# Em busca de alívio para pacientes com dor e AIDS

- Link: https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/
- Published: 2017-05-22T10:30:44-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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### Table Of Content

 * [Síndrome de imunodeficiência adquirida](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/#sindrome-de-imunodeficiencia-adquirida)
 * [Leia também](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/#relacionado)

⌊Cláudio do Soropositivo.Org⌉⌊Cláudio do Soropositivo.Org⌉Nota do editor do site
a respeito de direitos autoriais. Algumas vezes o interesse público pode sobrepor-
se ao direito autoral. Quando encontrei este documento, logo eu, que sofro de neuropatia
periférica por HIV, vi nele o Graal. Está conservado no texto o paragrafo em que
se diz que a reprodução não autorizada é proibida.

Fiz o que faria um bom cristão, embora não reconheça em mim um bom cristão. Enviei
três mensagens por e-mail pedindo autorização para publicar uma joia tão preciosa
e esperei por 5 (cinco) semanas. A resposta foi o “silêncio”.

O meu primeiro casamento teve mais momentos baixos do que altos e me lembro que 
num dos momentos altos Teresa me fez longa preleção sobre o que era certo e o que
era errado e eu ouvi, fascinado, tudo o que ela me disse.

> No fim, perguntei à queima roupa:
>  * Quem disse isso?
> E ela, também à queima roupa:
> -“Os Antigos”…
> E com tal Referência, Os Antigos, não se pode discutir, basta ver o exemplo da
> Carta Magna na Inglaterra e seu modo de fazer Justiça.
> Os Antigos tem um sábio ditado:
> “Quem cala, consente”!
> E eis me aqui, utilizando-me da Sabedoria dos Antigos, para veicular Conhecimento.
> Não gosto de fazer isso, mas esta informação é importante e eu achei tal documento
> num dia de estrema paciência, para lá da oitava página do Google. Neste site ela
> ganha mais projeção e pode ajudar a mais gente, haja vistas para o fato de profissionais
> de saúde haurirem conhecimento aqui também. Réu confesso, sofro de neuropatia 
> periférica e só quem sofre disso sabe o quanto dói e eu considerei injusto manter
> isso onde estava: Literalmente falando, no ostracismo (…).

 

O objetivo deste estudo foi analisar a estrutura gerencial para o manejo da dor 
em pacientes com AIDS em um hospital de re­ferência de Fortaleza, CE, Brasil. Pesquisa
descritiva com enfoque qualitativo, desenvolvida no ano de 2010. Foram realizadas
20 entrevistas com profissionais de saúde (médicos e enfermeiros), analisadas segun­do
o referencial da análise de conteúdo. Os dados foram organizados em categorias: 
condições estruturais favoráveis e desfavo­ráveis. Constatou-se prevalência de condi­ções
desfavoráveis no discurso dos entrevis­tados, como ênfase no tratamento farmaco-
lógico, inexistência de atendimento específico para dor, insuficiência de profissionais
experientes no manejo da dor, demanda elevada e falhas no sistema de referência 
e contrarreferência. Sugere-se instituir novo modelo gerencial de cuidado aos pacientes
com AIDS, enfatizando atendimento interdisciplinar à dor, treinamento de profissionais
e aprimoramento de registros em prontuá­rios para utilização de métodos de avaliação
e atamentos mais eficazes.

## Síndrome de imunodeficiência adquirida

**HIV**

**Dor**

⌊enfermeira-depositphotos_39788265_original⌉⌊enfermeira-depositphotos_39788265_original⌉
Cuidados de enfermagem Administração dos cuidados ao paciente do Ceará, 2010. ^(
1) Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem
e Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior – CAPES. Fortaleza, CE, Brasil. [menesesroberta@yahoo.com.br](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/menesesroberta@yahoo.com.br)
^(2) Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Curso de Graduação
em Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará. Professora e Coordenadora do Programa
de Pós- Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual
do Ceará. Fortaleza, CE, Brasil. [lucilanemaria@yahoo.com.br](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/lucilanemaria@yahoo.com.br)
^(3) Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Pós-Doutora em Psicologia Social. Professora
Adjunta do Curso de Graduação em Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação Cuidados
Clínicos em Enfermagem e Saúde da Universidade Estadual do Ceará. Coordenadora de
Ensino e Pesquisa do Hospital São José de Doenças Infecciosas. Fortaleza, CE, Brasil.
[luciad029@gmail.com](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/luciad029@gmail.com)
^(4) Enfermeira. Doutora. Livre Docente. Professora Associada da Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. [maparecidavas@yahoo.com.br](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia-2/maparecidavas@yahoo.com.br)

