um macho. E assim foi. As próprias atrizes andaram 
se queixando da superexposição, mas depois se desdisseram. O fato de Léa Seydoux
ser herdeira da Gaumont e princesinha do cinema francês só ajudou a botar lenha 
na fogueira.

Kechiche esteve em São Paulo, em companhia de Adèle Exarchopoulos, e pareceu na 
defensiva, talvez escaldado pelo succès d’escandale que o filme havia obtido em 
seu país. Justificou a duração das cenas como a busca de uma escritura cinematográfica
própria, com a sexualidade, o que parece acertado. Basta rever aquele que talvez
seja seu trabalho melhor, O Segredo do Grão, em que uma moça encena uma interminável
dança do ventre para distrair os clientes enquanto o jantar em seu restaurante não
fica pronto. É o centro de O Segredo do Grão.

![sexualidade](/wp-content/uploads/2014/02/sexualidade5.jpg "sexualidade")

Assim como a relação sexual em tempo real entre Emma e Adèle ocupa o núcleo de O
Azul É a Cor mais Quente. Ele é que divide a história em duas partes. A antes inexperiente
e hesitante Adèle passa a comporta-se como uma amante das mais expertas, no mesmo
nível da muito mais rodada Emma. E a relação se estabelece em um grau de equidade
amorosa, equilíbrio que será minado, aparentemente, pela desigualdade das origens
sociais das duas parceiras.

Emma é uma artista plástica que busca espaço na difícil cena cultural parisiense
e, por fim, o encontra. Adèle encaminha-se para o magistério e torna-se professora
primária.  Essa é uma contradição. Mas, veja. O “abismo” cultural entre elas não
parece tão grande assim. Emma é uma artista, porém o seu reconhecimento parece encaminhar-
se mais para o lado do sucesso burguês nas vernissages do que para uma autêntica
realização estética. Essa “réussite” social de Emma é um dos aspectos mais fakes
do filme de Kechiche. Por outro lado, o litígio entre as duas se dará por uma questão
de ciúmes e não por outro motivo.

![sexualidade](/wp-content/uploads/2014/02/lesbianismo.jpg "sexualidade")

Em entrevista, Kechiche desfaz-se das críticas recebidas com o argumento de que 
buscava uma “banalização” da relação homossexual. O verbo “banaliser” foi assim 
traduzido, e não está errado, mas o conceito, em francês como em português, tem 
algo de pejorativo, o de tornar alguma coisa trivial, sem importância, redundante.
Concedamos, com boa vontade, que ele quis dizer outra coisa. Queria mostrar o amor
entre duas mulheres como algo natural. Tanto como se fosse o amor entre dois homens,
ou entre um homem e uma mulher.

Certo, mas, como se sabe, sexo e morte são dimensões da experiência humana que colocam
sérios problemas à sua representação na tela. São como formas tabus, irredutíveis,
no limite, à representação. Daí, por exemplo, a tentativa de glamurizar a morte,
como forma de evitar a sua crua realidade. Em Tarantino, a morte é pop; em Kieslowski
é quase insuportável. O sexo é embelezado de maneira publicitária em Nove e Meia
Semanas de Amor e jogado de forma quase crua em Império dos Sentidos. Em Kechiche
há essa questão adicional da temporalidade. Em busca de sua escritura própria, ele
precisa se estender, alongar a sequência até seu limite. Durante o sexo, em especial
na cena mais longa, tudo é explícito e em tempo real. As elipses encontram lugar
em outras partes do filme, como na já aludida sabedoria sexual de Adèle, adquirida
do dia para a noite, de maneira tão súbita quanto surpreendente.

Há também em Kechiche uma crescente obsessão pelos closes. Vamos dizer que seja 
uma preferência, e esta também parte da busca pela escritura própria. De certo modo,
é como se a câmera quisesse explorar de cada vez mais perto a textura dos corpos,
milímetro por milímetro. Não apenas a pele, mas também as aberturas, a boca em especial.
Quando ama, mas também quando come, mastiga, deglute e bebe. Existe algo de profundamente
corporal, visceral mesmo neste filme, o que, inútil dizer, também pode provocar 
certo desconforto em sua recepção.

Vale dizer que O Azul É a Cor Mais Forte nos reserva momentos de inesperada beleza
e emoção. Centrado muito mais numa das protagonistas que na outra, vemos em Adèle(
que não por acaso conserva seu prenome como personagem e dá título ao original em
francês) a referência mais forte do olhar do cineasta. É para ela que convergem 
não apenas as dificuldades mais intensas, mas o amor mais explícito da câmera. Mesmo
em termos de enredo esse desequilíbrio é perceptível – se a trajetória de Emma parece
terminada com seu aburguesamento artístico, a de Adèle fica ainda em aberto, para
ser retomada talvez numa continuação já insinuada pelo diretor.

![sexualidade](/wp-content/uploads/2014/02/cade_seu_par2.jpeg "sexualidade")

As cenas de brigas entre as duas são muito intensas. O mesmo para as de sexo. Enfim,
mesmo se o filme tende para a prolixidade, não se pode dizer que não traga recompensas
para o espectador. E, apesar das ressalvas que se possam fazer sobre a sua maneira
de retratar o sexo, sente-se em Kechiche uma honestidade de base em relação ao seu
projeto estético. Às vezes ele pode ser desajeitado, mas não é malévolo e tem na
intensidade o seu trunfo mais forte.

_Texto integral da minha crítica de O Azul é a Cor mais Quente_

Nota do Editor de soropositivo.org: **Sexualidade**, especialmente a lésbica, é 
uma coisa que me atordoa… Não é a toa que…

Mas, o que verdadeiramente me incomoda é que esta parcela da população está completamente
à margem das campanhas dos governos no que tange à prevenção de HPV, outras DST’s
e AIDS.

## Leia também

 * [Sexo, sexualidade, Sexo Seguro e Sexo Mais seguro!](https://soropositivo.org/sexo-sexo-seguro-e-sexo-mais-seguro/)
 * [Gravidez na cadeia](https://soropositivo.org/gravidez-na-cadeia/)
 * [Fundo rejeita proposta do País para aids](https://soropositivo.org/fundo-rejeita-proposta-do-pais-para-aids/)

**Este blog existe há 25 anos.**
Se você gosta deste trabalho, se ele te ajudou 
de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo
que demore um pouco.E se quiser, mande um Pix de **R$ 0,25** pelos 25 anos de trabalho:**
Chave Pix:** solidariedade@soropositivo.org_Você também pode me escrever para: claudio@
soropositivo.org_

 * [  Email ](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/?subject=%5BShared%20Post%5D%20Sexualidade%3A%20O%20azul%20no%20fundo%20%C3%A9%20cor%20quent%C3%ADssima&body=https%3A%2F%2Fsoropositivo.org%2Fen%2Fsexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima%2F&share=email)
 * [  Print ](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/#print?share=print)
 * [  WhatsApp ](https://soropositivo.org/en/sexualidade-o-azul-no-fundo-e-cor-quentissima/?share=jetpack-whatsapp)

### Like this:

Like Loading…

### _Relacionado_