# Meu diagnóstico Soropositivo

- Link: https://soropositivo.org/meu-diagnostico-soropositivo/
- Published: 2025-08-13T13:17:27-03:00
- Author: Cláudio Souza — Soropositivo.Org

Hoje é 12 de junho de 2025 e estou entrando na terceira semana consecutiva de uma
pneumonia. Tive algumas amantes renitentes, é verdade, mas nada tão pegajoso quanto
esta pneumonia. Isso é uma mentira!

Em 1994, acho que em agosto, após tocar por toda uma noite no La Concorde fui, sozinho,
felizmente, para o hotel em que eu morava na boca do lixo, entrei, tomei um banho
e me deitei. Adormeci imediatamente (como isso era bom!). Deviam ser sete e meia
da manhã e, com certeza, eu dormiria até às dezesseis.

Contudo, algo interferiu no processo e poucas horas depois acordei com uma pontada
na cabeça que me fez ter vertigens deitado! Esta pontada foi seguida de outra e 
mais outra e, sem ter o que fazer, fui até a Santa Casa ali na Vila Buarque, uma
fábrica de médicos jovens inexperientes e a menina, talvez 24 anos me disse:

– “É um quadro gripal. Vitamina C e cama! Por dois ou três segundos avaliei se devia
convidá-la a partilhar da minha cama para vermos melhor suas teorias médicas e outras
aptidões, só de raiva, mas, só de raiva me levantei e sai da sala sem dizer uma 
palavra.

Era sábado e eu tinha de trabalhar. Notre Dame ressoando dentro de meu cérebro e
eu com o dever amoroso de tocar música por nove horas consecutivas. Entrando no 
La Concorde encontrei a Baiana e disse a ela, me leve na farmácia, preciso de algo
para dor.

Fomos a uma determinada farmácia e, sem pensar duas vezes, aplicamos uma dose dupla
de lisador injetável (nunca faça isso – é coisa de gente doida da noite e de farmacêuticos
sem ética). O remédio provocou uma vertigem passageira, e, como num passe de mágica,
até a catedral cessou seu ressoar.

Voltamos ao La Concorde e às 20:30 entrei com a primeira música, abri o microfone,
mandei subir a primeira turma (de bailarinas) e putz, ato contínuo uma fita K7 para
tocar. Detestava fazer isso, mas não dormira nada e 30 minutos de sossego me valeriam
muito naquelas condições.

Boates como o La Concorde, e o Vagão Plaza, não enchiam aos sábados. Os maridos 
não tinham como inventar uma reunião repentina às 22:00 e, em geral, era som para
as moças. Vinham uns boys, mas eles vinham mais com os olhos, coitados, do que com
o capital e bailarina, em boate, “vive de recebendo comissão por drink tomado ou
virado no carpete ou vaso”; sem isso, sem interesse.

Eles iam embora, mas a casa funcionava até às 4 da manhã e, bem antes das duas a
dose dupla de lisador perdeu o efeito e eram as mulheres no salão, a música nas 
caixas e Notre Dame em minha cabeça. Pensei que ia pirar e descarreguei o extintor
de CO2 à toa só pela loucura em minha cabeça.

Logo viram que eu não estava bem e foram buscar Marcelo, meu pupilo e folguista (
o único que deu certo, pois a profissão me foi dada quase de graça e era meu dever
passá-la adiante) e ele assumiu.

Não sei qual das moças já tinha ganho o bastante para querer perder o resto da noite,
lembro-me dela como um vulto me segurando no colo na traseira de um táxi, levando-
me, outra vez, à Santa Casa de Misericórdia da

Cidade de São Paulo, à qual devo muito pois, nos anos de morador de rua eles me 
atendiam por qualquer coisa, sem nenhum documento e pouquíssimas perguntas, não 
existia SUS e a saúde pública do país era um caso de polícia se ao menos a polícia
fosse confiável, o que não era.

Outra médica, outra criança e outra vez a porra da gripe como diagnóstico! Não havia
o que fazer e meu vulto me levou direto para o hotel e, por graça e bondade cuidou
de mim por algumas horas até a manhã do domingo, depois ela ligou para Michele que
veio ao hotel e me levou, novamente à Santa Casa e, na Santa Casa, desta vez um 
menino imberbe disse Quadro gripal. Repouso e hidratação.