Rev Esc Enferm USP                                               Recebido: 17/02/
2012

2013; 47(2):456-63                                            Aprovado: 02/09/2012

  |  456 |

[www.ee.usp.br/reeusp/](http://www.ee.usp.br/reeusp/)

** **

INTRODUÇÃO

No atual contexto da saúde no Brasil, a dor tem sido um dos principais motivos de
atendimento em situações de urgência e em ambulatórios de diversas especialida­des
médicas e demais profissionais de saúde. Em pacien­tes com a síndrome da imunodeficiência
adquirida (AIDS, em inglês), manifesta-se como sintoma comum, podendo ocorrer em
todos os estágios da doença, apresentando-se de forma diferenciada em cada um deles.
Quanto mais a doença progride, maior a incidência e intensidade^((1)).

Estima-se que a dor em indivíduos portadores do ví­rus da imunodeflciência adquirida(
HIV, em inglês) ocorra em até 90% dos casos^((2)). Especificamente, a dor ocorre
por três motivos principais: sintoma do HIV; de outra doença ou infecção oportunista;
ou efeito colateral das drogas do tratamento antirretroviral (TARV)^((1)).

Divulgam-se os princípios da gestão da dor para pro­fissionais de saúde que cuidam
de pessoas vivendo com HIV/AIDS, os quais envolvem: descrever a prevalência e os
tipos de sín- dromes de dor encontradas em pacientes com AIDS, analisar o impacto
psicológico e funcional da dor, bem como as barreiras ao tratamento adequado da 
dor neste grupo e em outros com doenças relacionadas ao HIV. Deve-se enfatizar, 
ademais, o contro­le da dor em pacientes infectados pelo HIV com histórico de abuso
de substâncias, além de inserir médicos oncologistas como par­ticipantes ativos 
no cuidado aos pacientes com AIDS^((3)).

Além disso, é premente a necessidade de analisar o gerenciamento do cuidado im­plementado
em instituições, tendo em vista a importância de estabelecer ações cada vez mais
individualizadas, com participação da equipe interdisciplinar na concepção de um
modelo mul- tidimensional de atendimento ao paciente com dor.

![Various body pain highlighted on figure of man](http://soropositivo.org/wp-content/
uploads/2017/05/e1d63-pain-depositphotos_24114227_original.jpg)

Para analisar o gerenciamento do cuidado, é funda­mental conhecer a estrutura das
instituições quanto à efetividade dos processos relacionados à assistência dire­ta
ao paciente e aos recursos aplicados, estrutura física, disponibilidade de medicamentos,
entre outros.

Nos últimos 30 anos, pesquisas clínicas produziram melhorias terapêuticas para pacientes
infectados com o HIV, contudo problemas de gerenciamento e controle da dor nesses
pacientes, recentemente, começaram a ser motivo de estudo^((1,4)). Desse modo, esta
pesquisa objeti­vou analisar a estrutura gerencial para o manejo da dor em pessoas
com AIDS em hospital de referência em doen­ças infecciosas.

Trata-se de estudo relevante sobre o manejo da dor de paciente hospitalizado com
diagnóstico de AIDS, pois abor­da a perspectiva do profissional de saúde sobre as
ferra­mentas existentes na instituição em que trabalha para o efetivo manejo desse
sintoma. Acredita-se que tal enten­dimento seja importante para o planejamento de
ações resolutivas nesse contexto.

MÉTODO

Estudo desenvolvido em instituição hospitalar de re­ferência no tratamento de doenças
infecciosas no Estado do Ceará. A sua estrutura física compreendia unidades de internação,
terapia intensiva, hospital-dia e serviço ambu- latorial especializado para portadores
de HIV/ AIDS, com profissionais da equipe multidisciplinar em atendimento diário.

  |

Nos últimos 30 anos, pesquisas clínicas produziram melhorias terapêuticas para pacientes infectados com o HIV, contudo problemas de gerenciamento e controle da dor nesses pacientes, recentemente,

  |

  |  começaram a ser motivo de estudo. |

Os sujeitos do estudo foram profissionais de saúde, elencados por conveniência. 
Dentre os profissionais de saúde atuantes na instituição, elegeram-se médicos e 
en­fermeiros, pelo fato de aqueles estabelecerem a terapêu­tica a ser instituída,
e estes por desempe­nharem o cuidado nas 24 horas, assistindo o paciente em suas
necessidades biopsicosso- ciais, intervindo e viabilizando a realização de exames
e procedimentos com vistas à recuperação.

