# Hepatite Viral do tipo E

- Link: https://soropositivo.org/hepatite-viral-do-tipo-e/
- Published: 2010-08-31T18:21:39-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Trata-se de uma hepatite (inflamação do fígado) induzida por um vírus chamado Vírus
E. Esta hepatite é conhecida desde a década de 50, quando surtos de hepatite aguda
eclodiam no Oriente Médio, na Ásia e no Norte da África. Habitualmente estes surtos
estavam relacionados às grandes peregrinações religiosas ou a graves deficiências
de saneamento básico. Este aspecto levou os pesquisadores à hipótese de que se tratava
de um vírus com transmissão feco-oral (através de água e alimentos contaminados 
com resíduo fecal).

![hepatite-e](images/stories/videos/09-2010/12-09-2010/hepatite-e.jpg "hepatite-
e")

 Na década de 80, um investigador russo chamado Balayan ingeriu extrato fecal purificado,
procedente de um paciente com hepatite aguda de causa desconhecida. Após alguns 
dias da ingestão deste material, o investigador desenvolveu a doença comprovando
a sua via de transmissão. Desta forma comprovou definitivamente que se tratava de
um agente infeccioso transmitido pela vai feco-oral.

No final da década de 80, o CDC (Centro de Controle de Doenças) dos Estados Unidos,
realizou estudos para melhor compreender a epidemiologia da Hepatite E, chegando
às seguintes conclusões:

 1. Trata-se de um agente viral próximo aos Calicivírus, todavia ainda não classificado(
    os calicivírus são vírus que podem causar diarréias em humanos).
 2. Trata-se de uma zoonose. Este vírus pode ser isolado em suínos, aves e muito provavelmente
    em alguns animais silvestres de hábito peridomiciliar.
 3. O vírus pode ser transmitido por água contaminada com grande quantidade de partículas
    virais, ou pela ingestão de mariscos crus (os moluscos alimentam-se de partículas
    orgânicas no oceano e nos rios e concentram grandes quantidades de partículas virais
    no seu tubo digestivo).
 4. A transmissão interpessoal é pouco freqüente, mas a transmissão por fonte grosseira
    de contaminação é predominante.
 5. As crianças toleram melhor a infecção, enquanto os adultos apresentam formas mais
    graves (semelhante ao que acontece com a Hepatite A).
 6. As mulheres grávidas, especialmente no terceiro trimestre da gestação, têm elevado
    risco de formas graves (15% das mulheres grávidas no terceiro trimestre desenvolve
    hepatite fulminante).

Mais recentemente, pesquisadores americanos e europeus, isolaram o vírus da Hepatite
E em pacientes transplantados que desenvolveram agressão hepática após a imunossupressão
no pós-transplante de fígado. Este aspecto é curioso e merece maiores esclarecimentos,
uma vez que, até então, o vírus da Hepatite E era considerado como causador de uma
doença auto-limitada que não tinha possibilidades de evolução para doença crônica(
status de portador do vírus). Se confirmado este aspecto, o vírus da Hepatite E 
tem chances de persistir no organismo a despeito da cura clínica da doença, fato
que o diferenciará do vírus da Hepatite A.

**Situação no Brasil**

No Brasil, desde a década de 90, alguns grupos de pesquisa em Hepatologia têm trabalhado
com estudos epidemiológicos sobre o vírus da Hepatite E. Em[ Salvador](http://www.bahiaemfoco.com/Salvador)-
BA, um inquérito epidemiológico utilizou kits anti-HVE para detectar exposição previa
ao vírus E. Neste inquérito, observou-se que 2,2% da população de Salvador tinha
evidências de contato prévio com o vírus E, todavia na entrevista com esses pacientes,
não havia referencia na história clínica de hepatites aguda sintomática. (trabalho
publicado no American Journal of Tropical Medicine and Higiene). Os autores hipotetizaram
que esta seropositividade para o vírus da Hepatite E poderia ser por problemas de
especificidade do teste (reação inespecífica falso-positiva) ou mesmo por exposição
na infância quando a doença costuma ser assintomática ou pouco sintomática, perdendo
a chance do seu diagnóstico clínico.

