# Meditação é eficaz contra a aids, destaca revista ISTOÉ  -20/02/2010

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- Published: 2010-02-21T14:20:32-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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 * [AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DA AIDS](https://soropositivo.org/meditacao-e-eficaz-contra-a-aids-destaca-revista-istoe-20-02-2010/#agencia-de-noticias-da-aids)
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A técnica ganha espaço em instituições renomadas e prova ser eficaz contra um leque
cada vez maior de doenças. Entre elas, a depressão, males cardíacos e até **AIDS**

 

Cilene Pereira e Maíra Magro

 

Ela chegou ao Ocidente como mais um item da lista de atrações exóticas do Oriente.
Hoje, está se transformando em um dos mais respeitados recursos terapêuticos usados
pela medicina que conhecemos. Está se falando aqui da meditação, uma prática milenar
cujo principal objetivo é limpar a mente dos milhares de pensamentos desnecessários
que por ela passam a cada minuto, ajudando o indivíduo a se concentrar no momento
presente. É por essa razão que um de seus benefícios é o de ajudar as pessoas a 
lidar com sentimentos como a ansiedade. Mas o que se tem visto, de acordo com as
numerosas pesquisas científicas a respeito da técnica, é que a meditação se firma
cada vez mais como uma espécie de remédio – acessível e sem efeitos colaterais –
indicado para um leque já amplo de enfermidades: da depressão ao controle da dor,
da artrite reumatoide aos efeitos colaterais do câncer.

 

A inclusão da prática no rol de tratamentos da medicina ocidental é um fenômeno 
mundial. Nos Estados Unidos, por exemplo, ela figura entre as opções de centros 
renomados como o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, um dos centros de referência
do planeta no tratamento da doença. Também está disponível na Clínica Mayo, outro
respeitado serviço de saúde. No Brasil, o método começa a ganhar espaço, boa parte
dele assegurado pela Política de Práticas Integrativas e Complementares do SUS, 
implementada em 2006 pelo Ministério da Saúde. Ela incentiva o uso, pela rede pública,
de uma série de práticas não convencionais – como a medicina tradicional chinesa,
a acupuntura e a fitoterapia – para auxiliar no processo de cura. “Nessas diretrizes,
a meditação está prevista como parte integrante da medicina chinesa”, explica a 
médica sanitarista Carmem De Simoni, coordenadora do programa.

 

Em Campinas, no interior de São Paulo, 20 postos de saúde oferecem treinamentos 
de meditação gratuitos à população. Em São Carlos, também no interior paulista, 
alguns postos públicos de atendimento começarão a ofertar este ano sessões usando
uma técnica conhecida como atenção plena (Mindfulness-Based Stress Reduction, ou
MBSR, em inglês), desenvolvida pelo Centro Médico da Universidade de Massachusetts,
nos Estados Unidos. É baseada em exercícios de respiração e consciência corporal
que ajudam o indivíduo a focar as percepções no momento presente. “Queremos incluir
a prática em 30 unidades de saúde”, diz Marcelo Demarzo, chefe do Departamento de
Medicina da Universidade Federal de São Carlos.

 

Outra experiência interessante no Brasil é o uso do método em escolas da rede estadual
do ensino médio do Rio de Janeiro. Trata-se de uma iniciativa da Fundação David 
Lynch, criada pelo cineasta americano, com o objetivo de reduzir a violência nos
colégios por meio da prática. Um projeto piloto com cerca de 750 crianças e adolescentes
de 10 a 18 anos mostrou que ela contribui para o aumento da concentração e da criatividade.“
Muitas relataram ainda benefícios como redução de crises de dor de cabeça”, diz 
Joan Roura, representante da entidade no Brasil.

 

O Hospital Albert Einstein, em São Paulo, decidiu oferecer a prática tanto para 
pacientes quanto para funcionários, depois de testá-la por dois anos no setor de
oncologia. “Nos pacientes em tratamento contra o câncer, notamos uma diminuição 
na ansiedade e maior disposição para enfrentar a doença”, afirma o médico Paulo 
de Tarso Lima. Ele é responsável pelo serviço de medicina integrativa no hospital,
que promove a adoção de terapias complementares – entre elas, a meditação – para
auxiliar no tratamento convencional.

 

O movimento que se observa atualmente com a meditação é o mesmo experimentado pela
acupuntura cerca de dez anos atrás. Da mesma forma que o método das agulhas, ela
conquista o respeito da medicina tradicional porque tem passado nas provas de eficácia
realizadas de acordo com a ciência ocidental. Isso quer dizer que, aos olhos dos
pesquisadores, foi despida de qualquer caráter esotérico, mostrando-se, ao contrário,
um recurso possível a todos – ninguém precisa ser guru indiano para praticá-lo –
e de fato capaz de promover no organismo mudanças fisiológicas importantes.