Como critérios de inclusão, considera­ram-se: tempo de atividade na instituição 
de, pelo menos, um ano; e assistência de pacientes com AIDS em unidades de inter­nação,
emergência, hospital-dia ou unidade de terapia intensiva. Ao final, estudo contou
com a participação de 20 profissionais: oito médicos e 12 enfermeiros, quantitativo
es­tabelecido pela saturação teórica dos dados colhidos nas entrevistas.

Utilizou-se a técnica de entrevista semies- truturada para coleta dos dados, constando
de dados de identificação, formação profissional e relacionados ao ma­nejo da dor,
considerando os pontos relevantes para o ge­renciamento do cuidado: existência de
protocolo formal ou informal para avaliação da dor; descrição sobre o manejo da 
dor realizada pelo profissional; ações de cuidado ao paciente executadas e consideradas
específicas para o cuidado da dor; e listagem das dificuldades e facilidades para
o atendimento da dor na instituição. As entrevistas foram gravadas, permi­tindo 
maior acurácia dos dados, e realizadas nos intervalos de trabalho dos profissionais
em dia de serviço.

Para análise dos dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo^((5)), que 
abrange um conjunto de técnicas de organização de comunicações e informações, considerado
procedimento frente a dados qualitativos para fazer emer­gir temas ou tópicos e 
conceitos ou conhecimentos. Com­põe-se de fases distintas e complementares: pré-
análise; preparação do material; exploração do material; categori- zação; tratamento
dos resultados obtidos; e interpretação.

O corpus do estudo foi constituído por 20 entrevistas, tendo sido definida a frase,
unidade gramatical, como Unidade de Registro (UR). Por sua vez, o quantitativo de
UR foi distribuído em categorias temáticas que emanaram da leitura aprofundada das
entrevistas, versando sobre características comuns relativas à estrutura do serviço
consideradas favoráveis (Categoria 1) ou desfavoráveis ao manejo efetivo da dor (
Categoria 2).

Para garantir o anonimato dos entrevistados, médicos foram codificados com a letra‘
M’ e enfermeiros com a ‘E’, seguida de numerai arábico, conforme a ordem em que 
foram entrevistados.

Quanto às questões éticas, a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa
da instituição, confor­me protocolo n° 063/2009. Os profissionais assinaram o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido que versava sobre os objetivos do estudo, atendendo,
dessa forma, às exigências da Resolução 196/96 do Ministério da Saúde^((6)).

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta o resultado da análise de conteúdo temática, em que foram apreendidas
duas categorias e seis subcategorias, totalizando 51 unidades de análise temática.

  |    |

Tabela 1 – Distribuição das categorias temáticas, subcategorias e respectivas freqüências
sobre estrutura gerencial para o manejo da dor em pessoas com AIDS – Fortaleza, 
CE, maio/set. 2010

  |    |

  |  CATEGORIAS (CODIFICAÇÃO) |

  |  f(%) |

  |  f (%) |

SUBCATEGORIAS (CODIFICAÇÃO)

** **

  |    |

 * Disponibilidade de recursos humanos, materiais e organizacionais (CEFDRHMO)

  |  1. CONDIÇÕES ESTRUTURAIS FAVORÁVEIS (CEF) |

  |  13 (25,5) |

  |  10 (19,6) 3 (5,9) |

 * Hospital de referência (CEFHR)

  |    |

38 (74,5) 2.1. Inexistência de atendimento específico para a dor (CEDIAED)

 * Carência de profissionais com experiência em clínica da dor (CEDFPED)
 * Demanda elevada (CEDDE)

  |  2. CONDIÇÕES ESTRUTURAIS DESFAVORÁVEIS (CED) |

  |  19 (37,2) 9 (17,7) 7(13,7) 3 (5,9) |

 * Falhas na referência/contrarreferência (CEDFRCR)

  |    |

Nota: N=51

Os aspectos discutidos pelos profissionais sobre o ge­renciamento do cuidado da 
dor em pacientes com AIDS estão descritos nas categorias a seguir.

Categoria 1: Condições estruturais favoráveis

Esta categoria reuniu 13 UR e aborda a percepção dos profissionais sobre as condições
do serviço consideradas favoráveis ao manejo da dor.

Disponibilidade de recursos humanos, materiais e organizacionais

Quando indagados sobre as facilidades encontradas para o adequado manejo da dor 
na instituição, os profis­sionais ressaltaram a disponibilidade frequente de medi­camentos,
conforme se verificou em 10 UR.

