# Inquietação libertária

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- Published: 2009-06-19T22:56:54-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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## **Correio Braziliense**** **

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** Cultura**

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**15/MARÇO/08**

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No Museu Nacional, encontro entre Augusto Boal e seus discípulos demonstrA o poder
transformador do Teatro do Oprimido no pensamento e na prática cênica

Ricardo Daehn 
 Da equipe do Correio

Às vésperas de completar 77 anos, com festejo previsto para amanhã, o teatrólogo
Augusto Boal, na passagem por Brasília, há dois dias, não deixou de ouvir o Parabéns
pra você adiantado, num coro formado por estudantes de artes cênicas da Faculdade
de Artes Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília. Cercado por mais de 550
entusiasmados alunos, o aniversariante, na verdade, foi quem trouxe o presente: 
candidato ao Prêmio Nobel da Paz, o diretor artístico do Centro de Teatro do Oprimido,
generosamente, e com o característico vigor, dividiu os conhecimentos na chamada
Mostra Pública de Resultados, realizada no Museu Nacional. “Sou um homem da paz.
Mas a paz tem um inimigo: a passividade”, disse o mestre, numa antecipação do corre-
corre, com dose de exaltação positiva, que tomou conta do auditório do museu.

Na base da dinâmica de três grupos ligados ao projeto Teatro do Oprimido de Ponto
a Ponto, estava a intervenção direta dos espectadores sobre breves esquetes apresentados.
Satisfeito por ver na prática o que só havia lido nos livros teóricos de Boal ou
ouvido nas salas universitárias, o estudante de artes cênicas da UnB Victor Abrão
comemorava o contato vivo com os democráticos parâmetros do Teatro do Oprimido: “
É um princípio simples, mas com resultados incisivos. Um olhar lançado sobre isso
traz conseqüências muito bonitas. Você pára para pensar em problemas que não são
necessariamente individuais. Partindo do fictício, você pode vir a mudar a vida 
real. Isso sai marcado nas pessoas”. “O Teatro do Oprimido foi criado com outros
teatros de improviso, todos feitos em tempos de protesto”, complementou João Victor
Morgado, 22 anos, em processo de licenciatura em arte-educação (UnB).

“Desejamos que a platéia abandone a sua prisão, que é a poltrona. No Teatro-Fórum,
depois que alguns entram no palco, pegam o gosto e tendem a ser protagonistas na
vida”, explicou Boal. Ele acompanhou com amplo sorriso todas as interferências dos
envolvidos no evento, que demostrou o entrosamento de multiplicadores da fundamentação
teórica de Boal, capacitados para atuarem no Pólo Centro-Oeste, sob coordenação 
dos curingas (título dos versados no universo de Boal) Helen Sarapeck e Geo Britto.
Ligada há 18 anos à técnica do guru, Helen aprovou a reação dos ativos (ex-)espectadores
locais. “É um público que polemiza. A gente não veio trazer verdades. A platéia 
se mostrou incomodada e isso pode até lembrar bagunça, mas ter inquietação é ótimo”.
A maior lição da convivência de Helen com o teórico do teatro está na ponta da língua:“
Ele fez com que eu me enxergasse como um ser humano capaz”.

No interior do museu, pipocavam os resultados de um teatro proposto como instrumento
lúdico, pleno de questionamentos e eficaz no teor de mobilização. Tudo vem calcado
no espírito libertário sufocado pelo exílio de Boal na Argentina, naqueles duros
anos 1970. “É um mecanismo de transformação social. Nada fica condensado no palco,
tudo que é visto pode ser levado ao dia-a-dia, na busca de soluções”, comentou o
ator Eduardo Rosário, vinculado à temática do mestre carioca há três anos.

O repertório gerido pelo Teatro do Oprimido se aglomera na escala da progressão 
geométrica de sua expansão. Os assuntos partem de grupos que vão de pacifistas palestinos
a membros de sindicatos e associações, atingindo ainda detentos, familiares, quilombolas
e doentes mentais, entre incontáveis outros segmentos. Vale a lembrança de que as
estimativas apontam mais de 300 grupos entrosados com a sistemática proposta por
Boal. No mundo, as idéias dele alcançam cerca de 70 países e, mundo afora, mais 
de 30 publicações traduzem “a forma de pensar chamada arte”. 
 Alguns livros, por
sinal, chegam ao Brasil depois de editados no exterior, como A estética do oprimido,
com versão em português prevista para o fim do ano. “Estética é a comunicação através
dos sentidos”, sintetiza Augusto Boal. Como mostra da relevância do trabalho desenvolvido,
basta saber que, em Calcutá (Índia), 12 mil pessoas aderiram a uma marcha, na fundação
da Associação Indiana de Teatro do Oprimido.