 

A profusão de pesquisas que apontam algumas dessas alterações é grande. Os resultados
mais impressionantes vêm dos estudos que se propõem a investigar seus efeitos no
cérebro. Um exemplo é o trabalho realizado na Universidade da Califórnia, nos Estados
Unidos, e publicado na revista científica “NeuroImage”. Após compararem o cérebro
de 22 meditadores com o de 22 pessoas que nunca meditaram, eles descobriram que 
os praticantes possuem algumas estruturas cerebrais maiores do que as dos não praticantes.

 

Especificamente, hipocampo, tálamo e córtex orbitofrontal. As duas primeiras estão
envolvidas no processamento das emoções. E a terceira região, no raciocínio. “Sabemos
que as pessoas que meditam têm uma habilidade singular para cultivar emoções positivas”,
disse à ISTOÉ Eileen Luders, do Laboratório de Neuroimagem da universidade. “As 
diferenças observadas na anatomia cerebral desses indivíduos nos deram uma pista
da razão desse fenômeno.”

 

Na publicação “Psychological Science”, há outro trabalho interessante. Pesquisadores
da Universidade George Mason constataram que a prática proporciona uma melhora significativa
na memória visual. Normalmente, uma imagem é armazenada integralmente no cérebro
por pouquíssimo tempo. Mas o estudo verificou que monges, habituados a meditar todos
os dias, conseguem guardá-las – com riqueza de detalhes – até 30 minutos depois 
de praticar. “Isso significa que a meditação melhora muito este tipo de memória,
mesmo após um certo período”, disse à ISTOÉ Maria Kozhenikov, autora do experimento.
Essa habilidade transforma a técnica em um potencial instrumento para complementar
o tratamento de doenças que prejudiquem a memória, como o mal de Alzheimer.

 

O poder da meditação – parte 2

 

No Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein, aqui no Brasil, pela técnica
de ressonância magnética foram fotografados os cérebros de 100 voluntários, antes
e depois de um retiro de uma semana para práticas diárias. “Na análise de uma primeira
amostra, observamos que as áreas ligadas à atenção, como o córtex pré-frontal e 
o cíngulo anterior, ficaram mais ativadas após o treinamento”, afirma a bióloga 
Elisa Kozasa, responsável pela pesquisa. As regiões cerebrais eram observadas enquanto
os voluntários realizavam testes para medir o quanto estavam atentos. “Houve uma
tendência de maior número de acertos e mais velocidade nas respostas após a meditação”,
explica a pesquisadora Elisa.

 

Na área da oncologia, há várias evidências científicas de eficácia. Tome-se como
exemplo o estudo feito na Universidade de Brasília pelo psiquiatra Juarez Iório 
Castellar. Ele investiga os efeitos do método em 80 pacientes com histórico de câncer
de mama. Castellar pediu às participantes que preenchessem questionários para medir
a qualidade de vida. Por meio da coleta de amostras de sangue e saliva antes e depois
dos exercícios meditativos, ele também está acompanhando variações hormonais que
indicam a situação da doença. “Um dos dados que já verificamos é que a meditação
reduziu os efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, vômitos, insônia e
inapetência”, afirma.

 

Outra frente de pesquisas tenta decifrar seu impacto nas doenças mentais. Novamente,
as conclusões são bem animadoras. Na Universidade de Exeter, na Inglaterra, o pesquisador
Willem Kuyken verificou que o método é uma opção concreta para auxiliar no controle
da depressão a longo prazo. Depois de 15 meses comparando a evolução de pacientes
que meditavam e tomavam remédios com a apresentada por aqueles que apenas usavam
os antidepressivos, o cientista constatou que crises mais sérias ocorreram em 47%
dos meditadores, enquanto entre os outros o índice foi de 60%. Na Universidade George
Washington, nos Estados Unidos, a técnica provou-se uma aliada no tratamento de 
crianças com transtorno de hiperatividade e déficit de atenção. “Houve redução de
50% dos sintomas após três meses de prática”, disse à ISTOÉ Sarina Grosswald, coordenadora
da pesquisa. Há ainda evidências de benefícios na luta contra transtornos alimentares
como bulimia e dependência de drogas. “A meditação relaxa os dependentes e os torna
mais fortes para resistir à vontade de consumir drogas”, explicou à ISTOÉ Elias 
Dakwar, do Instituto de Psiquiatria do Columbia-Presbyterian Medical Center, em 
Nova York, instituição que passou a usar o método recentemente.

 

O segredo que possibilita efeitos dessa magnitude nestes tipos de patologias é o
fato de a meditação ensinar o indivíduo a viver o presente, sem antecipar medos 
e sofrimentos. “E como o ato de pensar é ‘desligado’, a mente transcende seu estado
ocupado e experimenta um profundo silêncio”, explica Sarina Grosswald. “O corpo,
por sua vez, fica totalmente relaxado.” É este o mecanismo que também explica parte
do seu poder contra a dor. “O método ajuda os pacientes a perceberem a dor e a deixá-
la ir embora, sem se prender a ela”, disse à ISTOÉ Paula Goolkasian, da Universidade
da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ela faz parte de uma equipe que estuda
intensamente a relação entre dor e meditação e é autora de alguns artigos científicos
a respeito do tema.