O hospital dispõe, realmente, de toda a medicação! (E8).

Não temos falta de medicamentos, os médicos são aten­ciosos, deixam tudo prescrito!(
E9).

A facilidade é que, a partir do momento em que o diagnós­tico é definido, aí a medicação
é adequada também! (E1).

Tratamento interdisciplinar sobre a dor não tem, mas me­dicamentos e profissionais
pra prescrever e administrar a gente tem! (E12).

Outros pontos foram citados como relevantes para ca­racterizar a estrutura do serviço
como adequada, os quais envolveram a estrutura organizacional propícia à realiza­ção
de exames e ao monitoramento da resposta do pa­ciente à internação e ao tratamento
instituído. Tais aspec­tos foram abordados nas falas dos profissionais:

Facilidades (que encontramos) é bater um raio X, fazer medicação, referenciar para
um serviço específico… (E2).

a gente tem à disposição medicações, tem a questão do internamento, que você pode
passar medicação para o paciente internado e monitorar a resposta (M4).

Os discursos dos enfermeiros denotaram a preocupa­ção e a disposição dos profissionais
em garantir confor­to, segurança e alívio da dor aos pacientes, considerados condições
favoráveis ao manejo efetivo desse sintoma na instituição.

sempre que ele referir dor, a gente está pronta para inter­ferir! (E7).

Quando ele não tá passando muito bem, está com dor, a gente coloca na poltrona, 
tenta dar certo conforto a ele! (E4).

Hospital de referência

Os profissionais pesquisados também consideraram a estrutura do serviço adequada
para o manejo da dor no que diz respeito ao fato de a instituição ser referência
no tratamento de HlV/AIDS.

tudo está a nossa disposição, por ser um hospital de re­ferência! (E9.)

Por ser um serviço de referência, a gente recebe muito paciente e atende! (M1).

Facilidade é porque aqui é um hospital de referência… tem muitos medicamentos, tem
muitos funcionários, tem fisioterapeuta, só não temos fonoaudiólogos! (M2).

Categoria 2: Condições estruturais desfavoráveis

A categoria em tela merece destaque diante do quan­titativo de unidades de registro
reunidas, 38 UR. Metade abordava a inexistência de atendimento específico para a
dor na instituição, e o restante dividiu-se em problemas relacionados à carência
de profissionais com experiência, à demanda elevada de pacientes na instituição 
e, final­mente, às falhas na referência e contrarreferência entre unidades de saúde
que atendiam à clientela de AIDS.

Inexistência de atendimento específico para a dor

Na busca por melhor avaliar a dor nos diversos cená­rios da saúde, protocolos e 
escalas de mensuração têm sido desenvolvidos e implementados em serviços para ajudar
o profissional na abordagem desse sintoma. Sobre esse aspecto, 19 UR evidenciaram
a preocupação dos pro­fissionais diante da não existência de protocolo de ava­liação
da dor na instituição, apesar de considerada de re­ferência. Os profissionais consideraram
a ausência desse atendimento específico dificuldade para promover assis­tência direcionada
e individualizada ao paciente com dor.

Por não existir um protocolo de condução dessa dor, a gente faz o básico: analgesia
e as recomendações de fi­sioterapia motora (M3).

Dificuldades existem exatamente pela falta do protocolo… (E6).

seria ideal um protocolo sistemático, mas ainda não te­mos! (E10).

Carência de profissionais com experiência em clínica da dor

Os profissionais pesquisados relataram falhas nos pro­cessos relacionados ao manejo
interdisciplinar da dor, co­mo observado em nove UR.

Às vezes, a gente fica só medicando e não tem aquela cultura da fisioterapia chegar
junto (M3).

Em alguns pacientes (com dor), não existe medicação prescrita pra dor (E6).

A experiência dos profissionais foi questionada ao se analisar o seguinte discurso:

Específica para o manejo da dor, em relação ao cuidado de enfermagem… aqui não tem
nada que eu considere es­pecífico! (E4).

Um dos profissionais comprovou a existência de bar­reiras para o atendimento aos
pacientes com dor crônica na instituição.

Os profissionais de saúde não gostam de atender pacien­tes que se queixam de dor
crônica (M7).

Demanda elevada

Nos discursos dos profissionais sobre as dificuldades gerenciais encontradas, sete
UR destacaram a demanda elevada de pacientes na instituição.

