# Uma história de luz

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- Published: 2010-09-15T09:36:41-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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**AVISO IMPORTANTE**

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica. Eu escrevo também a partir
da minha experiência como paciente, mas decisões sobre exames, diagnóstico e tratamento
devem ser tomadas em conjunto com profissionais de saúde.

**HÁ VIDA COM HIV**

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AIDS

 

 

Dez anos da vida de um jornal que reconhece a vida

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ELIANE BRUM

Quando morreu, ele tinha umas poucas roupas usadas demais, uma flauta doce e uma
pasta onde guardava sua certidão de nascimento, a carteira de identidade e recortes
de jornais. Na parte de dentro da capa desta pasta, ele escrevera: “Luciano Felipe
da Luz – jornalista e jornaleiro do Boca de Rua”. Tudo estava ali. Com esta frase
ele se inscreveu no mundo e morreu como um homem. Só pôde morrer como um homem porque
viveu como um.

A frase que ele escolhera para se identificar, para atravessar o espaço e quebrar
com palavras a ausência de si, é a chave para acessar a vida que se foi mas fica
no registro. Quem apenas decodificasse a frase sem conseguir lê-la, poderia se enganar
com o legado do homem-garoto. Num olhar superficial, ele era um menino que morria
cedo, aos 20 e bem poucos anos. Tinha marcas demais no corpo, toda uma existência
contada ali em cicatrizes de facadas, de surras, de picadas, um mostruário completo
de todas as formas de violência inventadas, um mostruário da humanidade contada 
pelas suas tripas. Tanto em tão pouco, uma confusão que a vida faz com o tempo e
o espaço.

Mas tudo que estava ali contado nas cicatrizes daquele corpo no necrotério só existia
porque ele tinha se tornado “Luciano Felipe da Luz – jornalista e jornaleiro do 
Boca de Rua”. Era no conteúdo da pasta que ele nomeava, nos recortes de jornal que
ele escrevia com outros garotos com destinos parecidos, mas jamais iguais, que ele
havia se tornado o homem que morreu.

Dito de outra maneira. Ele havia nascido Luciano Felipe da Luz. Mas só se tornou
Luciano Felipe da Luz ao começar a escrever-se no jornal. Ao escrever-se, ele tornou-
se homem. E só se completou homem porque passou a ser lido como homem. Esta é a 
sutileza de sua identidade – “Luciano Felipe da Luz – jornalista e jornaleiro do
Boca de Rua”. Ao colocar no mesmo patamar o jornalista e o jornaleiro, ele intuiu
que escrever e ser lido eram partes do mesmo mistério. Como jornalista ele se escrevia,
como jornaleiro ele se fazia ler. Luciano Felipe da Luz eliminara ali, na frase 
do seu legado, a mercadoria. Ele, que até então havia sido a sobra do capitalismo.

O que faz de um homem um homem? O que nos faz o que somos? A narrativa, a capacidade
de nos contarmos. Mas não só. O tornar-se homem só se completa na possibilidade 
de ser lido, no reconhecimento da história de cada um pelo outro. É naquele reconhecimento
que vemos nos olhos de quem amamos ao acordar que nos humanizamos, que nossa humanidade
se reedita a cada manhã. Por isso nenhum homem pode ser uma ilha – na frase perfeita
que já se tornou um clichê. Porque só somos no outro. E o outro só é em nós.

Quem era Luciano Felipe da Luz antes de tomar posse do seu corpo pela escrita? Era
Mercedez. Ganhou este nome por causa do caminhão Mercedes Benz que o atropelou um
dia. Não tinha sido o único atropelamento. Ele fora atropelado 12 vezes. Numa delas,
ganhou este batismo tão literalmente das ruas. Sem reconhecimento, seu corpo levou
ainda um tiro na cabeça, algumas facadas e mais tarde foi assinalado também pelas
marcas da **AIDS**.

Arrastando seu corpo sem palavras pelas ruas de Porto Alegre, Mercedez não era visto.
Há várias formas de não ver um outro. Infelizmente exercitamos todas elas e sempre
inventamos uma nova. Deixamos de reconhecer um homem – no homem – quando pensamos
que sua dor não nos diz respeito. É só ao desconhecer o outro como um igual que 
a desigualdade de condições de vida se torna aceitável. Comum, banal e principalmente
alheia a nós.

Com Mercedez era assim, um menino que cresceu nas ruas sem ser visto. Quando era
visto, era sempre pelo olhar da violência. Do nosso, que não o enxergava, de outros
que como ele disputavam os restos da rua, da polícia que o espancava. Tudo o que
conhecia era ser marcado por esta violência, por um olhar que não o via. Porque 
entre as piores formas de não ver alguém está aquela que só enxerga seu estereótipo.
No caso dele, um garoto de rua, um maloqueiro, um vagabundo, um sujo, um feio, um
malvado. Um problema para as autoridades, uma mazela social para os especialistas,
um estorvo que atrapalha o tráfego e suja as calçadas para a maioria. Não causa 
espanto que, sendo assim, Mercedez tenha sido atropelado tantas vezes, inclusive
uma delas por um caminhão Mercedes Benz.