 

Permeando todos esses processos, porém, está a redução do stress proporcionada pelo
método – e os benefícios advindos disso. O controle da tensão implica mudanças importantes
na química cerebral, entre elas a diminuição da produção do cortisol. Liberado em
situações de stress, o hormônio tem consequências danosas. Uma delas é a elevação
da pressão arterial. Portanto, quanto menor sua concentração, mais baixas são as
chances de hipertensão. E como a meditação diminui o stress, acaba reduzindo, indiretamente,
a pressão. Este mecanismo explica por que a técnica contribui para a prevenção de
doenças cardiovasculares, como o infarto e o acidente vascular cerebral, causadas,
entre outras coisas, por uma pressão arterial acima dos níveis recomendados. Um 
estudo recente realizado na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, deu uma
ideia desse potencial.

 

Durante nove anos, os cientistas acompanharam 201 homens e mulheres com média de
59 anos de idade. Parte foi orientada a meditar todos os dias e o restante recebeu
recomendação para mudar hábitos. Os meditadores tiveram 47% menos chance de morrer
de um problema cardiovascular em comparação com os outros. Com base nesse resultado,
o coordenador da pesquisa, Robert Schneider, considera que a descoberta equivale
ao encontro de uma nova classe de “remédios” para evitar essas enfermidades. “Nesse
caso, a medicação é derivada dos próprios mecanismos de cura do corpo e de sua farmácia
interna”, disse à ISTOÉ.

 

A ciência registrou ainda mais um impacto positivo da redução do stress promovida
pelo método: o auxílio contra a **AIDS**.A doença caracteriza-se pelo ataque do 
vírus HIV aos linfócitos CD-4 (células que integram o sistema de defesa do corpo).
Por causa disso, o corpo fica mais vulnerável a infecções, podendo sucumbir a elas.
Mas é sabido que outro inimigo dos exércitos de defesa é o stress: o hormônio cortisol
enfraquece seu funcionamento. Por isso, diminuir a tensão é uma maneira de evitar
que isso aconteça. Na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, os cientistas
testaram a força da meditação para controlar o stress em pacientes com **AIDS** 
e constataram que, também aqui, ela funciona. Eles selecionaram 48 pessoas soropositivas,
divididas em dois grupos: um meditou e o outro, não. Após oito semanas, os que a
praticaram não apresentavam perda de CD-4, ao contrário dos outros participantes.
Isso revela que a meditação reduziu o stress. Dessa maneira, contribuiu para preservar
o sistema imunológico dos pacientes, ajudando a retardar o avanço do HIV.

 

Uma das mais intrigantes abordagens de pesquisa é a que estuda a relação entre o
método e o envelhecimento precoce. Os pesquisadores começaram a fazer essa associação
a partir da certeza do vínculo entre o stress – ele de novo – e a ocorrência de 
uma deterioração celular acentua¬da. Partindo desse raciocínio, eles querem saber
se a meditação também teria efeito indireto nesse mecanismo, já que atua sobre o
stress. Cientistas da Universidade da Califórnia estão investigando se a redução
do stress causada pela meditação poderia provocar um efeito benéfico sobre os telômeros–
espécie de capa protetora das extremidades dos cromossomos cujo comprimento está
associado ao grau de envelhecimento celular. Quanto mais comprido, menor o índice
de desgaste. E um dos fatores de desgaste dos telômeros é o stress. Portanto, quanto
menos stress, mais preservadas essas estruturas.

 

No Brasil, o interesse por esse tema, especificamente, também cresce. O médico José
Antônio Esper Curiati, do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo,
por exemplo, coordena grupos de meditação para idosos “Estou medindo os efeitos 
da prática em aspectos como memória, humor e qualidade do sono”, diz. No Centro 
de Estudos do Envelhecimento da Universidade Federal de São Paulo, o médico Fernando
Bignardi é outro que acompanha os reflexos em indivíduos na terceira idade. “O que
notamos de mais imediato é uma mudança na condição emocional”, relata. “Depois há
uma melhora no sono, nas condições metabólicas e, finalmente, alterações clínicas
que levam à melhora de doenças como hipertensão e diabetes.”

 

A experiência bem-sucedida incentivou Bignardi a desenvolver uma pesquisa mais ampla.
A instituição acompanha a saúde de 1,5 mil idosos para verificar a relação entre
estilo de vida, personalidade, cognição e doenças. A intenção agora é analisar como
a prática meditativa interfere nessa equação – inclusive na incidência de doenças
neurodegenerativas como o mal de Alzheimer. A médica Edith Horibe, presidente da
Academia Brasileira de Medicina Antienvelhecimento, já indica a meditação para seus
pacientes. “Sem dúvida, ela permite uma vida mais longa e com saúde”, afirma. “E
a técnica não exige mudanças no estilo de vida”, completa Kleber Tani, diretor da
seção carioca da Sociedade Internacional de Meditação.

 

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**21/FEVEREIRO/2010**

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