Tem uma demanda muito grande aqui no hospital e a gen­te não tem tempo suficiente
para poder dar para o pacien­te! (M4).

a gente tem muito paciente e não tem como focar em um tratamento específico, assim,
só para dor! (M2).

Quando ele chega com dor e o médico assistente dele não está, a gente precisa mandar
para o consultório, e a gente sabe que ele vai aguardar em uma fila… (E4).

Falhas na referência e contrarreferência

Nos discursos, três UR destacaram como os profissio­nais visualizavam as falhas 
na referência e contrarreferên­cia, as quais eram vivenciadas diariamente no serviço.

Quando é uma cefaleia, você quer referenciar para um neurologista e não tem no momento!(
M7).

Deixam a desejar quanto a essa história de referência! (E2).

suspeitando da dor, eu tenho de encaminhar e só vou sa­ber se o paciente melhorou
ou não na volta para a consul­ta, que vai ser daqui a quatro meses… (M6).

A disponibilidade de medicamentos, para os profissio­nais investigados, configura-
se como condição favorável para o manejo da dor. O acesso aos medicamentos e aos
insumos essenciais para o controle da dor é discutido como fator transversal na 
garantia de serviço de qualidade, tanto do ponto de vista gerencial-orçamentário
quanto técnico- -científico, que se coadune com diversos programas, ações e estratégias
do Sistema Único de Saúde (SUS)^((7)).DISCUSSÃO

Contudo, a intervenção terapêutica não deve visar, necessariamente, à remoção dos
fatores causais e ao tra­tamento da dor com medidas farmacológicas, fisiátricas,
anestésicas, psiquiátricas e neurocirúrgicas funcionais. Deve-se, especialmente,
proporcionar reabilitação orien­tada por profissionais especializados no tratamento
das incapacidades e competentes, o suficiente, para esclare­cer condições e modificar
crenças inapropriadas^((8)).

Nesse contexto, verificou-se habilidade comporta- mental para gerenciar o cuidado
com foco no manejo da dor, mostrando que a participação dos profissionais e a presença
de projeto de trabalho comum são condições indispensáveis para que haja trabalhos
verdadeiramente integrados no sentido de aliviar o sofrimento de pacientes hospitalizados.
Isso requer atividade unificada, multidisci- plinar, vinculada ao compromisso, envolvimento
e respon­sabilidade de cada profissional da equipe de trabalho.

Percebeu-se, todavia, a crença de que a instituição, por ser de referência no atendimento
de HlV/AIDS, apre­sentava condições favoráveis ao atendimento dos vários sintomas
apresentados pelos pacientes, incluindo a dor. Instituições de referência, na maioria
das vezes, dispõem de profissionais, materiais, equipamentos e medicamen­tos, o 
que comumente acarreta superlotação e pouca efetividade. No entanto, os profissionais
entrevistados citaram que o hospital conseguia atender à demanda, justificando-se
a prescrição e a disponibilidade de medica­mentos como facilitadores do tratamento
da dor.

As medidas pareceram insuficientes para atender às necessidades da clientela diante
da sintomatologia, re­querendo novas estratégias para melhorar a qualidade do atendimento
e, por efeito, a condição de vida e saúde dos pacientes.

Ao abordar as condições desfavoráveis para o manejo da dor, destacou-se a inexistência
de atendimento espe­cífico para dor na instituição. O achado corrobora resul­tados
de recente pesquisa realizada em hospital universi­tário de Goiás, em que se evidenciou
a ausência de rotina para avaliação sistematizada da dor em pacientes, pela equipe
de enfermagem, considerando-se o resultado pre- ocupante^((9)). Os pesquisadores
inferiram que o enfermeiro trabalha em contato direto com o paciente, tendo maior
facilidade para analisar a intensidade da dor e a resposta do paciente à terapêutica
analgésica instituída.

Outro estudo realizado em hospital privado de Fortale­za, Ceará, demonstrou que 
os enfermeiros tinham conhe­cimento incipiente sobre a sistematização do atendimen­to
para o manejo adequado da dor, apesar da divulgação constante de diversos instrumentos
e procedimentos dis­poníveis para sua avaliação^((10)).

Instrumentos multidimensionais para medição da dor são aplicados ambulatorialmente,
em que se dispõe de mais tempo e se pode conhecer melhor o paciente que vivencia
a dor crônica. Para essa clientela, utilizam-se es­calas que avaliam as multidimensões
da dor, quais sejam a sensorial, a afetiva e a avaliativa, existindo as que incluem
indicadores fisiológicos, comportamentais, contextuais e, também, os autorregistros
por parte do paciente^((11)). No ambiente hospitalar, aplicam-se instrumentos unidimen-
sionais para avaliação da experiência dolorosa, uma vez que medem a intensidade,
uma das dimensões da dor.

