# Melhor morrer de “AIDS” ou de “vontAIDS” ?

- Link: https://soropositivo.org/melhor-morrer-de-aids-ou-de-vontaids-2/
- Published: 2016-09-28T09:45:37-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

⌊pinoquio-aids⌉⌊pinoquio-aids⌉Em novembro de 2015, através de uma mensagem de WhatsApp
de uma antiga namorada que acabava de descobrir ser soropositiva, meu chão caiu.
Uma segunda-feira feliz, dirigindo meu carro voltando do trabalho, primeira noite
que dormi na casa de uma nova namorada após um domingo de uma briga e reconciliação.

Aos 27 anos, recebi um alerta de uma coisa que até então eu tirava sarro com o bordão“**
[melhor morrer](https://soropositivo.org/chuvas-na-vida-de-moradores-de-rua-e-o-inferno-de-dante-para-um-santo/)
de AIDS do que de vontAIDS**“.

> E daí me coloquei a chorar, passando a vida toda, todos os 27 anos no trajeto 
> de 15 minutos que restavam da Dutra até minha casa, em Guarulhos. Sem saber se
> eu tinha contraído o virus, mas já pedindo a Deus para me livrar disso e também
> pedindo que ele olhasse por essa pessoa que teve a CORAGEM de me notificar, alertar,
> liguei para um amigo de infância e passei na casa dele.
> Quando ele entrou no carro, cai em lágrimas de desespero, sem conseguir falar 
> sequer uma palavra durante uns 10 minutos enquanto ele, aflito e preocupado, tentava
> entender o que ocorria. Quando finalmente consegui dizer o que estava se passando,
> tentou me dar forças, tentando não mostrar desespero e se prontificando a ir comigo
> no dia seguinte fazer o teste, que até então eu nunca havia feito.

Foi a noite mais longa da minha vida. Chegar em casa, se trancar no quarto e fingir
que tudo estava bem, com aquilo tudo passando pela minha cabeça. Comecei a ler sobre
HIV, sintomas e tudo mais, e percebi que o que eu sabia sobre o tema era apenas “
a morte do CAZUZA” e que o quanto isso é abominado pela sociedade.

`[``youtube [https://www.youtube.com/watch?v=WVbQ-oro7FQ](https://www.youtube.com/watch?v=UrsMph1vhL0)``]`

Comecei a ver alguns sintomas da infecção que batiam com o que se passava comigo,
por diversas vezes despercebido, por ter a mania de invencível, de não ter medo 
de nada, naquele dia eu tive! Deus me mostrou que eu deveria sim ter medo. E de 
lá para cá essa palavra vem tornando-se constante em mim.

![Gosto de imaginar a mim e à Mara como nesta foto. Em um determinado momento da
vida eu cheguei a me questionar sobre isso e quase precipitei fatos... Alguém com
muito bom senso me aadujou a ficar "nostrilho e, hoje, mais do que nunca, tenho 
mais do que certeza que a Mara é a última mulher de minha vida e, se a passagem 
dela for anterior à mnha, não haverá mais ninguém, pois eu tenho um nível de relacionamento
muit bom e, como em uo, na vida, eu bsco sempre o melhor e não seria na vida afetiva
que eu faria por menos... Não eu, not me...](http://soropositivo.org/wp-content/
uploads/2016/09/1ade5-casal-de-idoso-e1475064068169.jpg)

Gosto de imaginar a mim e à Mara como nesta foto. Em um determinado momento da vida
eu cheguei a me questionar sobre isso e quase precipitei fatos… Alguém com muito
bom senso me aadujou a ficar “nostrilho e, hoje, mais do que nunca, tenho mais do
que certeza que a Mara é a última mulher de minha vida e, se a passagem dela for
anterior à mnha, não haverá mais ninguém, pois eu tenho um nível de relacionamento
muit bom e, como em uo, na vida, eu bsco sempre o melhor e não seria na vida afetiva
que eu faria por menos… Não eu, not me…

Mesmo em situações que não deveria, ela persiste em me assombrar. No dia seguinte,
fui até um posto de saúde e lá estava a minha “sentença”… Dentro do carro, esse 
amigo tentava me consolar enquanto minha frase mais dita entre as lágrimas era “
eu não quero morrer”. Jovem, feliz, “saudável”, sempre sem temer a nada.

De repente, nada disso fazia mais sentido. Nunca vou me esquecer do rosto daquela
enfermeira, “bufando” sem saber como me dizer quando em cinco minutos apareceram
dois “risquinhos” no meu teste rápido. Como é duro apenas lembrar deste dia…

!["Fada Madrinha"... às vezes precisamos de uma. Uma lástima o fato de aminha ter
sido uma fOda madrinha](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/2016/09/fada.
jpg?w=620)

“Fada Madrinha”… às vezes precisamos de uma. Uma lástima o fato de aminha ter sido
uma fOda madrinha

E de lá para cá, as lutas são constantes. Em uma semana, evitei ver minha namorada,
não dormi, não me alimentei, perdi 7 kg (gritantes para quem já é magro), contei
para algumas pessoas da família que me apoiaram de uma forma fantástica.

Minha madrinha, sempre ao meu lado, me levou ao Posto especializado em uma cidade
do interior onde ela reside, cuidou de tudo para mim, que não tinha estrutura para
nada.

