# Sobra verba, falta ação

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- Published: 2009-09-08T08:37:39-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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 Existem R$ 150 milhões destinados a programas de prevenção da doença e tratamento
a soropositivos parados em contas de 483 secretarias de saúde municipais e estaduais.
Até hoje não há punidos por ineficiência

 

 

Enquanto o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, tenta convencer o Congresso a
aprovar a nova CPMF, agora com o nome de Contribuição Social para a Saúde (CSS),
sobra nos cofres (1)de estados e municípios dinheiro federal que deveria ser usado
no combate à **AIDS**. Há pelo menos R$ 150 milhões parados em contas de 483 secretarias
de saúde contempladas com repasses da União, como se a doença, embora com números
estáveis de notificação nos últimos anos, não matasse quase mil pessoas a cada mês
no Brasil. Nesse mesmo período, de 30 dias, 2.800 brasileiros, em média, descobrem
que são soropositivos. Mesmo assim, a verba pública mofa nos meandros da burocracia
e do descaso de governantes. Uma portaria do Ministério da Saúde determina a suspensão
das transferências caso os recursos não sejam utilizados, mas nenhum beneficiado
foi penalizado desde a criação da política de incentivo, em 2003.

 

 

Relatório mais recente da pasta, de junho de 2009, revela casos esdrúxulos da ociosidade
na aplicação do dinheiro. Barueri, município de São Paulo, já recebeu R$ 1,3 milhão
do Ministério da Saúde nos últimos seis anos, mas só gastou, nesse tempo todo, R
$ 229 mil – 7,5% do montante. Alagoinhas, na Bahia, é outro exemplo de má aplicação:
dos R$ 125 mil recebidos em quase dois anos, investiu menos de R$ 20 mil. Poços 
de Caldas, em Minas Gerais, que recebeu R$ 1,1 milhão desde 2003, executou apenas
30% da verba. O ministério contabiliza como executados os valores efetivamente pagos.
Montantes empenhados, portanto, não entram nessa conta. “Temos buscado trabalhar
com cada estado para melhorar a capacidade de gestão desses recursos”, afirma Mariângela
Simão, diretora do Departamento de DST e **AIDS** do Ministério da Saúde.

 

 

Em Poços de Caldas, de acordo com o secretário de Saúde do município, Júlio Balducci,
a lentidão na aplicação da verba é culpa da gestão anterior. “Deve ter sido falta
de tempo ou opção da administração passada”, esquiva-se Balducci, que diz estar 
no cargo há apenas 50 dias. “Vamos usar parte desse recurso que está parado para
locar um imóvel mais confortável para o tratamento dos soropositivos”, destaca. 
Em Barueri, município com 260 mil habitantes, sendo 1,6 mil soropositivos, a coordenadora
dos programas de saúde, Adriana Poladian, salienta que as ações na cidade ocorrem,
muitas vezes, antes da execução das verbas, que em seis anos não passou de 7,5% 
do total. “Oferecemos teste rápido de diagnóstico para a população, temos convênios
com ONGs, damos reforço alimentar às crianças soropositivas”, enumera Adriana.

 

 

Mas não é só no âmbito municipal que a ineficiência reina. Embora mais equipadas
no que diz respeito a maquinários e recursos humanos, as secretarias estaduais também
dão maus exemplos de investimento dos recursos. O Rio de Janeiro, por exemplo, que
responde por 13% dos casos notificados de **AIDS** no país em 2007, última base 
de dados do Ministério da Saúde, gastou menos de 50% de toda a verba recebida do
governo federal para prevenir e combater a doença. O coordenador do programa estadual
de DST/**AIDS** do Rio, Alexandre Chieppe, se adianta em afirmar que o gasto do 
dinheiro em caixa já esta definido, apesar da burocracia. “Dos R$ 9 milhões, R$ 
5 milhões serão utilizados para compra de equipamentos para os dois hospitais da
rede estadual que tem enfermarias com leitos para pacientes soropositivos”, diz.