A despeito dos dados amplamente divulgados na li­teratura, poucas são as instituições
brasileiras que im­plementaram a rotina da avaliação da dor como o quinto sinal 
vital, denotando a necessidade de maior integração das equipes médica e de enfermagem
no sentido de cons­cientização acerca da importância do estudo da fisiopato- logia
e do tratamento da dor, visando à evolução do pa­ciente e humanização do tratamento
hospitalar^((9)).

Verificou-se expectativa dos entrevistados a respeito de um protocolo específico
para facilitar o manejo da dor, apesar de não terem sido comprovadas articulações
no sentido da implantação desse instrumento.

Ademais, enfatizou-se a carência de profissionais atu­antes na instituição com experiência
no manejo da dor. Sabe-se que o inadequado manejo da dor agrava a con­dição de saúde
e afeta a qualidade de vida do paciente. Além disso, nos pacientes hospitalizados,
pode aumen­tar sua permanência na instituição e gerar reinternações constantes, 
o que repercute negativamente tanto para o paciente como para o serviço de saúde
^((12)).

O manejo adequado da dor inicia-se com avaliação médica do paciente, a qual envolve,
por sua vez, diagnós­tico adequado que permita o desenvolvimento de estra­tégias
terapêuticas ótimas. Portanto, para que avaliação e tratamento sejam realizados 
eficazmente, faz-se necessá­rio instituir programas interdisciplinares de dor, com
pro­fissionais capacitados para atuar em equipe, no sentido de fornecer resolubilidade
à dor dos pacientes, os quais, em sua maioria, recorrem a numerosos recursos de 
aten­dimento de saúde, sem melhora satisfatória.

Evidenciou-se, ainda, inexistência de medicação pres­crita para dor, o que denotou
conhecimento e prática in­cipientes de médicos sobre o manejo adequado, além de 
evidenciar cuidado negligenciado, visto que é direito do paciente a avaliação e 
o tratamento adequados da dor^((13)).

Outra pesquisa discutiu a problemática da subprescri- ção de analgésicos, em que
profissionais enfermeiros re­feriram a dependência do médico em relação à prescrição
adequada dessa classe de medicamentos, reiterando a complexidade da prescrição ineficaz
como consequência da subestimação da dor por parte da equipe de saúde^((14)).

O resultado também corrobora resultados de estudo que abordou a percepção de médicos
sobre as barreiras encontradas para o manejo adequado da dor associada à AIDS. As
principais dificuldades relatadas foram desconhe­cimento sobre o manejo da dor entre
os profissionais, ina- cessibilidade a especialistas no assunto e dúvidas relacio­nadas
ao uso e à adição potencial de analgésicos opioides nessa clientela^((15)).

Destaca-se, também, o desconhecimento do profis­sional de enfermagem, enquanto responsável
direto pelo cuidado, no que diz respeito à identificação das atividades de enfermagem
realizadas para o manejo da dor. A des­peito desse resultado, atualmente, o enfermeiro
é o pro­fissional da equipe interdisciplinar que mantém contato mais próximo com
o paciente, sendo pioneiro nos estudos e na implantação dos programas de avaliação
da dor nos diversos cenários da saúde^((16)).

Acrescenta-se ainda que, pela formação direciona­da para o atendimento biopsicossocial
do ser humano, o enfermeiro consegue avaliar, examinar e implementar estratégias
não farmacológicas de eficácia ao alívio da dor, garantindo a qualidade de vida 
do paciente durante a hospitalização.

O manejo insatisfatório da dor crônica em portadores da AIDS foi tema de discussão
em outra pesquisa^((17)). Esta ressaltou que, embora menos frequente do que antes
da implementação da [terapia antirretroviral](https://soropositivo.org/terapia-antirretroviral-a-tarv-ou-o-coquetel/),
a dor permane­ce recebendo manejo insatisfatório para seu alívio, sendo problema
significante que deve ser considerado, também, nos países desenvolvidos. Nestes,
os profissionais nem sempre avaliam, sistematicamente, os sinais e sintomas dos 
pacientes, e instrumentos não validados são utiliza­dos para esse propósito. Essa
situação interfere na avalia­ção da dor e exige mais pesquisas em busca de melhores
alternativas e instrumentos.

