# Forçar ou não o Tratamento? Para médicos, dilema sobre tratamento da AIDS

- Link: https://soropositivo.org/forcar-ou-nao-o-tratamento-para-medicos-dilema-sobre-tratamento-da-aids/
- Published: 2011-06-13T13:37:25-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

[⌊Forçar ou não o Tratamento?⌉⌊Forçar ou não o Tratamento?⌉[Os pacientes de **AIDS**
devem ser obrigados a tomar os remédios -agora que, pela primeira vez, existem evidências
clínicas sólidas de que as drogas **ANTIRRETROVIRAIS** salvam não apenas a vida 
dos pacientes, mas também a de seus parceiros sexuais?

Forcçar ou não o tratamento da AIDS?

Em maio, um teste clínico aleatório mostrou que as drogas diminuíam em 96% as probabilidades
de infectar um parceiro.

Essa é uma boa notícia para os infectados e seus namorados. Mas é um dilema moral
para os médicos cujos pacientes não querem começar a tomar drogas imediatamente,
em geral porque ainda não se sentem doentes e ouviram rumores exagerados sobre os
[efeitos colaterais](https://soropositivo.org/tratamentos-para-hepatite-b/).

Vários clínicos de **AIDS** entrevistados para a reportagem disseram achar repulsiva
a ideia de forçar um paciente a se tratar.

“Era impensável quando tivemos esse debate no início dos anos 1980 e é impensável
em 2011”, disse o doutor Myron S. Cohen, da Universidade da Carolina do Norte, que
conduziu o estudo que encontrou o índice de 96% de proteção. Ele chamou a ideia 
de “medieval” e “uma violação dos direitos civis”.

Os pacientes recalcitrantes “acabam nos procurando”, afirmou o doutor Wafaa El-Sadr,
que tratou pacientes de **AIDS** no Harlem e na África durante décadas. “Você tem
de falar com eles, falar e falar. Forçá-los os faria fugir.”

Ronald Bayer, professor de ética na Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade
Columbia, concordou, embora explique que “raramente sou eu quem pede restrição -
costumavam me chamar de “doutor Coerção”, pois estou mais do lado da saúde pública
que dos direitos individuais”. Se houvesse pílula capaz de tornar um paciente não
infeccioso durante um ano, o tratamento forçado seria imaginável.

Mas não há, e as barreiras práticas para obrigar alguém a tomar pílulas diariamente
são enormes. Além disso, segundo vários médicos, seria antiético despender esforços
para obrigar uma pequena minoria de pacientes egoístas e autodestrutivos a fazer
um tratamento quando tantos outros carecem dele.

No entanto, em muitas circunstâncias jurídicas, as pessoas podem ser obrigadas a
fazer tratamentos para proteger os outros. No surto de **TUBERCULOSE** resistente
a drogas em Nova York na década de 1990, os pacientes que não cooperavam foram trancados
no Hospital Bellevue.

Pacientes mentais podem ser medicados involuntariamente se um juiz ou um painel 
médico decidir que são perigosos; a “Lei de Kendra” que permite isso no Estado de
Nova York recebeu o nome de uma jovem morta por um deles.

Nos EUA, as mulheres com **HEPATITE B** podem ser obrigadas a imunizar seus bebês
12 horas depois do nascimento. E a maioria das leis de quarentena escritas há um
século, quando a cólera, o tifo e a peste eram comuns, continuam nos livros. “Maria
Tifóide” não ficou presa durante 25 anos para receber tratamento. Ela nunca adoeceu,
não acreditava em germes, embora fosse sua portadora, e atacou um oficial da saúde
pública com um garfo quando ele lhe pediu uma amostra de fezes. Ela foi presa, pois
continuou trabalhando como cozinheira, às vezes sob nomes falsos, e infectou 51 
pessoas.

O doutor Thomas R. Frieden esteve dos dois lados do dilema. Como diretor do Centro
de Controle e Prevenção de Doenças, ele é um líder no combate nacional à **AIDS**.
Como comissário de Saúde da cidade de Nova York durante o surto de **TUBERCULOSE**,
teve de prender alguns pacientes.

