# Memórias de um Homem Da Noite. Pré Venda

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- Published: 2026-06-19T11:19:45-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

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 * [Leia também](https://soropositivo.org/memorias-de-um-homem-da-noite-pre-cadastro/#leia-tambem)
 * [Relacionado](https://soropositivo.org/memorias-de-um-homem-da-noite-pre-cadastro/#relacionado)

A primeira noite na noite…

Este é um trecho do livro em que na primeira noite em uma cozinha do boate, depois
de seis anos passando fome na rua, comendo do lixo ele descobre esta realidade…

Era o início dos anos oitenta. Tocava-se _pop music_, as bandas do rock nacional
hoje tão celebradas eram apenas pequenos embriões. Talvez até antes do **Circo Voador**
existir, e o _new wave_ ainda não havia florescido. Michael Jackson, por exemplo,
ainda não tinha lançado _Billie Jean_.

Meu trabalho consistia em lavar pratos na cozinha da Boate **Louvre**, arrendada
por Severino (_in memoriam_). Um trabalho simples, direto, e se não fossem tantas
mudanças no nome da moeda — especialmente aquela maldita _URV_ — eu poderia dizer
com melhor exatidão quanto ganhava. Contudo, creio que seriam, hoje, algo como R
$ 15,00 por noite (uma fortuna para mim, nas minhas condições)… e “uma janta”.

Outros arranjos se fizeram e eu vou explicando isso com o passar do tempo, enquanto
vou digitando só com os indicadores — a polineuropatia arruinou o restante.

Lembro-me da primeira noite. E, nesta noite, a primeira coisa que fiz foi jantar.
E inda lembro: foi um **sarapatel**.

Trabalhava na cozinha e não via o que acontecia na boate, mas era sabido por todos
que havia “um menor de idade” na casa — eu, portanto. “Todos os sistemas estavam
em alerta”.

A noite que conheci era muito diferente da noite que me expulsou.

O fato de eu ser menor de idade, com pouco mais de dezessete anos, não era impeditivo
para eu trabalhar. Ao contrário — todos se cotizavam na vigilância, tentando manter
a mim e aos demais em estado constante de sobreaviso. Caso o juizado surgisse, eu
deveria entrar por um nicho na parede que me conduziria ao forro da boate. Ali, 
imóvel e em silêncio, esperaria o “perigo” passar.

E como foi útil esse nicho… Em **três** ocasiões!

Mas isso não é nada.

Enquanto lavava os pratos — e não faltavam pratos para lavar — eu ainda pensava 
na minha _troopie_ das ruas. Aquela dúzia e meia de adolescentes que se uniram como
uma matilha de lobos, protegendo-se mutuamente, _debalde_ nossas diferenças e rixas
pessoais. Tudo ia para segundo plano quando o assunto era se esconder da polícia,
do juizado de menores ou de outras figuras bem mais sórdidas do que os supramencionados.

E pensava, com certo ar de tristeza (tristeza promove crescimento, aprendi), que
não mais os veria. Isso me deixava nostálgico.

Alguns dizem que sou frio porque esqueço com facilidade. Todavia, isso só é verdade
de uns tempos para cá — resultado da continuada e longa exposição aos **benzodiazepínicos**.
Eles, muitas vezes penso, ajudam a criar uma espécie de mecanismo defensivo. Um 
jeito de esquecer as pessoas que, passada minha “utilidade”, desaparecem sem dizer
ao menos um “adeus”.

Dane-se o mundo!

E pensava neles enquanto via aquela comida em abundância. E me lembrava das vezes
que nós, depois de descobrirmos o segredo, comêramos do lixo do McDonald’s — por
causa do padrão de qualidade deles, que dizia: passado determinado tempo, o lanche
era descartado.

Mitigava nossa fome… até que os funcionários, liderados por um gerente maldito, 
passaram a só colocar o lanche para fora **em mãos**, direto aos lixeiros. E nós,
com fome, ficávamos.

A explicação era que, se um daqueles lanches nos fizesse mal, haveria “complicações”.
Lembro-me bem dessa palavra. Assim terminou, em poucos dias, aquela relativa tranquilidade
de termos algo para comer por volta das 22h. Voltamos a batalhar, moeda por moeda,
muitas vezes recebidas com tal displicência que tínhamos de buscá-las no chão. Até
juntar o suficiente para comprar pão e mortadela — ou, simplesmente, pão.

No **Louvre** — dono de boate tem mania de grandeza, acostumem-se — eu lavava os
pratos ainda pensando neles. Meus amigos. Meus colegas de infortúnio. Minha matilha.

No final da noite, havia uma panela industrial de arroz pela metade, duas panelas
de pressão cheias de feijão e outros recipientes com o que não fora vendido. E eu,
na minha tola inocência, perguntei onde se guardaria aquela comida.

Com a mesma displicência com que as moedas outrora me foram jogadas, Severino me
respondeu:

— _“Guardar? Não serve pra mais nada. Jogue isso no lixo. Esse é meu prejuízo de
hoje.”_

**“Hoje…”** — pensei, enquanto o sangue se congestionava em meu massacrado cérebro!

E numa fração quântica de segundo, pensei em quanta comida era jogada fora cotidianamente
em tantas cozinhas como aquela. Pensei também nas cozinhas dos botecos, das lanchonetes,
dos luxuosos restaurantes da Pauliceia Desvairada. Pensei em tudo isso, por este
país, por este continente, por todas as avenidas, ruas e vielas deste planeta apagado.
Pensei nos **quase cinco anos** em que passei fome com minha _troopie_…

E, com toda a sinceridade que me cabe aqui: se eu **não voei no pescoço daquele 
homem** e não o espanquei até a morte, não foi por falta de vontade. Foi **por medo
das consequências**.

Minha primeira noite na Noite me ensinou muito a respeito da **iniquidade dos homens**…

E isso foi só o começo.

Vocês hão de ver!

### **💬 Notas explicativas (caso queira incluir no livro como rodapé ou glossário):**

 * **URV** – Unidade Real de Valor, moeda transitória no plano de estabilização 
   econômica do Brasil, anterior ao real (1994).
 * **Sarapatel** – Prato típico do nordeste brasileiro feito com miúdos de porco.
 * **Troopie** – Termo informal usado por Cláudio para se referir à sua “tropa” 
   de rua, grupo unido por sobrevivência.
 * **Debalde** – Palavra antiga que significa “em vão” ou “sem proveito”.
 * **Benzodiazepínicos** – Classe de medicamentos ansiolíticos e sedativos, usados
   para tratar ansiedade, insônia e outros distúrbios.

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## Leia também

 * [A Primeira Noite na Noite (De Minhas Memórias)](https://soropositivo.org/a-primeira-noite-na-noite-de-minhas-memorias/)
 * [Memórias de um Homem da Noite – Pronto Mas Não Terminado](https://soropositivo.org/memorias-de-um-homem-da-noite/)
 * [Preciso de Ajuda para Publicar O Livro Memórias de um Homem da noite](https://soropositivo.org/preciso-de-ajuda-para-publicar-o-livro-memorias-de-um-homem-da-noite/)

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