# Infecção pelo HIV/Aids: sucessos e insucessos

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- Published: 2009-06-19T22:51:45-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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 * [Folha de S. Paulo](https://soropositivo.org/infeccao-pelo-hiv-aids-sucessos-e-insucessos/#folha-de-s-paulo)
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Dia / Mês/Ano:

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Opinião

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30/NOVEMBRO/07

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 VICENTE AMATO NETO e JACYR PASTERNAK

 

TEMOS NESTE ano alguns dados muito auspiciosos que, na nossa opinião, são muito 
significativos no combate à Aids. Temos, também, como sempre, fatos que não nos 
deixam tão otimistas. Vamos primeiro dar as boas notícias.

Os inibidores da integrase, a enzima que integra a cópia DNA do RNA viral no nosso
genoma, chegaram ao uso clínico experimental e logo estarão na rotina assistencial.
Com a inibição da transcriptase reversa, proteases e integrase, agiremos mais radicalmente
contra o vírus, limitando a sua proliferação.

Além dos inibidores de fusão, inibidores da ligação do vírus ao receptor CCR5 também
atingem nível clínico, atacando outro ponto crítico da penetração do vírus nas células-
alvo.

A parte problemática desses itens vai situar-se no preço. As drogas novas são caras-
quanto mais novas, mais caras- e ficarão necessárias para os muitos pacientes que
perderam a resposta a fármacos mais antigos.

Incidentalmente, consideramos a quebra de patente do anti-retroviral Efavirenz uma
faca de dois gumes. Se precisamos viabilizar nosso generoso e eficiente programa
de combate à infecção pelo HIV e, por isso, é essencial manter os gastos com ele
sob controle, igualmente é verdade que quebrar patente implica algum grau de risco.

Sem discutir moralidade ou fatores desse tipo, o fato é que, se as multinacionais
não quiserem licenciar no Brasil os remédios que produzem, não poderemos fazer absolutamente
nada para obrigá-las.

Preparações novas não são produzíveis nos laboratórios farmacêuticos nacionais, 
incluindo os estatais. Países como a Índia, a China ou a Coréia do Sul, que investiram
em indústria química de ponta, podem tentar, mas, aqui, isso é simplesmente inviável.

Dirão os senhores que o Brasil é um grande mercado para os anti-retrovirais. Pode
ser verdade, mas, se uma empresa farmacêutica resolver morder a bala, vamos descobrir
mais uma vez que nosso governo não pode tudo que pensa que pode.

Voltando à parte animadora, a epidemia da infecção pelo HIV não explodiu na Índia
como poderia ter acontecido. Fatores sociais e culturais aí são diferentes dos da
África. Por outro lado, não se pode negar a expansão da epidemia na Índia, na Ucrânia,
na Rússia e nos países da Europa Oriental -se não foi catastrófica, continua sendo
assustadora, como outrossim é a difusão nas camadas mais pobres da população latino-
americana e até norte-americana.

Trabalhos educativos continuam sendo o único método limitador, por enquanto, e educação
para a saúde pressupõe a de base -e, nisso, os progressos foram singelos.

Dispomos de dados brasileiros sugerindo alguma melhora, mas discreta, quanto à quantidade
de infectados. O próprio tratamento limita a disseminação da infecção: pessoas com
cargas virais inferiores a 1.500 genomas/ml são muito menos contaminantes (mas não
deixam de sê-lo) do que as com cargas virais mais altas.

A pior notícia deste ano se refere à vacina: uma tentativa, mais uma, não se mostrou
eficaz. Vacinação profilática ou mesmo terapêutica contra o HIV até agora não existe.
Tentativas vão continuar sendo feitas, mas nos preocupa o simples fato biológico
de não existir imunizante valioso contra retrovírus em nenhuma espécie, o que sugere
que deve ser muito difícil conseguir alguma coisa desse tipo.

A descoberta do RNA interferente é uma promessa para que, no futuro, algo assim 
seja usado para prevenir a infecção pelo HIV. No entanto, a distância entre o fenômeno
biológico demonstrado e seu emprego clínico é imensa: só imaginar como colocar o
RNA interferente dentro de células é de enorme complexidade. Preocupamo-nos com 
a impressão leiga de que uma descoberta científica dá frutos imediatos -em medicina,
isso definitivamente não é assim.

No Brasil, nos entusiasma o fato de que nosso programa de assistência aos pacientes
com HIV/Aids continue funcionando tão bem; é quase inédito, neste país, que um plano
de longo prazo, tocado por governos politicamente divergentes, tenha se mantido 
e expandido de maneira adequada com a cobertura que alcançou.

Isso nos faz perguntar por que em outras situações clínicas mais comuns não há iniciativas
tão bem organizadas e articuladas. Mas é aquela história, se todos os componentes
da área da saúde imitassem o nosso sistema de atenção aos acometidos de HIV/Aids,
o Brasil seria a Suécia.

 

VICENTE AMATO NETO, 80, médico especialista em clínica de doenças infecciosas e 
parasitárias, é professor emérito da Faculdade de Medicina da USP.

JACYR PASTERNAK, 67, médico especialista em clínica de doenças infecciosas e parasitárias,
é doutor em medicina pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação
obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais 
e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.
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## Leia também

 * [Vida, paixão e [possível] fim da infecção pelo HIV/Aids](https://soropositivo.org/vida-paixao-e-possivel-fim-da-infeccao-pelo-hiv-aids/)
 * [A nossa noção de pátria](https://soropositivo.org/a-nossa-nocao-de-patria/)
 * [Vacina contra HIV/aids ? Particularidades (Artigo)](https://soropositivo.org/vacina-contra-hiv-aids-particularidades-artigo/)

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