Quem era eu? Um DJ. Quem era Michele? Uma mulher da Vida, do mundo, o que podíamos
contra os engomadinhos diplomados?

Porra nenhuma e porra nenhuma fizemos. Ela me levou para o hotel e cuidou de mim
por todo o domingo e toda a segunda feira.

Às 20:00 entramos, juntos no La Concorde, pois às 20:30 o som tinha de tocar.

Naquele sábado, Marcelo não trabalhou direito, agrediu uma mulher e perdi meu segundo.
Todo DJ que se preza precisa ter um segundo, pois sem esse apoio, pode se ver diante
de situações impossíveis de resolver.

Porque o maldito Marcelo nunca conseguiu se relacionar com mulheres sem as espancar(
era, por isso, diziam- me, ser tão fácil comer as mulheres do Marcelo – bastavaum
pouco tempo, paciência e uma caixa de lenços de papel), eu estava sem um segundo.
Era segunda-feira, primeiro dia útil da semana, e a boate tinha de funcionar. Para
funcionar, ela precisava de mulheres, bebida, passarelas, palco e um maldito DJ!

Sem o Marcelo, eu estava sem um segundo e, de tal maneira, mesmo que Notre Dame 
se propagasse geometricamente 98 vezes, eu tinha de trabalhar!

Trabalhar, aqui, é uma generosidade minha para comigo, pois eu só rodei fita K7 –
e isso não é coisa de DJ. Eu era um zumbi, exilado de outro extintor de incêndio,
tentando conduzir uma boate com 300 pessoas lá dentro, acostumadas à minha locução,
à minha mordacidade, e que não entendiam por que a Múmia de Ramsés III estava na
cabine de som do La Concorde.

Donos de boate podem ser grandes amigos, mas eles gostam mesmo de você pelo dinheiro
que você é capaz de canalizar para seus cofres; e, a certa altura, nem mesmo Rocha
e Joaquim, amigos de duas décadas, deixariam de ressoar o timbre de seus bronzes.
Eles começaram a procurar alguém e, na noite, sempre tem alguém para pegar algo 
de outro alguém. Fui posto de férias. Rebelião geral das mulheres – que eram mais
do DJ do que da boate – e todas as garantias que dois canalhas dariam de que eu 
seria preservado foram dadas.

Elas, leais e inocentes, aquiesceram.

Já não era só uma dor de cabeça aviltante. Havia vômitos, dores corporais indescritíveis,
uma sensação de não estar no próprio corpo que, lembrando aqui, assustava tanto 
que eu buscava fingir que não estava acontecendo.

Lembram-se de minhas leais defensoras? Pois bem: elas são mães, têm pais doentes,
parentela problemática e, na súmula das súmulas, eu era só o cara que as ajudava
a ganhar algum dinheirinho, que as fazia ter orgasmos poli astronômicos e cósmicos,
e nada mais.

Fui esquecido no hotel e nem Michele apareceu. Sei que lhe devo muitas coisas, Michele–
tem uma carta para você aqui –, mas sumir sem perguntar se eu precisava de uma dipirona?
Vá pro inferno, Michele; você me abandonou!

Quem restou a mim?

Eu. Ninguém mais, nem menos que eu. Pouco, quase insuficiente, mas ainda disposto
a uma luta. Lembro-me de ter dito à Rosângela que, talvez, um dia ela passasse –
dali a 25 anos, em alguma calçada – e me visse ali, derrotado, morando de novo na
rua, sem forças para mais nada. E que ela não cedesse ao impulso de parar e me auxiliar,
mas que seguisse em frente, ciente de que eu caíra lutando contra tudo e contra 
todos!

Antes de Mara, eu sempre soube que, no final de toda e qualquer equação que envolvesse
a mim e a mais uma ou cem mil pessoas, ao final, a mim restaria eu. O responsável
real e autêntico por isso? Ninguém mais, ninguém menos do que eu.

O que fiz?