** Eu que me achava tão homem, na primeira “batalha” vi o quanto eu não passava 
de um moleque, cheio de medos. Mas a vida e Deus quiseram que eu me preparasse para
isso.**

**No fds seguinte, fui até a casa da minha namorada, ela já achando que eu estava“
putanhando” pois estava estranho a semana toda.**

Com a desculpa de que queria apresentar ela a minha madrinha/tia, a levei para essa
cidade do interior e ao chegar na frente não são reais, o que faz isso é o sentimento
de culpa e sangue se doa, no mínimo, uma vez a cada seis meses e, sem entrar no 
mérito da relação, sem acusar ninguém de nada, ha espaço,  na minha consciência,
para “outras ilações”…,

E de lá para cá, entre muitas brigas e desentendimentos, ficamos juntos. Me tornei
indetectável e ela, com CD4 ainda alto e carga viral considerada “baixa” começou
também o tratamento com o 3×1, assim como eu.

> Dia 13 de junho, descobrimos que ela está gravida. Uma sensação de felicidade 
> e medo, ao mesmo tempo, decidimos nos casar, e dia XX de mês, próximo sábado vamos
> nos unir.
> Em partes, me sinto feliz. Quero ter uma vida nova. Sei que Deus coloca coisas
> as vezes para mostrar que estamos caminhando errado, que não é a direção certa.
> Mas não consigo ser mais o mesmo, sempre alegre, confiante, cheio de vida, hoje
> nada faz mais tanto sentido…

Houve uma época mais difícil, no começo, suspeitei de uma depressão e aparentemente
isso seria normal. Porém tento levar a vida. Algumas vezes o assunto HIV vem em 
nossas conversas, ela sem me dizer claramente, mesmo assim sinto que não consegue
aceitar, como me disse essa noite que anda “revoltada” que não consegue aceitar 
que tem “isso”.

Também não me conformo as vezes. Mas tento aceitar o que estava traçado na minha
história, que talvez poderia ter sido diferente, mas infelizmente não foi.

![Eu costumo dizer que, "ao longo da vida, morri mil mortes". E, de fato, creio 
que já ultrapassei esta cifra e não consigo deslindar, em vaticínios, quantas mortes
eu viverei (...) até que chegeu, por acréscimo de misericórdia, a morte do carro
físico. O fato é que toda a vez que posto um texto que se refere aos danos que o
HIV causa ao cérebro e à rede neural, eu milito em causa própria, posto que, desde
o início, quando mminha infecção primária por HIv configurou-se numa meningite, 
ele, o vírus, tem atuado de forma paulatina e silenciosa no meu cérbro (eu vejo 
minha lucidez esvaindo-se a pouco e pouco) e na minha rede neural (...) e Deus sabe
o nível de concentração que é necessário para que eu não cometa erros de digitação,
para que eu não perca o fio da meada em meus raciocínios e o quanto eu sofro com
s dores, físicas e morais, da Neuroparia Periférica quem me corroi o sistema nervoso.
Entretanto, apesar dos pesares, e de ter morrido tantas vezes, eu gosto de pensar
que a morte do carro físico venha como esa da ilustração, envidando esforços hercúleos
para me alcançar, arrastando-se como uma lesma, travestida de caracol....](https://
soropositivo.org/wp-content/uploads/2015/07/e5657-morte-lenta.jpg)

Eu costumo dizer que, “ao longo da vida, morri mil mortes”. E, de fato, creio que
já ultrapassei esta cifra e não consigo deslindar, em vaticínios, quantas mortes
eu viverei (…) até que chegue, por acréscimo de misericórdia, a morte do “carro 
físico”. O fato é que toda a vez que posto um texto que se refere aos danos que 
o HIV causa ao cérebro e à rede neural, eu milito em causa própria, posto que, desde
o início, quando minha doença oportunista configurou-se numa meningite, ele, o vírus,
tem atuado de forma paulatina e silenciosa no meu cérebro (eu vejo minha lucidez
esvaindo-se a pouco e pouco) e na minha rede neural (…) e Deus sabe o nível de concentração
que é necessário para que eu não cometa erros de digitação, para que eu não perca
o fio da meada em meus raciocínios e o quanto eu sofro com s dores, físicas e morais,
da Neuropatia Periférica quem me corroí o sistema nervoso. Entretanto, apesar dos
pesares, e de ter morrido tantas vezes, eu gosto de pensar que a morte do carro 
físico venha como essa da ilustração, envidando esforços hercúleos para me alcançar,
arrastando-se como uma lesma, travestida de caracol… rs, rs, rs

Luto tanto para ter uma vida normal, e “normal” não se trata de condição de saúde
em si, mas de cabeça boa. De ter o prazer de fazer coisas como eu tinha antes. De
ver um jogo de futebol, dar risada com amigos ou ter foco no trabalho. Parece que
nada mais é importante, tudo se tornou coadjuvante, faço as coisas no automático
para não “parar de viver”.

Espero que isso passe, tem dias que são bem próximos dos “normais”, como antes. 
Sei que não devemos nos vitimar, tem que ir em busca dos sonhos e tudo mais. Mas
confesso que o fato de segurar esse “fardo” da sorologia da minha noiva sozinha,
às vezes me destrói.

Ela acha que a família não vai entender e eu serei visto como o “assassino”. Entendo
ela, respeito também a posição, por conviver talvez eu até concorde. Mas as vezes
não ter com quem dividir ou ao menos desabafar sobre essa cruz não é fácil.

Desculpe o desabafo rs. Espero não ter tomado muito o seu tempo e obrigado por partilhar
um pouco de suas experiências com leitores.

Deus o abençoe grandemente. Vida longa!

## Leia também

 * [HIV : Tabú- Um documentário de 45 minutos de duração](https://soropositivo.org/soropositivo-para-hiv-tabu/)
 * [Morrer de AIDS ou de Medo?](https://soropositivo.org/morrer-de-aids-ou-de-medo/)
 * [A Primeira Noite na Noite (De Minhas Memórias)](https://soropositivo.org/a-primeira-noite-na-noite-de-minhas-memorias/)

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