# HIV-AIDS: propagação do vírus ou partilha das responsabilidades?

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- Published: 2014-12-06T20:49:33-02:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

A realidade de hoje, apesar de marcada por grande diversidade de ideias e ideais,
ainda se vê às voltas com a tentativa de manutenção de pensamento único a justificar
ideologias políticas e institucionais das instâncias dominantes da sociedade. Esta
tentativa violenta, pois todo pensamento único desconsidera a diversidade, emerge
legitimada pela racionalidade dominante ancorada na existência de valores a garantir
a dita “ordem natural” do mundo. Tal fato atinge o campo das relações humanas a 
conjugar responsabilidades públicas e privadas, autonomia do Estado _versus_ autonomia
do sujeito e o embate entre as heteronomias em jogo.

As reportagens veiculadas pela mídia neste último dia 01 de dezembro, Dia Mundial
de Luta contra o HIV-AIDS, demonstraram uma das facetas mais perversas da ditadura
do pensamento único.⌊Nice portrait of 2 black sisters⌉ Os telejornais, em sua grande
maioria, atribuíram o crescente número de novas infecções pelo HIV entre a juventude
brasileira pelo fato da nova geração Z não ter sido testemunha da perda e do sofrimento
de personalidades públicas como Cazuza, Freddie Mercury e Renato Russo. Tal afirmação
soou como mantra durante todo o dia 01/12/2014, pois para a mídia o desconhecimento
do drama humano vivido no início da epidemia impulsiona o “descuido” e o “descaso”
de uma coletividade crente de que o HIV-AIDS é “coisa do passado e afinal, a enfermidade
não é tão grave assim”.

Ao se insistir nessa face da moeda, se atribui a responsabilidade pela propagação
da epidemia à liberdade individual do sujeito e ao grupo ao qual pertence e se relaciona.
Entretanto, há de se iluminar e problematizar a outra face multifacetária da moeda
e destacar o alcance de tal responsabilidade a extrapolar a instância do indivíduo
ou de determinada coletividade. Para além da responsabilidade individual e do grupo
de pertença, cabe se perguntar como anda no Brasil a qualidade da educação sexual
trabalhada e discutida pelas escolas públicas e privadas. Por falar em instituições,
importa também se questionar como as Igrejas (des)educam os fiéis no tangente à 
vivência de gênero e exercício da sexualidade. Ou ainda: quais ações e campanhas
efetivas, para além do dia 1º de dezembro e do carnaval, o Governo tem estimulado
ao longo dos anos para enfrentar o aumento de infecções? O que a sociedade civil
tem feito em prol do combate ao machismo e ao sexismo? Como nossas famílias confrontam,
propagam ou reproduzem a homofobia e o machismo?

![Cross silhouette and the holy blue sky](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/
2014/12/igreja.jpg)

A homofobia conduz à marginalização da vivência da sexualidade e ainda restringe
as possibilidades de exercício da afetividade nos espaços públicos, relegando o 
relacionamento homoafetivo à clandestinidade. O lugar da clandestinidade se apresenta
mais propício a expor o sujeito a maiores vulnerabilidades, a incidir diretamente
no quadro das novas infecções. Nesse cenário amplo, até hoje muitas mulheres cedem
ao sexo sem a devida prevenção por dificuldade ou mesmo impossibilidade de negociar
junto a seus parceiros o uso do preservativo. Permanece tabu se discutir prevenção
dentro do casamento ou de relacionamentos estáveis, pois parte-se da premissa incontestável
de que a fidelidade impera na vida do casal. Por mais que a vivência de relacionamentos
abertos seja crescente, sobretudo entre a juventude, a sociedade como um todo permanece
alheia à discussão da questão. Também tem se caminhado bem à margem do papel desempenhado
pelas drogas recreativas na proliferação do vírus, ao restringir a liberdade e a
autonomia do sujeito. Pouco tem se discutido sobre as novas formas e variações de
exercício da sexualidade, a iniciação cada vez mais precoce da vida sexual, a naturalidade
com que os jovens de hoje se permitem transitar por espaços fluídos pela multiplicidade
de parceiros e experiências sexuais e afetivas.

Para finalizar, se propõe a pergunta: tal complexidade resumidamente exposta pode
ser condensada na fórmula “nossos jovens não viram os seus ídolos morrerem vítimas
da AIDS”? Para além da responsabilidade da juventude, por que não se lançar holofotes
sobre a responsabilidade familiar, a institucional, a da sociedade civil, a do Departamento
de DST AIDS e hepatites virais e a Governamental? Pelo visto, parece que a atitude
comodista e descompromissada de transferir desproporcionalmente a responsabilidade
de um mal evitável para a parte mais frágil da relação tem sido a escolha mais fácil
e viável, ao invés de se trabalhar a passagem mais difícil, porém necessária e libertadora,
para a tomada de consciência universal das responsabilidades e de enfrentamento 
à epidemia.

Leitura sugerida: [Estado Laico?](http://soropositivo.org/2014/05/21/estado-laico-e-a-pressao-religiosa-em-campanhas-sobre-dstaids-e-aborto/)

![bezerra_de_menezes](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/2014/12/bezerra_de_menezes.
jpg?w=620)

Omar Lucas Sales

## Leia também

 * [Propagação de vírus da Aids aumenta na América Latina–ONU](https://soropositivo.org/propagacao-de-virus-da-aids-aumenta-na-america-latina-onu/)
 * [Leis contra gays aumentam propagação do HIV](https://soropositivo.org/leis-contra-gays-aumentam-propagacao-do-hiv/)
 * [Ampla Diversidade na Pesquisa de uma Vacina contra o HIV](https://soropositivo.org/pesquisas-de-uma-vacina-contra-o-hiv-em-2016-e-as-que-podem-surgir-em-2017-2/)

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