Não fui à Santa Casa. E este não foi um movimento casuístico. Eu sabia que, se continuasse
indo à Santa Casa, continuaria encontrando “ladies frufru, mais maquiladas que as
moças do La Concorde, e seus dândis bombom, tão empavonados quantos os boys dos 
sábados das boates”. Eu precisava de um médico, não de um ou uma debutante. Para
onde eu iria?

Juro por tudo o que há de santo e profano: eu não tinha a menor ideia. Mas algo 
precisava mudar, algo precisava acontecer – e a única forma de isso ocorrer era 
eu forçar, a qualquer preço, uma mudança no tom. O vinil da Santa Casa estava riscado–
e esta mácula era tudo! Sai do hotel na rua Aurora por volta das 11:40, caminhei
até a Praça da República, cruzei-a como um autômato, lembrei-me das vezes em que
me escondi ali da polícia ou de bandidos – às vezes de ambos ao mesmo tempo – e 
atravessei a Avenida Ipiranga (lembre-se sempre: eu não tinha um plano).

Entrei pela 24 de maio às 12:20. Eu caminhava devagar; isso já durava dias, e eu
tinha perdido bastante peso e muita força.

No meio da realidade, vi nevoeiros, pessoas do passado, meninos e meninas – a minha
matilha, da qual me perdi. Senti uma dor pungente, mas sobreveio uma voz que me 
perguntava:

— “O que você poderia ter feito? Teu tempo de liberdade estava acabando! Te esquecestes
o porquê da última ronda? Por que achas que pusemos Fátima lá?

Não era teu destino morrer; você está longe de começar a desenhar o seu destino.
Não sabes os planos que apoiamos em você!”

Delírios da febre, eu pensei – e nem sei de quanto era a febre –, mas, a par do 
sol, eu morria de frio.

Passei pelas barracas dos camelôs e pelo carrinho de cachorro quente, na esquina
com a Dom José de Barros. O cheiro era tão pungente que quase me fez vomitar – e,
sem chance de ceder ao luxo de derramar essa revolta, engoli a náusea.

Vi as pessoas comendo os dogs, e a fome – essa vilã – se associou ao conluio de 
forças que pugilizavam comigo, tentando me pôr na lona da 24 de maio, na esquina
com a Dom José.

Comer para quê? Para vomitar? Andar é o que me resta. As pessoas iam e vinham. Algumas
cruzavam o meu olhar, e eu lançava uma súplica, rapidamente ignorada e ainda mais
depressa esquecida. Estava frio – eu insisto – e, por um instante, tive a sensação
de reviver aquelas quatro noites. Mas não! Aquilo era passado, e os dias eram cinzentos;
mesmo assim, ao longe o início de uma tarde ensolarada surgia.

Lembrei-me, então, de que, de alguma forma, estava lutando – sem saber ao certo 
como, sem saber bem por quê – pela minha vida (eu amo viver) e não iria ceder ao
delírio da febre. Não ia tombar naquela via… não enquanto houvesse fibras em mim!

Passei por uma banca de jornal lotada – ninguém me notou. Prossegui, sozinho, até
o Teatro Municipal; passei em frente ao prédio do Mappin, uma loja de departamentos
movimentadíssima – mas ninguém me notava.

Sim, é verdade: o HIV era invisível em mim, mas eu não sou invisível! Ouso dizer
que sou um ser humano! Que mereço atenção e cuidado.

Não escreveram que ninguém seria novamente submetido a um tratamento cruel, desumano
ou degradante? Estava acontecendo comigo – e acontece a cada porra de minuto em 
cada porra de esquina, iluminada ou não, cosmopolita ou suburbana do caralho – com
crianças, jovens, adultos e velhos, enquanto todos esperam pela porra da morte e
suas asas, sem progredir um milímetro!

Prossegui: cruzei a Xavier de Toledo (tudo isso é um vídeo em minha memória orgânica),
apressei-me pelo viaduto do Chá – onde parei no meio dele. A ideia parecia boa: 
se eu saltasse aquela amurada, toda a dor (pense que acreditei nisso por alguns 
dois segundos, mas sou Kardecista) acabaria em menos de dez segundos.

Os grilos que, no passado, à beira da ferrovia, diziam “me deita! me deita!” (nos
trilhos) – agora diziam “voa! voa!”. Para morrer basta se deitar ou voar; para viver,
é preciso lutar. E eu disse

-Não!

