olá, esta é a história real que precisava ser contada. A vida testa a gente nos detalhes mais improváveis, mas a história construída até aqui permanece de pé, registrada com toda a transparência e resiliência possível.
Este é um trecho do livro em que na primeira noite em uma cozinha do boate, depois de seis anos passando fome na rua, comendo do lixo ele descobre esta realidade…
Era o início dos anos oitenta. Tocava-se pop music, as bandas do rock nacional hoje tão celebradas eram apenas pequenos embriões. Talvez até antes do Circo Voador existir, e o new wave ainda não havia florescido. Michael Jackson, por exemplo, ainda não tinha lançado Billie Jean.
Meu trabalho consistia em lavar pratos na cozinha da Boate Louvre, arrendada por Severino (in memoriam). Um trabalho simples, direto, e se não fossem tantas mudanças no nome da moeda — especialmente aquela maldita URV — eu poderia dizer com melhor exatidão quanto ganhava. Contudo, creio que seriam, hoje, algo como R$ 15,00 por noite (uma fortuna para mim, nas minhas condições)… e “uma janta”.
Outros arranjos se fizeram e eu vou explicando isso com o passar do tempo, enquanto vou digitando só com os indicadores — a polineuropatia arruinou o restante.
Lembro-me da primeira noite. E, nesta noite, a primeira coisa que fiz foi jantar. E inda lembro: foi um sarapatel.
Trabalhava na cozinha e não via o que acontecia na boate, mas era sabido por todos que havia “um menor de idade” na casa — eu, portanto. “Todos os sistemas estavam em alerta”.
A noite que conheci era muito diferente da noite que me expulsou.
O fato de eu ser menor de idade, com pouco mais de dezessete anos, não era impeditivo para eu trabalhar. Ao contrário — todos se cotizavam na vigilância, tentando manter a mim e aos demais em estado constante de sobreaviso. Caso o juizado surgisse, eu deveria entrar por um nicho na parede que me conduziria ao forro da boate. Ali, imóvel e em silêncio, esperaria o “perigo” passar.
E como foi útil esse nicho… Em três ocasiões!
Mas isso não é nada.
Enquanto lavava os pratos — e não faltavam pratos para lavar — eu ainda pensava na minha troopie das ruas. Aquela dúzia e meia de adolescentes que se uniram como uma matilha de lobos, protegendo-se mutuamente, debalde nossas diferenças e rixas pessoais. Tudo ia para segundo plano quando o assunto era se esconder da polícia, do juizado de menores ou de outras figuras bem mais sórdidas do que os supramencionados.
E pensava, com certo ar de tristeza (tristeza promove crescimento, aprendi), que não mais os veria. Isso me deixava nostálgico.
Alguns dizem que sou frio porque esqueço com facilidade. Todavia, isso só é verdade de uns tempos para cá — resultado da continuada e longa exposição aos benzodiazepínicos. Eles, muitas vezes penso, ajudam a criar uma espécie de mecanismo defensivo. Um jeito de esquecer as pessoas que, passada minha “utilidade”, desaparecem sem dizer ao menos um “adeus”.
Dane-se o mundo!
E pensava neles enquanto via aquela comida em abundância. E me lembrava das vezes que nós, depois de descobrirmos o segredo, comêramos do lixo do McDonald’s — por causa do padrão de qualidade deles, que dizia: passado determinado tempo, o lanche era descartado.
Mitigava nossa fome… até que os funcionários, liderados por um gerente maldito, passaram a só colocar o lanche para fora em mãos, direto aos lixeiros. E nós, com fome, ficávamos.
A explicação era que, se um daqueles lanches nos fizesse mal, haveria “complicações”. Lembro-me bem dessa palavra. Assim terminou, em poucos dias, aquela relativa tranquilidade de termos algo para comer por volta das 22h. Voltamos a batalhar, moeda por moeda, muitas vezes recebidas com tal displicência que tínhamos de buscá-las no chão. Até juntar o suficiente para comprar pão e mortadela — ou, simplesmente, pão.
No Louvre — dono de boate tem mania de grandeza, acostumem-se — eu lavava os pratos ainda pensando neles. Meus amigos. Meus colegas de infortúnio. Minha matilha.
No final da noite, havia uma panela industrial de arroz pela metade, duas panelas de pressão cheias de feijão e outros recipientes com o que não fora vendido. E eu, na minha tola inocência, perguntei onde se guardaria aquela comida.
Com a mesma displicência com que as moedas outrora me foram jogadas, Severino me respondeu:
— “Guardar? Não serve pra mais nada. Jogue isso no lixo. Esse é meu prejuízo de hoje.”
“Hoje…” — pensei, enquanto o sangue se congestionava em meu massacrado cérebro!
E numa fração quântica de segundo, pensei em quanta comida era jogada fora cotidianamente em tantas cozinhas como aquela. Pensei também nas cozinhas dos botecos, das lanchonetes, dos luxuosos restaurantes da Pauliceia Desvairada. Pensei em tudo isso, por este país, por este continente, por todas as avenidas, ruas e vielas deste planeta apagado. Pensei nos quase cinco anos em que passei fome com minha troopie…
E, com toda a sinceridade que me cabe aqui: se eu não voei no pescoço daquele homem e não o espanquei até a morte, não foi por falta de vontade. Foi por medo das consequências.
Minha primeira noite na Noite me ensinou muito a respeito da iniquidade dos homens…
E isso foi só o começo.
Vocês hão de ver!
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Não é compra, não é cobrança, não é compromisso.
É só uma forma de eu saber quem quer caminhar junto quando este livro finalmente sair da gaveta e ganhar o mundo.
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