Os dados ainda são mais alarmantes em países sub­desenvolvidos, em que os profissionais
desconhecem seu papel diante do manejo adequado da dor, negligenciando a assistência
e gerando graves repercussões para o pro­cesso de cuidar, tornando-o fragmentado,
desvinculado e desumanizado.

Essas questões foram exploradas por estudiosos que apontaram relatos de enfermeiros,
os quais referiram que a dor era subestimada pelos profissionais ligados direta­mente
à assistência aos pacientes, demonstrando que avaliação e alívio da dor eram percebidos
como fatores secundários e que outros sintomas eram priorizados em detrimento da
dor^((14)).

O tratamento adequado da dor tem relevância para o bem-estar dos seres humanos, 
sendo legítimo que se re­conheça e promova o tratamento da dor como categoria de
um dos direitos fundamentais do homem. Tal reco­nhecimento servirá de base para 
a estrutura legal a ser incorporada ao direito nas legislações dos diversos países
e será de cumprimento obrigatório nos tratados regionais e internacionais^((18)).

Urge, portanto, combinação de programas educativos com determinações governamentais
ou da gerência do serviço, exigindo de profissionais práticas que promovam o controle
e alívio adequados da dor^((13)).

Portanto, faz-se necessária implementação de proto­colos de conduta nos níveis de
atenção, que permitam o aprimoramento da assistência, da regulação, da avaliação
e do controle, assim como a capacitação e a educação permanente das equipes de saúde,
a partir de um enfo­que estratégico humanizado, envolvendo profissionais de nível
superior e técnico, conforme as diretrizes do Sistema Único de Saúde^((10)).

Acentua-se, também, a demanda elevada como um dos principais pontos atribuídos ao
manejo ineficaz da dor na ins­tituição. A ênfase dada ao grande número de atendimentos
vai de encontro à realidade de muitas instituições de saúde, em que estas reproduzem
certa forma de lidar com o traba­lho que privilegia a produção de procedimentos 
e atividades em detrimento dos resultados e efeitos para os sujeitos que estão sob
sua responsabilidade. Muitas vezes, oferecem ser­viços totalmente incongruentes 
com a demanda e acreditam que o seu objeto de trabalho é a doença ou o procedimento,
atribuindo menor importância à existência dos sujeitos em sua complexidade e sofrimento
^((19)).

No âmbito do SUS, pode-se atribuir causas à existência dessa elevada demanda e o
desafio em atendê-la. Uma delas é a dificuldade de efetuar o planejamento e dis­cutir
a dinâmica do trabalho em alguns serviços; outras causas seriam o comprometimento
do fluxo e contrafluxo dos usuários e informações entre os diferentes níveis de 
atenção do sistema de saúde; diferentes estilos de gestão das equipes, configurando
relações ora aproximativas, ora conflituosas; expectativas contraditórias e conflitos
das equipes de saúde com os poderes locais e na relação en­tre o serviço de saúde
e a população, quando as equipes não conseguem atender a demanda^((20)).

É imprescindível, portanto, valorizar a abertura para o encontro entre o profissional
de saúde, o usuário e sua rede social, como liga fundamental no processo de produ­ção
de saúde; reorganizar o serviço, a partir da problema- tização dos processos de 
trabalho, de modo a possibilitar a intervenção da equipe multiprofissional encarregada
da escuta e resolução do problema do usuário; elaborar projetos terapêuticos individuais
e coletivos com equipes de referência em atenção diária que sejam responsáveis e
gestoras desses projetos; e promover mudanças estrutu­rais na forma de gestão do
serviço, ampliando os espaços democráticos de discussão e decisão, de escuta, trocas
e decisões coletivas^((19)).

Ações desse tipo devem ser desenvolvidas pelos sujei­tos envolvidos no processo 
de assistir, desde os gestores e profissionais da saúde ao paciente, família e comunidade.
Dessa forma, pode-se vislumbrar atendimento individuali­zado, pautado na integralidade
da atenção à saúde.

A discussão sobre demanda gera outras reflexões, prin­cipalmente no tocante à integralidade
das ações em saúde, o que foi aprofundado na subcategoria que versou sobre referência
e contrarreferência. Os relatos apontaram falhas na referência e contrarreferência
entre especialistas e os serviços que atendiam à clientela acometida por HIV/AIDS.

A atenção à saúde no SUS encontra-se organizada em graus crescentes de complexidade,
com a população fluindo de forma organizada entre os níveis primário, se­cundário
e terciário, por meio de mecanismos formais de referência e contrarreferência.