Movi-me adiante, forçando-me com células que, em geral, apreciam a paisagem. Mas
essas células, como se tivessem consciência, sabiam que o prazer de ver a paisagem–
ou de receber uma mordida malvada – estava em xeque, e se puseram a trabalhar no
lugar daquelas, já esgotadas.

Tempos depois, entrei pela Rua São Bento com um passo flácido e relutante. Passei
em frente à faculdade de advocacia no Largo São Francisco. Dezenas de restaurantes,
estudantes, policiais, pessoas sentadas em bancos olhando para o tempo, engraxates–
uma miríade de gente indo, cegas, surdas e loucas, presas em suas efêmeras prisões
mentais, sem chegarem à parte alguma – desfilavam a minha frente, enquanto um ser
humano, tiranizado por um vírus – este, sim, invisível e, talvez, presente em sua
sala de estar – se arrastava, apoiando-se em paredes, em busca de um socorro que
ele nem sabia onde encontrar!

Entrei na Rua da Matriz da Sé, olhei para a igreja e aventei a hipótese – mas sabia
ser inútil; não é assim que funciona!

Atravessei aquela avenida que fronteia a matriz; do outro lado, a Avenida Liberdade.
Mas eu não a segui felizmente, isso teria dado errado e me levado a outro rumo. 
Creio que uma força me guiava… algo maior.

Não, Deus – Deus assistia ao espetáculo com tristeza, pensando: “meu filho, amei-
vos uns aos outros como eu vos amei” – e ali vai Cláudio Souza, DJ e sonhador (assim
me fiz para esta fase), o perdido, em suas últimas linhas de resistência!

E então, algo inexplicável ocorreu: ganhei forças, as pernas se firmaram, e pude,
a furto e a medo, andar um pouco mais rápido.

Prossegui pela calçada do Largo Dr. Joel Mendes até a Avenida Conselheiro Furtado;
embiquei por ela, guiado pela mão de um anjo, e atravessei-a – algo perigosíssimo,
pois o fluxo de carros e ônibus, às duas da tarde, era caótico, e eu não tinha organização
mental para semáforos.

As pernas tinham forças, mas meu cérebro estava comprometido por uma meningite viral(
o próprio HIV), distorcendo tudo o que eu via, ouvia e sentia – assim como aquilo
que, sabe-se lá Deus como, eu ainda pensava. Tudo em mim vibrava com dúvidas, pois,
apesar de estar extraído da realidade, eu ainda me lembrava dela e sabia que as 
coisas que via não eram normais (me defina você o que é normal!).

A sensação de esvaecimento das forças era palpável; por mais que eu lutasse, a batalha
estava quase perdida. Comandei-me com fibra, mas, ao mesmo tempo, me perguntava:
de onde tiraria essa força?

Os passos voltaram a perder vigor. O último surto se consumira e, depois disso, 
todos que já viveram o bastante para ver a morte sabem o que vem: ela, em um cavalo
branco, com espada na mão, coroa na caveira, a dizer – “aqui, sou eu, soberana!”

Mas, vendo-a, segui por uma calçada e, enfim, fui parar

em um hospital no bairro da Liberdade. Duas recepcionistas se levantaram:

 * Uma surgiu com um enfermeiro e uma cadeira de rodas;
 * A outra voltou com uma médica que, ao me avistar ainda em pé, exclamou:
 * Meu Deus!

Só então me dei conta de quão mal eu estava – e de que, finalmente, havia uma chance
de tratamento.

Assim como caminhava sob os olhares apressados e indiferentes da cidade, o HIV fazia
seu trabalho secreto – invisível, porém inescapável.

Aquela foi a primeira voz humana que realmente se importou comigo desde o dia em
que saí de casa, com 12 anos. Foram 18 anos de loucura e sofrimento; talvez tudo
estivesse por um fio, mas um fio é sempre um fio, veja o bicho da seda.

Agora, pensei, estou em um hospital. Este hospital ficava ou fica na Rua da Glória
na Liberdade e mudou de nome tantas vezes que eu não saberia dizer seu nome.

