# Existe vida sexual depois do HIV

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- Published: 2009-06-19T22:52:28-03:00
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 * [O Globo](https://soropositivo.org/existe-vida-sexual-depois-do-hiv/#o-globo)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/existe-vida-sexual-depois-do-hiv/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/existe-vida-sexual-depois-do-hiv/#relacionado)

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  |   Editoria:  |   Pág.  |

Dia / Mês/Ano:

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Revista O Globo

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02/DEZEMBRO/07

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ALBERTO GOLDIN

Foi se insinuando aos poucos e quando chegou nos pegou de surpresa,como ummeteorito
caindo inexorável sobre o planeta. Não estávamos preparados e quando percebemos 
sua gravidade já era tarde. A peste e o terror tinham se espalhado velozmente, como
uma mancha de óleo. Maldição bíblica, castigo divino para o pecado e a libertinagem.

A partir de então, osexo humano mudou, deixou de ser prazer gratuito. A abstinência
e a fidelidade recuperaram o espaço perdido. Muitos indivíduos, por imprudência,
transfusão ou acidente, ficaram presos ao seu destino. O tempo passou, carregou 
suas vítimas e os temores mais alarmistas não foram confirmados.Aparanóia se transformouemtemor,
que, por sua vez, foi mais compreendido e melhor tratado. O agudo se tornou crônico,
o meteorito contaminou sem acabar com o planeta.

Cláudia entrou na sua estatística. Absteve-se generosamente do sexo durante anos,
até que um cavalheiro insistente bateu à sua porta. Então, decidiu rever suas premissas.
Estava na hora. Hoje é uma mulher normal, que precisa de alguns cuidados especiais.

Seu conflito é compartilharumacama sem passar o vírus, o que não é fácil.

Tive vários pacientes nessas condições. Passaram por choros, gritos, perguntas e
chegaram a algumas soluções. Apesar de soropositivos, o sexo era possível e desejável.
Chegamos a algumas conclusões.

Uma é consultar um especialista responsável para reduzir o risco de contaminação.

A real dificuldade era tratar a questão com os novos parceiros, sem soltar a informação
de forma leviana e irresponsável, para não se submeter a uma sangrenta exposição
pública numa sociedade discriminatória. A melhor opção era contar a verdade. Mas
fazendo isso com a pessoa e no momento adequados, consciente de que poucos o aceitariam,
por prudência ou preconceito.

Um paciente optou por uma “meia verdade”.

Confessou sofrer uma virose “semelhante” à Aids (existem várias), que requeria precauções
especiais no contato sexual. Foi uma boa saída. Admitiu o problema e evitou o preconceito.
Ainda assim, foi difícil achar um parceiro. Outro namorou uma mulher também soropositiva,
excelente saída para ambos. Um terceiro justificava os cuidados para evitar uma 
doença genética familiar. Vários exemplos mostraram notável criatividade.

Ser soropositivo e continuar com uma boa vida sexual era difícil. Não podíamos induzir
à mentira, nem forçar a verdade. A Cláudia evitou o problema abstendo-se do sexo.
Agora o quer. Tem direito a ele, mas só terá sucesso quando resolver essa espinhosa
questão colocada entre a ética e a epidemiologia.

Talvez seja a circunstância mais difícil que um ser humano pode enfrentar. Nunca
o amor e a destruição do ser amado estiveram tão próximos. O único conselho que 
me atrevo a repetir, resgatado da minha experiência clínica, é pedir aos pacientes
que se coloquem na situação do parceiroe só façam o que, em situação inversa, admitiriam
que fosse feito com eles mesmos. Os que nunca amariam uma pessoa contaminada deveriam
se abster; os que admitiram, sinceramente, que o amor poderia superar o problema,
estariam em condições de tentar. Admito, humildemente, que nunca foi tão difícil
ser humano.

## Leia também

 * [Transmissão sexual do HIV e uso da carga viral indetectável](https://soropositivo.org/transmissao-sexual-do-hiv/)
 * [Mais brasileiras estão satisfeitas com a vida sexual](https://soropositivo.org/mais-brasileiras-estao-satisfeitas-com-a-vida-sexual/)
 * [A vida dos portadores de HIV pode ser saudável](https://soropositivo.org/vida-com-hiv-pode-ser-saudavel/)

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