Movidos por mudanças 
 Com os sentidos aguçados no encontro na capital, pouco antes
de entrarem em cena, sob o olhar atento do estudioso de teatro, um grupo de 20 atores
dava, numa forma de roda, as coordenadas do combustível de Boal: “amor”, definia
um; “caridade”, acrescentava o outro; “generosidade”, “diálogo”, “mudança” e, culminando,“
vitória” foram outras palavras destacadas pelos multiplicadores do “jogo” do teatrólogo.
Depois da exibição de três cenas levantadas por entidades ligadas ao projeto Teatro
do Oprimido de Ponto a Ponto, como a Faculdade Dulcina de Moraes, o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Escola de Teatro de Anápolis, os supostos espectadores
foram convidados a expandir a criatividade, tomando parte nas cenas com temas que
foram da discriminação ao abuso sexual infantil.

No Teatro-Fórum proposto, o esquete Invasão foi o grande objeto de interferências
da motivada platéia. “Às vezes, essas intervenções feitas no palco podem mudar a
vida de uma pessoa. Pelo método que ele implantou, o Boal é unanimidade no nosso
grupo”, comentou a atriz Rafaela Mendes, 19 anos, da companhia Trupe em Cena (de
Samambaia). “É uma palestra muito útil”, acrescentou a estudante de artes cênicas
da UnB Júlia Fagundes, interessada em “teatro político”. “Boal é um ícone de arte-
educação. Acho incrível a possibilidade de discussões levantadas por uma cena, que
vão da questão de gênero às abordagens raciais. Como educadora, eu preciso disso
para melhorar um pouco a educação no Brasil”, completou. 
   Entrevista – augusto
boal Resistências quebradas

Ricardo Daehn
 Da equipe do Correio

Politizado por natureza, o teórico do teatro Augusto Boal apóia um governo brasileiro
pela primeira vez na vida. Entretanto, ele reforça que nunca se preocupou com a 
divisão entre direita e esquerda. “O importante é que existem leis, atitudes e atos
concretos a favor da população pobre. E existem aqueles a favor dos ricos, para 
que fiquem mais ricos ainda”, avalia. Daí, nem tudo são flores no prisma atual do
artista, que goza de reconhecimento em países tão distintos quanto França, Venezuela,
Suécia e Guiné-Bissau – todos forças de uma corrente que o faz candidato ao Nobel
da Paz.

“Atualmente, alguns ministérios brasileiros estão submetidos a uma burocracia que
impede o desenvolvimento real dos projetos que a gente apresenta”, denuncia. E emenda:“
A arte é criativa, ela não pode ser amarrada em coisas pré-estabelecidas, caso contrário,
deixa de ser arte e passa a ser a reprodução mecânica de algo”. Na essência, de 
ampla expressão democrática, o Teatro do Oprimido de Boal convida à participação
e à queda de amarras. “No mundo, não existe o mais opressor. Não se tem um cavalo
de corrida em ação. Existem, no Brasil, aqueles que são saudosos da ditadura e aqueles
que odiaram e lutaram contra ela e que procuram criar espaço cada vez maior para
a democracia”, avalia.

Diante da extensa difusão do seu teatro, é possível zelar por um ‘controle de qualidade’?

Um controle de qualidade não existe num movimento que é de massa, mundial. Nem Jesus
Cristo tinha esse controle de qualidade, e é por isso que uma parte resultou na 
Inquisição e outra nos absurdos que diz o Papa sobre o problema do aborto e da prevenção
da **Aids**. Jesus Cristo teria dito “Usem camisinha”, tenho certeza. Então, o controle
de qualidade não existe. Existe é a intenção nossa de cada vez mais ajudar as pessoas
que entendam bem o que é o Teatro do Oprimido para que o façam cada vez melhor. 
Estamos sempre à disposição, nunca no sentido policial de controlar, mas no pedagógico,
de ajudar.

O senhor acredita que há chances no reconhecimento com o Nobel? Há vaidade nesse
processo? 
 Chances todos os candidatos têm. Se um dia vier a ganhar, ficaria bastante
orgulhoso com isso. Mas não ficaria vaidoso. Já estou extremamente orgulhoso de 
que minha candidatura, proposta por pessoas que eu nem sequer sabia que estavam 
propondo, foi defendida por pessoas do mundo inteiro dos cinco continentes, em mais
de 70 países. Sou orgulhoso pelo fato de aquilo que comecei, hoje, ser praticado
por dezenas de centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro.

O que mudaria com o Nobel? 
 O futuro não sei, mas evidentemente mudaria a conta
no banco (risos). Nada mudaria, porque as coisas já mudaram: o fato de ser candidato
já faz com que o Teatro do Oprimido seja visto de uma maneira diferente. Em alguns
lugares, existia resistência acadêmica ao Teatro do Oprimido. Agora, quase não existe
mais. E onde existe, é por conta de falta de informação. Depois que as pessoas se
informam, vêem que é bom para todo mundo o Teatro do Oprimido.

## Leia também

 * [Mulheres se calam](https://soropositivo.org/mulheres-se-calam/)
 * [Um mal feminino [Saúde]](https://soropositivo.org/um-mal-feminino-saude/)
 * [Injeção de recursos](https://soropositivo.org/injecao-de-recursos/)

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