Chamo-o de Redenção(em um grande esforço de memória me lembrei, Hospital Bandeirantes,
mas conservo redenção pois, para mim, de muitas formas, inclusive com o diagnóstico
inicial de HIV eçe foi a porta de minha ainda precária redenção).

Estando em um hospital que não é um desfile de modas receberei socorro e em dois
ou três dias tudo isso é passado. **O pessimista, minha amiga, sempre é um cara 
mais bem informado**.

![Enfermeira e meu diagnóstico positivo](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/
2025/08/enfermeira-233x350.png)

Eu estava com febre de mais de 38 graus

Fui posto em uma maca, ou leito, eu não sei, me puseram no soro, coletaram sangue
e fiquei por ali. Exausto, apaguei e não sei quanto tempo se passou e nem o que 
houve, pois eu estava em outra sala e, perdido, chamei uma enfermeira e me queixei
de frio. Ela trouxe um cobertor e um termômetro e disse, volto em cinco minutos.
O frio não passava. Justiça seja feita, há um truque de moradores de rua mais descolados
e com uma cara de pau bem grande onde ele entra no hospital lá pelas dezessete se
queixando de mal estar.

Como o cara não come mesmo, a glicemia aparece baixa e ele é internado para uma “
penosa sessão de glicose”. Ele sabe mexer com o equipamento básico de dosar a glicose
e reduz sua queda a um patamar tão mínimo que horas se passarão até que aquele um
litro de soro penetre a corrente sanguínea do velhaco e, com isso, chega a hora 
da janta.

O homem está lá, é um visível morador de rua tomando glicose e as enfermeiras, mais
por bondade do que por dever de ofício, libera uma janta para o infeliz.

Afinal, somos todos humanos.

Humanos.

Isso é bonito é  poesia social viva, movimento solidário de quem já viu tudo, mas
dentre aqueles que já viram tudo há aqueles que pensam que sabem tudo. Um pronto
socorro de um hospital, estive em muitos por mim e por outros, é a antecâmara do
inferno. Os leitos, em geral macas, são movidos de um lado para o outro ao sabor
da maré de macas e ambulâncias que chegam e muitas vezes o médico precisa procurar
o paciente dele no salão todo só para ver onde e como ele está! Dentro desta rotina
saber tudo pede umas dez mil vidas para o pré-primário. Nesta noite, depois que 
a enfermeira se retirou apareceu um médico, calejado, vivido, preconceituoso olhou
para o enfermeiro que o acompanhava, olhou para mim e disse:

-E esse aí? -Eu não sei. O médico não olhou prontuário, não me examinou, não me 
fez uma só pergunta e me deu alta. Protestei e fui ironizado, estava bem para protestar(
eu tinha melhorado um pouco apesar da terrível dor de cabeça). Disse que estava 
com uma dor de cabeça demoníaca que mal aguentava falar e se ele me desse alta que
também me desse um tiro, pois seria mais honesto.

Ele se afastou indiferente e o enfermeiro que o acompanhava rapidamente desconectou
soro, glicose, todo o bom trabalho feito até ali em menos de dois minutos e se afastou.

A única coisa que eu não entreguei e nem mencionei foi o termômetro em minha axila
e, cinco minutos depois a enfermeira voltou, olhou para mim como quem vê um fenômeno
paranormal e perguntou: -O que você fez? -Eu não fiz nada, o médico veio aqui e 
me deu alta. -Você está com o termômetro? -Estou. Ela o pegou e disse você está 
com 38.4 de temperatura, ninguém vai dar alta para você aqui e saiu, com o termômetro
preso entre o polegar e o indicador como se fosse o próprio Rei Arthur e Excalibur,
abriu uma porta com o termômetro na um metro e oitenta de altura e presumo que perguntou:

Quem deu alta para o paciente do leito X? Alguém teve de assumir aquilo e presumo
que a pergunta seguinte dela foi “e desde quando damos alta a pacientes com febre?”
Esta moça, que usava óculos arredondados, de pele negra, com uma touca na cabeça
que pedia por outra há dez plantões, não fez outra coisa. Salvou minha vida! Mas
o carrossel ainda não tinha sido ligado! Ele vai girar! Depois disso não desgrudei
desta enfermeira, pedi que ela ficasse comigo e ela disse que faria o possível.