O que causa espanto é que Luciano Felipe da Luz tenha sobrevivido a todos os atropelamentos,
inclusive o do seu batismo. Mais tarde, quando ele começou a se contar pela palavra(
e não apenas pelas cicatrizes no corpo), dizia que era “filho da luz”. Se uma interpretação
parcial dos fatos mostrava que ele era filho do abandono – de vários abandonos -,
ele se agarrava ao fio do sobrenome e com ele construiu uma outra verdade narrativa
que repetia nas ruas: “Eu sou filho da luz”. Este parto de palavras pode ter dado
a ele uma maternidade que lhe permitiu viver dentro dos seus possíveis. A narrativa
que fez de sua origem deu a ele uma mãe que era luz. E com o que pareceria pouco
para muitos, Luciano Felipe da Luz desfez parte de suas trevas.

Quando duas jornalistas, Clarinha Glock e Rosina Duarte, começaram a inventar um
jornal escrito e vendido por garotos de rua em Porto Alegre, encontraram-no estirado
na calçada junto às paredes de um colégio de elite onde guardava carros. Sujo, chapado
e esquecido de si. Devagar, bem aos poucos, ele foi se agarrando a este fio que 
permitia a vida – esta maternidade narrativa que dava a luz e não a morte. Sem negar
o Mercedez que era parte dele, resgatou-se como Luciano. Parecia pouco, era tudo.
O suficiente para cuidar do seu corpo, agora que ele era constituído também por 
palavras, estas cicatrizes da alma.

Agora que não o viam mais como resto, mas como “jornalista e jornaleiro”. Agora 
que ele se apresentava diante do cidadão com seu crachá de jornalista e jornaleiro
e oferecia o jornal que ele também escrevia. Senhor, senhora, meu nome é Luciano
Felipe da Luz e eu tenho uma história. Pela primeira vez, então, dois mundos dialogavam
sem medos mútuos. E descobriam que só as palavras atravessam pontes. São gestos 
no ar.

Infelizmente não para ninguém, mas para a humanidade inteira, a **AIDS** já o devastava
há tempo demais e o cuidado com um corpo que agora podia ser marcado também pelo
amor só o roubou pouco tempo mais da morte – o que não é pouco, mas também é. Morreu
na luz. No Campo Santo, a parte do cemitério reservada aos pobres, foi sepultado
pelos amigos e colegas do jornal. Que perguntaram ao coveiro porque ele, como todos
ali, era apenas uma cruz com número – sem foto nem nome. A resposta era que ali 
os corpos eram enterrados com menos de sete palmos e desenterrados depois de algum
tempo para dar lugar a outro corpo de pobre.

Decidiram então registrar sua vida por escrito no jornal – e assim Luciano Felipe
da Luz morreu como um homem que viveu, morreu inscrito na história. Antes, eles 
apenas desapareciam, invisíveis na morte como na vida. Agora, homens como ele, jornalistas
e jornaleiros, morrem. E isso é um jeito de permanecer como vida.

Luciano Felipe da Luz, jornalista e jornaleiro do Boca de Rua, ficaria feliz ao 
saber que um dia, depois da sua morte, seus colegas de jornalismo e jornaleirismo
fizeram também um filme. Nele, apresentavam Porto Alegre aos moradores de rua de
São Paulo. Numa das exibições, no Centro Cultural Santander, na capital gaúcha, 
um espaço cultural muito valorizado e simbolicamente dentro do cofre de um antigo
banco, foram barrados ao chegar. Ensinado a interceptar roupas velhas e pobres, 
o segurança intimou: “Quem são vocês?”. Um deles se adiantou: “Nós somos os autores”.
E entraram.

Sim, eles são autores. Como autores podem viver. Como dizia Luciano Felipe da Luz:“
A minha vida é sempre a sua. Se liga gente boa”.

---

O Boca de Rua, um projeto da ONG Alice, completou 10 anos. O jornal, publicado a
cada três meses, conta histórias de um mundo até então invisível, agora escrito,
fotografado e grafitado por 15 moradores das ruas de Porto Alegre que se encontram
uma vez por semana para decidir a pauta e reeditar a vida. Os analfabetos ditam 
suas palavras, todos se escrevem de alguma maneira com a ajuda de todos. Depois,
é vendido nas ruas da capital por seus autores. Cada um tem a sua cota de exemplares
e a renda pertence a eles.

A comemoração de aniversário, marcada para este domingo, foi suspensa porque choveu
em Porto Alegre e na rua não tem telhado. Mas haverá festa quando o sol chegar. 
E o sol agora aparece. Aos jornalistas e jornaleiros que tornaram o Boca de Rua 
possível, a minha homenagem. Afinal, um jornal é exatamente isso – ou pelo menos
deveria ser: o reconhecimento da vida.

ELIANE BRUM

Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais
de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios),
A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua(
Globo).

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elianebrum@uol.com.br

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