“Eu vejo uma linha clara entre a **TUBERCULOSE**, que pode ser transmitida só por
estar ao lado de outra pessoa em um elevador, e o **HIV**, que, geralmente, exige
uma atividade sexual consensual”, ele disse em uma entrevista.

Mas até o sexo consensual não é, ele admitiu, realmente consensual quando alguém
é alvo de mentira, está embriagado ou em uma dúzia de outras situações que negariam
o ideal de “consentimento informado”.

Ele descreveu as entrevistas que fez com homens infectados no início da epidemia.“
As histórias eram tristes -rapazes que se mudavam para NY a fim de assumir finalmente
a homossexualidade e diziam: “Eu sei quem fez isso. Só não consigo acreditar que
mentiu para mim sobre uma coisa dessas.””

No entanto, disse, jamais obrigaria, mesmo assim, um paciente a fazer o tratamento.“
É um pequeno subgrupo de pessoas que transmitem o vírus mentindo”, ele disse, “e
as pessoas têm o direito de recusar tratamento.”

O doutor Howard Markel, historiador médico na Universidade de Michigan, disse que,
mesmo depois de 30 anos, ainda há uma sensação do que ele chamou de “excepcionalidade
da **AIDS**” -a crença de que a doença é diferente de qualquer outra, apesar dos
precedentes históricos (o óbvio é a **SÍFILIS**, que, até os antibióticos se tornarem
mais comuns, na década de 1940, foi o exemplo de doença fatal de progressão lenta.
Para contê-la, testes obrigatórios foram adotados nos EUA; muitos Estados não concediam
uma licença de casamento sem um resultado negativo).

“Está na hora de a excepcionalidade da **AIDS** se tornar uma relíquia histórica?”,
perguntou o doutor Markel. “É uma pergunta interessante. Talvez esteja na hora de
a doença se misturar com as outras. Mas talvez isso só aconteça quando aparecer 
outra que chame a atenção.”

**FOLHA DE S. PAULO – SP | THE NEW YORK TIMES **

**Nota do editor de Soropositivo.Org**

**Durante tres anos tomei antiretrovirais. o DDI lembrava uma pastilha de Sonrisal
pelo tamanho.**

**Não dava para engolir.**

**Tinha de ser mastigada ou diluida em agua ou suco. Exigia um jejum prévio de uma
hora e um jejum posterior de duas horas.**

**O Gosto lembrava algo entre as alfaces de Urano e os nabos de Sirius…**

**Tomava também o AZT que, na época, era horrível.**

**Depois de uma neuropatia periferica e tres meses vomitando eu escolhi não tratar.**

**Se eu tinha apenas seis meses de vida, conforme me disse o médico muito sábio 
que me diagnosticou, preferia passar eles ocupado com outra coisa que não vômitos…**

**Durante 14 anos eu não me tratei e monitorei CD4 e Carga Viral.**

**Quando o CD4 caiu para 325 (300, em alhuns lugares, caracteriza AIDS) eu iniciei
o tratamento.**

**Nunca contaminei uma pessoa depois que soube ser soropositivo.**

**Raciocinando como uma pessoa que realmente quer contaminar outras pessoas (que
se deixam contaminar pq aceitam fazer sexo sem camisinha) basta ele falhar dez doses
por mes do medicamento que ele se tornará, novamente, um vetor.**

**Esta coisa de obrigar alguém a tomar alguma coisa contra a própria vontade em “
benefício da maioria” me faz lembrar,de leve, Sócrates e o Copo de Cicuta…**

 

## Leia também

 * [DST PrEP: Pode funcionar, mas ela é uma boa ideia?](https://soropositivo.org/dst-prep-pode-funcionar-mas-ela-e-uma-boa-ideia/)
 * [Tratamento da AIDS](https://soropositivo.org/tratamento-da-aids/)
 * [AIDS: Um dilema socioeconômico](https://soropositivo.org/aids-um-dilema-socioeconomico/)

**Este blog existe há 25 anos.**
Se você gosta deste trabalho, se ele te ajudou 
de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo
que demore um pouco.E se quiser, mande um Pix de **R$ 0,25** pelos 25 anos de trabalho:**
Chave Pix:** solidariedade@soropositivo.org_Você também pode me escrever para: claudio@
soropositivo.org_

### _Relacionado_