 

 

A Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul também aparece no documento do Ministério
da Saúde com uma execução pífia: 43% dos R$ 12,7 milhões já transferidos pela União.
Em nota, o órgão gaúcho detalha a destinação do saldo de R$ 7 milhões, que serão
distribuídos entre transferências para municípios, publicidade, repasse a ONGs e
compra de medicamentos.

 

 

O Distrito Federal é um caso à parte no relatório do Ministério da Saúde porque 
transfere para uma conta do Banco Regional de Brasília (BRB) os repasses vindos 
da União e, dessa forma, aparece no documento com quase 100% de execução. Dados 
do Conselho de Saúde do DF, entretanto, mostram execução próxima de zero entre 2003
e 2008. A Secretaria de Saúde rebate a informação, alegando que os valores empenhados
devem entrar na conta do montante executado. Pelos números repassados pelo órgão,
referentes somente aos últimos cinco anos, os empenhos do orçamento no exercício
vigente oscilam entre 29%, em 2005, e 100%, em 2009.

 

 

“Estamos tentando dar velocidade a esses investimentos. Mas entre pensar em gastar
e gastar, efetivamente, no serviço público levamos no mínimo 100 dias”, pondera 
Fernando Antunes, secretário-adjunto de Gestão da Secretaria de Saúde do DF. A situação
levou o Ministério Público do DF a pedir informações aos órgãos competentes. “O 
problema não é falta de recursos, mas sim de gestão. Mesmo com o governo federal
oferecendo o coquetel, o pouco que fica para os estados fazerem não é realizado 
a contento”, lamenta Cátia Vergara, promotora de justiça de defesa da saúde.

 

 

 

1 – Transferências

 

Desde 2003, o Ministério da Saúde repassa, automaticamente, do Fundo Nacional de
Saúde aos fundos estaduais e municipais de Saúde, recursos para serem usados na 
prevenção e combate à **AIDS**. Cada ente da federação beneficiado tem de elaborar,
anualmente, um Plano de Ações e Metas (PAM) detalhando os investimentos. Ao longo
dos seis anos da política de incentivo, a pasta já repassou R$ 660 milhões, dos 
quais 23% não foram executados.

 

 

Confira trecho da entrevista com Mariângela Simão, diretora do Departamento de DST
e **AIDS** do Ministério da Saúde

 

 

 

Repasses mantidos

 

 

Em vigor desde 2003, a portaria 2313/02 prevê que o município ou estado receptor
dos recursos federais destinados ao combate a **AIDS** que não movimentar o dinheiro
por até seis meses pode ter as verbas suspensas pelo Ministério da Saúde. Até hoje,
mesmo com o descumprimento da norma, o Departamento de DST e **AIDS** não cancelou
nenhum repasse, cujo valor mínimo anual é de R$ 75 mil. “A gente tenta acompanhar
de perto para melhorar a execução nos locais mais problemáticos. Boa parte dos recursos
que vemos hoje se acumularam nos dois primeiros anos da política, quando as secretarias
tinham dificuldade de transferir às organizações da sociedade civil. O Paraná, por
exemplo, que lidera administrativamente os editais para liberação de recursos a 
ONGs ainda mantém grande valor em caixa”, ameniza Mariângela Simão, diretora do 
Departamento de DST e **AIDS**.

 

 

Para melhorar a qualificação da governança dos recursos aplicados no combate à **
AIDS** e outras doenças sexualmente transmissíveis, Mariângela anuncia a assinatura
do acordo **AIDS** IV, no valor total de US$ 200 milhões, sendo US$ 133 milhões 
de contrapartida do Tesouro Nacional e US$ 67 milhões emprestados pelo Banco Mundial.“
O objetivo é melhorar a capacidade de gestão, pois essa é uma das grandes cobranças
do Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz. Válido por quatro anos, o compromisso foi
iniciado em 1994, quando o Banco Mundial emprestou US$ 160 milhões e a participação
do orçamento da União ficou em US$ 40 milhões. (RC e RM)

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## **CORREIO BRAZILIENSE**

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**BRASIL**

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**07/SETEMBRO/09**

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