E fez! Da alta plataforma da meningite viral nem tudo era visível, pouca coisa era
coesa e o que tinha coesão era coeso com a própria meningite (a febre, a dor de 
cabeça demoníaca, o corpo exausto do esforço para chegar àquele hospital) e, desta
forma, não sei como fui parar em uma sala menor com duas médicas e dois médicos 
que começaram a fazer perguntas. A principal delas. O que você tem e minha resposta
desesperada: Eu não sei. Uma médica, Dra. Guadalupe, me perguntou:

O que você está sentindo? Tintas coisas, tudo em mim dói, estou nisso há mais de
doze dias! Você lembra como começou? Ali eu parei e busquei pensar onde foi que 
eu perdera o controle (…) sobre meu corpo e tudo ficou impossível. Eu estava dormindo
e uma pontada na cabeça me acordou. Quem te acudir? Acudir, Dra, eu moro em um hotel,
estava sozinho lá e sozinho cheguei aqui, sou DJ, vivo na noite, não tenho ninguém
por mim!

Ela me pediu licença e fez um exame clássico para meningite onde se dá um leve tranco
na cabeça do paciente e se observa se o queixo tocar o peito. Não tocava, ela fez
este exame simples diversas vezes e disse, preciso de um neuro agora!

![Diagnosticando meningite](https://soropositivo.org/wp-content/uploads/2025/08/
Neurologista-comn-dispositivo-para-colefa-de-liquor-cefaloraqdiano-233x350.png)

Já fiz este exame cinco vezes e, em uma, o médico errou na retirada da agulha e 
tocou um nervo. O Inferno de Dante é playgrounf=d diante do que senti

Ela me deitou, voltou a medir a temperatura e a cara dela me deixou com a sensação
que em breve eu teria um encontro, na porta do Inferno, com o Gordo Cop. Não sei
quanto tempo se passou, a dor fazia tudo correr demais e a mesma dor deixava tudo
lento e modorrento, mas em algum instante ele chegou, o neuro, com uma seringa que
tinha uma agulha tão grande como jamais imaginei ver em minha vida! Era para fazer
o exame do Líquor Cefalorraquidiano e diagnosticar, ou não, a meningite e sua natureza
viral, bacteriana ou criptosporídica. Sendo honesto com vocês, a visão daquela agulha
quase me fez pedir que me deixassem morrer, mas amo tanto viver que aceitei. Várias
pessoas se reuniram em torno de mim e seguraram meu corpo e me disseram, não tenha
medo, não se mexa! Eu não via a agulha entrar, ela foi introduzida na nuca e eu 
sentia trancos e ouvia ruídos como “tucs” à medida em que a agulha avançava até 
que estes tucs cessaram e quatro eternidades completas do big bang ao big crunch
se movimentaram à minha volta e à volta daquelas pessoas enquanto o Líquor era drenado.
A retirada da agulha não é um registro que eu tenha, talvez eu o tenha perdido em
algum laivo de inconsciência, mas me lembro do neurologista olhando para o Líquor
e dizer:

– “Não é a água de juventa”. Ali, minha dileta leitora, meu espaventado leitor eu
soube que algo, algo…. algo em mim não ia bem e uma antiga voz, uma antiga conselheira
que muitas vezes me dizia o que fazer e o que não fazer na vida nas ruas, há muito
em silêncio disse: Pois é Cláudio, você teve todas as chances de ir pelo amor. Agora,
iremos nós, todos os que o amamos, pela dor.

Já não precisava de um resultado, soube instantaneamente que era portador de HIV

Coletado o Líquor restava esperar a análise do laboratório e ela poderia demorar.
Aquela equipe de seis pessoas se desfez, mas a minha enfermeira vinha de dez em 
dez minutos, ou menos, me avaliando.

Perguntei sobre algum alívio pra a dor, mas eu já estava hiper medicado, inclusive
com morfina e se nem isso resolvia, o jeito era esperar o resultado e tratar.