Na prática, representa postura prescritiva, presa à ra­cionalidade formal, que não
considera as necessidades e os fluxos reais das pessoas no sistema de saúde e, por
is­so, termina não se concretizando. Os serviços funcionam com lógicas muito diferentes,
a articulação entre eles não acontece, não se assegura a resolução dos problemas
e a população termina entrando no sistema por todas as por- tas^((21)). O ideal 
seria a entrada do usuário no primeiro nível de atendimento do sistema de saúde 
e, posteriormente, este relatado aos demais, conforme necessidades.

A realidade apresentada nos discursos dos profissio­nais, que envolve o tratamento
e acompanhamento dos pacientes com dor, foi consideravelmente prejudicada pe­la 
fragilidade do sistema de referência e contrarreferên- cia, entendendo que, nesses
casos, o problema se agrava pela necessidade urgente de melhora da dor no paciente
como principal queixa.

Apesar do avanço principalmente relacionado ao tra­tamento com antirretrovirais,
muitos desafios ainda per­sistem no âmbito da prevenção e assistência^((22)). Esses
in­divíduos continuam convivendo e enfrentando numerosas consequências advindas 
da soropositividade, relaciona­das ao estigma e preconceito, com impacto nas relações
sociais, familiares, afetivas e sexuais.

Investimentos devem ser realizados na formação do profissional, no processo de restauração
da saúde do cliente, na melhoria das condições de vida, nas orienta­ções quanto 
ao autocuidado, na simplificação e segurança dos procedimentos, como também no resultado
do pro­duto hospitalar, medido por meio da qualidade da docu­mentação e do registro
das ações de enfermagem.

Mudança importante seria, portanto, desenvolver prá­ticas gerenciais eficazes integradas
entre as instituições que possam atender pessoas com HIV/AIDS e dor, fazendo com
que o sistema de referência funcione, a contrarrefe- rência seja eficiente e que
os serviços possuam comunica­ção adequada para oferecer continuidade ao acompanha­mento
desse paciente na instituição de origem.

conclusão

Identificou-se, com clareza, a estrutura gerencial de um serviço especializado para
o manejo da dor em pacientes com AIDS hospitalizados. Nesse contexto, a estru­tura
do hospital pôde ser devidamente analisada quanto a pontos favoráveis e desfavoráveis.
Inicialmente, veri­ficou-se, como condições favoráveis, a disponibilidade de recursos
materiais, humanos e organizacionais, além do fato de a instituição ser referência,
o que denotava a existência de equipe capacitada para atender às abun­dantes queixas
levantadas pelos doentes nos atendi­mentos diários.

Como principais fatores impeditivos ao adequado ma­nejo da dor na instituição, constatou-
se o grande número de pacientes, a inexistência de atendimento específico ou protocolos
para gerenciar as decisões relacionadas à dor e as frequentes falhas interinstitucionais
quanto a referên­cia e contrarreferência.

Foi possível perceber que, apesar de ser considerada instituição de referência, 
mostrou atendimento fragiliza­do, em que os profissionais até conseguiam visualizar
as facilidades e dificuldades encontradas no cotidiano para atender à sintomatologia
da dor. No entanto, realizavam assistência informal, baseada em percepções individuais,
não fazendo uso de modelos preconizados para a área do atendimento à dor, como uso
de escalas ou instrumentos destinados à avaliação mais acurada.

Constatou-se a necessidade de repensar o atual ma­nejo da dor na instituição, o 
que implica reestruturar o modelo de gerenciamento do cuidado ao paciente hospitalizado,
aprimorar os recursos organizacionais, materiais e humanos atuantes, capacitando-
os para a avaliação da dor como rotina, além de desenvolver cultura de análises 
e registros acurados desse sintoma, para que terapêuti­cas sejam mais bem implementadas
e garantam satisfação analgésica ao paciente.

Roberta Meneses Oliveira^(1),

Lucilane Maria Sales da Silva^(2),

Maria Lúcia Duarte Pereira^(3),

Maria Aparecida Vasconcelos Moura^(4)

Referências

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## Leia também

 * [Manejo da dor de pacientes com AIDS: análise da estrutura gerencial em hospital de referência*](https://soropositivo.org/manejo-da-dor-de-pacientes-com-aids-analise-da-estrutura-gerencial-em-hospital-de-referencia/)
 * [Neuropatia Periférica Por HIV e Suas causas](https://soropositivo.org/neuropatia-periferica-e-suas-causas/)
 * [Neuropatia Periférica, os fatos](https://soropositivo.org/neuropatia-periferica-os-fatos/)

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