Posteriormente, grupos do Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo mostraram resultados
semelhantes.

Já em 1997, este mesmo grupo estudou hepatites agudas em Salvador-Ba. Encontraram
17% dos casos de hepatites nos centros de referência de Salvador-BA sem diagnostico
especifico. Não eram casos de hepatite A, B ou C. Nesse pacientes, apenas 05 casos
reagiram para o teste anti-VHE, contudo este era um teste sorológico, portanto não
tinha a capacidade de isolar o vírus. Dentro deste contexto, os autores não puderam
confirmar se esses 05 casos eram realmente pela hepatite E ou se os pacientes traziam
o teste positivo por exposição no passado.

Este estudo foi publicado no importante jornal da Associação Americana para Estudo
do Fígado (Hepatology) em 1997.

Desde então, muito poucos casos de Hepatite E foram descritos na América Latina,
a exceção do México onde algumas epidemias acontecem geralmente associadas à ingestão
de mariscos crus.

Em 2010, o grupo da Fundação Oswaldo Cruz otimizou um teste para detectar o RNA 
viral. Este teste é mais específico e mais sensível, além de poder discernir entre
uma infecção passada e resolvida com seropositividade e uma infecção atual. Apesar
de ser uma situação preocupante, uma vez que o Brasil possui deficiência de saneamento
básico, o vírus da hepatite E não parece ser uma prioridade dentre as doenças de
transmissão hídrica no nosso país.

No nosso caso, a preocupação maior é com o vírus da Hepatite A, pois este tem vacina
e esta vacina não está disponível no Serviço Público de[ Saúde](http://www.bahiaemfoco.com/Saude).
Além disso, o vírus da Hepatite A é muito bem tolerado na infância, quando raramente
causa doença grave, contudo no adulto, sobretudo aqueles com idade superior a 50
anos, pode ter 1% de chance de evoluir para formas graves.

Até hoje o Brasil não implementou vacinação universal contra o vírus da Hepatite
A, pois tínhamos a maior parte dos habitantes deste país expostos ao vírus na infância,
portanto na fase adulta quase todos já tinham anticorpos contra o vírus, o que significava
a impossibilidade de contrair a doença nas fases mais perigosas.

Os Estudos mais recentes têm demonstrado que o padrão de desenvolvimento humano 
do país melhorou substancialmente, principalmente no quesito suprimento de água 
potável. Com isso, estamos modificando nosso padrão de exposição ao vírus da Hepatite
A, nos aproximando mais do Chile, da Argentina, do Uruguai e da Península Ibérica.
Assim, um elevado contingente de brasileiros alcança a idade adulta sem ter exposição
ao vírus da Hepatite A, o que significa que poderemos esperar um grande número de
indivíduos susceptíveis a esta doença na idade adulta quando o risco de formas graves
é elevado.

Assim sendo, embora reconhecendo a importância dos recentes estudos que avaliaram
uma vacina contra a Hepatite E, a Sociedade Brasileira de Hepatologia acredita que
este não será um tema de maior destaque no nosso serviço público de saúde, salvo
se comprovarmos a endemicidade desta doença no Brasil.

Lara Prado – Texto & Cia

## Leia também

 * [Hepatite](https://soropositivo.org/hepatite/)
 * [Tratamentos para Hepatite B](https://soropositivo.org/tratamentos-para-hepatite-b/)
 * [26/10/2009 – O que é saneamento Básico?](https://soropositivo.org/26-10-2009-o-que-e-saneamento-basico/)
 * [Hepatite C: Tratamento da doença é caro e demorado](https://soropositivo.org/hepatite-c-tratamento-da-doenca-e-caro-e-demorado/)

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