Tinha apanhado tanto desde o começo disso tudo, naquela primeira pontada que pensei,
estoicamente: “Afinal, o que é mais uma ferida para um leproso”? Não podia me alimentar,
nada parava no estômago. A verdade é que nem chegava a ele e já era rejeitado. Estava
por conta de procedimentos médicos que não compreendia e tudo o que me restava era
esperar e acreditar que tinha alguém fazendo algo de efetivo por mim, ou eu morreria
e, para alguns, a morte é só um sono sem sonhos. Se fosse assim, seria tão fácil!

Eu pouco me movia, pois o movimento implicava em dor e àquela altura qualquer dor
evitável era uma boa dor.

Creio que duas horas se passaram, talvez mais, não sei, mas a equipe, ou parte dela
ressurgiu e uma moça com uma voz doce e melódica me chamou pelo nome e disse. Você
está com uma meningite e é viral, estamos preocupados pois seu perfil social (a 
novela do perfil) de homem com 30 anos, sem residência fixa…

Protestei, eu moro no mesmo hotel há anos

…os protocolos recomendam que façamos um teste para detecção do HIV, mas este é 
um teste que só pode ser feito com sua autorização. Você autoriza o teste?

Aqui entre nós, escritor, leitora e leitor, se um açougueiro entrasse no quarto 
e dissesse que se ele pudesse me desossar vivo e sem anestesia eu melhoraria, com
toda a certeza eu autorizaria e, assim, concordei com o teste.

A enfermeira deu um bote em meu braço, como quem faz algo com a maior brevidade 
possível, tremendo uma mudança de ideia. A picada não doeu, mas era a primeira de
milhares que tomei nos últimos trinta anos, relacionada ao HIV, eu teria trinta 
anos, até aqui, para aprender muito sobre dores e picadas, mas isso é assunto para
outra hora.

Depois disso a médica, Dra Guadalupe, me declarou internado e as providências começaram
a ser tomadas. Rubem Braga disse que homens, quando têm, por exemplo, um filho, 
distribuem charutos, tomam conhaque e providências.

Não tinha forças para nada disso, ter alcançado aquele hospital por toda a rota 
dolorosa que percorri esgotou todas as minhas reservas e ainda me deixou no cheque
especial, devendo muitos favores a meu combalido corpo.

Fui levado até uma enfermaria onde havia outros doentes e a enfermeira repassou 
as informações para o responsável e lembro de ter ouvido:

“…sente muito frio, está com muitas dores…” e olhei para eles e desde então tenho
a impressão que ela balançou a cabeça negativamente, como quem duvidasse de minhas
possibilidades de recuperação. Eu também duvidava! Nunca provara de tanta aflição
física. Mesmo em meus dias como morador de ruas, ainda menor de idade, enfrentei
inverno paulistano em mangas de camiseta sem adoecer. Sentia o frio e era horrível,
mas isso foi, até então, o pior que me aconteceu.

O fato é que, tanto quanto podia ver, eu fizer minha parte encontrando um hospital
interessado em cuidar de mim e, mesmo sem terminar de ouvir o que a enfermeira dizia
uma voz íntima me disse:

– “Agora, Cláudio, você vai saber”.

E em 1994 não havia tratamento; não me desesperei, é preciso coesão mental para 
desespero e se algo me faltava mais que tudo era justamente esta coesão mental e,
finalmente, apaguei.

Demoraria muito tempo para eu voltar a abrir os olhos do corpo, mas os do espírito,
meus amigos, estes tiveram muito com que se entreter durante o coma que vivenciei

.Tinha jurado a mim mesmo que não falaria sobre isso, mas vim até aqui e é justo
que prossiga na jornada.

Depois que apaguei fisicamente, creio que pela combalida condição física, passei
a gozar de uma liberdade de movimentos espirituais inéditos! Em um primeiro momento
me senti acima de meu próprio corpo e o susto me fez julgar que tinha desencarnado.
Pensei: Morri para este mundo!

Em seguida me vi ao lado do corpo e ouvia os bips dos aparelhos e tive certeza que
estava gozando de alguma liberdade, mas permanecia ligado ao corpo por um fio que
ia até minha cabeça. Não tenho certeza da cor, mas ele parecia dourado.

Fiquei por ali e vi que havia outras 9 pessoas internadas naquela enfermaria, mas
nenhuma outra parecia gozar desta mesma liberdade. Me assustei outra vez, talvez
estivesse em processo de desligamento do corpo e me entristeci profundamente pois,
com todas as atribulações que passei, se você prestou atenção no que leu, sabe que
amo viver nessa rocha!

Depois de tata luta para chegar àquele hospital a batalha me parecia perdida e fui
ficando para ver o que acontecia e a equipe médica entrou, avaliou caso a caso e
rotulou o meu de crítico. Eu passei a perceber outras pessoas gozando da mesma liberdade
acabei, por algum motivo, percebendo que eram desencarnados.

E assisti a desencarnes que terminaram muito bem, com

um espírito sendo levado por mãos amorosas e outros que, a cada um segundo as suas
obras, eram violentamente arrastados por entidades menos luminosas e de nenhuma 
boa vontade para com aqueles que desencarnavam.

Havia em minhas preocupações uma pessoa, Simone G, uma ex-namorada que tinha terminado
comigo por telefone, deixando-me dolorosamente ferido e eu tive um primeiro impulso
de ganhar às ruas naquelas condições e ir ter com ela, vê-la, talvez ouvi-la.

Ao tentar sair do hospital recebi uma fortíssima descarga de energia e apaguei novamente
me vendo, tempos depois, ao lado de meu corpo. Tentei mais duas vezes e percebi 
que o hospital era, para mim, ponto de confinamento!

Não sou das pessoas mais disciplinadas, mas as descargas eram dolorosas e a dor 
é uma excelente disciplinadora, desisti deste impulso e fiquei por lá, vendo meu
quadro piorar e piorar para depois começar a melhorar e não posso deixar de registrar
que a Dra Guadalupe ia sempre que podia, me ver e opinar sobre intervenções medicamentosas.

Eu estava horrível. Barbudo, magérrimo, não acordava, alimentado por sondas fui 
perdendo peso e, quando acordei, em meu corpo, três meses depois, estava quarenta
quilos mais leve. Um homem de cem quilos reduzido a sessenta, milagre entre milagres
ter sobrevivido, mas sobrevivi.

Ninguém procurou por mim, pelo menos não ali e pelo que soube depois, em lugar nenhum.

Para muitos, e sei que merecia isso, meu desaparecimento era uma morte a ser comemorada.
Magoei muitas pessoas e não era de esperar por uma missa ou qualquer coisa assim,
a cada um, me repito, segundo suas obras.

Em uma manhã, por volta de sete horas abri os olhos e uma médica o percebeu e fez
aqueles exames neurológicos de seguir movimentos de uma caneta com os olhos e, ao
final destes exames ela sorriu e me disse:

-Não te perdi até hoje. Agora tenho certeza que não perco mais, mas você nos deu
um susto viu!?

Agradeci a ela e a Deus pela nova oportunidade e decidi que faria algo melhor na
minha vida no futuro, embora nem soubesse o que me esperava lá fora, depois de três
meses. Pedi para fazer um telefonema e liguei para Simone G e disse que despertara
e receberia alta em breve, ela respondeu com um graças a Deus e encerramos nossas
comunicações.

Mas este círculo ainda não tinha se fechado e ainda havia água para rolar sob esta
ponte

## Leia também

 * [Dizendo a outros que você é soropositivo para HIV](https://soropositivo.org/dizendo-a-outros-que-voce-e-soropositivo/)
 * [Estreia em breve aqui, no Blog Soropositivo](https://soropositivo.org/sandra-de-angelis-aqui-no-blog-soropositivo/)
 * [Como é a vida de um soropositivo?](https://soropositivo.org/como-e-a-vida-de-um-soropositivo/)

**Este blog existe há 25 anos.**
Se você gosta deste trabalho, se ele te ajudou 
de alguma forma, deixe um comentário abaixo — eu leio todos e sempre respondo, mesmo
que demore um pouco.E se quiser, mande um Pix de **R$ 0,25** pelos 25 anos de trabalho:**
Chave Pix:** solidariedade@soropositivo.org_Você também pode me escrever para: claudio@
soropositivo.org_

### _Relacionado_
